O cafezinho (virtual) da firma virou arena de embates políticos

Logo do Basecamp para redes sociais (Twitter, LinkedIn).

Quando as empresas de tecnologia, em particular as norte-americanas, ascenderam das suas garagens para grandes escritórios luxuosos e se infiltraram nos corredores do poder, atraíram para si questões políticas que nem nos sonhos mais malucos seus fundadores imaginavam que teriam que lidar.

Na última década, o mundo mudou muito, em boa parte por causa dessas empresas. Hoje, são poucos os lugares livres das consequências que o recrudescimento da política institucional causou. O ambiente de trabalho, por excelência um ambiente político, não passa incólume por esse movimento — seja numa borracharia ou na última startup bilionária da Califórnia, no fundo os dilemas são os mesmos. Para gestores, pois, surgiu uma nova atribuição: pacificar discussões que, de outro modo, perigam descambar para temas extremos como genocídio e nazismo, gerar insatisfações generalizadas e rachar a força de trabalho.

A crise pública que eclodiu nesta segunda (26) no Basecamp, uma das empresas mais admiradas do Vale do Silício, demonstra que nenhuma está a salvo de ter que confrontar problemas dessa natureza. Em um post em seu blog pessoal, Jason Fried, co-fundador do Basecamp, anunciou novas políticas internas para a empresa, que conta com cerca de 60 funcionários. A primeira? “Sem discussões políticas ou sociais em nosso Basecamp”1.

A repercussão foi imediata e amplamente negativa. Em grande parte, porque os próprios fundadores, Jason e David Heinemer Hansson, são ativistas políticos que, com frequência, envolvem o Basecamp em seus embates nas redes sociais. Soou contraditório, hipócrita. A dupla sempre incentivou seus funcionários a fazerem barulho também, a levantarem bandeiras, a brigarem pelo que acham certo. Garantem que não mudaram, mas agora exigem que eles façam ativismo em outro lugar que não seja o trabalho, onde passam 1/3 dos seus dias.

O jornalista Casey Newton conversou com funcionários do Basecamp e descobriu que a origem da crise foi uma lista de nomes “engraçados” de clientes, criada há muitos anos por funcionários, que voltou à tona. A discussão em torno da tal lista escalou até associações a um recente assassinato em massa em Atlanta, que vitimou seis pessoas de origem asiática, e a genocídios em geral, ensejando uma intervenção brusca de David, que classificou o debate como uma “catastrofização”, e por fim o banimento de discussões políticas anunciado por Jason.

A crítica à reação dos fundadores do Basecamp é centrada na dificuldade (impossibilidade?) de definir o que é “discussão política” e no potencial de intimidação que a nova diretriz carrega. Afinal, tudo é político, incluindo as relações de trabalho e no trabalho. Se houver discriminação salarial por gênero ou etnia, por exemplo, como trazer esse assunto à tona sem envolver política?

Apesar de hostil, essa postura tem ganhado espaço em empresas de tecnologia. Em 2020, a Coinbase baixou a mesma ordem internamente. Em outras empresas, como Google e Facebook, há anos funcionários se mobilizam para vocalizarem suas insatisfações com decisões corporativas que contrariam suas convicções pessoais ou declarações e promessas institucionais feitas por executivos anos atrás. E, mesmo sofrendo retaliações, boa parte deles não se deixa abalar.

No fundo, estamos testemunhando um novo ato da velha luta de classes, agora levada a uma nova arena, a do digital, a do home office, cortesia da digitalização das nossas vidas — o trabalho incluso.

Nos Estados Unidos que demonizam a sindicalização e num setor onde sobram empregos que pagam bem e talentos são disputados a tapas, ignorar ou rechaçar tais iniciativas gera exatamente o tipo de insatisfação que motiva ainda mais os funcionários a se organizarem. Não que isso seja ruim; muito pelo contrário. É só que denota a cegueira que acomete gente com poder quando é contrariada, até mesmo aqueles que pareciam ter uma sensibilidade um pouco acima da média para questões delicadas do tipo, como os fundadores do Basecamp.

Desde o anúncio das mudanças, Jason e David postaram algumas atualizações em seus respectivos blogs. Em uma delas, David anunciou que o Basecamp abriu um “programa de demissão voluntária” para que os insatisfeitos possam sair da empresa com seis meses de salário. Rude, para dizer o mínimo. Em nenhuma houve qualquer tentativa de retratação ou “mea culpa”. Cumpre dizer que esses posts tampouco amenizaram o forte criticismo nas redes sociais e em círculos de tecnologia.

Além do software homônimo e de um serviço de e-mail inovador, o Hey, o Basecamp publica livros de negócios, espécies de manuais de como trabalhar remotamente, gerenciar equipes motivadas e focadas e dar autonomia a elas. John Gruber flagrou, no livro Getting real, escrito por Jason e David em 2006, este trecho (tradução livre):

Após introduzir um novo recurso, mudar uma política ou remover algo, vão chover reações maldosas, frequentemente negativas. Resista à vontade de surtar e respondê-las mudando tudo rapidamente. As chamas das paixões ardem no início, mas se você se segurar nesse período de 24–48 horas, geralmente as coisas se acalmam. […] Então relaxe, absorva tudo e não faça nenhum movimento até algum tempo ter passado. Aí você será capaz de oferecer uma resposta melhor fundamentada.

É um bom conselho.

Atualização (2/5): Segundo Casey Newton, após uma reunião geral no Basecamp na sexta (30/4), cerca de 1/3 dos funcionários se desligaram da empresa.

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  1. O Basecamp é um SaaS, ou “Software as a Service”, de gerenciamento de projetos. O Manual do Usuário usa o Basecamp para se organizar.

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8 comentários

  1. The Verge reportando que um terço dos funcionários aceitou o pacote de demissão voluntária que foi oferecido. Estimam que 18 dos 57 funcionários do Basecamp saíram.

    1. Fico imaginando que para uma empresa de menos de 60 pessoas, perder 1/3 dos funcionários afetará bastante a capacidade de entregar melhorias e novas funcionalidades nos produtos.

      O Jason e o DHH sempre falavam orgulhosamente que manteriam os produtos deles para o longo prazo, “até o fim da internet”. Esse será um momento chave para ver se isso realmente irá afetar essa promessa.

  2. “até mesmo aqueles que pareciam ter uma sensibilidade um pouco acima da média para questões delicadas do tipo, como os fundadores do Basecamp”

    Estou achando tudo meio triste, mas não tanto pelo lado dos colaboradores, mas pelo lado dos “vilões”.
    Os 2 fundadores do Basecamp são bem progressistas em vários assuntos, e por anos sempre foram vocais em questões como bem estar no ambiente de trabalho, worklife balance, exploração de pessoas pelos Ubers da vida, monopólio da Apple na loja de Apps, a selvageria no mundo do Venture Capital, open source e privacidade.

    Principalmente na questão de um ambiente de trabalho saudável, a influência deles é significativa, já que eles são o “lado do empresario”. Questões como “você não precisa trabalhar mais de 40h na semana”, “o gestor não precisa de ferramentas de monitoramento pra ver se o colaborador está mesmo trabalhando”, “você não precisa diferenciar o salário só porquê seu colaborador mora em uma cidade diferente (com custo de vida menor)” sempre foram defendidas com afinco por eles.

    E bastou um erro para o twittverse calasse a vós desses dois, não sei se pra sempre, mas com certeza por um bom tempo, pois sempre que eles deram as caras, alguém estará cobrando sobre esse episódio. É a barbárie do cancelamento fazendo mais vítimas. Se esses 2 não apresentam um comportamento moral suficiente para ser seu chefe, não sei mais que apresenta.

    1. Acho que justamente o fato de se mostrarem bem progressistas há muito tempo que deixa a coisa mais grave.
      Não é como se eles não entendessem a implicação de proibir “assuntos politicos” no ambiente profissional. É algo extremamente importante para minorias, e eles sabem disso.

      E bem, quem trabalhava lá acreditava nesse ideal. Estava lá e não numa BigCorp porque acreditava nessa proximidade.
      Quando mudam de discurso tão repentinamente e sem cogitar uma retração, quebra a confiança que haviam depositado neles.

      Eu acho que foi um movimento calculado, que sabiam da repercussão e da insatisfação que isso geraria e escolheram seguir.

      1. “Estava lá e não numa BigCorp porque acreditava nessa proximidade. Quando mudam de discurso tão repentinamente e sem cogitar uma retração, quebra a confiança.”

        Realmente concordo nesse ponto.

        Posso estar meio enviesado por acompanhar eles a tempo, ter lido 2 livro e tal. Mas só o que consigo ver é alguém que sempre propagou muita coisa boa de ética empresarial (inclusive as vezes, cortando na própria carne) estar agora queimando em praça pública.

        Pra mim, passa uma impressão de “fazer a coisa certa não compensa”. Quem deve estar rindo são os entrepreneurs que principalmente o DHH queimava no twitter por questões de relação com funcionário.

        1. É verdade isso que os empreendedores que o DHH queimava devem estar com um sorriso.

          Acho complicado. A maneira que fizeram esse anuncio levanta até questionamentos sobre quanto acreditavam no que pregavam.
          Entendo acharem que algumas discussões acabam tirando o foco, mas seria questão de um puxão de orelha no Slack mesmo, em privado.

          Fico bem curioso pra entender o contexto todo. Talvez seja uma situação bastante complexa pra essa mudança repentina. Mas é difícil não repudiar.

          1. Um funcionário do Basecamp disse que eles ficaram sabendo das novas políticas pelo blog do Jason, junto com o público externo. Entendo que discussões podem tirar o foco de uma empresa, mas a condução do Basecamp para resolver esse problema foi toda errada (e por isso, surpreendente), do começo até agora.

          2. Veja bem, eu não estou defendendo eles no episódio específico. Foi péssimo o tratamento que eles deram, inclusive com funcionários bem antigos. E relendo o primeiro post do Jason, no fim da pra ver que ele sabia que ia dar m**** e pagou pra ver.

            O que me pergunto é o que a gente (o twittverse) faz com os 10 anos que esses caras sempre tiveram “do lado bom da força”, evangelizando sobre boas condições de trabalho em empresas de tecnologia (e em grande parte das vezes, mostrando na prática). Estamos jogando no lixo, porquê depois de queimar em praça pública, duvido muito que eles voltem a ser vocais como eram.

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