É possível viver sem WhatsApp no Brasil?
Vamos direto ao assunto: viver sem Instagram, Facebook e Threads (risos) é fácil. Os únicos contratempos que me ocorrem são a privação dos rolos no marketplace do Facebook e o apagão de informações de restaurantes, cafés e clínicas que insistem em reduzir a presença no digital ao Instagram. Inconveniente, mas contornável.
No Brasil, o “chefão” de quem decide se livrar da Meta é o WhatsApp. E como não seria? Algumas pesquisas de hábitos no celular apontam que até 99,1% dos brasileiros maiores de 16 anos usam o app de mensagens. Por aqui, ele é onipresente; o meio de comunicação padrão de muita gente e empresas.
Para piorar, a Meta domina o pódio: nessa mesma pesquisa do InternetLab, segundo e terceiro lugares ficam com as DMs do Instagram e o [Facebook] Messenger. O Telegram, primeiro independente que aparece no ranking dos apps mais usados, o é por apenas 39% das pessoas entrevistadas. Telegram que, creio eu, virou um app de golpes que por acaso envia mensagens. Signal, meu app de mensagens preferido? Apenas 2% das pessoas usa.
Ciente das dificuldades, dei-me uma semana de férias do WhatsApp. Cortei o acesso na raiz, nos servidores DNS dos meus dispositivos. Uso o NextDNS, o que facilitou a minha vida: acrescentei todos os domínios da Meta que conheço à lista de bloqueios e ativei uma lista de terceiros específica para domínios da empresa. Desatualizada, mas imagino que cubra muita coisa que passaria pela minha filtragem manual.

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Dei início ao bloqueio no sábado (3), por volta das 17h. Uma semana é pouco tempo para sentir os impactos, mas o período coincidiu com alguns eventos que ajudaram a enriquecer o experimento: estava visitando meus pais, tentando marcar de rever amigos numa cidade vizinha e tinha algumas consultas médicas pendentes de agendamento.
No dia seguinte (4), fiz esta anotação:
Quase 24 horas sem WhatsApp e até agora não senti falta. Ainda abro o app por força do hábito; ele fica carregando eternamente, não atualiza. Será que estou perdendo algo?
Antecipei-me no que foi possível antes de ligar os bloqueios no NextDNS para não “perder algo”:
- Troquei a foto do meu perfil no WhatsApp e deixei uma mensagem de status avisando que estou acessível por SMS/RCS, Signal e e-mail.
- Estabeleci contato por outros meios (SMS/RCS, neste caso) com os amigos que veria no próximo fim de semana e com quem mantinha contato (quase) diariamente no WhatsApp, como o Renan (do PC do Manual) e minha sócia na Célere.
- Anotei na agenda alguns telefones de consultórios e clínicas que só tinha no WhatsApp.
A preparação deu resultado e consegui combinar dois eventos com amigos por mensagens de texto e agendar as consultas por telefone. A “regressão” tecnológica foi mais suave do que eu esperava.
A abertura do iOS para o RCS, uma evolução (via internet!) do SMS, facilitou bastante. A maioria das pessoas usa Android; no SMS, a experiência é muito pior que a dos chamados aplicativos OTT (“over the top”), caso do WhatsApp. O RCS reequilibra o jogo.
Todos com quem falei desconheciam o RCS. Todos ficaram surpresos com um “SMS que se parece com o WhatsApp”. Não sem razão, porque a experiência é boa mesmo. Falarei mais disso em outro post.
A única coisa que me incomodou no RCS foi a maneira com que o aplicativo Mensagens, do iOS, exibe reações: em vez do emoji grudado na mensagem, a exemplo do WhatsApp e do próprio Mensagens quando a conversa se dá entre dois iPhones, recebo uma nova repetindo o que foi escrito, só que precedido pelo emoji usado para reagir. Fica tudo meio bagunçado e repetitivo. A má-vontade da Apple é palpável.
E as ligações? Quando foi que desistimos de falar com outras pessoas em tempo real? Foi tão mais fácil e rápido agendar consultas médicas pelo telefone. A qualidade é boa (temos ligações por Wi-Fi! VoLTE!) e uma conversa que se arrastaria por longos minutos, até horas no WhatsApp, foi resolvida em poucos minutos.
Só não consegui agendar uma atividade física porque o telefone do lugar estava programado para não receber ligações. Minha companheira fez o agendamento para mim (íamos juntos), via WhatsApp. Não dá para ganhar todas.
Nesta segunda (12), dia da tal atividade, comentei que não consegui ligar. A dona foi muito solícita, disse que provavelmente o celular estava sem crédito e, por isso, não aceitou a minha chamada. Prometeu resolver o problema e me passou seu telefone pessoal, caso ainda não consiga ligar para o do estúdio para um futuro agendamento.
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Em um livrinho que poderia ter sido um post, Favor fechar os olhos, o filósofo coreano/alemão Byung-Chul Han divaga a respeito do encolhimento do presente. Por que o tempo parece passar tão rápido hoje? Seria a aceleração?
O assunto é dos favoritos deste Manual do Usuário, e a leitura veio bem a calhar. Para Han,
O que é perturbador na atual experiência do tempo não é a aceleração enquanto tal, mas a falta de conclusão, isto é, a falta de cadência e do ritmo das coisas.
No começo deste texto, comentei ter passado a semana apreensivo diante da possibilidade de perder alguma mensagem importante. Essa sensação foi eclipsada pela paz que ganhei, o que alguém poderia confundir com tédio, mas que me foi muito benéfica.
Atribuo a calmaria ao sumiço dos grupos de WhatsApp da minha vida. Mesmo ingressando neles com parcimônia, são vários e todos úteis, legais ou de gente com quem me importo. Por melhores que sejam, sobrecarregam o cérebro — ou, nos termos de Han, são vários assuntos carentes de conclusão.
O grupo dos assinantes Manual, por exemplo, sempre tem debates interessantes, dicas preciosas e — sou suspeito a falar, mas — gente muito legal. E ainda assim, foi de certo modo um alívio não ter que acompanhar as conversas. Mesmo tendo abandonado há tempos a pretensão de ler todas as mensagens que publicam lá, o fato das mensagens estarem acessíveis, esperando por mim, causava inquietude. Isso vale para todos os outros grupos.
Isso significa que encerrarei o grupo de assinantes no WhatsApp? Não. Muita gente ali dentro comentou comigo que o grupo é um dos principais (às vezes, o principal) motivo da assinatura. E também tem o detalhe de eu ser meio… diferente, com uma bateria social de baixíssima capacidade. Talvez pessoas normais não se afetem tanto quando eu percebi que me afeto com a avalanche de mensagens recebidas pelo WhatsApp. Para mim, o texto escrito (e os áudios também), somado a diálogos assíncronos e a falta de conclusão, geram uma bomba de ansiedade e sobrecarga cognitiva.
Encerrei o experimento no final da tarde de sexta (9). Abri o WhatsApp e deparei-me apenas com mensagens não lidas em grupos. Não abri nenhuma.
Em vez disso, decidi estender o experimento por tempo indeterminado. Baixei e converti meu número ao WhatsApp Business para poder programar uma mensagem de ausência, disparada toda vez que alguém envia uma privada para mim:
Olá! Não estou usando o WhatsApp. Para falar comigo, há várias alternativas:
- Envie uma mensagem de texto (SMS/RCS).
- Envie uma mensagem no Signal.
- Envie um e-mail para rodrigo@ghed.in
- Ligue. (Atendo ligações, sem problemas).
Obrigado pela compreensão!
O WA Business exige conexão à internet para disparar a mensagem, o que me parece um contrassenso. Talvez seja algo relacionado à criptografia de ponta a ponta, ou então mais uma tática suja da Meta para forçar os estabelecimentos a se manterem conectados o tempo todo, mesmo quando ausentes.
Atualização (17/1, às 8h15): É com grande pesar que anuncio meu tímido retorno ao WhatsApp. Saí de alguns grupos e arquivei o resto. A minha vida fica muito mais fácil com o acesso a algumas pessoas e (infelizmente) grupos de lá. Seguirei priorizando outros canais de comunicação. Falo mais desse retorno no podcast desta semana. Um dia derrubaremos o WhatsApp ✊
Eu aqui estou rumo a 6 anos sem WhatsApp. Claro, tem situações muito extremamente pontuais que tive de dar um jeito, tipo pedir pra minha mãe agendar algo pra mim via WhatsApp, mas depois eu fui estabelecendo alternativas diretamente eu mesma com as pessoas e estabelecimentos dispostos a tal. Livramento não estar em grupos de trabalho, família, e não receber o spam de estabelecimentos e corretores de imóveis, e também evitar assédio que já sofri por lá (e estranhos terem acesso ao meu número de celular por estar em grupos, que por muitos anos você nem tinha como evitar que seus contatos te adicionassem em grupos, me angustia demais, prefiro compartilhar meu número de celular a dedo com as pessoas).
Pra ser justo, eu utilizo o Telegram no lugar, para falar com meus amigos e meus pais. Eu tenho minhas permissões bem restritas lá, então não vejo ele como "app de golpes" como fala no texto não. Tenho ele altamente customizado conforme eu desejo, e sigo satisfeita.
Excelente! Me identifiquei em alguns pontos. Também arquivei grupos e contatos incovenientes e ocultei o status de todos assim só vejo quando quero, tinha percebido que me causava ansiedade.
Achei interessante o post, eu acredito que venha a calhar você manter um whatsapp business rodando em uma VM ou emulador e conectar no seu telefone via whatsapp web lendo o qrcode (sim é uma opção viável que já tive que fazer quando migrei de Android para IOS)
Dessa forma você consegue deixar a mensagem rodando indefinidamente sem que o celular perca acesso à internet ou descarregue O lado ruim é caso precise de acesso de token enviado para whatsapp de algum serviço de banco etc (o que acredito não ser o caso)
Não entendi a necessidade da atualização. É óbvio e ululante que a vida a favor da corrente, dentro do rebanho... É mais fácil. Então era esse o ponto desde o início?
Será que já não sabemos que esse "mais fácil" é só uma ilusão ofuscando o fato de que, estando todos no mesmo barco/fila pro abate, um dia o pau te acha e todos afundaremos?
Será o impulso de rebanho tão forte que preferimos afundar a destoar, a desgarrar um pouco... Desde que afundemos juntos?
Amigos, ser humano é um bicho social e arrebanhar-se faz parte do seu funcionamento básico. Diante disso não existem valores, princípios ou mesmo razão e lógica: tudo vira ferramenta a serviço dos impulsos básicos. Não tem certo ou errado. Meta e outras big techs apenas sabem disso e dispõem de uma estrutura bilionária de cordinhas para nos fazer dançar a sua música. Já está mais do que provado que toda essa infraestrutura, no fim das contas, serve ao propósito mais nefasto que é centralizar o poder na mão de poucos e solapar qualquer sistema de pesos e contrapesos no mundo, tornando muito maior o alcance de tiranias. O resultado está nos telejornais. Daí ou se quer mudar ou não se quer. Não existe querer no discurso, é ação prática. E é ridiculamente cristalino que não é fácil. Não é "um dia derrubaremos com um emoji fofo do lado" igual aquela saudação carioca "Vamos marcar...". Putz, o que vc faz já está derrubando o whatsapp no agora, porque é um processo. Não são bilhões decidindo sair do nada e tchum... Acabou. É cada um assumindo e fazendo a sua parte pelo motivo muito lógico e simples de ser a parte de cada um
Tudo bem que o app em si é um grande lixo, mas de certa forma concordo com o que o Charles disse: basta evitar o que em última instância é tóxico, como grupos. Não somos obrigados a aderir a nada, nem grupo de família. E isso é totalmente diferente de não querer falar com as pessoas; pelo contrário.
A análise do Diego Silva é muito lúcida, e não tem como eu discordar. Numa época onde as pessoas estão cada vez mais afastadas de afeto, eu considero uma mensagem pessoal (não copy & paste massivo) uma bênção, e prefiro isso no WhatsApp do que isolamento.
WhatsApp, apesar de tudo (incluindo o tenebroso 'status'), ainda não é uma rede social. Não tem feeds, nem propaganda. Se limitarmos ao aspecto pessoal, não vejo problema. Claro, deveríamos no fundo priorizar conversas em tempo real, especialmente ao vivo, mas aí é outro experimento, não é mesmo?
Olha, é bom receber uma mensagem especialmente escrita para você no WhatsApp, embora isso seja raro. Não estou certo, porém, de que esse tipo de mensagem seja alternativa a interações mais reais, no que quero dizer que há uma chance não desprezível de que o WhatsApp (e outros meios de comunicação digitais) sejam *a causa* do isolamento em que muitos se veem hoje. Não iria tão longe a ponto de eximir o WhatsApp e outras ferramentas digitais -- em especial as da Meta, que sempre teve esse discurso falcatrua de “conectar o mundo”.
O WhatsApp pode não ser uma rede social, mas abastece o império de vigilância da Meta. Tudo que não é criptografado, ou seja, tudo exceto o conteúdo das mensagens, é usado para segmentar publicidade e sabe-se lá mais o que nas outras plataformas da empresa.
Não tem resposta certa ou errada. Só estou colocando uns contrapontos que não deveriam ser deixados de lado nesse debate. Também acho que “é só não usar” ignora muitas camadas que não cabem em algoritmos, em uns e zeros, como convenções sociais, pressão (mesmo que involuntária) de gente próxima/querida, e necessidades atreladas ao uso desse aplicativo. “É só não usar” cai num velho problema em debates dessa natureza: é uma pseudo-solução individualista para um problema coletivo/sistêmico.
Pois é! Mas talvez aí esteja o problema. Não deveria ser raro, né? Antes de existirem os smartphones, quando usávamos IMs como ICQ/MSN, era comum que trocássemos coisas que por ligação ou mesmo ao vivo não seriam simples, como músicas, vídeos e links, e isso tinha potencial para enriquecer a relação (dado que não sustentássemos tudo exclusivamente na interação online, claro).
É possível, sim. Mas, embora eu não tenha como sustentar com dados, intuo que não é bem isso. No meu modo de ver, o isolamento não se deve a interação um pra um em IMs usados em smartphones, até porque você mesmo já disse que isso é raro. O problema parece oriundo do entretenimento passivo e viciante que ocorre em redes sociais e YouTubes da vida. É isso que toma a atenção, tempo e energia das pessoas.
Como alguém que não tem rede social, tenho uma visão meio de fora e noto em ambientes públicos que a maioria das pessoas está hipnotizada em feeds infinitos, e quando muito grupos de WhatsApp da vida -- os grupos acabam virando uma espécie de rede social, com feed virtualmente infinito, comportamentos mais performáticos, necessidade de validação, etc.
É, mas me parece que mesmo se o WhatsApp fosse público, feito com carinho, ainda assim teríamos certas expectativas, como os tais grupos. Nesse aspecto, acho que infelizmente tem que partir do indivíduo, sim. Não me convence essa espécie de escravidão de que temos que aderir a tudo porque é uma expectativa social. E não me refiro a grupos de trabalho, porque isso envolve forças hierárquicas que nem sempre podemos bater de frente -- nesse aspecto talvez tivesse que haver alguma regulamentação.
Meu sonho é poder abandonar o Zap, mas ainda está meio distante de mim. De toda forma, já estou reduzindo a minha presença nas redes sociais do Zuck.
Já vi vários comentários aqui a respeito do WhatsApp e de como ele é colocado como o vilão da comunicação. É necessário entender que o WhatsApp já é parte de uma infraestrutura informal de comunicação. Ele substitui a telefonia fixa, o atendimento ao cliente que exigia minutos ou horas de ligação. Substitui também os sistemas de agendamento, comunicação escolar e profissional. Não existe propósito plausível em querer retornar com tudo isso pq não gosta do mensageiro ou da empresa que o administra ou do seu dono. Muitos aqui no comentários tentaram, ao longo dos anos, empurrar o Telegram e depois o Signal. Parece que agora está na vez do RCS. Também vi muitos exigindo que as pessoas instalem algum desses para que possam se comunicar. Mas na boa, isso é falta de bom senso. Entendam que a comunicação é coletiva, e o coletivo está no WhatsApp. Não adianta querer que amigos ou familiares mudem para o Signal só para falar com vocês. Novamente: isso é falta de bom senso.
Gostemos ou não, o WhatsApp é simples, de baixo custo, acessível e universal. Além disso, essas alternativas “contra o WhatsApp” funcionam tecnicamente, mas falham socialmente: SMS: já está associado a spam ou golpes. O SMS foi esvaziado por anos de spam. Hoje, só serve para receber link de ativação ou PIN de cadastro. RCS: poderia ser a evolução do SMS, mas chegou tarde. Muito tarde. O RCS não é universal, depende de operadora, aparelho e ativação. Fora que vocês ainda não começaram a questionar o básico do RCS. No fim das contas, o RCS vai servir apenas para fazer a mesma coisa que o SMS, mas com mensagens decoradas com emoji ou uma imagem com logotipo do remetente. Ligações: já são vistas como invasivas, tanto que muitos comércios ou serviços não atendem mais chamadas.
Não pensem que, se o WhatsApp deixar de existir e todos adotarem RCS ou Signal, tudo vai se resolver. Os problemas do WhatsApp vão apenas migrar de app.
Por fim, a maioria dos problemas que vocês elegem no WhatsApp é resolvida com limites. Adotem limites e pronto. Não estou nos grupos que não quero estar. Só respondo mensagem quando quero. E quando preciso, desativo a atualização em segundo plano e também desativo as notificações do WhatsApp. É o suficiente.
"Não pensem que, se o WhatsApp deixar de existir e todos adotarem RCS ou Signal, tudo vai se resolver. Os problemas do WhatsApp vão apenas migrar de app." - concordo, e também sobre impor limites. Eu também não curto Whatsapp, mas acho que muitos dos problemas vêm de como as pessoas usam. Essa urgência de querer respostas imediatas, mensagens em dias/horários inadequados etc. Usava o Slack no trabalho e achava bem eficiente, mas de nada adiantava deixar um aviso de que estava ocupado se outras pessoas ficavam me acionando. Cansei de ser acionado pelo WhatsApp nas férias. Hoje deixo contatos e grupos relacionados a trabalho arquivados no fim de semana, só deixo as notificações acionadas se estou para receber mensagens urgentes e olho e respondo quando posso e/ou quero. Dá pra ter um uso mais "saudável" sem ter que desabilitar de vez e abrir mão das facilidades que ele oferece.
hablou.
Bem, eu não uso WhatsApp e sou o "louco ludita" da turma. Paciência. Ligo nos aniversários, mando mensagens SMS ou iMessage quando não consigo falar. Fora isso, minha ideia é manter só o Bluesky e outras redes descentralizadas.
👏
Obrigado por compartilhar este experimento, Ghedin!
Esta é a "pergunta de 1 milhão de dólares". Tenho uma "tese" de que um dos motivos seja tratar relações humanas como "conveniência", assim como muitos de nós têm feito com produtos e serviços. Ao invés de fazer a própria comida ou buscá-la, delivery; ao invés de reservar um tempo para uma conversa de qualidade, vou usar um "tempo morto" ou entediante para isso, como quando estou no ônibus, numa fila e a interromperei assim que meu "tédio" deste lado cessar (gerando a tal comunicação incompleta).
Diego, a verdade é que é meio inconveniente telefonar pros outros, especialmente do nada. Leva mais tempo, interrompe o fluxo de trabalho/pensamento/atividade da pessoa. Eu entendo por que não telefonamos mais tanto assim, dá mais trabalho. Dito isso, eu tenho ligado mais pros meus pais do que mandado mensagem.
Se é "inconveniente", acredito que seu comentário reforça minha "tese" sobre as relações humanas serem tratadas como "conveniência". No detalhe, concordo contigo: não acho legal fazer/receber chamadas em horário de trabalho e afins. Talvez isso se torne difícil em profissões de horário flexível (que, na prática, deixa a pessoa trabalhando "o tempo todo"). Como sou bem sistemático, deixo claro aos amigos: em regra, estou livre aos domingos.
Umas semanas atrás fiquei uns dias com o celular desligado e foram à minha casa e, não me achando, foram à do meu pai. Até iam me procurar no meu trabalho.
Ainda sonho com a interoperabilidade dos aplicativos de mensagem, porque um dos grandes problemas do WhatsApp é que ele ficou muito poluído de funções -- virou rede social!
A mensagem instantânea derreteu o cérebro das pessoas. Noto por um profissional com quem estou em contato: ele não entende o que escrevo e nas visitas aos imóveis ele fica o tempo todo respondendo a mensagens. Não foca em nada.
Pensei que toda comunicação com certo grau de formalidade precisaria ser por e-mail, mas lembrei da constatação do Ploum: não adianta se as pessoas estão usando e-mail como o feed caótico de uma rede social.
Me lembrou essa esquete do Porta dos Fundos: https://www.youtube.com/watch?v=2a0TnUMNkxs
Mas foi exatamente isso! Quando aconteceu me lembrei na hora.
Mas todo mundo costuma me ligar quando tô longe do Whatsapp, só que dessa vez o celular que tava desligado -- e não tenho fixo.
O grupo de casa é no Telegram e não vejo problema ou golpes, como relatado.
O WA uso muito no trabalho, quando preciso localizar e falar com pessoas. Muita gente “‘do lado de lá” também não atende ligações de desconhecidos e adiantar o assunto por whatsss me poupa bastante esforço.
Mas gosto desse aplicativo ou do dono dele? De jeito nenhum.
Telegram virou sim um app pra golpes, fakes e bots, piorou com o criador lançando crypto e mini-games pagos lá(q ñ servem pra anda). Tbm virou sinônimo de pirataria no BR ou coisa 'forte'(vários canais gigantes de porn/gore e afins estão apenas lá).
Adorei o relato! Consegui fazer uma experiência de ficar cerca de um ano sem WhatsApp enquanto ainda não tinha entrado no mercado de trabalho. Algumas atividades ficaram um pouco mais difíceis, em especial marcar algo com meus amigos que não fizeram nenhum esforço para se comunicar comigo por outros meios. Pelo menos minha família próxima inteira baixou o Signal ou Telegram e não tive nenhum problema para me comunicar com eles. Quando precisei procurar emprego e de fato entrar no mercado de trabalho não tive mais como fugir, precisei reinstalar o app porque onde eu trabalho e onde já trabalhei usam o whatsapp como meio de comunicação e solicitação de tarefas, inclusive já fiz até entrevista de emprego por vídeo chamada no WhatsApp, simplesmente surreal. Ainda sonho em conseguir sair desse mensageiro em algum momento, mas realmente não sei como faria isso do ponto de vista profissional.
Dica: deixe o wpp apenas para uso estritamente profissional, de preferência em outro chip, use o blokada para bloquear rastreadores e impeça o acesso a todos os contatos
Massa! Me pergunto quais problemas apareceriam se o experimento continuasse. Também fiquei me perguntando se faço um uso diferente do WhatsApp…
Os meus dois números (pessoal e business) estão sempre cheios, mas tenho uma “aparente calma” com eles.
Quem me vê, diz que eu não sou ligado no WhatsApp, que demoro a responder. Acontecem até atritos no trabalho sobre isso. Mas eu, ao contrário, sinto que penso naqueles chats tempo demais, que nada de fato se resolve ali.
Ainda preciso refletir sobre isso, mas, ao mesmo tempo, acho que uso pouco o WhatsApp, e continuo ansioso sobre ele mesmo assim.
Dois centavos: é claro, a comunicação de um país deveria se dar por um protocolo aberto, não pelo serviço de uma empresa privada, de interesses duvidosos e com pouquíssima transparência em outro país.
Ah, muito massa seu relato, Rodrigo! Como comentei várias vezes aqui, nunca usei Whatsapp, só SMS. Esse RCS até tentei, mas achei meio sem sentido pra mim. Uso demais o e-mail, ligo só se for urgente ou para marcar consultas e exames, sendo que muitas vezes eu acabo por acessar a plataforma do laboratório e marcando via notebook. Também sou meio doida/excluída (já me chamaram assim) nesse tema de tecnologia: não uso aplicativos de banco, Uber, comida, streaming, enfim, pelo menos por ora. Fiquei feliz que você conseguiu marcar de se encontrar com os amigos via SMS (não dou sorte nesse quesito)! Depois conta sua aventura no universo do SMS. Sucesso!
Ótimo texto. O que resume essa ansiedade e o cançaso que o WhatsApp gera é justamente a falta de conclusão. São reuniões infinitas, sem hora para acabar nem começar. É um email que vc tem que responder o mais breve possível. Já tentei colocar no início do meu dia um "horário de whatsapp" mas não dá certo, as pessoas só vão responder no meio da manhã ou da tarde, quando já estou com a cabeça em outras coisas, e aí já surgiram outras solicitações e assuntos que provavelmente só serão respondidos ainda mais tarde. E a lista de coisas inconcluídas só cresce, é uma bola de neve. Eu ainda uso muito as ligações, para coisas que quero resolver logo.
eu não uso mais o whatsapp há alguns meses; "produtos" da meta nunca me interessaram, são tipos de spywares "limpos", se assim posso me expressar.
já uso o signal, bem satisfeito. tenho dois contatos que estão tentando me levar ao element - um dia eu testo.
seu relato é muito bom, curioso para ver os próximos.
"Spyware limpo" ou também, "ransomware legalizado" (acontece algo com tua conta, mesmo pagando pelo selo azul e mesmo assim não consegue reaver)
Legal Ghedin! Muito bom teu relato.
Muito bom, a imagem já foi genial, o bot foi uma solução perfeita.
Ghedin, vai rolar um tutorial amigável de como fazer esse bloqueio? hahah queria testar tb
aliás, esse bloqueio que vc fez não afeta o envio da msg automática?
outra dúvida: pra mim não ficou tão claro se o problema é de design do aplicativo ou se é por ele ser da meta. se for a primeira opção, no que signal ou rcs resolvem o problema, considerando que são apps de mensagem instantânea na palma da sua mão o tempo todo?
Estou influenciado pelo Careless people, da Sarah Wynn-Williams. Meta é uma empresa podre até a espinha.
Acho que os mesmos problemas do WhatsApp poderiam ser replicados em concorrentes, caso fossem tão populares quanto. Não é uma certeza absoluta, porém, porque há características do WhatsApp que estimulam a inconclusão e o uso exagerado, como o tamanho dos grupos e a facilidade em interagir. Grupos em RCS são horríveis, por exemplo. O que, nesse sentido, é bom. Evita que virem pontos de encontro.
Instale o NextDNS e cadastre as URLs
whatsapp.comewhatsapp.netna Lista negra. Isso já quebra o WhatsApp. Se quiser bloquear mais coisas da Meta, cadastre estas também:meta.mefacebookmail.comthreads.comcdninstagram.cominstagram.comfacebook.comfbcdn.networkplace.comTive que liberar o
whatsapp.nete ativar notificações para o WA Business. Só assim para a mensagem automática funcionar.Bem interessante o experimento, a questão é convencer as pessoas a usarem outros meios de comunicação.
Sobre o WhatsApp Business, depois consegue voltar o número para o “normal”?
É possível, sim.
Adorei o post! Escrevi recentemente sobre o monopólio das redes e fiquei pensado nisso desde então. Não conhecia o RCS, mas escrevi justamente como o HTTP, SMS e similares entregam o conteúdo independente de qualquer infraestrutura e intermediário. As redes não deveriam ser assim, por regulação? Utilizando Signal não deveria conseguir mandar uma mensagem pra qualquer outro app de mensagem? É claro que o lobby das redes é extremamente forte. Mas não me parece que essa é uma bandeira muito levantada por aí. Quando me parece uma questão de soberania nacional e democrática.
Legal, ansioso pra ver o desenrolar do experimento!
Muito bom. Nunca fui de aderir rapidamente a novidades sem um motivo muito impositivo e, na época em que o whatsapp começou a monopolizar, eu já tinha uma forte resistência contra a Meta e todas as big techs envolvidas no escândalo de vigilância global de 2013. A questão é que se ao menos resistíssemos toda vez que a propaganda estalasse os dedos (ou soprasse o berrante), não haveria tanta desgraça no mundo. Como diz no texto "não dá para ganhar todas", mas a mera resistência de grande parte da população impediria monopólios, imposições, financiamentos bilionários a muita coisa errada. Mas a lógica é sempre a de manada: se a maioria não faz, eu não farei. Ou seja, não existe o "eu", a vontade própria. Só a da maioria, só da manada. "Faça a sua parte" é apenas uma frase bonita sem sentido onde abre-se mão da individualidade, mas a individualidade continua lá, e portanto a culpa não se dilui. Se as pessoas se comportam como gado, é assim que serão tratadas.
Meu caso é muito parecido com o seu. Não aderi logo de cara, mas por outro motivo: não gostava de smartphones e a maneira como as pessoas ficavam grudadas e viciadas neles, achava ridículo o uso que as pessoas faziam do celular como símbolo de status. Então só fui ter o meu primeiro em 2015. Nesse ponto, o WhatsApp já havia sido comprado pelo Facebook, que é uma empresa que tem práticas nefastas desde sempre. Por isso, nem cheguei a começar a usar e decidi que nunca o usaria.
Quando todas as operadoras de telefonia móvel começaram a isentar o WhatsApp da franquia de dados, mas não os outros aplicativos, prática conhecida como "zero-rating", logo percebi que isso viola a neutralidade de rede, prevista em lei, no Marco Civil da Internet. Tanto é que cheguei a fazer a denúncia ao Ministério Público, o que acabou desencadeando o processo por prática anti concorrencial no CADE. Infelizmente, a Anatel, que sempre se colocou ao lado dos interesses das empresas em detrimento dos usuários de telefonia, defendeu a Meta no CADE usando argumentos absurdos e sem nenhum nexo com a realidade (ex.: que o "zero rating" supostamente incentivaria a inovação e a concorrência) e conseguiu vencer o processo. Tem um episódio do podcast Tecnopolítica em que conto essa história em entrevista ao Prof. Sérgio Amadeu, em 2021.
https://www.youtube.com/watch?v=gcJ7RnbMjE8
Com o passar dos anos, como resultado do "zero rating", o WhatsApp passou a ser usado por todo mundo, até mesmo em pequenos comércios, consultórios médicos, etc., dificultando a vida de quem não o usa, como eu, até hoje. Nos poucos casos em que realmente preciso e a outra parte lamentavelmente não oferece outra forma de contato, uso o WhatsApp de outra pessoa na família para mandar alguma mensagem.
Bem lembrado. Sabemos que os interesses das big techs têm influência para abafar essa discussão, mas mesmo assim é impressionante como o zero-rating continua sendo um tema de nicho. Obrigado pela dica, vou conferir o podcast. Parabéns pela atitude! Por mais que seja uma luta desigual, acho louvável ver forças opositoras que se recusam a apenas dizer "amém".
Sobre o final, você... Atende ligações? Não são uns 99% marketing ou golpe?
Ninguém me ligou nesse intervalo. O iOS 26 tem um recurso de filtragem de ligações que é muito útil para não perder tempo com tentativas de golpe e spam.
Eu uso um app pra bloquear ligações de spam, e ativei uma opção pra bloquear ligações de quem não é salvo como contato. Dificilmente alguém que eu não tenho o número vai me ligar pra falar algo importante. Pra mim, dessa forma funcionou.