Aguentei o Apple Watch por quatro meses

Foto do Apple Watch Series 10 no braço levantado, exibindo o horário 17h39.

Considero-me uma pessoa decidida, embora tenha meus pontos fracos. Gastos substanciais, como o de dispositivos eletrônicos, são sempre uma novela. A do Apple Watch durou alguns anos.

No final de 2025, foi ao ar um capítulo especial com uma grande reviravolta, típica dos melhores novelões. Sem pensar muito, procurei pelo Apple Watch Series 10 mais barato no varejo. Comprei. A minha lógica foi aproveitar a “entressafra” de versões e a desvalorização do modelo anterior, uma boa estratégia neste ano em que o recém-lançado Series 11 trouxe pouquíssimas novidades.

Caixa de 46 mm, cor rosa dourado, pulseira esportiva branca. Comprado. Alguns dias depois, o relógio apareceu em casa. Com outra pulseira, uma loop esportiva roxa. Acabei ficando com ela porque os modelos com a outra que havia pedido estavam em falta. Foi a entressafra…

A novela teve seu (possível?) capítulo final, um abrupto, no último dia 20 de abril, quatro meses após o início da fase em que passei a usar um Apple Watch.

Já vinha pensando há algum tempo, provavelmente desde o primeiro dia, os benefícios dos dados e funcionalidades em relação às desvantagens de um trambolho grudado no meu pulso 24 horas por dia. Então, um incômodo na região de contato do relógio com a minha pele virou uma queimadura leve em uma sessão normal de musculação e elíptico. Foi a gota d’água.

Detalhe de pequena queimadura no pulso, na região onde a caixa do Apple Watch entra em contato com a pele.
Levou uns cinco dias para a queimadura sumir. Foto: Rodrigo Ghedin/Manual do Usuário.

***

Antes do Apple Watch, tive uma pulseira fitness por uns dois ou três anos. Era a Huawei Band 8 (ou 9?). Achava-a ótima, exceto pela ausência do sensor de luminosidade para ajustar o brilho automaticamente. Ao ar livre, em dias ensolarados, eu tinha que navegar pelos menus para subir o brilho ao máximo antes de sair de casa, ou não conseguiria enxergar o que aparecia na tela.

Era isso e… bem, era o único problema notável. O sistema era meio lento e o aplicativo de sincronia, o Huawei Health, pavoroso, problemas circunstanciais que aquele capetinha no meu ouvido inflava ao tentar me convencer a trocá-la por um Apple Watch. Resisti por anos, até que cedi.

Na maioria das comparações o relógio da Apple se sobressai em relação à pulseira da Huawei. Eu sei, é uma comparação meio estúpida de se fazer, visto que o relógio da Apple custa dez vezes o que paguei na pulseira da Huawei.

Além do software mais fluído e mais bonito — cheio de animações suaves, pequenos toques elegantes e outros detalhes —, descobri muitas diferenças ao usar o Apple Watch que me agradaram. Das óbvias, como fazer pagamentos encostando-o em maquininhas de cartão, aos menos comentados, como o desbloqueio automático do MacBook ao me aproximar do notebook.

Até a Siri, a coitada da Siri, passou a ser mais acionada. Tudo bem que para fazer as mesmas coisas que já pedia pelos AirPods — ativar timers, pausar o podcast ou música que estiver tocando —, só que agora usado mais vezes, em outros contextos. (Por exemplo, intervalos em exercícios na academia.)

Vale notar também que o apreço da Apple pelos materiais de alta qualidade se mantém no Apple Watch: caixa de alumínio, vidro resistente, tela OLED super brilhante, sensores protegidos por cristal de safira. A pulseira loop esportiva é gostosa de usar.

Não me adaptei muito aos aplicativos do watchOS. Mesmo usando o chip mais moderno da Apple para relógios, tudo é mais lento que o ideal, de modo que vejo com frequência o ícone do app que acabei de abrir no centro da tela com uma rodinha de “carregando…” em volta. Até no do app do timer, que achava (e talvez seja) dos menos exigentes.

Somada à pouca utilidade dos apps específicos, a lentidão me levou a remover todos os apps possíveis. Pelo lado positivo, nenhum deles me prometia vantagens (quaisquer que fossem) em relação às suas versões no celular. Em paralelo, para muitos casos as notificações (e-mails críticos) e os cartões dinâmicos (tempo de espera de um carro de aplicativo) já resolvem.

Gostei de ter, no pulso, os lembretes de medicamentos do Apple Saúde, a que recorro para monitorar a ingestão dos de uso contínuo, e o de ruído, que valida a minha teoria de que o mundo é barulhento demais. São, como você deve ter concluído, vantagens mínimas, quase curiosidades.

***

Relendo o que escrevi até agora, fiquei com a sensação de uma avaliação neutra, pendendo para a negativa. O que bate com a minha percepção mais ampla, com o que vem à cabeça quando penso no relógio no meu pulso.

O Apple Watch me vem à cabeça mais do que eu gostaria. Ora pelos vergões (e a fatídica queimadura) no local onde as luzes dos sensores atingem a minha pele, ora pela mera presença dele, difícil de esquecer pois um relógio grande.

A escolha pelo modelo de 46 mm contrariou o meu padrão na compra de dispositivos com tela. Exceto pelo monitor externo, sempre escolho a versão fisicamente menor. Dessa vez, deixei-me levar pela preguiça: em vez de experimentar os dois tamanhos da caixa num shopping ou outro lugar do tipo, recorri a guias suspeitos da web que indicam o (suposto) tamanho correto da caixa do relógio de acordo com a circunferência do pulso.

É grande, mas acho que era o modelo certo. Imagino que o de 42 mm ficaria comicamente pequeno em mim. Qualquer que tivesse sido a minha escolha, o Apple Watch sempre será maior que a minha única referência recente, a pulseirinha da Huawei, que nunca me incomodou.

Acho que há espaço para uma “Apple Band”. Eu usaria.

Outra dificuldade que sinto no vestir é em acertar o fecho da pulseira. A loop esportiva usa velcro, o que expande as possibilidades, mas transforma a descoberta da ideal — nem apertada, nem frouxa — em um jogo de sorte.

Comprei também umas genéricas de silicone (ou borracha), com buracos para prender o fecho. São horríveis e entre buracos limitados, não encontrei um que me vista confortavelmente.

Fato é que o Apple Watch virou um incômodo físico. Sempre se fazendo sentir, chamando a (minha) atenção. Ao tirá-lo do pulso no último dia 20, senti um alívio tremendo que, a princípio, associei também à redução significativa da geração e coleta de dados biométricos. Pensando melhor alguns dias depois, acho que o alívio é total de não ter o relógio no braço. Sinto-me mais leve, física e psicologicamente.

***

E para que servem tantos dados, afinal? A empolgação inicial, de ter tantos disponíveis e dos “insights” derivados deles, foi se dissipando lentamente. Nas últimas semanas, prestava atenção somente aos de atividades aeróbicas (durante a prática) e aos do sono.

Existe uma linha tênue entre ter tais dados biométricos como referência ou como senhores de nós. Tenho a sensação de que as empresas jogam sujo para nos manter servos do relógio, com pontuações mágicas — 0 a 100 na “qualidade do sono”, “carga de exercício”, “bateria corporal”. (Não surpreende que os tontos da Faria Lima estejam fascinados e competindo por métricas do sono.)

Perguntei ao dentista da vez tentando me ajudar com o bruxismo se ter um desses relógios para monitorar a os estágios do sono seria útil. “Não muito”, ele me respondeu. A própria Apple endossa essa opinião, com várias notas de rodapé no site oficial do Apple Watch avisando que os recursos de saúde “não se destinam ao uso médico e deve ser usado apenas para fins de bem-estar”. Por motivos fisiológicos e óbvios, sensores no pulso jamais se equipararão ao refino dos múltiplos eletrodos grudados na cabeça em uma polissonografia.

Selfie de homem de óculos e blusa clara de lã, com fita adesiva e fios cobrindo quase toda a cabeça.
Meio difícil dormir assim.

Ainda assim, é uma aproximação boa o bastante e o Apple Watch, nesse sentido, é dos melhor cotados na aferição dos dados. A questão incômoda, que a tecnologia falha em responder, é: “Para quê?”

Para não dizerem que rejeito a modernidade, redescobri os exercícios aeróbicos graças ao monitoramento em tempo real da frequência cardíaca. Esse sinal me ajuda a dosar a intensidade, o que é útil para estender uma sessão ou pegar mais pesado em momentos específicos. É difícil voltar a tais práticas sem nada no pulso, mesmo que a tela de dados pós-exercício seja, para mim, mera curiosidade.

A falta de motivos concretos para me ater a tais dados é o que joga contra.

Sou um homem saudável próximo dos 40 anos. Com um tiquinho a mais de massa de gordura que o ideal, sem condições crônicas (fora a enxaqueca) e que faz exames de rotina com regularidade e outros sempre que solicitado, os quais nunca apresentaram alterações significativas. Com esse perfil, não consigo imaginar — creio que os médicos tampouco — no que todos esses dados coletados o tempo todo me ajudariam. E, não, o marketing terrorista da Apple não me convence. Pelo contrário, acho repulsivo.

O desconforto físico e a cristalização desse raciocínio em relação aos dados biométricos me transformaram naquele cãozinho do meme “qual a necessidade disso?”

***

A publicidade, aliás, tem uma força descomunal porque suas vítimas a julgam inofensiva. Todos concordam que ela é persuasiva, mas ninguém se assume suscetível a um comercial instigante com gente jovem e saudável correndo com o Apple Watch™️ no pulso.

Pois bem, eu assumo: fui vítima da publicidade. Da Apple, dessa atmosfera obsessiva com atividades fitness, das pessoas que vendem números como sinônimo de saúde. Tive que ver (e ser queimado) eu mesmo para reconhecer que caí em um grande golpe.

***

Desde 20 de abril, tenho usado o Apple Watch apenas para a prática de exercícios e para dormir. Nos últimos dias, deixei ele no carregador antes de ir para a cama.

O Apple Saúde, aplicativo que concentra os dados do Apple Watch, dia desses reclamou de “alterações nas tendências de saúde”, por exemplo, uma queda acentuada no gasto calórico (de 451 por dia em média para 83).

É óbvio que houve uma queda, afinal não estou usando o relógio. O Apple Saúde sabe disso porque o relógio funciona conectado ao celular e à nuvem da Apple, e ainda assim achou uma boa me avisar dessa preocupante descoberta como se eu não fosse capaz de notá-la sozinho.

Acho graça dessas notificações. Primeiro pelo ridículo da situação. Segundo — e mais importante — porque, mesmo sem querer, elas explicitam que aquele caminhão de números é uma representação do relógio a partir do que ele consegue capturar de mim, e não do meu corpo. Há uma diferença importante aí. O meu corpo continuou queimando aquele tanto de calorias de quando estava com o Apple Watch no pulso, talvez até mais, ou menos… Nem entrei nesse mérito, mas como saber se tais dados são fidedignos à realidade?

Diante dessas conclusões, agora me pergunto se vale a pena manter este caro acessório inteligente para usá-lo duas ou três vezes por semana, em períodos de no máximo uma hora. Soa quase a uma pergunta retórica, só que não porque existe o caminho alternativo de repassar o Apple Watch a alguém que fará melhor uso e voltar à pulseirinha tosca da Huawei para momentos pontuais, quando quiser saber a minha frequência cardíaca em tempo real. Alguém sabe em que versão ela está?

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6 comentários

  1. Sempre usei relógio. Creio que isso ajuda no hábito de ter algo no pulso. Não sei se é o seu caso. O Apple Watch eu usei inicialmente de 2017 até 2023 em 2022 a bateria começou a ficar ruim e já estava muito lento – parei de usar (um Watch 2 42mm). Voltei por recomendação do cardiologista (agora um Ultra 2). Segundo ele é excelente para detectar fibrilação atrial e pode detectar problemas que passariam despercebidos – até assintomáticos. Claro, não substitui os exames normais – é “uma prevenção a mais que se vc puder usar, ótimo”. O filet mignon dele são esses alertas preventivos – pessoas já foram salvas por conta disso.

    Desliguei notificações dos tais círculos e 90% das outras pra não ser importunado tb.

    Obs: vendo suas fotos, seu pulso parece pequeno pro 46mm – eu pegaria um de 44mm. E parece uma dermatite de contato e não uma queimadura, provavelmente pelo suor e atrito.

    1. A última vez que usei relógio regularmente foi na adolescência, hehehe. O Apple Watch Series 10 não tem caixa de 44 mm. É 42 ou 46. De qualquer forma, talvez o de 42 mm ficasse melhor mesmo.

      Faz sentido ser dermatite! Embora, nesse caso específico, ainda ache que foi uma queimadura. Não dá para ver na foto (não consegui fazer uma macro mostrando em detalhe) a mini-bolha na parte mais avermelhada.

      Irritação e as outras marcas são frequentes, mas essa bolinha, que levou dias para sumir, foi a primeira vez.

      O filet mignon dele são esses alertas preventivos – pessoas já foram salvas por conta disso.

      Essas notícias, ao menos em mim, tentam reforçar uma percepção enviesada. A quantidade de pessoas salvas pelo Apple Watch, comparada a das que usam o relógio, é ínfima — tanto que esses casos viram notícia. Existe outra métrica, menos comentada, de pessoas indo ao pronto atendimento por falsos-positivos. E, embora eu reconheça que é melhor prevenir que remediar, eu meio que não preciso desse incentivo porque, como disse no texto, já faço exames de rotina regularmente.

      Não me incomodaria em ter esses eventuais alertas se o resto da experiência com o relógio não fosse tão incômoda.