Resposta do Olhar Digital à análise de sites de tecnologia brasileiros
Nota do editor: Na última quinta (18), recebi um e-mail do Bruno, editor-executivo do Olhar Digital, com a promessa de uma resposta, em breve, à análise de sites de tecnologia brasileiros que publiquei neste Manual no dia 12/1. Como ela veio em prosa, pedi autorização ao Bruno para publicá-la na íntegra aqui.
Primeiramente, obrigado pelas considerações e por entrar em contato conosco. Achei sua análise bastante interessante. Tomei a liberdade de escrever um texto corrido para responder suas questões.
Hoje em dia, o que não é tecnologia? O que não está permeado pela tecnologia? Nós acabamos de cobrir a CES, maior evento tech do mundo. E todos os setores possíveis e imagináveis estavam ali representados. Já que em sua análise citou a cobertura do setor de automóveis, dou um exemplo: muitas montadoras já nem mais querem se apresentar como montadoras; são greentechs. E isso se aplica a vários outros campos, representados em nossas editorias. Nós tentamos, na maior parte da cobertura, trazer o lado tech dos mais diversos setores.
E nem sempre esse pé na tecnologia será claro ou profundo. Quando imaginamos o noticiário tecnológico, talvez pensemos imediatamente no lado de negócios envolvendo big techs ou em lançamentos de novos eletrônicos. Mas a tecnologia também pode estar na prestação de serviços, mesmo que de forma muito sutil. Em um universo com dezenas de streamings e canais para a transmissão de futebol, me é bastante útil saber onde assistir a um determinado evento esportivo. E se falamos de streamings, por que não falar de eventos que serão transmitidos nessas plataformas digitais?
Bom, essa é a minha justificativa editorial. Mas há uma justificativa mercadológica também. Quantas vezes por dia você digita o nome de um site de tecnologia para se informar de tecnologia? Ou você acaba caindo nessas notícias ao buscar um assunto no Google? Acho que a segunda opção é muito mais comum para a maioria dos leitores. Nós escrevemos para os nossos leitores. Mas, para chegar aos leitores, precisamos muitas vezes passar por algoritmos antes. E isso deve ser levado em conta. Aliás, não à toa, muito se fala em SEO.
Com relação às promoções, também vejo como uma prestação de serviço. Se tem um site que eu confio selecionando promoções diárias de eletrônicos, eu vou querer saber. E no caso do Olhar Digital, muitos dos produtos anunciados têm matérias com análises completas, inclusive com milhares de fichas técnicas e comparativos no caso dos smartphones.
De novo, essa é minha resposta editoral. Mas, sim, há uma justificativa comercial – e que não influencia nem um pouco no editorial. Como avisamos em todas as postagens de ofertas, "nenhuma empresa participou da escolha para os links e não existiu aprovação prévia deste conteúdo, que segue independente como sempre foi".
Por fim, não me sinto à vontade para avaliar a cobertura dos colegas de outros sites. Mas entendo que, se você identificou um padrão em todos os sites, existe uma justificativa. Afinal, são profissionais que estão aí há anos. E imagino que, assim como nós fazemos, nossos colegas de outros veículos devem testar, analisar, ver os números e identificar o que faz mais sentido e o que dá resultado. E esse comentário se encaixa no seu pertinente questionamento sobre a falta de conteúdos aprofundados e de fôlego sobre tecnologia no Brasil. No meu entendimento, esse tipo de conteúdo ainda é mais importante para a consolidação de marca no mercado brasileiro do que para a audiência. Então, a ampla cobertura de hardnews, sempre tendo compromisso com a notícia e com a checagem, e o conteúdo analítico não podem ser antagonistas. Eles devem caminhar em paralelo, são complementares. E esse é um desafio diário.
Bruno Capozzi é jornalista, mestre em Ciências Sociais e editor executivo do Olhar Digital.
Gostei da resposta do Bruno. Ao meu ver, as matérias que achamos estranhas, como horário de jogos de futebol, estão lá por questões de SEO. Não é que não estejam relacionadas com tecnologia, pois como o Bruno mesmo falou, hoje em dia muita coisa é relacionada a tecnologia. Porém elas não deixam de ser informativas e ajudam quem está trás destas informações.
Cada vez mais, eu acredito que as publicações online deveriam estar trabalhando para diminuir a dependência no Google e também diminuir a dependência de anunciantes. A solução eu não sei, mas acredito que seja buscar apoio dos leitores.
bom ele ter respondido, entendo o lado dele… mas não sei se o mercado é tão amplo, pode ser para ficar bem na vista do publico, mas tecnologia sempre teve em todas as indústrias, projetos técnicos e experimentação o que mudou é hoje a informática perpassa todas da mesma forma antes o que tinham em como era usar papel e caneta. Mas ainda sim vejo que podemos dividir as coisas ou focar em exemplo de usa da informática não que uma coisa virou a outra
Manter um negócio de mídia na Internet é cada vez mais difícil, então ao mesmo tempo que lamento uma “diluição” da linha editorial desses sites, não julgo tão severamente tais escolhas.
E sendo justo, os maiores sites gringos como o The Verge também têm uma parcela de posts falando de filmes, séries e promoções da Amazon.
Entendo os dois lados. Acho que o editor do Olhar Digital ainda está naquela fase de tentar achar justificativas virtuosas para decisões puramente comerciais. Meio que um sentimento de culpa reprimido. Tudo bem fazer conteúdo com objetivo comercial. Isso não quer dizer má qualidade ou má fé. Tem uma demanda, existe uma empresa suprindo essa demanda. Essa empresa quer pagar os funcionários e enriquecer, nada “errado” nisso também, bola pra frente. Não tem nada anti-ético ali pelo que pudemos perceber.
Provavelmente eu consumo esses sites quando quero algo muito específico e o Google me levou até lá. Mas pra acompanhar diariamente, recorro ao Manual do Usuário. Se esses outros sites adotassem a mesma estratégia do Manual, ou eles iriam falir ou iriam ter que redefinir a estratégia de mercado. A mesma coisa do Manual do Usuário. O nicho que o Manual do Usuário alcança é muito menor, mas também continua sendo comercial.
@feed
eu acho meio id… quer dizer, tenho restrições a chamar de "tecnologia" apenas o segmento de internet e eletrônica de consumo
visto por esse ângulo a resposta do Olhar Digital faz sentido
pergunta: quais as maiores empresa de tecnologia do Brasil ?
provavelmente as teles, os bancos, Petrobrás (além de outras grandes estatais, inclusive estatais de informática: Serpro, Dataprev, Prodesp, etc)
nenhuma delas é empresa de "tecnologia" no sentido que os sites/blogs "de tecnologia" usam
É a ~transformação digital: a empresa que não virar empresa de tecnologia estará fadada ao fracasso.
Sim, se a gente extrapolar, toda empresa é empresa de tecnologia, mas existe uma definição mais… digamos, stricto, né? Senão daqui a pouco estaremos igual a Zero Hora, um jornal regional que sempre acha um gaúcho para usá-lo de gancho para falar de, sei lá, tempestade no Sul da Ásia.
Se pegarmos só as empresas de tecnologia que têm capital aberto no Brasil/B3, a maior daqui (em valor de mercado) é a Totvs.
Maltratou os gaúchos, não é?
Com uma “baita” verdade, mas maltratou… hehe…
A gente brinca aqui que todas as notícias do mundo giram em torno de um gaúcho. Tipo aquela questão filosófica “se uma árvore cai no meio da floresta mas ninguém viu, realmente isso aconteceu?” – só trocando “ninguém” por “nenhum gaúcho”.
Mas tecnologia é isso, basicamente. Qualquer ferramenta utilitária que seja feita pra melhorar uma tarefa e a nossa vida é, de facto, uma tecnologia. Quadro negro, giz, roda, todas são tecnologias.
O que se pode fazer é fatiar o mercado, criar subconjuntos de tecnologia. Tecnologia computacional (telefones, computadores, televisões, periféricos); tecnologia social (como a tecnologia nos afeta, a nossa relação com a tecnologia, como os algoritmos criados estão moldando a nossa sociedade); tecnologia automobilíticas, tecnologia mercadológica (Musk, B3, NASDAQ, criptomoedas) e assim por diante.
Já fazemos isso em diversos locais do conhecimento humano, talvez seja a hora de fazer isso com a tecnologia.
E, via de regra, meu problema não são com sites generalistas, como o Verge ou o 404, o meu problema são com os sites formatados *apenas* para o SEO do Google.
Aliás, acho que a melhor área a ser estudada no que eu chamei de tecnologia social é exatamente como o Google (principalmente com o buscador e com o YouTube) moldou a nossa sociedade pós-2010 politicamente (educação, entretenimento, informação, consumo). Não tenho notícias de uma empresa moldar tanto a sociedade e suas regras como o Gogole fez nos últimos 14 anos. Pode-se juntar, em casos mais especificos, o Facebook com o WhatsApp (principalmente Brasil e Índia) e a própria rede social Facebook.
Eu acho muito mais interessante ter essa visão do que está nos afetando e como está no afetando do que debater iPhone, Android e o novo macOS; por outro lado, entendo que as contas chegam e, estamos no capitalismo, precisamos ser comerciais e entregar o que o algoritmo determina ou o que o nicho escolhido quer (acho que a solução do Ghedin e do MdU de colocar essa parte pro Órbita é muito boa, aliás; e, expandindo, serve como contraponto pra ver os desejos e anseios da audiência, ainda mais quando comparado com o TabNews dpo Felipe Deschamps, que tem noticias totalmente distintas das que temos aqui e discussões que enveredam por outros caminhos).
Extendi-me, mas a ideia é de que a tecnologia, como você mesmo pontuou, hoje permeia a socieade inteira, então nada mais normal do que começar a criar campos de estudos especificos para que ela seja estudada de acordo com uma visão teórica e com o devido embasamento.
Eu acho muito forçado chamar banco, por exemplo, de empresa de tecnologia. Ele não presta serviços de tecnoçogia, apenas utiliza a tecnologia pra poder prestar o seu serviço. Por essa lógica, qualquer organização que já existiu seria uma organização de tecnologia porque, como você bem pontuou “qualquer ferramenta utilitária que seja feita pra melhorar uma tarefa e a nossa vida é, de facto, uma tecnologia. Quadro negro, giz, roda, todas são tecnologias”.
Mas se um banco tem um setor de TI que pesquisa e desenvolve soluções (diga-se que quase sempre o sertor de P&D/CI&T/R&D dos bancos é muito maior/melhor do que os setores dessas empresas “fábricas de software” ou da maioria das startups) únicas, porque eles não são “empresas de tecnologia”?
A atividade fim pode não ser vender tecnologia (mas eles vendem), concordo, mas a ideia de tecnologia como apenas um produto a ser vendido é estreita demais pra mim.
@ Paulo GPD
Nessa toada, por exemplo, toda empresa que tem um carro ou caminhão seria uma empresa de logística? A tendência é que essa classificação (a da tecnologia) se dilua ao longo do tempo, mas é difícil imaginar o mundo sem empresas de tecnologia (as Apple, Google, Totvs da vida).
Dá para traçar um paralelo com o jornalismo aqui, onde a editoria de tecnologia perdeu bastante espaço na medida em que o tema ganhou popularidade, numa proporção quase simétrica, porque a tecnologia está em tudo, das fofocas (se veio do Instagram, é tecnologia?) à política (o áudio comprometedor do prefeito, vazado pelo WhatsApp, é tecnologia?). Ainda assim, resta um pequeno espaço para o que se considera tecnologia, num sentido mais estreito.
Bem bacana a transparência por parte dos dois, curto quando acontece esse tipo de troca.
Exatamente, é muito bom ver uma discussão saudável e adulta. Parabéns a todos.