Refugiados africanos procuram sinal em Djibouti.

O smartphone é o novo Sol


18/9/15 às 10h31

Existem atualmente mais de 2 bilhões de smartphones em uso, e, dos pouco mais de 5 bilhões de adultos no mundo, cerca de 3,5 e 4,5 bilhões deles possuem algum tipo de celular. Nos próximos anos praticamente todas as pessoas que não têm um celular irão adquirir um, e quase todos os celulares serão smartphones. Há uma década, parte dessas previsões seria passível de discussão. Hoje, não. O quanto todas essas pessoas pagam por dados móveis e como elas recarregam as baterias dos seus celulares poderão ser desafios a serem vencidos, mas o smartphone em si está próximo de se tornar um produto universal para a humanidade — o primeiro que a indústria de tecnologia já produziu.

Slide com gráfico que destaca a disseminação do smartphone.
Celulares têm uma escala única na tecnologia.

Com bilhões de pessoas comprando um novo dispositivo, em média, a cada dois anos, o comércio de celulares esmaga o de computadores, que tem uma base instalada de 1,5 a 1,6 bilhão de dispositivos, substituídos a cada quatro ou cinco anos. As vendas de PCs representam pouco mais de 300 milhões de unidades por ano, enquanto as de celulares se aproximam dos 2 bilhões — dos quais mais da metade são smartphones, e essa proporção continua aumentando.

Isso significa que a rede de fornecedores de smartphones está substituindo a de PCs como o principal motor da indústria de tecnologia. No passado, se você queria colocar um “computador” em algo, após certo nível de complexidade isso significava um PC — componentes comoditizados de PCs e um sistema operacional comoditizado (como Linux ou Windows). É por isso caixas eletrônicos usam Windows XP.

Os dispositivos móveis suplantam essa lógica com uma nova cadeia de fornecedores. A guerra dos smartphones significa que agora há uma profusão de componentes baratos, de baixo consumo energético, cada vez mais sofisticados e disponíveis para qualquer pessoa — é como se alguém abrisse um contêiner de LEGO no chão e nós estivéssemos pensando no que construir com todas aquelas pecinhas. Em paralelo, as fabricantes OEM que produzem todos esses smartphones podem também produzir outras coisas com esses mesmos componentes. Esses dois fatores — os componentes e as fabricantes OEM, que juntos formam a rede de fornecedores — estão por trás da explosão de aparelhos smart de todos os tipos: drones, vestíveis, Internet das Coisas (IoT), casas e carros conectados, TVs e tantos outros.

Tudo isso significa também que as empresas e lugares que determinam a agenda da tecnologia mudaram. No passado, teríamos ido a Seattle, à Finlândia e ao Japão para ver o futuro, ou teríamos conversado com Microsoft, Intel, Nokia ou NTT DoCoMo. Hoje falamos com a Apple, o Google ou o Facebook, Qualcomm, Mediatek ou ARM, e vamos a São Francisco ou à China.

Quando perguntamos quantas pessoas terão um smartwatch, um tablet, um termostato inteligente ou outros dispositivos do tipo; ou como os carros conectados funcionarão, quem os controlará ou qual software usarão, parece-me que a melhor metáfora para se pensar nisso é o Sistema Solar — o smartphone é o Sol e tudo gira ao seu redor. Aqueles outros segmentos poderão ser pequenos ou grandes, estarem próximos ou distantes, e também haverá luas. Alguns serão cheios de vida, alguns interessantes, alguns importantes, outros entendiantes, porém valiosos. Alguns, como Plutão, podem parecer não terem tanto a ver com os smartphones (medidores inteligentes, talvez?), mas a força gravitacional age neles de alguma forma. Alguns dispositivos terão sua própria interface de usuário e utilizarão componentes de smartphones. Outros serão apenas telas, sensores ou tubos burros1 explicitamente dependentes de um smartphone. Mas, para quase tudo, a indústria dos smartphones suprirá os componentes e fabricantes, sendo o próprio smartphone a principal forma de controle e interação com esses outros dispositivos.

Nesse sentido, incidentemente, a deixa de Satya Nadella de que o Xbox não é mais o núcleo da Microsoft foi tão interessante quanto o fim do “Windows Everywhere” (discutido aqui). A Microsoft vinha tentando acrescentar computação à TV desde antes dos celulares terem telas. Acontece que é o smartphone, e não a TV, o centro da nossa experiência; a TV é uma tela burra da mesma forma que a rede móvel é um tubo burro.


Publicado originalmente no blog do Benedict Evans. Traduzido e republicado com autorização do autor.

Tradução por Leon Cavalcanti Rocha.
Revisão por Guilherme Teixeira.
Foto do topo: John Stanmeyer.

  1. Tradução mais aproximada de “dumb”. Nesse contexto, faz referência aos antigos terminais burros, ou seja, terminais com interfaces de entrada e saída, mas sem poder computacional – esse era relegado a um servidor central. O conceito se expande a redes móveis (“dumb pipes”) e, como aborda o texto, a telas/dispositivos e sensores.

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2 comentários

    1. Não são a mesma coisa, Vagner. Falei de terminal burro na nota de rodapé para contextualizar o que o autor quis dizer com “dumb pipe”, que é o mesmo conceito do primeiro, mas aplicado à rede — ou seja, os “tubos” que distribuem a Internet são neutros/sem conteúdo ou processamento, servem apenas para trafegar dados.