Sleeping Giants, Gazeta do Povo e Rodrigo Constantino

Foto de uma edição impressa da Gazeta do Povo segurada por uma mão.

Ao comentar o chocante desfecho do caso Mariana Ferrer, o do “estupro culposo”, o colunista Rodrigo Constantino disse que, se fosse sua filha no lugar da vítima, daria um esporro nela e não denunciaria os abusadores porque ela teria bebido antes de sofrer a violência que sofreu. (Se tiver estômago, assista ao vídeo.) A fala nojenta dele pegou mal e — finalmente —, após anos dizendo e escrevendo barbaridades desse nível, custou-lhe algumas das posições que tinha na imprensa.

Constantino foi dispensado da Jovem Pan, do Correio do Povo e da Record. Continuou na Gazeta do Povo, jornal centenário paranaense que desde 2017 tenta ser uma espécie de porta-voz da extrema-direita no Brasil. Após 120 funcionários assinarem uma carta pedindo um posicionamento da direção a respeito do caso, a diretora da unidade de jornais do GRPCOM, Ana Amélia Cunha Pereira Filizola, veio a público reafirmar a parceria com Constantino e avisar que ele continuaria no quadro de colunistas. “Não nos parece que, ante as explicações e os pontos por ele abordados, estejamos, necessariamente, diante de uma afronta aos limites razoáveis da liberdade de expressão”, escreveu ela.

Não é proibido dar palanque a gente dessa laia, mas a decisão de manter Constantino, obviamente, gerou revolta. Na esteira dos acontecimentos, o perfil no Twitter Sleeping Giants direcionou seus esforços para alertar marcas anunciantes da Gazeta do Povo da decisão tomada em relação à fala de Constantino. O “modus operandi” deles, refrescando a memória, é apontar a empresas que seus anúncios estão sendo veiculados ao lado de conteúdos potencialmente danosos. Pode-se debater se a presença de Constantino se encaixa nessa definição; para 13 marcas — até agora — que retiraram seus anúncios da Gazeta, como Arezzo, Loft, Méliuz e MadeiraMadeira, se encaixa.

O sucesso do Sleeping Giants suscitou um contra-ataque do jornal, que acusa o grupo de ser uma “milícia anônima”, de difamar seu colunista e de agir anonimamente, como se isso fosse ilegal ou algum tipo de demérito.

No texto (que, ironicamente, não é assinado), a Gazeta do Povo afirma que “os anunciantes cedem ao pensar que podem estar à beira de uma crise de imagem”. Os anunciantes “cedem”, na verdade, pelo risco de serem associados a gente que minimiza um estupro, como Constantino fez em seu infeliz comentário, e não pela pressão de um perfil no Twitter. O Sleeping Giants pode ter muitos seguidores nas redes sociais e faz pressão, mas são só 400 mil em um país de +200 milhões de pessoas. Eles são ponte (uma boa ponte, firme e vistosa) que leva ao boicote, não o motivo do boicote. É importante pontuar isso, porque a leitura do texto da Gazeta passa uma ideia equivocada. Se uma marca não detecta risco no apontamento feito pelo Sleeping Giants, ela simplesmente o ignora e não remove os anúncios do veículo.

É particularmente curiosa a passagem em que Gazeta do Povo reclama que “o grupo brasileiro dissimula seu viés político e convence muitas empresas a aderir ao boicote”. Em 2017, quando encampou uma caça às bruxas para forçar o banco Santander a interromper a exposição Queermuseu, em Porto Alegre (RS), a mesma Gazeta do Povo, em editorial, definiu boicote como “uma dinâmica democrática legítima”. Aparentemente, o boicote só é válido quando parte dela ou lhe é favorável.

Leitores mais antigos sabem que eu trabalhei na Gazeta do Povo entre abril de 2017 e dezembro de 2018 e que o Manual do Usuário ficou hospedado lá por pouco mais de um ano, exatamente no período de transformação de um respeitado jornal local com viés de direita para uma máquina ideológica de extrema-direita.

Constantino era assunto recorrente na redação1 devido aos arroubos lunáticos em suas colunas. Eram poucos, entre os jornalistas, os que simpatizavam com as ideias reacionárias, de mau gosto, por vezes quase criminosas do colunista. Questionei um superior, certa vez, por que a Gazeta do Povo o mantinha em seus quadros. Ouvi que ele trazia muitas assinaturas e era alinhado às convicções do jornal. O evento desta semana condiz com aquela resposta. A Gazeta que aguente as consequências.

Do nosso arquivo, para entender melhor a atuação do Sleeping Giants:

Foto do topo: Rodrigo Ghedin.

  1. Ele mora nos Estados Unidos e nos visitava uma vez por ano, se muito.

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9 comentários

  1. O assunto já está batido, mas já chegou a ver o julgamento todo ou ler a sentença? No julgamento a influencer não conseguiu provar que o estupro ocorreu, a história do estupro culposo foi uma invenção do Intercept. E agora como ficam defendendo uma mentirosa que somente queria envolver o Roberto Marinho Neto e conseguir uma indenização milionária?

    1. Você está caluniando a vítima. Isto não só é crime como é discurso de ódio. Sinto nojo de você.

  2. Poderia ter escrito mais. Como essa “transformação” se deu? Eles foram oportunistas ou a transformação será permanente? A Gazeta faz parte do GRPCOM, afiliada da Globo. Como uma emissora como a Globo deixa um conglomerado afiliado adotar uma linha editorial tão asquerosa? Ninguém da cabeça de rede se importa?

      1. Ghedin. Parabéns!

        As matérias do MU estão cada vez melhores!

        Vida longa e sucesso a esse espaço e a você!

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