Com Android e foco no consumidor, smartphones Nokia voltam a chamar a atenção

Letreiro da Nokia em estande no Mobile World Congress 2017.

A história da Nokia nos smartphones compreendeu três atos. Começou muito bem, com ela fazendo a transição a partir dos feature phones e liderando o mercado incipiente durante os anos 2000. A partir de 2007, duas empresas improváveis, Apple e Google, despontaram do nada e viraram o segmento do avesso, o que deixou os antigos líderes perdidos e, por fim, ultrapassados. O melancólico desfecho da tragédia finlandesa teve início em 2013, quando sua divisão de telefonia móvel foi vendida à Microsoft e os smartphones, rebatizados de “Lumia”. Dois anos mais tarde, a produção de celulares dentro da Microsoft morreu, junto com o próprio Windows Phone.

De maneira similar à que Hollywood encontrou para ampliar franquias cinematográficas originalmente pensadas para três filmes, a história da Nokia nos smartphones ganhou um inesperado novo capítulo no final de 2016. Fundada por ex-funcionários da Nokia, a HMD Global adquiriu os direitos da centenária marca para smartphones e feature phones, firmou uma parceria com a fabricante chinesa Foxconn e fez o que praticamente todo mundo esperava desde o final da década passada: colocar Android dentro de um smartphone Nokia.

A estratégia, simples e direta, está dando certo. Em 2017, a HMD Global vendeu 9 milhões de smartphones Nokia, segundo a consultoria IHS. Detalhe: em praticamente dois trimestres, já que as vendas começaram no final do segundo. Anualizado, esse número indica que a HMD Global/Nokia vendeu mais que outras marcas tradicionais, como Asus, HTC, Lenovo e Sony.

Mesmo nos feature phones, celulares mais simples sem a farta oferta de aplicativos do Android e iOS, a HMD Global conseguiu fazer barulho. De acordo com outra consultoria, a Counterpoint, somente no quarto trimestre de 2017 a empresa vendeu 20,7 milhões desses aparelhos. O grande destaque? A releitura do Nokia 3310, o com fama de indestrutível. Ela roubou a cena no Mobile World Congress (MWC) do ano passado, ganhou versão 4G e se tornou objeto de desejo mesmo de quem já tem smartphone e nenhuma justificativa racional para ter um segundo celular, e um tão simples.

A grande sacada da HMD Global foi dar ao público o que o público quer. Seus smartphones rodam um Android limpo e elegante, sem as modificações questionáveis que outros players fazem. Mais que isso, a HMD Global parece disposta a ter uma característica muito interessante do iPhone e sem paralelo no universo Android: atualizações de software garantidas e entregues rapidamente.

Foto de divulgação do Nokia 8 Sirocco, primeiro topo de linha da HMD Global.
Foto: HMD Global/Divulgação.

Prova disso é a linha 2018 dos smartphones Nokia. Ela está completamente alinhada às iniciativas do Google para amenizar a fragmentação da base Android. No MWC deste ano, foram anunciados quatro modelos:

  • Nokia 6 (2018), Nokia 7 Plus e Nokia 8 Sirocco. Os três são membros e estrelas do programa Android One, uma colaboração entre Google e fabricantes que deixa a cargo da dona do Android aspectos fundamentais da experiência do usuário: interface, recursos dependentes de inteligência artificial, camadas de segurança e todo o processo de atualização. O Nokia 8 Sirocco (acima) é o primeiro topo de linha legítimo da HMD, com preço sugerido de € 749.
  • Nokia 1. O modelo de entrada, com preço sugerido de US$ 85, vem com o Android Go, a configuração do Android para dispositivos mais simples destinados a mercados emergentes. Bônus: ele resgata o sistema de capinhas traseiras coloridas e substituíveis, um dos poucos acertos da era Windows Phone da velha Nokia.

O trabalho da HMD Global faz uma mescla equilibrada entre modernidade — como a adoção dos programas Android One e Go e componentes de prateleira atualizados — e velhos sucessos da Nokia. As lentes Zeiss, que ajudavam a destacar as câmeras dos smartphones Nokia pré-iPhone, como o Nokia N95, estão de volta. A robustez e durabilidade dos aparelhos, uma fama tão enraizada que por vezes transcende a realidade, também.

Nesse sentido, porém, nada supera as releituras dos feature phones bem sucedidos de duas décadas atrás. Aconteceu com o Nokia 3310 em 2017, está acontecendo de novo, em 2018, com o Nokia 8110, aparelho que, em sua primeira encarnação, virou objeto de desejo após aparecer no filme Matrix, dos (então) irmãos Wachowski.

O novo Nokia 8110 tem uma péssima câmera de 2 megapixels, roda o KaiOS, uma variação do abandonado Firefox OS com suporte limitado a uns poucos apps feitos em HTML5, e tem um teclado numérico físico que, dizem os que já experimentaram, é apertado e um pesadelo em usabilidade perto das telas sensíveis a toques. Nada disso importa muito perto da publicidade que o fator nostalgia está gerando. De maneira mais tímida, a HMD Global tem sérias chances de, pelo segundo ano consecutivo, roubar a cena no maior evento de tecnologia móvel do planeta com uma tecnologia de 20 anos atrás.

Fotos de divulgação dos dois Nokia 8110.
À esquerda, o Nokia 8110 de 1999; à direita, o recém-anunciado no Mobile World Congress.

Ao testemunhar esse retorno triunfal da marca Nokia em smartphones, é impossível não pensar no que teria acontecido se Stephen Elop não tivesse assumido o comando da Nokia, se aquele infeliz manifesto da plataforma em chamas não tivesse sido escrito e, em última instância, se a velha Nokia não tivesse sido tão fiel ao casamento arranjado com o Windows Phone a ponto de nem cogitar uma escapadinha com o Android. Hoje, talvez, a Nokia fosse protagonista do segmento ao lado da Apple e da Samsung — ou mesmo ocupasse o lugar da Samsung.

Não temos máquina do tempo nem acesso a universos alternativos para saber o que teria acontecido, então o que nos resta é olhar para frente. Com o mercado de smartphones em retração, Apple e Samsung consolidadas no topo e as chinesas cheias de dinheiro e ávidas por ganhar mercados além do doméstico, é muito difícil que a HMD Global consiga recuperar a hegemonia da velha Nokia. Mas esse retorno triunfal da Nokia em smartphones mostra que a marca ainda tem tamanha força que não é preciso muito para ganhar — ou recuperar — os velhos fãs.

Em janeiro de 2017, quando a HMD lançou o Nokia 6 na China, seu primeiro smartphone, escrevi aqui:

A marca é um diferencial válido. Fazendo tudo corretamente, ela pode ser o fio condutor para que o negócio floresça. É muito mais fácil partir de uma base, qualquer que seja, do que do zero. Se essa base tiver um legado positivo, facilita muito aquele trabalho de convencimento, o argumento de venda. E não é maluquice, mesmo tanto tempo depois do auge da Nokia, acreditar que esse nome por si só ainda consiga converter vendas. Maluquice seria pensar que não.

Dito e feito.

Foto do topo: Kārlis Dambrāns/Flickr.

O Manual do Usuário é um blog independente que confia na generosidade dos leitores que podem colaborar para manter-se no ar. Saiba mais →

Acompanhe

  • Telegram
  • Twitter
  • Newsletter
  • Feed RSS

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

8 comentários

  1. “Hoje, talvez, a Nokia fosse protagonista do segmento ao lado da Apple e da Samsung — ou mesmo ocupasse o lugar da Samsung.”
    Ou mesmo ocupasse o lugar da Apple, que obtém os maiores lucros mas não é a maior vendedora. Se a Nokia estivesse no mercado como era pra ser, desde sempre, provavelmente estaria pau a pau com Samsung, uma tentando vender mais que a outra, inúmeros modelos por aí só pra acrescentar vendas, enquanto que asiáticas como Xiaomi, Huawei e Vivo estariam bem longe de ambas em números, a Apple nem estaria no top 5.

  2. Com certeza a marca Nokia continua sendo um peso importante no mercado. Lançando os aparelhos com atualização rápida (Android One),baixa fragmentação e com specs decentes pode conquistar ainda mais mercado.
    O único “porém” se não tomarem cuidado, é absorver a mania chinesa de usar uma marca dentro de outra, prejudicando a percepção de branding. Para de falar da HMD Global, que é desconhecida, e foca na marca Nokia. “A Nokia lançou um novo aparelho…” soa MUITO melhor ao cliente do que “a HMD Global lançou um aparelho Nokia X…”
    Sei que a dona da marca Nokia hoje é a HMD, porém a marca “Nokia” é um ativo gigantesco por si só que pode alavancar mais ainda a empresa. Pelo menos para o ocidente, ver que uma empresa desconhecida está lançando celulares “Nokia” passa uma coisa mais frágil, mais “será que é a Nokia mesmo?”…

    1. É que a Nokia ainda existe, né? Então dizer que “a Nokia lançou um smartphone” não é uma escolha de estilo, é errado. A HMD Global tem o direito de usar a marca Nokia, mas não é a Nokia nem responde pela Nokia.

  3. Considerando o histórico de “sucesso” do Android puro, eu atribuiria esse sucesso a marca mesmo, mas para nós geeks parece ser uma ótima opção.

    Vendo o lançamento do Galaxy S9, eu pensei: não tem absolutamente nada faltando nesse smartphone, todas os ítens relevantes estão impecavelmente atendidos. Entretanto, esse negócio de demora para atualizar sempre foi um incômodo….não é impeditivo, mas é algo que me faz olhar com bons olhos para o iOS

    A Nokia ter morrido dessa forma melancólica foi algo bem triste. Seu último suspiro, o N9, era um smartphone diferente em vários aspectos: design único e o sistema operacional tinha uma abordagem muito legal baseadas em gestos, além de parece muito mais maduro na época que o próprio Android.

    Não acredito que eles bateriam de frente com Apple e Google, mas certamente não seriam esmagados com braços amarrados como foram. A Microsoft ou não conseguiu ou não deu a importância devida ao seu SO mobile, a Nokia certamente teria mais agilidade em vôo solo.

    https://www.youtube.com/watch?v=LHvQyZpHSk4

    1. Esse telefone eram bom, muito bom. Vi num FISL ele.

      A MS nunca deu importância pro setor mobile e todas as ações dela nesse sentido foram atrapalhadas. Quase fizeram isso com a divisão do Xbox (que o Nadela queria vender, não sei se ainda quer) quando fizeram o lançamento do One.

  4. Sempre gostei da Nokia, desde muito pequeno quando lá no começo dos anos 2000 o pessoal daqui de casa começou a comprar os seus primeiros celulares. Meu primeiro celular foi um Nokia 1100, tive outro flip que não recordo o nome, também tive o lendário N95 que primeiro foi do meu pai e depois meu. Um Asha 311 (sdds conversas do WhatsApp em abas) e, por fim, um Lumia 710 e um Lumia 730 que ficou comigo até julho de 2016 quando comprei meu primeiro Android, um Xiaomi Redmi 3S.
    Gostava do Windows Phone, confesso, mesmo com a falta de apps. Mas fiquei puto da vida quando a Microsoft atualizou o WP 8.1 pro 10 Mobile com um app gambiarra, e sem atualizar a firmware, o que fez a câmera do L730 perder a qualidade e a bateria esquentar por qualquer coisinha e perder autonomia, aí morreu minha relação com o WP/10 mobile.
    Enfim, mesmo não sendo fã do “Android puro”, confesso que gostei bastante desse Nokia 7 Plus, é o tipo de aparelho que eu certamente compraria, não apenas pela marca, mas por todo conjunto da obra. Mas de uma coisa eu sei, com certeza a Google vai ser muito mais eficiente e confiável com as atualizações do Android, nessa parceria com a atual Nokia, do que a Microsoft jamais foi com o WP e quando tinha o “know-how” da Nokia em mãos.

Do NOT follow this link or you will be banned from the site!