Como o Telegram bolsonarista espalhou desinformação sobre Dom Phillips e Bruno Pereira

por Bruno Fonseca

“O inglês Dom Philips… este aí tem uma outra história, que é a ponta de um iceberg que a esquerda mundial, o PT, PSOL e a mídia farão de tudo para desviar a atenção, pois foi um tiro no pé, tal qual o caso Marielle”. Essa foi uma das mensagens de Marconi Souza, dono da Valeshop, no grupo de empresários bolsonaristas que discutiam apoio a um golpe, como revelou reportagem da coluna de Guilherme Amado. Ele e outros donos de empresas compartilharam no WhatsApp conspirações, mentiras e acusações sobre o assassinato do indigenista Bruno Pereira e do jornalista Dom Phillips, em junho deste ano, no Vale do Javari (AM).

As mensagens dos empresários não foram um episódio isolado: a Agência Pública apurou em dezenas de grupos de Telegram bolsonaristas e descobriu que as mesmas conversas circularam nesses canais nas mesmas datas. A apuração mostra que, um dos argumentos usados para atacar as vítimas ganhou força através do compartilhamento de uma entrevista do presidente da Funai Marcelo Xavier na Jovem Pan.

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A promessa quebrada do bitcoin em El Salvador

A promessa quebrada do bitcoin em El Salvador, por Jacob Silverman e Ben McKenzie no The Intercept Brasil:

Apesar do talento ocasional do governo salvadorenho para o marketing, o país enfrenta enormes desafios econômicos, uma crise da dívida, lutas constantes com o crime e a violência, uma disputa diplomática com os Estados Unidos e a gestão intempestiva de Bukele, que pode ser descrito superficialmente como uma mistura salvadorenha de Donald Trump, do presidente filipino Rodrigo Duterte e, incrivelmente, de um influenciador digital bitcoiner. Em 2021, Bukele remodelou o judiciário do país, nomeando novos juízes que interpretaram de forma criativa a Constituição para permitir que o presidente se candidatasse à reeleição. Preenchendo cargo governamentais com parentes e amigos de escola, Bukele dirige El Salvador quase como se fosse uma empresa familiar. As finanças da empresa podem estar em crise, mas, com sua política de prisões em massa e leis de censura visando a imprensa independente, Bukele parece determinado a consolidar ainda mais seu poder.

Pairando sobre tudo isso está a consequência, que ainda se desenrola, do desastroso projeto de Bukele para usar o bitcoin. Em junho de 2021, em uma apresentação de vídeo em uma conferência sobre bitcoin em Miami, Bukele anunciou que seu país seria o primeiro do mundo a adotar o criptoativo como moeda de uso legal. Em 7 de setembro de 2021, o bitcoin foi oficialmente adotado em El Salvador, com muita fanfarra propagandística e algum descontentamento, incluindo protestos sociais. Naquele dia, os mercados globais de criptomoedas caíram, com várias bolsas fechando inesperadamente. Seguiram-se inúmeras denúncias de fraude e roubo de identidade; um bitcoiner local nos disse que seu amigo usou uma foto de um cão para confirmar sua identidade. Problemas técnicos desenfreados atormentaram a implantação do Chivo, a carteira digital oficial em que todos os cidadãos receberiam US$ 30 em bitcoin (cujo valor despencou desde então). A adoção geral tem sido mínima, com a maioria das pessoas ainda preferindo dólares americanos, a outra moeda utilizada no país. O bitcoin também não se mostrou útil com remessas vindas do exterior, que são fundamentais para a economia de El Salvador: menos de 2% das remessas enviadas para o país agora usam bitcoin.

O projeto do bitcoin em si é levado a cabo por um confuso emaranhado de interesses governamentais e privados, alguns deles estrangeiros; poucas pessoas externas ao sistema sabem quem faz o quê ou onde. Bukele se gaba no Twitter de que compra bitcoin pelo telefone, usando dinheiro público, enquanto está sentado no vaso sanitário. Ele nunca postou o endereço da carteira que usa para que a população possa examinar essas transações, mas, se forem reais, ele já conta milhões de dólares no vermelho. Assim como o povo salvadorenho.

Pavel Durov, o falastrão CEO do Telegram, compartilhou com seus 650 mil seguidores no aplicativo seu apreço pelos leilões de domínios com terminação *.ton, realizado pela Open Network, grupo independente que assumiu o espólio da frustrada iniciativa de criptomoeda do aplicativo e conseguiu lançá-la em 2021.

“Se o ton foi capaz de alcançar esses resultados, imagine quão bem-sucedido seria o Telegram com seus 700 milhões de usuários se pudéssemos reservar @ nomes de usuários, grupos e canais para serem leiloados”, escreveu Durov.

Na sequência, ele soltou a imaginação e disse que esses nomes de usuários leiloados poderiam ser “tipo NFTs”, e que a lógica poderia ser estendida a outros elementos do aplicativo, como emojis e reações. “Vamos ver se conseguimos colocar um pouco de Web3 no Telegram nas próximas semanas”, finalizou.

Só faltou combinar com os usuários mais assíduos do Telegram, aqueles que acompanham o canal de Durov no aplicativo: o post recebeu uma enxurrada de reações negativas — segundo testemunhas, foram 24 mil joinhas para baixo (👎) contra apenas 4 mil curtidas (👍). O fiasco ficou ainda pior depois que Durov desativou as reações no seu canal, em óbvia retaliação à reação negativa da maioria.

Não é a primeira vez que uma comunidade de usuários manifesta desaprovação a empresas que flertam com NFT, Web3 e outras picaretagens do tipo. Gamers, por exemplo, são bem avessos a essas ideias. Via @durov/Telegram (em inglês)

(Obrigado pela dica, Henrique!)

O desenvolvedor e “leaker” (gente que vaza segredos de empresas de tecnologia) Alessandro Paluzzi publicou o print de um recurso do Instagram ainda em testes bastante familiar: uma cópia perfeita (logo, descarada) do BeReal, rede social francesa que vem ganhando tração junto ao público jovem.

Chamado “IG Candid Challenges”, algo como “desafios sinceros do Instagram”, o recurso convoca usuários a postarem uma foto dupla (recurso que o Instagram já copiou do BeReal em julho) em um intervalo de dois minutos.

O site norte-americano Engadget entrou em contato com a assessoria da Meta para obter mais detalhes dos “desafios sinceros”. Um porta-voz confirmou a existência do recurso, mas disse que, no momento, ele é apenas um “protótipo interno”, sem dar mais detalhes. Via @alex193a/Twitter, Engadget (ambos em inglês).

Uma fã perguntou a Neil Gaiman se espaçar os epidósios de Sandman, a nova série da Netflix baseada no quadrinho homônimo do autor, ajudaria a “torná-la mais popular”.

Gaiman respondeu que, pelo contrário, “maratonar” (assistir a todos os episódios de uma vez) é melhor “porque eles [a Netflix] estão olhando para a ‘taxa de conclusão’, então pessoas assistindo em seu próprio ritmo não aparecem”. Via @neilhimself/Twitter (em inglês).

Relacionado, do nosso arquivo: O que se perde quando “vemos Netflix” em vez de filmes (e, pelo visto, séries também).

por Shūmiàn 书面

Na última sexta-feira (19), o órgão responsável pelo ciberespaço chinês publicou em seu site resumos dos algoritmos utilizados por 30 aplicativos de algumas das maiores empresas de tecnologia da China.

Gigantes como Alibaba, Tencent e ByteDance foram as primeiras empresas a revelar para o governo as regras de seus algoritmos de acordo com a lei que está em vigor desde março.

Embora a informação oferecida publicamente pelo órgão não seja muito esclarecedora, acredita-se que a versão entregue ao governo seja mais detalhada. Se você perdeu as discussões que rolaram sobre o assunto lá em março, pode passar um cafezinho que o tema é denso.

Adeus, incerteza. Diante do cenário ruim nas vendas e de um temor regulatório, a Tencent, detentora do WeChat, decidiu abandonar o mercado de NFTs. Como conta o SCMP, isso acontece apenas um ano depois de a gigante de tecnologia ter entrado neste setor, que começou com uma promessa de ser grande no futuro. Já tínhamos falado há algumas edições sobre a relação complicada da China com o mercado de NFTs.


A Shūmiàn 书面 é uma plataforma independente, que publica notícias e análises de política, economia, relações exteriores e sociedade da China. Receba a newsletter semanal, sem custo.

O New York Times publicou as histórias de dois usuários do Google, pais de crianças e norte-americanos, que tiveram suas contas suspensas e histórico e atividades em serviços da empresa investigados pela polícia por terem tirado fotos de partes íntimas dos filhos. As fotos foram enviadas a médicos porque as crianças estavam com dores e inchaço na região.

Os sistemas automatizados do Google detectaram as fotos e suspenderam as contas para averiguação. Mesmo depois de a polícia concluir que os casos não eram de exploração sexual infantil, o Google não restabeleceu as contas dos pais.

Ambos os casos evidenciam a dificuldade em encontrar o equilíbrio entre vigilância contra crimes cruéis e a garantia de privacidade dos usuários. É difícil, porém, encontrar justificativa do lado do Google para não restabelecer as contas afetadas. Via New York Times (em inglês).

Semana passada o Shazam completou 20 anos. Se você fizer as contas, o serviço que reconhece músicas e que hoje pertence à Apple precede os celulares modernos — o iPhone, “marco inicial” dessa fase, foi lançado há 15 anos.

Para celebrar a data, a Apple publicou um punhado de dados interessantes do Shazam, incluindo o seu formato original:

Agosto de 2002: O Shazam é lançado como um serviço de mensagens de texto (SMS) baseado no Reino Unido. Na época, os usuários podiam identificar músicas ligando para “2580” em seus celulares e segurando-os enquanto uma música tocava. Depois eles recebiam uma mensagem SMS dizendo o título e o(a) intérprete da canção.

Relacionado: uma entrevista da Folha de S.Paulo com Chris Barton, fundador do Shazam, que diz que não ficou rico com o aplicativo e agora está trabalhando em um sistema anti-afogamentos para piscinas. Via Apple (em inglês).

É um leiaute tão básico que é difícil imaginar uma única pessoa levando mais do que um dia para criá-lo no Squarespace, Wix, Webflow ou em um dos page builderes do WordPress.

— Matt Mullenweg, co-criador do WordPress e CEO da Automattic.

A mensagem acima foi publicada por Matt no debate da reformulação das páginas inicial e de download do WordPress.org.

Voluntários pagos decidiram usar o sistema de blocos do WordPress para criar as novas versões e demoraram 33 dias para concluir a tarefa. A menção a rivais diretos do WordPress e seu sistema de blocos, aludindo a serem mais fáceis de usar, é a cereja no pudim.

A respeito dos blocos e do futuro do WordPress (o Manual do Usuário usa esse sistema), leia isto. Via Search Engine Journal (em inglês).

Como excluir mensagens automaticamente após um período no WhatsApp e no Signal

Aplicativos de mensagens há muito deixaram de ser meios de comunicação com pessoas conhecidas. Hoje, falamos com fornecedores, restaurantes, encanador, eletricista… pelo WhatsApp. (Em breve, espero, também pelo Signal.)

Essas mensagens muitas vezes são pontuais e não precisam ficar guardadas eternamente no seu celular, ocupando espaço e aparecendo nas pesquisas do histórico de conversas.

Felizmente, é possível configurar WhatsApp e Signal para que tratem toda nova conversa como temporária, ou seja, do tipo que se auto-exclui após um período determinado.

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O robô humanoide da Xiaomi e outros links legais

Todo sábado, um amontoado de links curiosos e/ou interessantes. Leia as edições anteriores.

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Quem lê tanta notícia?

O ano era 1967 e Caetano Veloso, em “Alegria, alegria”, perguntava: quem lê tanta notícia? Eu, quase meio século depois, com frequência me pego fazendo o mesmo questionamento. Quem lê tanta notícia? Quem consome tanto conteúdo?

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por Cesar Cardoso

Os leitores mais fiéis da Pinguins Móveis já sabem, mas é sempre bom relembrar: o JingPad A1 surgiu ano passado como a esperança de um tablet/2-em-1 Linux para o mercado consumidor (ou pelo menos para um público menos interessado em flashar distros para ver se alguma coisa nova funciona), foi um grande sucesso no Indiegogo, distribuiu vários aparelhos para diversos youtubers Linux… começou a entregar os tablets para os apoiadores, todo mundo começou a ver que o software era nem-nem (nem amigável para os hackers nem amigável para usuários Linux)… o dinheiro começou a faltar… a Jingling Tech foi se desfazendo… se desfazendo… e se desfez.

O TechHut, que foi um dos mais prolíficos youtubers a falar de JingPad A1 (aqui e aqui), fez um vídeo sobre todo o drama do JingPad, da Jingling, de quem investiu tempo e dinheiro no tablet, do que poderia ter sido e não foi.

No final, tudo o que aconteceu com o JingPad A1 e a própria Jingling deixa uma lição: software é bem complicado e o caminho que a Jingling tentou com o JingPad A1 só funcionou com a Raspberry Pi porque a framboesa de Cambridge teve escala e condições para aprender como customizar um Debian até o Raspberry Pi OS chegar no estado atual; por isso novos/pequenos fabricantes acabam usando um sistema operacional de terceiros e se dedicando aos drivers (todo mundo que lança alguma coisa com Android), ou abrem o hardware para que a comunidade faça o software funcionar (PINE64).


Pinguins Móveis é uma newsletter semanal documentando e analisando a marcha do Linux por todos os cantos da eletrônica de consumo — e, portanto, das nossas vidas. Inscreva-se aqui.

Às vezes sinto como se estivesse reescrevendo a mesma nota todo mês, mas é sempre algo novo: a Apple liberou atualizações de segurança para o macOS (12.5.1) e iOS/iPadOS (15.6.1) que corrigem duas falhas graves, do tipo “dia zero” — uma no motor WebKit, usado no Safari, outra no kernel do sistema.

Diferentemente de grandes versões, como os vindouros macOS 13 “Ventura” e o iOS/iPadOS 16, para essas de segurança a recomendação é que sejam instaladas o quanto antes. Via TechCrunch (em inglês).