Por que tanta gente odeia texto de IA, mesmo quando ele pode ser bom?
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Pedro Burgos, analisando a polêmica de uma colunista da Folha de S.Paulo* que admitiu que seus textos são gerados por IA:
Em colunas de opinião, será que o leitor quer ideias — ou quer testemunhar alguém pensando pela escrita? Se for a segunda opção, como deveria ser a sinalização? Existe um nível de transparência que preserva o pacto sem transformar cada texto em bula de remédio?
Eu nunca vi o disclaimer “o Excel foi utilizado nesta análise financeira”. E se entendermos LLMs como “calculadoras de texto”, precisa sinalizar?
Pedro e eu temos visões muito distintas da IA. Ele usa bastante, é entusiasta. Levanto esse contraste para afirmar que, neste caso, estamos meio que alinhados.
Duvido muito que um texto de próprio punho da Natalia Beauty ficasse muito melhor que o amontoado de platitudes que formam suas colunas. E, a julgar pelos comentários ali, os leitores também não se importam. Um ou outro aponta e critica o uso de IAs generativas. Importante lembrar, porém, que as reclamações à ombudsman ensejaram uma resposta dela na edição de domingo do jornal.
Atualização (11h10): A Natalia publicou um texto explicando seu uso de IA na redação das colunas.
É por esse mesmo motivo que, em publicações de negócios, costumo passar batido por textos de opinião escritos por executivos e fundadores. Na posição de quem vê como a salsicha é feita, são textos genéricos escritos por uma assessoria de imprensa e empurrados aos veículos para valorizar o passe do executivo e/ou da empresa. Obrigado, mas não achei minha atenção no lixo.
Textos opinativos são os mais fáceis de sacar quando feitos por IA. Dados trazidos pelo Pedro apontam que são, também, o formato em que a IA é mais usada. Exceções (como esse mesmo texto do Pedro) demandam um esforço considerável — o prompt que ele usou tinha 34% do tamanho do texto final. Para o bem (raro) e para o mal, pouco importa se a IA foi usada para escrever qualquer coisa.
* A Folha de S.Paulo está me processando.
Eu não quero ler um texto feito por IA assim como eu não quero assistir uma São Silvestre onde os participantes usam patinetes elétricos.
Acho que a analogia não bate, jefbecker. Se você dissesse que não quer ver um pódio, ou seja, o resultado de uma São Silvestre disputada com patinetes elétricos, aí sim, acho que ela fica correta.
Numa maratona, o percurso é tão importante quando a linha de chegada. Em um texto, raramente o percurso do autor o é; o que importa é o texto final, o que equivaleria ao pódio ou à posição do atleta no final da maratona.
Por que eu vou querer ler um texto que ninguém quis escrever? Por que ele teve que botar "água no feijão" em vez de publicar o prompt dos 34%?
Eu já usei esses argumentos, JoaoM. Hoje, mesmo que fosse totalmente avesso a texto gerado por IA, acho que não os usaria.
É um argumento válido, mas não é novidade. Muitas figuras públicas e colunistas famosos não escrevem os textos que assinam, como o Pedro lembrou no post. Eles usam “ghost writers”, às vezes até equipes para escrever por eles.
Se descobrisse que o Dráuzio Varela (para pegar uma unanimidade) não escreve os textos que ele assina, isso te motivaria a não lê-los?
Reforço que, apesar de eu rebatê-lo, acho o argumento válido. Ainda mais com texto de opinião, um tipo que ninguém, em hipótese alguma, é obrigado a ler.
Ah, aqui eu discordo. Os ingredientes de um bolo são o bolo?
Para ficar num exemplo direto, sem analogias, seria o mesmo que eu pegar o catadão de links e anotações que faço enquanto estou pesquisando um tema e publicá-los aqui, de qualquer maneira.
Nenhum texto que se preze (que quer ter alguma chance de ser lido) é publicado sem edição. O prompt, nesse caso, pode (nem sempre é) servir como primeiro rascunho (não acho que foi o caso do do Pedro) ou como orientações refinadas mesmo (acho que foi isso). Não achei que ele “encheu linguiça”; nem teria por quê, já que ele está publicando numa newsletter própria, onde ele faz as regras. E tenho certeza que o prompt não tinha um acabamento -- ou a edição -- equiparável ao do resultado apresentado.