O dia em que “clonaram” meu WhatsApp

Foto aproximada da tela de um celular, mostrando um perfil no WhatsApp, com uma foto em preto e branco de um casal, um número com DDD 62 e o nome Rodrigo Passoli Ghedin completo.

Terça-feira, 11 de maio, início da tarde. Estava no computador, trabalhando, quando notei uma notificação no celular. Era uma mensagem de um primo com quem pouco falo. Estranhei, mas deixei para lê-la depois. Passaram-se alguns minutos e o celular tocou. Era minha mãe. Atendi e ela me disse algo do tipo: “Já te avisaram que clonaram seu celular?”

Não estava sabendo, obviamente. Em vez de medo ou desespero, naquele momento eu me senti… calmo, quase como se alguém tivesse me avisado que o cadarço do meu tênis estava desamarrado. Credito essa sensação aos anos cobrindo golpes de de toda sorte — inclusive os de WhatsApp — neste Manual do Usuário e em outras redações. Eu estava preparado; sabia exatamente como agir naquela situação.

A minha primeira providência foi conferir se meu celular ainda tinha sinal da operadora. Costumo escrever “clonagem” assim, entre aspas, porque o termo é um tanto impreciso: não há como um número estar ativo em dois celulares ao mesmo tempo. Quando alguém “clona” um celular, o que ocorre na realidade é uma transferência. O original é desligado da rede e, portanto, perde o sinal da operadora.

Meu número continuava atrelado ao meu celular — a própria ligação que eu acabara de receber confirmava isso. Descartada a hipótese mais grave, fui ler a mensagem do meu primo. Ele me dizia que alguém estava se passando por mim no WhatsApp e havia pedido dinheiro a uma tia nossa.

Junto à mensagem, ele enviou uma foto do perfil que dizia ser eu. Era uma fraude um tanto grosseira: meu nome aparecia completo, algo que raramente divulgo; o número era de Goiás (DDD 62); e a foto do perfil era de outro primo. Disso deduzi que não se tratava de um ataque direcionado, ou seja, o estelionatário/golpista não me conhecia.

Foto da conversa da minha tia com o golpista.Infelizmente minha tia já tinha denunciado o perfil. No WhatsApp, tal procedimento bloqueia o contato denunciado e exclui a conversa. Por sorte, ela havia tirado algumas fotos de parte da conversa antes disso. Em linhas gerais, o estelionatário pedia um valor, a ser transferido na conta de uma tal de Beatriz — ninguém da família tem esse nome, e embora eu tenha amigas e conhecidas chamadas Beatriz, não era nenhuma delas. Não sei dizer se essa Beatriz era uma laranja ou parte do esquema.

Minha tia, auxiliada pelo filho (um terceiro primo), não se deixou levar. Eles perceberam logo que se tratava de um golpe, avisaram o estelionatário e denunciaram e bloquearam o perfil.

Depois de me inteirar da história, iniciei uma conversa com o estelionatário — sem adicioná-lo à minha lista de contatos (veja como). Aqui, fiquei em dúvida. Não sabia que abordagem adotar. Seguiu-se este diálogo [comentários meus entre chaves e em itálico]:

[11/05/2021 14:57:17] Rodrigo Ghedin: Oi, tudo bem? Você teve o celular clonado recentemente? [Presumindo-o como inocente, imaginei que alguém tivesse se apoderado do número dele para praticar o golpe. Quem seria estúpido a ponto de fazer isso com o próprio número!?]
[11/05/2021 14:57:50] +55 62 XXXX-XXXX: Com quem eu falo ?
[11/05/2021 14:57:57] +55 62 XXXX-XXXX: Como assim 🤔
[11/05/2021 14:58:19] Rodrigo Ghedin: Rodrigo
[11/05/2021 14:58:53] +55 62 XXXX-XXXX: De onde ?
[11/05/2021 14:58:57] +55 62 XXXX-XXXX: Uai
[11/05/2021 14:59:21] Rodrigo Ghedin: Com quem eu falo?
[11/05/2021 14:59:39] +55 62 XXXX-XXXX: Fernando
[11/05/2021 14:59:53] +55 62 XXXX-XXXX: O senhor deseja alguma coisa ?
[11/05/2021 15:01:40] Rodrigo Ghedin: Fui alertado de que alguém, com seu número, tentou se passar por mim para extorquir dinheiro de parentes meus
[11/05/2021 15:02:37] Rodrigo Ghedin: Está sabendo de alguma coisa?
[11/05/2021 15:03:04] +55 62 XXXX-XXXX: Ate agora não 😨
[11/05/2021 15:03:33] +55 62 XXXX-XXXX: Você que deve está querendo clonar o meu. [O que eu poderia dizer!?]
[11/05/2021 15:05:28] Rodrigo Ghedin: Não quero clonar o seu

Print do perfil do golpista, com o nome Octavio.
Fernando ou Octavio?
Um detalhe muito suspeito é que, embora ele tenha dito que se chamava Fernando, em seu perfil no WhatsApp aparecia outro nome, Octavio.

Em seguida, Fernando (ou Octavio) me bloqueou e eu o denunciei ao WhatsApp. Pedi a familiares e leitores do Manual no nosso grupo no Telegram para que o denunciassem também.

Embora Fernando/Octavio não tenha confessado, era o número dele que poucos minutos atrás estava com meu nome e a foto de um primo meu, tentando se passar por mim para extorquir um parente. Sou totalmente a favor do devido processo legal e da presunção da inocência, mas não consigo imaginar de que outra forma o número dele poderia ter sido usado na aplicação do golpe que não uma “clonagem” ou… ele mesmo ter tentado golpe.

Evolução do golpe

Em outubro de 2020, a Kaspersky alertou para esse tipo de golpe, que alguns chamam de “golpe do novo número”. No Manual, repercuti o alerta:

Aquele golpe da clonagem do WhatsApp mudou. Se antes os criminosos se apropriavam do número do celular da vítima para se passarem por ela e extorquir terceiros, agora nem isso: eles estão simplesmente criando novas contas no WhatsApp se passando pela vítima e, com o apoio de bancos de dados pessoais, entram em contato com pessoas próximas a ela com a desculpa de que “trocou de número” para pedir transferências de dinheiro.

Na época, a Polícia Civil de Goiás já havia feito duas operações de combate a essa mutação do golpe de WhatsApp. Em uma delas, a operação Conta Espelho II, seis pessoas foram presas, mas não os “mentores intelectuais”. Uma das vítimas do grupo, um homem de Minas Gerais, teve um prejuízo de R$ 62 mil. Os estelionatários se passaram pelo seu filho, que é médico, e pediram a quantia para “atender a uma necessidade”.

A Polícia Civil de Goiás afirmou que o grupo obtinha informações de bancos de dados comercializados na “deep web”. É uma possibilidade. Outra, não levantada, mas que me parece crível, é a de que os estelionatários tenham acesso a bancos de dados usados por escritórios de cobrança. Um desses escritórios já me aporrinhou por semanas quando alguém próximo a mim ficou devendo em um crediário — e essa pessoa afirma categoricamente que não passou o meu número como referência à loja.

E, vale lembrar, no começo do ano houve um gigantesco vazamento de dados pessoais de todos os brasileiros vivos e mais alguns mortos. Ao comentá-lo nesta coluna, escrevi que não havia muito o que fazer fora redobrar a atenção. Felizmente, tia e primo estavam atentos e ninguém ficou no prejuízo.

Qualquer um está sujeito a ser alvo ou servir de isca para golpes do tipo. A probabilidade, ainda que baixa, existe — este caso reforça isso, já que não aparenta ser um ataque direcionado, mas sim uma tentativa desleixada e, ao que tudo indica, que me escolheu aleatoriamente como isca.

Quando um parente aparecer no WhatsApp, com outro número ou com o mesmo número (no caso de uma “clonagem”), vale seguir a recomendação da Kaspersky: “[…] Sempre desconfie. Entre em contato com a pessoa que está pedindo dinheiro por telefone [ligação]. Além de confirmar a autenticidade da mensagem, você ainda alerta a pessoa sobre o golpe”.

Outras vezes em que me sacanearam (já dá para fazer uma série):

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5 comentários

  1. 04/06/2021- meus cartões e celular não chegaram a ser clonados , mas meu número foi informado em alguns cadastros de loja inclusive de compra de automóvel daí acontece que escritórios de advocacia e bancos onde nunca tive conta, ligam pra mim “me oferecendo pra quitar a divida com desconto” mas por mensagem gravada, não dando chance p/ que eu diga que não sou a pessoa que eles querem. Eu simplesmente atendo somente quem eu quero, desde então.

  2. 04/06/2021- meus cartões e celular não chegaram a ser clonados , mas meu número foi informado em alguns cadastros de loja inclusive de compra de automóvel daí acontece que escritórios de advocacia e bancos onde nunca tive conta, ligam pra mim “me oferecendo pra quitar a divida com desconto” mas por mensagem gravada, não dando chance p/ que eu diga que não sou a pessoa que eles querem. Eu simplesmente atendo somente quem eu quero, desde então.

  3. Dia desses fizeram isso com a minha madrasta. Se passavam pelo filho dela, mas ainda bem que meu pai interviu e não deixou ela fazer nada. Segundo ele, ela estava meio desconfiada, mas ainda assim estava “meio que” engolindo a história.
    E como já dito, a tendência é cada vez piorar mais. Infelizmente. =/

  4. Com a avalanche de dados pessoais vazados que temos, e a facilidade cada vez maior pra acessá-los, esse tipo de golpe infelizmente vai ser comum e se popularizar rapidamente. Afinal, é uma engenharia social bem rudimentar que funciona e dá pra usar numa escala muito maior que um SIM Swap, por exemplo.

    Somando isso à ignorância do brasileiro médio que não checa fontes e enxerga pirocas em arquitetura árabe, junto com o advento do Whatsapp Pay, vamos ver uma pandemia (analogia proposital) de golpes assim num futuro pouquíssimo distante.

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