A Mozilla suspendeu o recebimento de doações em criptomoedas nesta quinta (6) após receber críticas de membros pioneiros da fundação. Em resposta a um tuíte de 31 de dezembro em que a Mozilla pedia doações a detentores de criptomoedas como bitcoin e dogecoin, Jamie “jwz” Zawinski, co-fundador da Mozilla, disse que “todos envolvidos no projeto deveriam estar super envergonhados dessa decisão de se juntarem a vigaristas de pirâmides que incendeiam o planeta”. Peter Lins, que desenvolveu o Gecko, motor de renderização do Firefox, disse em seguida que concordava 100% com Jamie e que “vocês [a Mozilla] deveriam ser melhores que isso”.

Em resposta, a Mozilla suspendeu o recebimento de doações em criptomoedas, opção que existia desde 2014, e afirmou que fará uma revisão de “se e como nossas atuais políticas de doações de criptomoedas se encaixam com nossos objetivos climáticos”. A retratação não abordou as acusações de Jamie e Peter de que criptomoedas seriam esquemas de pirâmide. Via Insider (em inglês).

“É possível ‘piratear’ NFTs com o botão direito do mouse?”, pergunta Bruno Ignácio no Tecnoblog. Ele mesmo responde depois que, não, não é possível, porque embora as obras sejam arquivos digitais reproduzíveis por qualquer pessoa (expliquei aqui), “esse arquivo não possui nenhum valor e tampouco configura um ativo digital, com autenticidade garantida por um registro em rede blockchain”.

A resposta parte da premissa de que a rede blockchain é uma garantia absoluta e inquestionável de autenticidade apenas por registrar, de modo público, imutável e insubstituível, um certificado de autenticidade — que, sabemos, é um emaranhado de códigos que não tem muito a ver com a obra em si e que está sujeito à manutenção do servidor/da blockchain onde foi registrado.

Em momento algum essa premissa extremamente frágil é questionada, ainda que sejam dadas algumas pistas ao(à) leitor(a) mais atento. Por exemplo, Bruno reconhece que NFTs não têm respaldo legal e que podem ser exploradas por qualquer um, ou seja, a falta de regras dos criptoativas permite que alguém se aproprie do trabalho alheio e o venda como NFT. Parece maluco, mas já aconteceu.

“Se um caso desses chegar a justiça, por mais confuso que seja, o autor terá mais chances de provar a posse e autoria do arquivo, algo que não muda por um simples segundo clique do mouse”, escreve ele, sem explicar a parte “confusa”. Há jurisprudência nesse sentido? De que modo, juridicamente falando, a posse de um NFT ajudaria num caso desses?

Aqui, na minha ignorância (porque custo a entender essa bobagem), a pergunta a ser feita não seria a do título do artigo, mas sim por que alguém iria querer piratear um NFT — NFT que, reforço, não tem nada a ver com a obra em si, mas se trata apenas de um emaranhado de código colocado numa blockchain e que, só por isso, atribui “propriedade” e tem “valor”, segundo as pessoas que acreditam em NFTs. Sigo sem resposta. Via Tecnoblog.

As autoridades máximas de regulação financeira e ambiental da Suécia pediram, em carta aberta, para que a União Europeia proíba a mineração de criptomoedas que operam na lógica de “proof of work”, como bitcoin e ether, a fim de que as metas do Acordo de Paris sejam atingidas pelo bloco continental.

Entre abril e agosto deste ano, o aumento no consumo energético na Suécia para minerar criptomoedas foi de “várias centenas de por cento” e já equivale ao consumo energético de 200 mil casas, escreveram na carta Erik Thedéen, diretor da Autoridade Supervisora Financeira da Suécia, e Björn Risinger, diretor da Agência de Proteção Ambiental do país.

O aumento se explica por dois fatores. Primeiro, o banimento da mineração na China, que era um polo de “produção” de cripmoedas. Segundo, pela farta oferta de energia renovável a preço baixo dos países nórdicos.

A reclamação da Suécia põe em xeque um argumento comum dos pró-criptomoedas, de que não há problema no consumo excessivo de energia desde que ela venha de fontes renováveis. Erik e Björn explicam que a mineração representa um “custo de oportunidade”, pois a energia que poderia ter usos na indústria, em transportes ou doméstico é desviada para o bitcoin e outros criptoativos. Via Euronews (em inglês).

Ainda estou esperando alguém que me convença de que criptomoedas só servem para ilicitudes e especulação. Enquanto isso, os exemplos que reforçam essa opinião seguem se acumulando.

A história do ex-garçom Glaidson Acácio dos Santos, da GAS Consultoria Bitcoin, do Rio de Janeiro (RJ), é inacreditável. Em seis anos, ele movimentou R$ 38 bilhões em um esquema de pirâmide que prometia retornos surreais aos “investidores”. Metade desse valor, R$ 16,7 bilhões, foi movimentada em apenas 12 meses. Via O Globo.

Para colocar isso em perspectiva, se esse montante fosse classificado como receita (são coisas diferentes, eu sei), a GAS Consultoria Bitcoin estaria entre as 50 maiores empresas do Brasil em 2020, segundo o ranking Valor 1000.

Apesar do uso do bitcoin como fachada para enganar os “investidores”, Glaidson era, pessoa física, investidor da criptomoeda: ele chegou a colocar R$ 1,2 bilhão na Binance em troca de 4,6 mil bitcoins. Via O Globo.

Em Axie Infinity, a diversão é ganhar dinheiro

por Paula Gomes

Quando meu cunhado me ligou, em uma manhã de sábado, perguntando se eu queria “ganhar dinheiro jogando”, achei que fosse um meme recente, alguma piada perdida no feed algorítmico do Twitter. Não era. Ele tinha acabado de ler uma matéria sobre o jogo Axie Inifinity que o deixara empolgado.

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O delírio dos NFTs nos levará ao fim do mundo

Fosse vivo hoje, Walter Benjamin teria muito o que pensar e escrever a respeito da digitalização da cultura, de serviços como os de streaming e dos vários modelos de negócio que gravitam a arte, como os NFTs. Na ausência do pensador alemão do século XX ou de alguém mais capacitado, você terá que se contentar comigo, um mero observador sem o talento nem o conhecimento de Benjamin, para tentar entender esse último, o NFT, sigla em inglês para token não-fungível, a grande sensação ou fraude do mercado em 2021, dependendo a quem você pergunte.

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Após anos de estudo, acredito que criptomoedas são uma tecnologia inerentemente de direita, hiper-capitalista, construída principalmente para ampliar a riqueza de seus proponentes através de uma combinação de evasão fiscal, relaxamento da supervisão regulatória e escassez imposta artificialmente.

— Jackson Palmer, cofundador da Dogecoin.

No Twitter, Jackson escreveu uma respostas aos constantes questionamentos a respeito do seu retorno ao mundo das criptomoedas. “Um ‘não’ do fundo do coração”, escreveu antes de detalhar os motivos.

Nós meio que destruímos a cadeia de suprimentos [de HDs e SSDs] a curto prazo.

— Gene Hoffman, presidente da Chia Network.

A confissão acima é do presidente da Chia Network, uma criptomoeda criada por Bram Cohen (que criou o BitTorrent) que promete ser mais “verde” que o bitcoin por trocar o sistema “proof-of-work” (PoW), que depende de cálculos computacionais complexos (e sem outra utilidade) para validar transações, por um de “proof-of-space”, que usa o espaço ocioso em disco de computadores para o mesmo fim — quanto mais espaço disponível, maiores as chances de ser recompensado com moedas.

A Chia causou uma corrida por HDs e SSDs. Estima-se que 12 milhões de terabytes estejam sendo usados apenas para isso, o que tem esgotado estoques e elevado os preços, um fenômeno similar ao que as criptomoedas de PoW têm causado no mercado de placas de vídeo. Via New Scientist (em inglês).

O Banco Central (BC) anunciou que estuda a criação de uma moeda digital para o Brasil. Diferentemente do bitcoin e outras do tipo, ela seria emitida pelo próprio BC, teria paridade com o real (ou seja, não se valorizaria livremente) e seu uso seria mediado pelos bancos.

Fabio Araujo, que coordena esse trabalho, disse que se trata de um “novo mecanismo de provisão de liquidez”, mas estou tendo alguma dificuldade para entender o que essa moeda digital traria de novidade prática à mesa. Para muita gente, o real já é, de certa forma, digitalizado, não? Via Valor Investe.

O Ethereum, blockchain aberta mais popular do mundo, mudará nos próximos meses o seu método de validação, do Proof-of-Work (PoW) para o Proof-of-Stake (PoS). Na prática, isso significa que a nova versão do Ethereum consumirá, segundo estimativas grosseiras, 99,95% menos energia que no modelo atual — em vez de consumir a energia equivalente a de um país médio, o consumo energético será o de uma cidadezinha com 2,1 mil casas. Via Fundação Ethereum (em inglês).

No PoW, a validação das transações é feita com força bruta computacional. Na PoS, a validação feita pelos nós depende da posse de uma quantidade de moedas — para um deles fraudar a blockchain, precisaria possuir mais moedas do que ganharia com a fraude. A Wikipédia em português traz uma boa explicação.