Usando o Android 9 “Pie”

Easter egg do Android 9 "Pie" exibido em um Motorola One.

Fazia um tempo que não usava um celular Android sem modificações de fabricantes, aquele “puro” concebido pelo Google. Aproveitei os testes com o Motorola One para ver, de perto, os destaques e novidades do Android 9 “Pie”, a última versão do sistema mais usado do mundo.

O Android 9 foi lançado em agosto de 2018, mas na data da publicação desta matéria ele ainda é um espécime raro na natureza selvagem graças ao descaso generalizado característico das atualizações do sistema do Google — somente agora, em fevereiro de 2019, o Galaxy S9 está recebendo a atualização, por exemplo. Regra geral, novas versões do Android não chegam aos aparelhos de entrada e a vários intermediários e, mesmo naqueles agraciados a espera pela atualização pode ser longa, como demonstra o topo de linha da Samsung.

O Motorola One, sendo integrante do programa Android One, não sofre desse problema.

Pouca coisa mudou no Android desde o grande redesenho da versão 5 “Lollipop”, em 2014. Em vez de reinventar a roda, o Google tem iterado em cima daquele projeto inicial que marcou o lançamento do Material Design, sua linguagem visual. Isso é bom, primeiro porque a base é boa, sólida; segundo porque a consistência ao longo dos anos ajuda a manter a familiaridade da interface ao usuário (ignoremos, aqui, as interferências das fabricantes). Sem demandas urgentes ou grandiosas, é possível focar em pequenos refinamentos que, de outra forma, seriam deixados de lado. O Android 9 “Pie” é mais ou menos isso: um trabalho de refinamento.

Comparado ao Android 8 “Oreo”, o que se destaca visualmente na nova versão são os elementos mais arredondados, como as notificações e ações rápidas da cortina e diversos ícones espalhados pelas telas de configurações, visual mais colorido. Novamente, e isso é uma constante aqui, nada muito dramático, capaz de confundir alguém que acorde um dia com o seu celular atualizado.

Prints da cortina de notificações, tela de configurações e tela de aplicativos recentes.
Elementos arredondados e mais cores no Android 9 “Pie”.

O Google investiu muito em inteligência artificial nesta versão, mas confesso que não é fácil detectar esses recursos em ação no dia a dia. Encontrei alguma coisa nas configurações, como a “bateria adaptável”, que promete cortar o fornecimento de energia para apps que não uso com frequência, porém não saberia dizer até que ponto é útil. Provavelmente ajuda — tanto que a Apple também usa esse expediente para melhorar a autonomia do iPhone. De qualquer maneira, recursos do tipo, que otimizam o funcionamento do sistema nos bastidores e se apresentam discretamente (se muito) ao usuário, são bem-vindos, afinal, não adianta ter zilhões de novos recursos se o sistema ficar pesado ou drenar rapidamente a bateria, certo?

Das novidades mais, digamos… perceptíveis do Android 9 “Pie”, gostei do novo controle de volume dos botões físicos, que agora aparece ao lado da tela, perto dos botões físicos, e sempre mexe no volume de mídia — embora tenha ficado surpreso que existam quatro volumes distintos no sistema —; a nova ferramenta de print, parecida com a também ótima do iOS 11, mas que fica devendo ferramentas de desenho livre; e com a seleção de texto, que não é tão boa quanto a que o 3D Touch possibilita em alguns modelos de iPhone, mas enfim ganhou uma lupa para ajudar na hora de selecionar aquela letra “l” no final de uma palavra que ficou de fora da seleção inicial.

Print do novo seletor de volume do Android 9 "Pie", à direita da tela.
O novo seletor de volume.
Texto sendo selecionado no Android 9 "Pie" com a ajuda da lupa.
Fica mais fácil selecionar texto com a ajuda da lupa.

As ferramentas de bem-estar digital são muito completas e podem ser bastante agressivas. O modo Relaxar, quando ativado, por padrão deixa a tela do aparelho em preto e branco e esconde todas as notificações, por exemplo. O timer dos apps, quando extrapolados, também tiram a cor do ícone e oferece mais atrito para ser desativado — é preciso tocar em um “Saiba mais” no popup e se embrenhar nas configurações para restabelecer o acesso ao app. Se a ideia é conscientizar o usuário de que ele está usando um Instagram da vida além do que pretendia, faz sentido dificultar que ele burle os limites pré-estabelecidos.

O Android do Motorola One vem com a barra de navegação tradicional, composta por três botões virtuais, mas dá a opção de trocá-la pela navegação por gestos. Essa nova maneira de interagir com o Android foi muito criticada desde quando surgiu nas primeiras versões de teste do sistema, e há fundamento na recepção fria. Alguns gestos, como deslizar entre os apps abertos com arrastando o botão central para os lados, são esquisitos, e o caminho até a gaveta de apps, aquela tela onde todos os apps instalados aparecem, fica mais distante — em tese, basta um longo deslize de baixo para cima, mas ele precisa ser tão longo que você acaba se conformando em fazer dois gestos para chegar até ela. Melhor continuar com o sistema antigo, por ora, que vem ativado por padrão.

Detalhe da tela exibindo o sistema de navegação por gestos do Android 9.
Detalhe da barra de navegação por gestos do Android 9 “Pie”. Foto: Rodrigo Ghedin/Manual do Usuário.

Algo que senti no Motorola One e já havia reparado no Galaxy S9 também, o que me leva a concluir se tratar de algo do sistema, e não dos aparelhos, é como a interface de toque na tela parece mais… “escorregadia”. Deve ser algo deliberado, pois só isso justifica esse comportamento com aparelhos tão rápidos e bem resolvidos como os existentes hoje. Sempre que rolo uma tela, seleciono um texto ou puxo a cortina de notificações, entre outras ações, é como se houvesse um micro atraso na resposta, que não parece ser por incapacidade do hardware, mas sim por uma tentativa de tornar o movimento mais natural. Provavelmente é questão de costume — há anos uso iPhone como celular pessoal e, nele, a resposta ao toque é mais imediata.

O Google executou muito bem algumas ideias originais no Android 9 “Pie” ao mesmo tempo em que fez adaptações e concessões ao mercado e ao comportamento dos usuários, como o suporte ao entalhe na tela dos celulares modernos. Não há tantas novidades práticas como as versões imediatamente anteriores. Talvez você não fique tão empolgado com seu celular quando ele receber a atualização ou você trocar por um que venha de fábrica com o Android 9 “Pie”, mas pode ter certeza de que, nesse dia, estará com um aparelho um pouco melhor na mão.

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8 comentários

  1. Eu usei o Pie “puro” em alguns aparelhos, como o Xiaomi Mi A2, A2 Lite, A1, Google Pixel 2 XL e Oneplus 5t (não nessa ordem). Eu gosto do bem estar digital, e da opção de troca rápida de apps via gesto, coisa que já usava no botão multitarefa antes. De resto, meio que não gostei dos gesto. Já usava do simbiam se não me engano, e no BBOS, usei no iPhone, agora no Android, e apesar de legal muitas vezes acho chato, muito mais fácil tocar numa área pequena na tela para ‘voltar’ do que arrastar o dedo por mais tempo e numa área maior. Provavelmente é questão de costume.
    Mas se tem algo que eu odiei, do fundo da minha alma, foi o brilho adaptativo que não permite desativar. Puta negócio chato, esta metade do brilho que era antes, preciso colocar mais da metade da barra para estar abaixo do que eu usava antes, que era menos da metade da barra. E isso é em todos os aparelhos. Facilitam em uma coisa, pioram em outra.

  2. Eu como ex-usuário de Android puro (RIP Nexus 4), considero ele bastante… Capado.

    Muitas funções básicas que você encontra nativamente em outras UIs, como as da Samsung e da Xiaomi, acaba tendo que buscar em um app separado no puro. E, normalmente, as soluções externas são meia boca e carregam mais o aparelho em segundo plano do que as nativas.

    Na época do Nexus, mesmo, precisava usar apps separados pra funções que qualquer Galaxy e Moto já tinha, como ligar a tela com toques ou por movimento. Bem fraco comparado aos recursos nativos das concorrentes.

    Além disso, o hardware e software da maioria dos smartphones evoluiram bastante, tanto em especificações como na otimização das interfaces. Então, dá muito bem pra um aparelho mais de entrada rodar uma MIUI da vida sem engasgar, e muito mais completa que o Android Puro.

    1. Ele é capado. Antigamente ele era rápido, durava mais, permanecia mais tempo estável. Hoje uma modificação de fábrica acaba sendo tão rápida senão mais, mais estável e com funções excelentes, como a Oxygen OS e a MIUI. Tenho um nexus 4 até hoje, e nenhum aparelho da mesma idade apresenta igual fluidez de fábrica exceto o Moto X 2013 (sendo que o Nexus 4 é de 2012). Agora pega um Pixel 1 com Android Pie e compara a um oneplus 3, Mi Mix, Mi5s. Todos estão ok, mas um Mix ou oneplus apresentará mais funções e será até mais estável. MIUI tem bugs, assim como a Oxygen mas também como o Android One e o puro do Google, mas vejo uma gestão de bateria e ram melhor nas modificações do que no próprio Android “puro”. Por isso preferi um oneplus do que um Pixel, mesmo perdendo em câmera, já tenho todo o resto. Talvez se a Google lançar um Pixel 4 com no mínimo 6 gb de ram eu compre, caso contrário não tá valendo a pena

  3. Já vi algumas reclamações ao navegação por gestos mas eu uso e acho muito bom mesmo. O que mais uso é justamente o fato de arrastar e trocar de aplicativo rapidamente, também funciona bem se arrastar e segurar, fica mais fácil para encontrar o aplicativo desejado.

    No meu caso pelo menos, o Bem-estar mostra que 4 aplicativos ocupam cerca de 70% do meu dia a dia. Então faz sentido para mim ter uma forma fácil (para mim) por gestos de alternar entre eles.

  4. E aí Rodrigo, tudo bom?
    Não pude deixar de reparar nos seus aplicativos. Vi um ícone do buscador do DuckDuck Go e do Firefox e deduzi que você seja uma pessoa engajada com a sua privacidade. Em que “nível” está a sua neura? Rsrs… Você chegou a desativar a coleta de dados do Google (localização, pesquisa, etc…)? Já usei meu celular por algum tempo com estas restrições e senti uma perca de algumas funcionalidades do sistema (previsões de tempo de deslocamento, notícias pertinentes, etc). Fala um pouco sobre a sua experiência a respeito :)
    Além disso, acho que caberia uma matéria falando sobre as principais ferramentas de privacidade que podemos dispor no computador/celular/tablet!

    1. Oi Patrick!

      Eu sou bastante preocupado com privacidade online e tento trazer essa preocupação para a pauta do Manual.

      Sim, desativo tudo o que posso do Google e não fico logado em minha conta Google em nenhum dispositivo. Também uso equipamentos da Apple, o que facilita essa desvinculação do Google, ainda que parcialmente — de apps de terceiros que recorrem a APIs do Google, por exemplo, não tenho como fugir.

      Aqui mesmo no blog, relatei como reduzir a dependência do Google. No relançamento do site, firmei um compromisso público de não recorrer a ferramentas do Google no desenvolvimento do site. De cabeça, é o que me lembro.

  5. Uma das (poucas) coisas que eu acho bonito na Material Design do Android são esses ícones circulares dos apps. Eu achava horrível aqueles ícones, das versões passadas, que eram de diversos formatos e tamanhos, sem nenhum tipo de padronização.

    Ainda não tá perfeito, mas tá mais harmônico.

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