Motorola One visto de cima.

Uma olhada no Motorola One, o primeiro celular com Android One do Brasil


11/2/19 às 11h28

No Guia Prático #165, disse que o Motorola One havia sido um dos melhores produtos lançados no Brasil em 2018 mesmo sem nunca ter mexido em um. Sim, sim: sei que é o tipo de declaração arriscada. Em minha defesa, além de ter lido várias análises dele, seu grande destaque é ser parte do programa Android One, que garante atualizações regulares do Android por três anos. Qual smartphone Android recebe atualizações por tanto tempo? Pois é, nenhum — com exceção dos Pixel, do próprio Google. Agora, após passar duas semanas com um Motorola One, posso dizer com mais segurança que ele foi, sim, das melhores coisas que apareceram no nosso mercado ano passado. Não só: mesmo meses após ter sido lançado, ele ainda é uma compra recomendada.

Fosse o único critério desta análise a originalidade do design, o Motorola One seria massacrado. Ele é muito parecido com o iPhone X: o entalhe, as bordas, o acabamento em vidro na parte de trás e até a posição da sua câmera dupla remetem ao celular da Apple. Mas tudo bem. A gente releva isso. Justamente por ser uma cópia quase perfeita de um aparelho que é bonito, este também é bem apresentável.

O critério que importa aqui é o sistema atualizado. O Android One é um programa que o Google oferece às fabricantes em que atualizações regulares por três anos é a principal exigência. Durante o meu uso, esta unidade já estava rodando o Android 9 “Pie” e recebeu o pacote de correções de janeiro do Android. Em outras palavras, seu suporte é como o de todo iPhone lançado desde 2013 e como deveria ser com qualquer celular posto à venda.

O Android One não impede totalmente intervenções da fabricante. Neste caso, temos as interferências já tradicionais da Motorola, como o Moto Tela e os gestos para abrir a câmera e ligar a lanterna. Todas muito bem-vindas, aliás.

Pouparei comentários do Android porque eles estão em outro texto.

Do Motorola One, é importante ressaltar que a experiência de uso é ótima. O aparelho foi mal recebido por boa parte da imprensa especializada por estar equipado com um chip Snapdragon 625, lançado no final de 2016.

A escolha por um componente crucial relativamente antigo poderia ser um problema — e talvez vire um se futuras versões do Android saírem mais pesadas que a atual —, mas, hoje, o conjunto, complementado por 4 GB de RAM, não apresenta engasgos ou travamentos no uso. Os aplicativos abrem rapidamente, a alternância entre eles também não te deixa esperando, tudo funciona como deveria.

Havia componentes melhores à disposição da Motorola? Sim. Em testes sintéticos, o Snapdragon 632, que equipa três dos quatro recém-anunciados celulares da família Moto G7, é 47% mais rápido em cada núcleo e 9,4% mais rápido no uso dos oito núcleos simultaneamente que o chip presente no Motorola One (625, 632, nos testes com o Geekbench 4.3). E há também eventuais ganhos de eficiência energética derivados dos avanços no projeto do chip e de tecnologias de fabricação mais modernas, mas o Snapdragon 625 é um chip reconhecidamente econômico nesse departamento.

Em resumo, não é como se o consumidor estivesse sendo enganado e levando uma peça de museu para casa, ou na iminência de ver seu novíssimo celular transformado em um peso de papel. A escolha pelo Snapdragon 625 não desabona em absolutamente nada o conjunto da obra: o consumidor que levar para casa um Motorola One terá uma boa experiência. Afinal, é isso o que deveria importar, não?

Detalhe da tela exibindo o sistema de navegação por gestos do Android 9.
A tela é boa, mas poderia ser um pouquinho mais brilhante. Foto: Rodrigo Ghedin/Manual do Usuário.

Da tela, que também foi alvo de críticas dos especialistas, novamente considero as críticas injustas. Ok, poderia ser um pouquinho mais brilhante para melhorar a visibilidade ao ar livre, debaixo de Sol. Mas o suposto maior problema alardeado por aí foi a resolução da tela. Acredite em mim: não há nada errado com ela.

Em termos estritamente numéricos, a resolução é relativamente baixa: trata-se de uma tela de 5,9 polegadas com 720×1520 pixels, o que dá uma densidade de 287 pixels por polegada (PPI). Esses números, comparados aos do Galaxy S9 (5,8″, 1440×2960 pixels e 570 PPI), podem parecer insuficientes, mas a olho nu é impossível notar serrilhados ou qualquer perda de definição devido a uma suposta baixa resolução. Qualquer tela com densidade de pixels em torno de 300 PPI é suficiente ao olho humano. Se é que existe algum efeito colateral nessa “baixa” resolução, ele ocorre na bateria, que acaba beneficiada pelo fato de que o chip gráfico precisa gerar menos pixels com uma resolução menor, consumindo menos energia. Um bom efeito colateral, pois.

Embora não tenha feito testes detalhados, a bateria se comportou de acordo com o que se espera de qualquer aparelho convencional, ou seja, aguentar um dia inteiro fora da tomada. Ela conta com uma tecnologia de carregamento rápido e a Motorola manda um carregador compatível na caixa, o que é bem legal. Também vem uma capinha transparente no pacote, tendência de marcas chinesas que começa a pegar no Ocidente. E na contramão do mercado como um todo, a Motorola manteve uma saída de áudio para fones de ouvido no Motorola One.

Este foi o primeiro celular com entalhe na tela que tive a oportunidade de usar por um período prolongado. O único incômodo que senti foi em relação à barra de notificações, ou a virtual inexistência dela. O sistema coloca um pontinho ali para sinalizar que há notificações pendentes; talvez fosse o caso de abraçar o entalhe e eliminar de vez essa sinalização. Porque, como percebi durante o uso, é mera questão de costume: além da tela de bloqueio, que faz um bom trabalho em mostrar as novas notificações, o Android mostra desde a versão passada (8 “Oreo”) pontinhos nos ícones dos apps indicando a existência de notificações pendentes. O sistema até as exibe ali, direto em um popup que surge ao segurar o dedo em cima do ícone. É como se tivesse rolado uma “iOSificação” pela metade. (E parei de falar de Android; tem outro texto sobre isso.)

Notificações no ícone do app Android 9 "Pie".
Bem mais fácil do que depender do pontinho próximo ao entalhe da tela.

Do acabamento do aparelho, desagradou-me o das bordas laterais, que parece metal, mas é só plástico com uma tinta prateada, o que passa um aspecto barato ao tocá-lo que não condiz com a impressão que se tem ao vê-lo. Ah, e a Motorola poderia tirar o seu logo da borda inferior. É brega.

Detalhe do acabamento lateral e das câmeras principais do Motorola One.
Plástico nas bordas e câmeras ruins: os pontos fracos do Motorola One. Foto: Rodrigo Ghedin/Manual do Usuário.

O único ponto em que o Motorola One realmente deixa a desejar é as câmeras. Mesmo em condições ideais, ou seja, ambientes externos em dias ensolarados, os resultados são esquisitos, com cores estranhas e efeitos que lembram os filtros do Instagram em 2012. Com pouca luz, aparece mais ruído e a definição piora. A segunda câmera na parte de trás serve para o modo retrato, que desfoca o fundo de uma pessoa fotografada. Nem sempre funciona bem, mas às vezes ele gera resultados satisfatórios.

As fotos abaixo, tiradas com o Motorola One, foram redimensionadas para ~45% do seu tamanho original. Fora isso, não receberam qualquer tipo de tratamento ou edição. Você pode clicar nelas para ampliá-las em novas abas:

Foto da fachada do Mercado Municipal de Curitiba em um dia ensolarado.
Os contornos dos prédios lembram aqueles filtros terríveis dos primórdios do Instagram. Foto: Rodrigo Ghedin/Manual do Usuário.
Foto de uma galera do Mercado Municipal de Curitiba.
Em ambientes internos e mal iluminados, as cores continuam esquisitas e aparece mais ruído nas imagens. Foto: Rodrigo Ghedin/Manual do Usuário.
Foto de uma banca de pimentas no Mercado Municipal de Curitiba.
As cores ficam realmente estranhas nas fotos feitas com o Motorola One. Foto: Rodrigo Ghedin/Manual do Usuário.
Selfie com o fundo desfocado feita com a câmera frontal do Motorola One.
Selfie feita com a câmera frontal no “modo retrato”. Foto e modelo: Rodrigo Ghedin/Manual do Usuário.

Considerando todo o conjunto, o Motorola One vale a pena? Na minha avaliação, sim. O preço sugerido na época do lançamento era de R$ 1.499; hoje, ele já é encontrado com até R$ 200 de desconto.

O Motorola One é um celular equilibrado, bonito e confiável, e que tem a garantia do Android atualizado por um bom tempo, coisa que pouquíssimos outros oferecem no mercado brasileiro.

A única ressalva que faço é àqueles que valorizam muito a qualidade das câmeras. Nesse caso, talvez valha mais a pena se voltar à linha Moto G, também da Motorola, ou aos modelos mais caros da linha Galaxy J, da Samsung. Ainda assim, não dá para criar expectativa de saltos em qualidade muito grandes. Para ter esses, é preciso gastar mais em modelos de outro patamar, como os das linhas Galaxy S e iPhone.

O Motorola One foi o primeiro e segue o único celular do programa Android One à venda no Brasil. Tomara que outros apareçam. O Android tem a péssima (e justificada) fama de ser abandonado pelas fabricantes, que costumam lançar aparelhos com versões defasadas e jamais atualizá-los ou, se sim, com atraso ou por pouco tempo. Mudanças no sentido contrário são bem-vindas e deveriam ser valorizadas.

Detalhe das costas do Motorola One exibindo o logo do programa Android One.
Foto: Rodrigo Ghedin/Manual do Usuário.

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