Cenas de uma web que agoniza

Vi uma chamada da newsletter Platformer que me interessou pelo título (“Cenas de uma web que agoniza”) e a ilustração (prints do detestável Arc Search, que usa inteligência artificial para mastigar páginas da web e cuspir uma nova com informações surrupiadas).

Cliquei e topei com outra cena da morte da web: um paywall.

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Firefox Focus, uma alternativa mais saudável às pesquisas rápidas do Arc Search

Ícone do Firefox Focus: silhueta de raposa de fogo envolvendo um globo, com cores negativas (em relação ao ícone padrão do Firefox).

A The Browser Company fez (mais) barulho há poucos dias com o lançamento do Arc Search, um navegador web reimaginado para celulares.

Um dos seus destaques é o acesso rápido à busca: ao abrir o aplicativo (disponível apenas para iOS), a pessoa é recepcionada por um campo de busca e o teclado já expandido.

Eu já tinha visto isso em algum lugar… lembrei! Foi no Firefox Focus, um app lançado pela Mozilla em 2015.

Pode-se dizer que o Firefox Focus é um app complementar ao Firefox convencional. É para consultas rápidas e despreocupadas; nada do que é pesquisado ali fica salvo em históricos e coisas do tipo. Com um toque (ou com o tempo), todo o histórico recente é esquecido.

Outra característica bacana é a proteção contra rastreamento e anúncios invasivos, mais potente que a (já excelente) do Firefox convencional. Dá até para bloquear o carregamento de fontes externas.

O Firefox Focus não tem a inteligência artificial do Arc Search, que “lê” seis páginas do termo pesquisado e constrói uma (supostamente) melhor, mas tem três duas vantagens em relação a esse:

  1. A já mencionado proteção contra rastreamento/bloqueador de anúncios invasivos;
  2. Versão para Android; e
  3. Opções de buscadores alternativos (no Arc Search, é Google ou Google).

Atualização (12h26): Desde a versão 1.0.1, o Arc Search permite alterar o buscador padrão. As opções são limitadas, porém. (Obrigado pelo aviso, Martinatti!)

Firefox Focus / Android, iOS / Gratuito

Parece que o Nitter, front-end alternativo (entenda) e com mais privacidade do Twitter, subiu no telhado. Outras formas alternativas de acesso ao Twitter, como Fritter e Squawker, também pereceram.

Ainda existem algumas instâncias do Nitter de pé. Deve ser questão de tempo até elas caírem também.

O momento exige o reforço a um pedido que eu e muitos outros fazemos há anos: não publique somente em plataformas fechadas.

Instagram, Reddit, Twitter não são “praças públicas”, não são espaços democráticos. São locais privados, muitas vezes inacessíveis a quem não topa estar lá por qualquer motivo. Via nitter/GitHub, squawker/GitHub, Órbita.

Uma análise (PDF) feita por pesquisadores alemães constatou aquilo que suspeitávamos: os resultados da pesquisa do Google (e do Bing e DuckDuckGo) estão piorando.

A análise é limitada a produtos/“reviews”, um tipo de conteúdo mais suscetível à manipulação pelo mecanismo de recompensa óbvio, links de afiliados. Ainda assim, é válida.

Fico pensando se um buscador com curadoria humana, que restrinja os resultados a fontes verificadas, já se faz necessário. (Ou se será, com a enxurrada de lixo de IA gerativa no horizonte.) Se sim, não deixa de ser uma regressão aos tempos pré-Google, quando dois caras da Universidade de Stanford alimentavam na unha um tal de “Jerry and David’s Guide to the World Wide Web”… Via 404 Media (em inglês).

Links organizados e leituras em dia com o Linkding

Organizar as coisas que encontramos na internet nunca foi tarefa fácil. São infindáveis posts, artigos, vídeos legais, vídeos úteis, tutoriais, pendências… ufa. Com o Linkding consegui, enfim, centralizar, organizar e criar um fluxo estável para salvar links — e recuperá-los depois.

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Em 2024, ajude a divulgar o Manual

Nesta sexta (29), último dia útil de 2023, quero agradecer a sua atenção e companhia, e fazer um pedido: ajude a divulgar o Manual.

Não invisto em publicidade nem tenho um aparato de marketing estabelecido. O Manual é descoberto pelas pessoas de maneira orgânica, quando elas tropeçam em posts no Google, quando dão uma chance aos nossos vídeos e podcasts que aparecem por qualquer motivo em seus feeds.

Também, por indicações/recomendações: e-mails da newsletter encaminhadas a amigos e colegas de trabalho, conteúdo repassado em aplicativos de mensagens, links em redes sociais maiores.

Pode parecer que não — “é só mais uma pessoa”, “não tenho tantos seguidores” —, mas cada menção ao Manual em novos espaços ajuda muitíssimo. Prefiro ter 100 leitores do que 1 milhão de “visitantes”.

Em 2023, abdiquei de redes sociais comerciais numa tentativa de viver aquilo que acredito: uma internet não comercial, feita de pessoas para pessoas, longe da pressão incômoda dos algoritmos de rankeamento e de anúncios invasivos.

Com a sua ajuda, esse caminho pouco usual tem se mostrado viável. Por isso, para continuarmos esse experimento por uma internet mais saudável, peço novamente: ajude a divulgar o Manual do Usuário.

Obrigado, e um feliz 2024 para todos nós ✨

Um dinossauro contempla o fim da web

Neste episódio, eu falo dos sentimentos que tenho ao pensar no futuro da web e do experimento que tenho feito para usá-la melhor: desativando JavaScript, cookies e fontes personalizadas durante a navegação, com o auxílio de uma extensão de bloqueio de anúncios/conteúdo.

Se preferir, leia a transcrição.

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Está ouvindo pelo Apple Podcasts ou Spotify? Curta, comente, dê cinco estrelas etc. Parece que precisa disso para que mais gente conheça o podcast.

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Desde o último episódio, um leitor tornou-se assinante: Pedro Augusto Barros Lemos. Obrigado!

Um dinossauro contempla o fim da web

Em 2023, por diversas vezes me peguei pensando na web, no site do Manual e no que o futuro nos reserva.

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Clay

Ícone do aplicativo Clay para iOS: fundo preto e a palavra “Clay” escrita em branco.

Alguns anos atrás, foi moda a categoria de aplicativos “CRM pessoal”, que pega a ideia do CRM corporativo (gerenciador de relacionamentos) e a adapta às nossas relações pessoais.

O app Clay é um que surgiu naquela onda. Nessa semana, o app chegou à versão 2.0 com uma nova-velha abordagem: o mundo corporativo, com uma versão para equipes. De quebra, ganhou um banho de loja e tornou o plano pessoal gratuito (limitado a 1 mil contatos).

Com o Clay, é possível puxar interações do e-mail e de redes sociais, registrar detalhes, eventos (como aniversários) e encontros com contatos e definir lembretes para não passar muito tempo sem dar um alô às pessoas que importam em sua vida.

A empresa garante que dados de conexões e outras informações do usuário são criptografadas de ponta a ponta (política de privacidade, em inglês).

Clay / iOS, macOS, web e Windows / Gratuito (uso pessoal).

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Na terça (7), o site de conversas anônimas Omegle fechou as portas. No lugar das salas, o fundador Leif K-Brooks deixou uma longa mensagem lamentando o encerramento, que atribuiu a “ataques” contra serviços de comunicação.

A Wired descobriu que o fechamento se deve a um acordo firmado na Justiça entre o Omegle e uma vítima de abuso sexual perpetrado pela plataforma. (Eu nem sabia que o Omegle tinha virado uma espécie de Chat Roulette, com videochamadas entre anônimos.)

Essa parte ficou de fora da mensagem derradeira de K-Brooks. Talvez não fosse uma boa ideia colocar anônimos aleatórios em contato imediato e irrestrito, afinal. Via Wired (em inglês).

ogpk (opengraph peek)

Ícone do Terminal do pacote de ícones Papirus.

O protocolo Open Graph é quase onipresente na web: tags que são lidas por redes sociais, aplicativos de mensagens e outros, que se convertem em cartões mais bonitos que o link cru (subjetivo; eu prefiro links crus).

Existem diversas maneiras de verificar as tags OpenGraph. O aplicativo ogpk (de “opengraph peek”), criado por Alasdair Monk, é uma delas: com ele, é possível visualizar tais tags pelo terminal, incluindo a imagem (og:image).

A sintaxe é bem simples:

ogpk [link]

Caso queira exibir a imagem na saída, adicione o parâmetro --p, assim:

ogpk [link] --p

Também é possível criar um arquivo *.json com os resultados:

ogpk [link] --json

ogpk / Linux, macOS / Gratuito.

Se você estava ansioso para conversar com a inteligência artificial do Google enquanto tenta achar alguma coisa lá, a empresa liberou sua IA gerativa para 120 países (Brasil entre eles) em quatro novos idiomas (incluindo o português). Precisa se cadastrar aqui, esperar a aprovação, daí ativar a opção “Search Generative Experience (SGE)” e usar o Chrome e vender sua alma. Via Google (em inglês).

Todos os leiautes que o Manual já teve

Em dez anos no ar, o site do Manual do Usuário já teve alguns leiautes. Foram menos de dez, se não me falhe a memória, o que acho um bom número.

Com a ajuda da Wayback Machine, consegui resgatar todos (?) os leiautes da nossa história. Ao menos, as versões para computadores — que são sempre mais legais, pois oferecem mais espaço para trabalhar.

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Com grande orgulho e satisfação soube que, mais uma vez, o site não está entre os finalistas do Prêmio iBest. Continuarei trabalhando para manter o projeto fora da grande final.

OpenAI ensina a barrar robô sugador de sites do ChatGPT depois de sugar todos os sites

Na melhor tradição do Vale do Silício de pedir desculpas em vez de por favor, no início de agosto a OpenAI disponibilizou um documento ensinando a barrar o robô deles de acessar um site.

Ótimo, mas só agora? Depois de a empresa sugar toda a web para treinar seus grandes modelos de linguagem (todas as versões do GPT)?

Inteligências artificiais gerativas, como o ChatGPT, são, em essência, imitadores descerebrados daquilo que seus donos enfiaram no modelo. Você reúne e processa uma tonelada de conteúdo (em geral, alheio) e o robô vomita frases que aparentam (e, com frequência, fazem) sentido, ainda que incorretas ou fantasiosas.

Quem tem sites não ficou muito contente de ver seu material apropriado por uma empresa com fins lucrativos e ambições megalomaníacas, cujo objetivo é, entre outros, substituir esses mesmos sites por chatbots.

Em alguns sites muito grandes, como Reddit e Twitter, digo, X, o sucesso avassalador do ChatGPT juntou-se à ganância de executivos para servir de bode expiatório à tomada de decisões hostis aos usuários, como fechar APIs públicas e destruir aplicativos de terceiros.

A OpenAI, mais uma vez, muda de postura no momento em que tem a dianteira de uma questão sensível à concorrência do setor de IA — a mesma estratégia do seu lobby em regulação.

No documento, a empresa diz que seu “crawler” (o tipo de robô aspirador de conteúdo alheio) já filtra páginas que contêm informações pessoais identificáveis, como se isso fosse trivial ou garantido. Diz, ainda, que “permitir que o GPTBot acesse seu site pode ajudar os modelos de IA a se tornarem mais precisos e melhorar suas capacidades gerais e segurança”. Ótimo, mas para quem?

Para bloquear o crawler da OpenAI, inclua essas linhas no arquivo robots.txt na raiz do domínio:

User-agent: GPTBot
Disallow: /

Se a OpenAI vai respeitar isso? Impossível saber. Quem tem dinheiro e mais coisas em jogo não confia na benevolência de Sam Altman e companhia e, em vez disso, convocou uma legião de advogados para levar a discussão à Justiça.

É o caso do maior jornal do mundo, o norte-americano New York Times, que cogita processar a OpenAI.

Certos problemas ainda se resolvem melhor com os bons, velhos e falhos seres humanos.