A câmera do Huawei P30 Pro é a caixa preta definitiva

Foto mostrando as quatro câmeras do P30 Pro abertas, com as lentes para fora.

Nesta terça (30), a Huawei retorna oficialmente ao mercado de celulares brasileiro. Diferentemente da última tentativa, em 2014, desta vez ela chega com credenciais de respeito: é segunda maior fabricante de celulares do mundo e traz embaixo do braço um dos aparelhos mais desejados do momento, o P30 Pro. Antes que você se anime, adianto que não será barato (este texto será atualizado com valores e datas logo mais). Mas, para além dos aspectos mercadológicos e técnicos, este celular traz uma discussão filosófica sobre fotografia.

O P30 Pro tem a melhor câmera de celular do mundo no momento. De análises subjetivas em diversas publicações especializadas até a fria e elevada nota atribuída pelo DxOMark, o principal “benchmark” do setor, é quase unanimidade que as quatro câmeras com lentes Leica (até quando?), uma delas com um inovador mecanismo que viabiliza um “super zoom” impossível de outra forma, estão à frente dos produtos rivais de marcas mais tradicionais do setor, como Apple e Samsung.

Não é o intuito, aqui, debater a qualidade técnica da câmera. O que você precisa saber neste contexto é que, sim, ela é muito boa. Em vez disso, quero focar nas duas características mais destacadas da câmera do aparelho da Huawei: o periscópio que habilita o zoom impossível e o “Modo Lua”.

O periscópio é uma brilhante aplicação de um conceito da física em estado quase puro para superar uma limitação de mesma natureza de todos os celulares modernos. Em câmeras tradicionais com lentes intercambiáveis, as teleobjetivas são as que oferecem o maior alcance de zoom. Elas não são enormes à toa: o espaço é necessário para possibilitar o efeito de aproximação da imagem. Puxe da memória o celular mais grosso que viu nos últimos anos e você entenderá por que sempre foi e sempre será extremamente difícil ter um zoom óptico de qualidade nas câmeras desses aparelhos. Falta espaço.

Para contornar essa limitação, a Huawei desenvolveu uma solução engenhosa: um prisma que reflete lateralmente a luz, o que lembra o funcionamento dos periscópios, aqueles “tubos” com espelhos usados em submarinos quando submersos para que os tripulantes consigam enxergar a superfície.

Esquema mostrando como funciona o periscópio da câmera SuperZoom do P30 Pro.
Engenhoso sistema para ter zoom óptico no celular. Foto: Huawei/Divulgação.

No P30 Pro, a luz bate no prisma e reflete para a direita, passando pelas lentes da câmera (que geram o zoom de 5x) até atingir o sensor de 8 megapixels, que a capta e converte em bits. Combinando esse zoom “real” com o digital e uma pitada de algoritmos de computação visual, a câmera do P30 Pro consegue aproximar em até 50 vezes o objeto fotografado, um valor absurdo e que, por estar tão facilmente acessível em um produto de massa (até onde celulares de alguns milhares de reais podem ser classificados como tal), já suscita outro debate interessante relacionado à privacidade.

Ok, um monte de números talvez não faça justiça ao que a câmera do P30 Pro é capaz. Este é um típico caso em que algumas imagens valem mais do que quaisquer palavras:

Comparativo de diferentes fotos da Torre Eiffel em diferentes zoom com a câmera do Huawei P30 Pro.
Foto: Beebom/YouTube.

Com um zoom de 50 vezes, nem o céu é limite. A Huawei promete, no site promocional do P30 Pro, “trazer a Lua à sua frente”. Para tanto, a empresa incluiu no software do celular um modo dedicado ao nosso satélite natural. Ao apontar o celular para a Lua com o zoom máximo, o sistema a identifica e sugere o tal “Modo Lua” a fim de “ajudar o usuário a captar uma foto límpida” da Lua com o auxílio de algoritmos de inteligência artificial. O resultado é espantoso, quase bom demais para ser verdade.

Uma nova caixa preta

Em 1983, o pensador Vilém Flusser propôs uma filosofia da fotografia em um livreto, resultado de palestras dadas na Alemanha e França. Chamou-o Filosofia da caixa preta porque, em sua leitura, escapa ao operador (o fotógrafo) o conhecimento do que acontece dentro do aparelho:

Uma vez adquirido, o aparelho fotográfico vai se revelar um brinquedo curioso. Embora repouse sobre teorias científicas complexas e sobre técnicas sofisticadas, é muito fácil manipulá-lo. O aparelho propõe jogo estruturalmente complexo, mas funcionalmente simples. Jogo oposto ao xadrez, que é estruturalmente simples, mas funcionalmente complexo: é fácil aprender suas regras, mas difícil jogá-lo bem. Quem possui aparelho fotográfico de “último modelo”, pode fotografar “bem” sem saber o que se passa no interior do aparelho. Caixa preta.

O argumento de Flusser para definir a caixa preta é muito mais amplo, mas cabe também a interpretação mais restritiva, no sentido de que ele se referiria aos processos químicos (no filme analógico) que ocorrem no ato de fotografar e as possibilidades abertas pelo aparelho (câmera) ao operador (fotógrafo), sujeitas a infinitas variáveis que vão desde as configurações da câmera até o esgotamento das composições de um objeto a ser fotografado.

De qualquer maneira, ambas as interpretações se sustentam mesmo quando confrontadas por um fotógrafo profissional porque, ainda que ele domine por completo sua câmera e conheça profundamente o processo de geração das imagens, teria o vasto espaço da criatividade para brincar ou, na explicação mais completa, estaria ele também sujeito a ser subjugado pelo aparelho. (“A autonomia dos aparelhos levou à inversão de sua relação com os homens. Estes, sem exceção, funcionam em função dos aparelhos”, escreve o autor quase no final do livro.)

Fico imaginando o que o velho Flusser diria, hoje, se visse a aplicação de inteligência artificial na fotografia. A câmera que carrego no bolso, sempre conectada à internet, adere ainda mais à proposta do filósofo porque os algoritmos de inteligência artificial que atuam ali dentro são, não raro, de fato ininteligíveis a nós e até mesmo aos seus criadores. Caixa preta. Literalmente.

A mesma Lua a todos nós

Foto da Lua aproximada 50 vezes pela câmera do P30 Pro, exibida na tela do aparelho.
Foto da Lua aproximada 50 vezes pela câmera do P30 Pro. Foto: Huawei/Divulgação.

A Huawei está sendo acusada de trapacear no “Modo Lua”. Alguns fotógrafos que já tiveram acesso ao P30 Pro dizem que o algoritmo não apenas melhora a imagem do satélite, mas que a complementa com imagens de arquivo. É como se o software da câmera fizesse uma colagem com a foto tirada no momento e outras com melhor resolução, em um processo mais rápido que um piscar de olhos, a fim de entregar um resultado mais satisfatório a um dos objetos mais adorados e difíceis de se registrar com equipamentos simples de fotografia. Quem nunca se inspirou com uma Lua cheia bonita a ponto de sacar o celular e arriscar uma foto, apenas para se frustrar em seguida com o resultado patético?

Considerando esta hipótese e deixando por um momento a discussão ética de lado, não deixa de ser uma sacada talvez tão genial quanto a do periscópio é engenhosa. Acompanhe-me: a Lua está longe e não varia muito. Com as exceções de — literalmente — algumas pessoas que estão em órbita neste momento, todos nós temos uma limitação inescapável dos pontos de observação da Lua aqui na Terra, a 384,4 mil quilômetros de distância. Se distribuirmos um punhado de P30 Pro para várias pessoas e pedirmos a elas para que fotografem a Lua, acabaremos com imagens muito parecidas. Essa homogeneização permitiria um esquema de trapaça como o de que a Huawei é acusada de praticar sem maiores dificuldades. A menos que a empresa abra a sua caixa preta, como comprovar que a imagem é “pura”?

A Huawei nega veementemente. Em nota enviada ao site Android Authority, um porta-voz disse que “baseada em princípios de aprendizado de máquina, a câmera reconhece um cenário e ajuda a otimizar o foco e a exposição para melhorar detalhes como formatos, cores e destaques/sombras”. Faz sentido, também.

O uso de inteligência artificial em câmeras de celular não é nada novo. O que seria inédito neste caso, fosse (seja?) ele confirmado, é tirar fotos que são melhoradas a partir de outras fotografias, possivelmente feitas com equipamentos mais adequados, em tempo real. Quase um “dopping” fotográfico. Sinceramente, não sei até que ponto isso seria ruim porque, afinal, a Lua é a mesma e vista de igual maneira para todos nós.

A realidade que queremos ver

Nada do que vemos em fotografia é a “realidade”. Essa noção, que ainda se sustenta junto a algumas pessoas, há muito foi descartada. Mesmo antes do processo de edição, a manipulação pela imagem já acontece. A escolha da lente, por exemplo, afeta o resultado de maneira dramática — dependendo da usada pelo fotógrafo, você pode sair mais rechonchudo ou mais esguio em um retrato.

A eletrônica trouxe um desafio de maior relevância a essa noção porque a digitalização facilita e barateia tremendamente a manipulação de imagens. No livro O fotográfico de 1998, o pesquisador brasileiro Arlindo Machado definiu muito bem o que mudava na fotografia eletrônica, então novidade:

Isso não quer dizer que as imagens contemporâneas sejam indiferentes à realidade, como querem fazer crer certos profetas do Apocalipse, mas que o acesso a esta última é agora mais mediado e menos inocente.

As possibilidades de Flusser se traduzem, também, em mediação — embora ele credite essa interferência mais ao “programa”, ou seja, ao contexto em que fotógrafo e câmera atuam. Toda foto conta uma história e isso independe de manipulação digital, embora esta a potencialize.

Em algum momento dos últimos dez anos, com a massificação do celular com câmera e a explosão de redes sociais narcisísticas, relaxamos um pouco mais o laço que a fotografia mantinha com a realidade. Trocamos esse estreitamento por “sair bem na foto”, como diz a expressão popular. Pode-se dizer que aceitamos, enfim, que fotografia e realidade dialogam, mas não são a mesma coisa. Em algumas partes do mundo, a ponto de moldarmos a realidade do nosso corpo à imagem aperfeiçoada da fotografia.

A manipulação explícita, essa grotesca e cada vez mais aceita, está chegando à caixa preta. Antes, exigia-se o trabalho de pós-edição, primeiro em um lento, pesado e caro Photoshop; depois, nos aplicativos de selfies feitos para facilitar e democratizar uma hiper-realidade, como tratei em um texto aqui no Manual de 2016. Sempre atentas às tendências para surfar nelas, as fabricantes de celulares tentam agora fazer o que sabem melhor: eliminar etapas e diminuir o atrito, o que neste caso significa encurtar o caminho entre a captura da imagem e a publicação em redes sociais.

Não são apenas selfies, aliás. A Huawei, no mesmo comunicado sobre o “Modo Lua”, gaba-se do fato de sua inteligência artificial detectar 1.300 cenários diferentes e fazer ajustes instantâneos na software da câmera para conseguir a “melhor” foto possível. Embora esses ajustes em tempo real sejam mais comuns em fabricantes chinesas, eles alcançam, de modo mais tímido, mas crescente, todo o setor. No recém-lançado Galaxy S10, o software da Samsung sugere, com instruções práticas no visor da câmera, enquadramentos e outros ajustes de composição.

Exemplo do uso do recurso Best Shot do Galaxy S10.
“Foi você ou o Galaxy S10 que tirou esta foto?” Foto: Samsung/Divulgação.

Com todos esses avanços, não é exagero imaginar que em algumas poucas gerações o “fotógrafo” será reduzido ao papel de tripé. E isso vale também para fotógrafos profissionais, porque a inteligência artificial talvez não consiga exaurir as possibilidades da caixa preta, mas certamente pensa em tempo inumano muito mais cenários possíveis do que um cérebro de Homo sapiens é capaz, mesmo o de um exímio Homo sapiens fotógrafo.

Flusser recorreu à fotografia para tratar do que ele entendia como o problema fundamental de toda filosofia: o da liberdade. Via, na fotografia, uma das primeiras expressões do pós-industrial, em que a informação supera o suporte que a carrega. Um quadro tem seu valor indissociável de si mesmo, do objeto físico; uma foto vale apenas pela informação que carrega, podendo ser replicada sem prejudicar seu valor. Também a enxergava como “pós-histórica”, por romper com a linearidade da história e propor uma estrutura circular que, cada vez mais, manifesta-se em outras áreas da experiência humana:

Imagens são superfícies sobre as quais circula o olhar. Aparelhos são brinquedos que funcionam com movimentos eternamente repetidos. Programas são sistemas que recombinam constantemente os mesmos elementos. Informação é epiciclo negativamente entrópico que deverá voltar à entropia da qual surgiu.

Ele enxergava instrumentos como modelos de pensamento: “Estamos pensando do modo pelo qual ‘pensam’ computadores. Penso que estamos pensando de tal maneira porque a fotografia é o nosso modelo, foi ela que nos programou para pensar assim”.

Mais de 40 anos depois, vemos a fotografia inserida em ambientes onde, de um lado, temos robôs treinados para interagir com imagens em ambientes virtuais como se fossem humanos; de outro, um fotografar ainda mais instrumentalizado e acelerando nesse sentido, graças à ajuda da inteligência artificial, o que homogeneiza ainda mais a produção fotográfica. Nesse ritmo, em breve nos tornaremos, seres humanos, os intrusos nas relações imagéticas que se desenvolvem em redes sociais, uma minoria de carne e osso espremida por algoritmos que sabem tirar fotos melhores que nós e que são mais espertos em reconhecer as que têm maior apelo estético no ambiente virtual.

Para Flusser, a única escapatória a esse modelo de pensamento constrito na caixa preta era a fotografia experimental. “[Os fotógrafos experimentais] Tentam, conscientemente, obrigar o aparelho a produzir imagem informativa que não está em seu programa. Sabem que sua práxis é estratégia dirigida contra o aparelho”. O custo de uma foto bonita da Lua é a morte do experimentalismo que poderia nos livrar do que ele chamou “totalitarismo robotizante dos aparelhos”. Mas, hey, pelo menos essa foto da Lua ganhará um monte de curtidas. Nem que sejam de robôs.

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5 comentários

  1. Não precisamos saber como um motor a explosão funciona para usarmos um carro. Não precisamos saber como funcionam as trocas de calor para ligar o ar-condicionado. Não precisamos saber como funciona a lógica computacional para usarmos um computador.

    Isso é o encapsulamento, um conceito do mundo real levado para as linguagens de programação orientadas a objeto que tem como função basicamente a proteção, tanto de quem usa o objeto como do próprio objeto.

    Acho que o conceito da caixa preta é aplicado universalmente em todo objeto complexo desde que começamos a fabricá-los. As interfaces de operação tendem a ser cada vez mais simplificadas massificando o uso e entendimento da operação.

    Isso traz implicações complexas que passam por democratização até a diminuição da importância dos especialistas já que o uso passa a ser possível por todos.

  2. Sorte da Huawai que movimento de rotação da Lua é sincronizado com o da translação da Terra.
    Ótimo texto!

  3. O problema do que a Huawei estaria fazendo é que ao invés de usar software para melhorar a foto ela está substituindo sua foto por outra.
    Nesse caso, sim, é um problema, eu tenho problema com isso.

    Mas há um bocado de gente sofrendo de um ódio irracional da Huawei por aí… insuportável você entrar em qualquer há de comentários “lá fora”.
    É muita acusação absurda, mas voltando para a questão da câmera, isso não é novidade. Câmeras de celular estão analisando e tentando melhorar as fotos faz muitos anos, eles apenas estão se tornando melhores nisso, agora até com hardware dedicado para fazer esse processamento. O Googol está usando IA/ML para “adivinhar” as cores quando faz fotos no escuro não é? Isso também não seria trapaça? Por que ninguém reclama disso?

    Desde que seja usado para compensar as limitações físicas das câmeras dos telefones não vejo problema.

  4. Nada como um belo texto do Manual do Usuário para nos lembrar que o futuro pode ser bem mais sombrio do quê imaginamos.

    E eu pensava que as profissões ligadas às artes e a criatividade estariam salvas dos algoritmos. Ledo engano.

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