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A tela Nxtpaper 4.0 da TCL

Foto de cima do Tablet 11 gen. 2 da TCL, com o Olauncher em exibição.

Quando compramos um dispositivo eletrônico, o normal (quero acreditar) é escolher o modelo mais equilibrado dentro do valor disponível para adquiri-lo.

Tomemos um celular como exemplo. Não adianta ter a melhor câmera do mundo se o sistema trava ou a bateria não dá conta do perfil de uso. Ou um computador que tem um teclado maravilhoso, mas uma tela péssima.

Em dezembro, comprei um tablet apenas por causa da tela. As outras especificações? Nem olhei. Queria ver com os meus próprios olhos aquela tela, prometida pela fabricante como quase mágica, unindo o conforto visual das telas E-Ink com a velocidade e suavidade do LCD.

Hoje, falarei dele: o Nxtpaper Tablet 11 gen. 2 da TCL e sua tela Nxtpaper 4.0.

Fazia um ano que estava intrigado com a tecnologia Nxtpaper da TCL. No comunicado à imprensa publicado em janeiro de 2025, a fabricante chinesa afirmava que aquela atualização, a Nxtpaper 4.0, era “ainda mais otimizada para olhos humanos” e que “redefinia os padrões de clareza, personalização e versatilidade, ao mesmo tempo priorizando hábitos saudáveis e reduzindo os impactos de longo prazo na saúde da visão”.

Seria bobo da minha parte acreditar no marketing de uma empresa, claro. Por isso, pesquisei análises e vídeos de gente que vive de fazer isso, “influenciadores” e jornalistas especializados em tecnologia. E embora os comentários fossem menos entusiasmados que os da TCL, a opinião unânime era a de que a Nxtpaper 4.0 era realmente diferente, mais confortável aos olhos.

Será?

***

Meus olhos já não são os mesmos de 20 anos atrás, mas posso dizer com segurança que a tecnologia da TCL não convence. Ou, pelo menos, não me convenceu.

A tela do Tablet 11 gen. 2, a tal Nxtpaper 4.0, tem ~11 polegadas e todas as características alardeadas pela TCL: acabamento fosco, textura que simula papel e os modos “papel colorido” e “papel de tinta” (tradução fajuta de “E-Ink”).

A TCL dá a entender que no modo “papel de tinta”, a tela Nxtpaper 4.0 fica parecida à do Kindle e outros dispositivos de leitura que usam telas da E-Ink. No mesmo sentido, o modo “papel colorido” tira a saturação das cores, deixando-a parecida às telas Kaleido 3, também da da E-Ink, presente em tablets e leitores como o Kindle Colorsoft.

É uma… meia verdade. Embora a TCL não especifique do que é feita essa tela, outras fontes apontam que se trata de um painel IPS com revestimento NCVM, sigla em inglês para “metalização a vácuo não-condutora”. É esse acabamento que dá à Nxtpaper 4.0 as características que a separam de uma tela LCD comum: a textura, o visual fosco, a menor incidência de reflexos e impressões digitais.

É legal? Sim, mas nada dessa camada extra e dos recursos de software supera a realidade de que se trata de uma tela LCD. E, pior, toda troca dispara uma animação de alguns segundos, intervalo em que o tablet fica “travado”.

E um comparativo dos três modos:

Comparativo dos três modos de tela Nxtpaper.
Modos normal, papel colorido e papel de tinta. Foto: Rodrigo Ghedin/Manual do Usuário.

O que seria algo decepcionante, mas ok, vida que segue, vira um grande ponto negativo devido à relativa baixa resolução da tela de 10,95 polegadas, de 1920×1200 píxeis. Essa combinação resulta em uma densidade de 207 píxeis por polegada (PPI).

Esse valor é 21,8% menor que o estabelecido pela Apple, lá atrás, para classificar uma tela de iPad como “Retina” (~264 PPI). É mais marketing corporativo, mas essa diferença de algumas dezenas de píxeis por polegada é perceptível até aos meus olhos cansados. A tela do tablet da TCL parece levemente borrada. É um detalhe mínimo, mas o tipo de detalhe que fica o tempo todo diante dos seus olhos — literalmente.

Detalhe das telas do Tablet 11 gen. 2 e do iPad Pro (2017).
TCL à esquerda, Apple à direita. Foto: Rodrigo Ghedin/Manual do Usuário.

A tela do meu velho iPad Pro, de 2017, mesmo com menor brilho e as bordas “queimadas” pelo tempo, é mais bonita. (Notei esse efeito nas bordas ao tirar algumas fotos para este texto.) Não sei se mais “saudável” para os olhos, mas imagino que se reduzir o brilho, ativar o modo “Night Shift” (que reduz a emissão de luz azul) e eliminar as cores (nas configurações de acessibilidade), ela fique equiparável à Nxtpaper 4.0 da TCL. Melhor, até, por causa da resolução maior.

E a tela do Kindle básico que tenho desde 2024, da linha Carta da E-Ink, com 300 PPI, é menos agressiva aos olhos e de leitura mais agradável. Em resumo, a fonte de inspiração da TCL é bem melhor que a sua tentativa de cópia.

Comparativo das telas do Tablet 11 gen. 2 e do Kindle básico de 10ª geração.
TCL à esquerda, Kindle básico (10ª geração) à direita. Foto: Rodrigo Ghedin/Manual do Usuário.

***

Há outras características físicas que representam uma piora em um tablet que uso só para leituras. A proporção da tela (16:10) a deixa muito “estreita” em modo retrato (“de pé”) comparada à mais quadrada (4:3) do iPad.

A grande falha de projeto do Tablet 11 gen. 2 é o sensor de luminosidade, que controla o brilho automático, ficar ao lado da câmera frontal, ambos em uma das bordas longas, o que significa que em modo retrato o brilho fica fora de controle quando eu passo a mão sobre o sensor para interagir com a tela.

É uma questão tão chata que desativei o brilho automático. Dentro de casa, onde uso o tablet, essa medida drástica resolve. O brilho da tela, que chega a 500 nits, é mais que suficiente. Quase sempre uso apenas 10% da potência do brilho da tela, o que me surpreendeu pelos relatos de que esse tipo de tela tende a ser mais escura. Não parece ser o caso aqui, talvez uma das evoluções da versão 4.0 da tecnologia Nxtpaper, ainda que o branco não fique… branco; é mais parecido com aquele cinza esquisito de telas E-Ink, uma semelhança indesejável.

Não sei se o brilho é suficiente ao ar livre, sob o Sol forte. O clima cagado de Curitiba me impediu de fazer esse teste.

Detalhe de um grande risco na tela do tablet da TCL, apagada.
Foto: Rodrigo Ghedin/Manual do Usuário.

Para fechar este longo comentário sobre a tela do Tablet 11 gen. 2, em algum momento dos últimos dois meses, no curto trajeto de ~1 metro entre o sofá e o aparador onde o tablet fica quando sem uso, um risco visível apareceu na tela. Nem a do iPad, nem a do Kindle têm riscos, mesmo após anos de uso e expostos a cenários mais hostis, como quando (sempre) largo um deles dentro da mochila sem qualquer capa ou outro tipo de proteção. E detalhe: a do Kindle é de plástico.

***

O tablet em si tem prós e contras. O material metálico passa uma sensação agradável, de algo mais sofisticado do que o preço sugere. Por outro lado, formato 16:9 da tela dá ao tablet uma densidade que faz os 31g a mais que tem em relação ao meu velho iPad parecerem muito mais. A sensação é de um objeto mais pesado.

A câmera principal, na parte de trás, fica dentro de um calombo redondo no meio do tablet quando em modo retrato, o que atrapalha o manuseio para leitura. Ficarei devendo se é uma boa câmera ou não. Nunca a usei, nem a frontal.

Detalhe do calombo da câmera atrás do Tablet 11 gen. 2.
Foto: Rodrigo Ghedin/Manual do Usuário.

A TCL manda uma stylus, ou canetinha, junto. Usei só no dia em que recebi e não posso opinar — não desenho e prefiro teclados físicos para fazer anotações.

***

Você já deve ter notado que esta não é uma análise do tablet. É uma análise da tela de um tablet. No meu uso, porém, vi algo de muito bom na experiência com o Android em um tablet limitado à leitura, por isso seguem alguns parágrafos desta boa surpresa.

O agrado não se deu pelo que Google e TCL entregam, mas pelo alto nível de personalização possível no Android por vias extraoficiais que, entre outras coisas, me permitiu remover todas as coisas do Google e da TCL.

A TCL, como toda fabricante, encheu seu Android de recursos de “IA”, que se somam aos que o Google também enfia no Android, mais todos os serviços e aplicativos da empresa, que não uso. Com um “debloater”, consegui depenar o sistema. Tirei tudo que foi possível e, a partir da F-Droid e da Aurora Store, reconstruí o meu tablet para leitura, com apenas alguns apps:

  • Navegador web Firefox.
  • Capy Reader para feeds RSS sincronizados do Miniflux do PC do Manual.
  • Folio, Readeck e Wallabag (alternando entre eles).
  • Thunderbird para e-mail.

Também recorri a alguns utilitários que me ajudam a integrar o Android a meus dispositivos da Apple e a deixar o sistema ao meu gosto, como o BasicSync (sincroniza arquivos via Syncthing) e o HeliBoard (teclado simples, FOSS e offline). Por fim, instalei o Olauncher gratuito/FOSS, o que ficaria mais maneiro em uma tela OLED ou E-Ink.

Notei duas melhorias dramáticas após “enxugar” o Android: o consumo de RAM, exposto na tela de aplicativos abertos, caiu pela metade, e a autonomia da bateria em stand by aumentou horrores.

Acho que essa é a grande vantagem do Android, ao menos por ora: a possibilidade de desativar ou desinstalar aplicativos e serviços que não tenho interesse em usar. Quando digo que uso tablet apenas para ler, não estou exagerando. Com o Android e um “debloater”, consegui transformar este da TCL em um dispositivo exclusivo para leitura, algo impossível com um iPad.

***

Paguei R$ 1,8 mil neste Tablet 11 gen. 2. É quase metade do menor preço no varejo do iPad de 11ª geração e três vezes o custo de um Kindle básico. Em outras palavras, o tablet da TCL fica ali no meio.

Considero um preço justo pelo que ele entrega, mas não achei uma boa compra. É um tablet meia-boca e um leitor digital ruim. A tela, seu grande diferencial, é uma imitação barata das da E-Ink, incapaz de reproduzir as vantagens dessa. Naquilo que é de fato — uma tela LCD —, ela deixa a desejar, sem brancos profundos, sem a escuridão do OLED para a aparência escura e sem píxeis suficientes para entregar um visual satisfatório. (Embora haja piores; nos tablets da linha Tab A da Samsung, a densidade de píxeis por polegada é ainda menor.)

Talvez o Tab 11 FE, com uma tela convencional, valha mais a pena.

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12 comentários

  1. Post em boa hora.

    Estou com um Tab S6 Lite de repasse familiar muito bem conservado, que funciona normamente, embora tenha seus 4 anos de existência. Entretanto, ele demora muito pra iniciar em alguns momentos e é cheio de aplicativos nativos da Samsung que eu não uso.

    Gostaria de “depená-lo”, mas nunca o fiz. Em primeiro lugar, não tenho familiaridade com o tema, sendo típico usuário de IOS. Mas, dada as cincunstâncias, não tenho pra onde correr. Alguém aqui já fez algo parecido com o modelo ou similares?

    Seria de grande ajuda qualquer orientação.

  2. Sinto muito, Ghedin :-(

    Lendo a análise, me parece que este tablet é um “ornitorrinco”.

    > A proporção da tela (16:10) a deixa muito “estreita” em modo retrato (“de pé”) comparada à mais quadrada (4:3) do iPad.

    Está aí algo que não curto na maioria dos tablets atuais. Pode ser bacana para vídeos, mas não para leitura.

  3. Depois que configurei um atalho na central de controle do iOS (ou também com três cliques no botão de acender a tela) para reduzir o ponto branco, aliviou bastante ler na tela do iPhone mesmo. Não se compara a um e-ink, mas fica bem mais confortável para ler os RSS’s.

  4. Eu de tempos em tempos penso sobre um tablet e-ink, mas não ia usar tanto pra justificar. Tenho um kindle pré-histórico, mas acho mais prático ler no celular.
    Tive um tab a tem muitos anos que usava pra ler e anotar pdfs com a canetinha. Esse cheguei a usar bastante, mas era beeem travadinho.

    1. Não sei se nos seus apps de leitura tem isso, mas uma coisa que acho legal é usar os botões de volume para avançar / retroceder as páginas e/ou feeds. Sinto muita falta de botões físicos no Kindle atual.

  5. Queria comprar um tablet para consumo de mídia, principalmente livros e HQ, e assim como os celulares, não se encontra mais opções de tablets “pequenos”, pois eu queria algo em torno de 8 – 9 polegadas (que, na minha opinião, seria uma boa opção em termos de tamanho e conforto para ficar segurando enquanto leio). As únicas opções que encontrei foram o Tab S11 da Samsung (que infelizmente vem com apenas 4gb de ram e 64gb de armazenamento) e o Redmi Pad SE (que tem um processador bem fraquinho).
    Acabei pegando o da Samsung, sendo obrigatório colocar um microSD. A experiência tem sido ok, já que não uso para atividades que demandam muito, mas poderia ter mais opções no mercado.

    Ps.: tem também o Ipad mini, mas achei bem caro para 64 gb de armazenamento e uma tela com taxa de atualização de 60hz.

  6. Esses dias resolvi comprar um tablet pra mim; pensei nos vários que eu poderia ter e cheguei a conclusão que o ideal seria um Ipad Pro ou S11 Ultra, ai quando vi os preços revi a lista de usos e foquei somente em leitura de materiais e consumo de conteúdo de vídeo em locais que não tenho TV ou que a tela do celular seja muito pequena.

    Considerei seriamente esse da TCL (que conheci ele justamente por um post ou comentário sobre ele aqui no Manual meses atrás), mas ai li alguns reviews sobre ele que tocaram em pontos similares do que tu disse no seu. No final comprei um Redmi Pad 2, foi barato (na casa de R$ 1350), funcional, tela agradável, sistema relativamente “limpo” e bateria tem durado bem. Estou com ele há pouco mais de 1 semana, ai pode ser que ainda não tido tempo para os problemas aparecerem, mas estou satisfeito até agora.

    1. Boa!

      Eu tenho comigo que iPad Pro e Galaxy Tab S Ultra são tablets que não fazem muito sentido existir. Têm chips super potentes, mas que acabam subutilizados pelo sistema operacional, que não é adequado para atividades demandantes. Só têm duas vantagens: maior longevidade (pelo tal chip potente) e telas melhores. Acho que não valem o preço exorbitante que cobram por eles.

    1. Não, ainda prefiro o iPad.

      A bateria é boa, depois que depenei o Android. Consome pouco durante o uso e em stand by dura dias, se duvidar até semanas. Com as tralhas do Google e da TCL, não sei, mas é seguro dizer que duraria bem menos.