Ao trocar transparência por lucro, Facebook coloca em risco toda a sociedade

Plataforma de petróleo em alto mar.

Até o século XIX, baleias iluminavam ruas e aqueciam casas. Não as baleias em si — ver o maior animal do planeta trocando a lâmpada de um poste seria alucinógeno demais até para o Buñuel —, mas algo que elas carregam. Durante décadas, um dos produtos mais cobiçados provenientes da carcaça da baleia foi a sua gordura, da qual químicos eram capazes de extrair um óleo. Entre algumas utilidades, como produzir margarina, esse óleo também servia como combustível para os recém-inaugurados sistemas de iluminação pública nos Estados Unidos e na Europa. Mais que isso, o óleo de baleia foi usado como lubrificante para as máquinas da Revolução Industrial. A demanda pelo óleo fez a indústria baleeira crescer até atingir seu ápice em 1820.

“Novas tecnologias, incluindo armas com arpões e navios a vapor, tornaram os baleeiros ao redor do mundo mais eficientes. A frota de baleeiros dos EUA, baseada na Costa Oeste, operava centenas de navios no Atlântico Sul, Pacífico e no Índico. Caçar baleias era uma indústria de milhões de dólares e alguns cientistas estimam que mais baleias foram mortas no começo dos anos 1900 do que nos quatro séculos anteriores somados”, diz reportagem da National Geographic. Herman Melville se baseou nesse massacre para escrever um clássico da literatura mundial — Moby Dick é de 1850, algumas décadas após o ápice.

Havia outros tipos de óleos disponíveis, mas nenhum queimava tão bem e com tão pouco resíduo como o de baleia. A matança só terminou a partir de 1854, quando descobriu-se que era possível sintetizar um óleo ainda mais eficiente a partir de um óleo cru extraído de bolsões debaixo da terra.

Foto colorida de um porto, com navios ao fundo e toda a parte seca coberta de barris de óleo de baleia.
Foto colorizada de um porto repleto de barris de óleo de baleia. Foto: New Bedford Whaling Museum/NPS .

O geólogo canadense Abraham Gesner foi capaz de transformar carvão em uma substância mais clara cuja queima não produzia tanta fumaça escura. Era a querosene. Anos depois, o norte-americano Samuel Martin Kier inventou um processo que chegava na mesma querosene a partir daquele caldo escuro e espesso encontrado debaixo da terra. Saem as baleias, entra o petróleo. Este foi o ponto zero da indústria que domina o consumo de energia da humanidade.

A indústria petrolífera está ativa há cerca de 150 anos — o primeiro poço de petróleo comercial no mundo foi aberto em 1858 no Canadá. Dada a importância que tem em nossas vidas, parece muito mais tempo. Nesse um século e meio, a indústria petrolífera passou por uma série de fases acompanhando sua crescente relevância. Começa com as explorações experimentais, vai para as primeiras histórias de sucesso, passa pela horizontalização do negócio com empresas operando transporte e refino, continua com a consolidação do mercado e chega mais ou menos a como estamos hoje, com a indústria sob uma pressão inédita.

Se você assistiu (e eu te aconselho a ver, caso não tenha), “Sangue negro” cobre essas primeiras fases em que o negócio se provou e, com isso, desencadeou uma corrida maluca para achar, comprar e colocar para funcionar poços em regiões com reservas de petróleo e como quem teve sucesso nessa empreitada virou barão da energia. As baleias se salvaram, pelo menos temporariamente, dos arpões. O que elas não contavam é que havia outra ameaça no horizonte: a temperatura da água e o volume de plástico lançado no oceano. Ambos também eram causados pela necessidade humana de energia.

O nome mais conhecido desse fenômeno que hoje a gente chama de “Big Oil” foi John Rockefeller, um sujeito que fundou e liderou a Standard Oil, a maior empresa petrolífera do mundo. Entre algumas inovações técnicas no setor de energia, como o processo de Frasch para extrair enxofre, a Standard Oil também inovou na forma como atacou o mercado para formar trustes, ou seja, a integração de todos seus negócios como forma de dominar todo o setor, ou impedir que rivais conseguissem se fortalecer no mercado ao praticar margens negativas (você vende um produto com prejuízo para quebrar um rival que, ao contrário de você, não tem gordura para sobreviver). A história da Standard Oil durou 41 anos, até 1911, quando a Suprema Corte dos EUA entendeu que a empresa era um monopólio e decidiu pela sua quebra. Existe um livro excelente que reconta a ascensão e queda da Standard Oil chamado The prize: The epic quest for oil, money, and power, do Daniel Yergin. O livro, que tem uma edição em português da editora Paz & Terra chamado O petróleo: Uma história mundial de conquistas, poder e dinheiro, ganhou o Prêmio Pulitzer. A gente já falou sobre a questão da Standard Oil no episódio do Tecnocracia sobre monopólios.

Gráfico mostrando a evolução da Standard Oil após sua quebra, chegando às quatro empresas atuais: Chevron, ExxonMobil, BP e Matathon.
Gráfico: Visual Capitalist/Reprodução.

A quebra do monopólio da Standard Oil foi a decisão correta e resolveu alguns problemas por algum tempo, como a falta de competitividade no setor, mas não corrigiu todos os problemas para sempre. Eu não estou defendendo que não havia nada a ser feito, tá? Existia, sim, a necessidade de devolver competição ao setor. A quebra foi a decisão correta, mas a gente precisa entender quais foram os desdobramentos daquela decisão para não ficar com aquela síndrome de filme da Disney — na vida real, o “felizes para sempre” não encerra a história.

Após ser quebrada, a Standard Oil foi, aos pouquinhos, se reconstruindo. Das sete empresas desmembradas, o mercado norte-americano tem, hoje, quatro: a Chevron, a ExxonMobil, a BP e a Marathon. É um fenômeno muito parecido com o que a gente vê em tecnologia. No Brasil, a quebra do sistema Telebrás em 1998 criou 12 novas empresas de telefonia. Aos poucos, o sistema foi se concentrando. Hoje a gente tem três saudáveis, a Tim, a Claro e a Vivo, e uma nos seus estertores há quase uma década e prestes a ser repartida entre as três rivais, a Oi. mas isso é assunto para um outro episódio. Pode ser, inclusive, o segundo da série “O que foi”.

Um dos problemas que a quebra não resolveu foi a questão de como essas gigantes petrolíferas lidavam com seus dados.

A partir da década de 1940, elas passaram a financiar estudos para entender o impacto que seus negócios tinham no planeta. Os diferentes estudos conduzidos por diferentes cientistas chegaram majoritariamente a uma mesma conclusão: a queima de combustíveis fósseis naquela escala libera monóxido de carbono suficiente na atmosfera para desengatilhar mudanças relevantes no meio ambiente. Uma das principais mudanças é no clima: o excesso de carbono na atmosfera após a queima do petróleo faria com que a temperatura da Terra aumentasse o suficiente para causar impactos catastróficos para humanos, fauna e flora.

Com as conclusões em mãos, o que fez a Big Oil? Mais que esconder o problema, criou uma estratégia de comunicação baseada em confundir. “Por décadas, as principais empresas de petróleo e gás entenderam ciência por trás das mudanças climáticas e os perigos dos combustíveis fósseis. Ano após ano, os principais executivos ouviram dos seus próprios cientistas alertas explícitos e frequentemente pintando um cenário terrível. Em 1979, um estudo da Exxon defendeu que a queima de combustíveis fósseis ‘causará efeitos ambientais dramáticos’ pelas décadas seguintes. ‘O problema potencial é enorme e urgente’, conclui o estudo. Mas, em vez de confiar nas evidências das pesquisas que financiavam, as maiores petrolíferas trabalharam juntas para enterrar as descobertas e fabricar uma contra narrativa que minasse o crescente consenso da ciência sobre as mudanças climáticas. A campanha da indústria do combustível fóssil para criar incerteza deu certo durante décadas ao confundir o entendimento público dos crescentes perigos do aquecimento global e a falta de ação política na questão”, diz reportagem do jornal britânico The Guardian.

E como nós só soubemos desses estudos agora? Na última década, as petrolíferas se viram envolvidas em centenas de processos relevantes sobre o papel que tiveram nas cada vez mais evidentes mudanças climáticas. Esses processos, em vários países pelo mundo, forçaram as empresas a entregar documentos. Assim, só mais de 50 anos depois é possível entender como o Big Oil, em vez de resolver o problema explícito e grave, investiu para sabotar a ciência como forma de confundir o público, evitar punições e manter seu lucrativo negócio intocado.

Você, bonitinho e bonitinha, já deve ter entendido para onde nós estamos indo. Cinquenta anos depois do Big Oil, nós temos novos gigantes que vêm demonstrando pouco ou nenhum comprometimento com o que os dados revelam deles mesmos. No Tecnocracia desta quinzena, a gente vai falar sobre como, ao controlar o acesso e, consequentemente, a análise dos dados do que acontece em suas plataformas, a Big Tech também esconde a realidade. Mais do que combater fake news, as próprias plataformas estão nos prendendo em realidades paralelas e fragmentadas. A cada quinze dias (às vezes um pouco mais, às vezes muito mais), o Tecnocracia faz um resgate histórico para mostrar que a tecnologia pode ser nova, mas a gente já viu métodos e comportamentos nocivos muito parecidos há décadas. Tudo é reprise. Eu sou o Guilherme Felitti. Aquele lembrete esperto: o Tecnocracia está na campanha de financiamento do Manual do Usuário. Quem paga a partir do plano II, de R$ 16 por mês, tem acesso ao Tecnocracia Balcão, um programa ao vivo feito uma vez por mês, e um adesivo do podcast. Se você quiser, acesse manualdousuario.net/apoie.

Em novembro de 2016, o Facebook comprou mais uma startup, mas ninguém deu muita atenção já que a rede social já tinha desembolsado um total de US$ 22 bilhões comprando três dos serviços mais bombados da época nos anos anteriores: o Instagram, o WhatsApp e o Oculus. O alvo de aquisição em novembro de 2016 (sem valor revelado) foi o Crowdtangle, uma plataforma gratuita que permitia entender como conteúdos se espalhavam pelas mídias sociais, como Facebook, Twitter, Instagram e YouTube. Era uma plataforma excelente para veículos de comunicação entenderem quais assuntos vinham bombando e como seus conteúdos estavam se saindo socialmente. Ao comprar o Crowdtangle, o Facebook garantiu a base de uma estratégia praticada até hoje para controlar quem pode ver e analisar o que rola dentro da rede social.

Uma pequena explicação técnica. Se você quiser monitorar o que acontece nos quatro grandes serviços sociais do mundo — Facebook, Instagram, Twitter e YouTube —, do que você precisa? Para começo de conversa, os dados brutos. Ter os dados brutos é essencial para fazer análises mais profundas do que só quantas contas citaram sua empresa nesta semana comparada à anterior, algo ofertado pelos serviços de social listening disponíveis no mercado. O acesso a dados brutos por essas plataformas é muito limitado, já que o objetivo principal é deixar o cliente preso ali dentro, vendo gráficos simplórios e aqueles insights a que todo mundo tem acesso. Se você quiser se aprofundar na análise, o ponto de partida é o dado bruto.

Como obter os dados brutos? O principal caminho é por APIs. APIs funcionam como balcões em que você chega, pede um dado e o balconista te entrega aquele dado — só que é tudo automatizado. APIs são criadas oficialmente pelos donos dos serviços para evitar que milhares de pessoas criem robôs para extrair dados diretamente das páginas (o chamado “scraping”), algo que impactaria o desempenho do serviço.

Eu critico publicamente YouTube e Twitter por uma série de decisões equivocadas, não é surpresa nenhuma. Mas ambos oferecem APIs abertas que permitem a fiscalização e o monitoramento independentes do que rola dentro das plataformas sem a intromissão do departamento de relações públicas. Qualquer um com o mínimo de conhecimento técnico sobre programação pode fazer robôs que monitoram quem publica, quem apaga, quem está subindo, quem está descendo e quais assuntos estão bombando. E isso sem depender do recorte ou da boa vontade das plataformas — ao oferecer os dados brutos, quem criou o robô tem liberdade para fazer sua própria análise. A análise que a Novelo Data, meu estúdio de data analytics, faz sobre a extrema-direita no YouTube é pela API. O monitoramento que o projeto 7c0, do Lucas Lago, faz de tuítes excluídos por parlamentares brasileiros também é por API.

O Facebook e o Instagram oferecem APIs, mas o uso é limitado aos próprios conteúdos — você pode consultar o conteúdo que você publicou na sua página. Quer raspar o conteúdo de outras páginas? Não pela API. A partir da aquisição do Crowdtangle, o Facebook fechou o acesso a ela apenas às pessoas que ele próprio selecionava. Hoje, o Crowdtangle é a melhor forma de se obter acesso aos dados brutos do Facebook e do Instagram, mas só tem acesso à ferramenta quem o Facebook escolhe. Não adianta despejar dinheiro — é baseado em convite. Se você, cientista de dados, quer analisar sem precisar raspar, o único caminho é o Crowdtangle.

Print do painel do Crowdtangle.
Painel web do Crowdtangle. Imagem: Facebook/Reprodução.

Porque também tem esse lado: o Facebook contrata dezenas de pessoas cujo único objetivo é elaborar estratégias anti-scraping. Um dos cargos é o “anti-scraping investigator”. A descrição da vaga tem aquele elã positivo de “no Facebook você vai ajudar a resolver grandes problemas”, quando, na verdade, o trabalho é exatamente dificultar a descoberta e a resolução desses problemas. Quem já tentou raspar o Facebook sabe como é: o HTML é renderizado de tal forma que palavras simples são quebradas dentro de até quatro ou cinco tags. Tudo para dificultar o trabalho dos robôs de raspagem. E se alguém consegue burlar esse sistema, o Facebook usa seu peso contra, processando empresas por trás de plugins do Chrome que facilitam a raspagem dos dados.

A estratégia de transparência seletiva do Facebook foi construída com dois lados: comprar e selecionar quem terá acesso à melhor plataforma de análise do que acontece dentro da rede social e usar seu batalhão de advogados para ameaçar qualquer um que tente acessar os dados de outras formas. E, mesmo com essas restrições, nem o Crowdtangle está a salvo.

Na primeira quinzena de julho deste ano, o jornal New York Times publicou uma reportagem do jornalista Kevin Roose detalhando uma guerra interna no Facebook a respeito da divulgação de dados da plataforma pelo Crowdtangle. “No começo, o Facebook estava feliz que eu e outro jornalista estávamos achando sua ferramenta útil. Com apenas 25 mil usuários, o Crowdtangle é um dos menores produtos do Facebook, mas se tornou um recurso valioso para usuários como organizações de saúde, profissionais envolvidos com eleições e marqueteiros digitais, e fez o Facebook parecer mais transparente que rivais como YouTube e TikTok, que não divulgam tantos dados assim1. Mas o clima começou a mudar em 2020, quando eu comecei uma conta no Twitter chamada @FacebooksTop10, no qual publico um ranking diário mostrando as fontes dos links com maior engajamentos no Facebook dentro dos Estados Unidos, baseado em dados do Crowdtangle”.

Print do cabeçalho do perfil @FacebooksTop10, no Twitter.
O único perfil que a conta segue é o do Mark Zuckerberg. Imagem: Twitter/Reprodução.

A conta provou com dados algo que qualquer um que pesquisa ou analise o Facebook já suspeitava: no Facebook, conteúdos extremistas, principalmente de extrema-direita, são muito mais populares que todo o resto. Em alguns dias, os rankings da conta trouxeram apenas páginas de extrema-direita, atrelados ao discurso do ex-presidente Donald Trump. Os mais populares são figuras de extrema-direita que defendem ideias delirantes e mentirosas cujos nomes, seguindo o mantra do mestre Millôr, serão omitidos para não ampliar a voz dos imbecis, uma galera que se apresenta como comentarista ou jornalista independente, mas que apenas ecoa e repete temas e posições defendidas por Trump. É conchavo do Facebook? Tudo indica que não. O problema é o modelo das redes sociais: consegue-se atenção no ultraje, um assunto que já falamos muito aqui no Tecnocracia. O Facebook dá as condições ideais para que esse tipo de conteúdo tenha mais popularidade e trafegue mais fácil.

A conta criada por Roose ganhou tração e desengatilhou uma guerra interna no Facebook.

Executivos do Facebook foram discutir com Roose no Twitter, alegando que os rankings eram enganadores já que “o Crowdtangle mede apenas ‘engajamentos’, enquanto a métrica real de popularidade do Facebook seria baseada em ‘alcance’, ou o número de pessoas que viram o post”. O problema é que o Facebook não divulga alcance (só os donos das páginas sabem seus próprios). Me lembra uma história de quando eu estava na redação. Um dia um executivo ligou para o diretor de redação querendo passar uma errata. “Ok”, disse o diretor de redação. “Mas tem que ser em off”, ele pediu citando o jargão jornalístico para quando você publica uma informação sem dizer o nome de quem passou, algo comum quando se teme represálias. Meu chefe corretamente disse que não — se vai falar que errou, precisa falar onde errou e mostrar a cara. Correção em off não existe. A postura do Facebook segue essa linha: dizem que os dados (que eles mesmos compilaram, inclusive) não refletem a realidade e o que reflete melhor é essa métrica aqui, mas eu não posso te mostrar, você vai ter que confiar na minha palavra.

Acreditar em palavra de Big Tech já é difícil. Se tem uma palavra que tá mais difícil ainda de acreditar é a do Facebook.

Você já deve ter adivinhado as razões para a guerra interna após a conta no Twitter e quem ganhou.

“De um lado estavam executivos, incluindo Brandon Silverman, fundador e principal executivo do Crowdtangle, e Brian Boland, vice-presidente de parcerias estratégicas, que defendiam que o Facebook deveria compartilhar o máximo de informação possível sobre o que acontece na plataforma — o bom, o ruim e o feio. Do outro lado estavam executivos, incluindo o vice-presidente de analytics e CMO Alex Schultz, que achavam que o Facebook já estava entregando demais. Esse grupo alegava que jornalistas e pesquisadores estavam usando o Crowdtangle para revelar informações que eles não achavam úteis — mostrando, por exemplo, que comentaristas delirantes e imbecis de extrema-direita tinham taxas de engajamento maior em suas páginas que veículos estabelecidos de mídia.”

Um picolé de cupuaçu para quem adivinhar quem ganhou. Em abril, o Facebook tirou a independência interna do Crowdtangle, espalhou funcionários em outros setores da empresa, colocou o serviço abaixo da divisão de integridade e tirou o fundador Silverman da liderança. Com todas as evidências em mãos, o Facebook tinha a opção de fazer um mea-culpa, entender o problema e propor alterações. Não foi o que aconteceu. No melhor estilo marido traído, o Facebook trocou o sofá da sala. Atirou no mensageiro. Aqui, Big Tech e Big Oil se dão um abraço da morte.

O que os executivos que ganharam a queda de braço dentro do Facebook defendem? Que a própria plataforma divulgue compilados de dados que sempre passem uma impressão positiva do negócio. Transparência vira uma tarefa do departamento de relações públicas. Quem já foi envolvido com o Facebook diz que não será surpresa se o Facebook matar o Crowdtangle ou cortar sua verba para matá-lo de inanição. Como resume o Roose na reportagem: “o Facebook adoraria total transparência se houvesse garantia de reportagens e resultados positivos. Mas quando a transparência cria momentos desconfortáveis, sua reação é constantemente de se tornar opaco”. Em vez de resolver o problema, o Facebook o acoberta escondendo os dados.

Uma história pessoal sobre a questão da transparência do Facebook. No Brasil, quem se filia à Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji) ganha acesso ao Crowdtangle. Mas existem engasgos: em 2020, o Facebook tirou o acesso ao Crowdtangle dos membros da Abraji alegando que estava “reformulando a plataforma” em novembro. O que teve em novembro do ano passado, bonitinhos? Eleições. O acesso voltou em dezembro, depois das eleições. Sabe aquele emoji de mãozinha no queixo olhando para cima? Pois é.

O perfil de Roose no Twitter não foi o único indício de como o Facebook é um antro da extrema-direita. Um relatório do próprio Facebook, publicado na rede interna da empresa em março de 2021, mostrou que a rede social sabia que pessoas por trás da tentativa de golpe no Capitólio em 6 de janeiro estavam usando as ferramentas do Facebook para organizar o ataque. Para o Congresso norte-americano, Zuckerberg falou que o Facebook vem trabalhando para manter a integridade das eleições e que fez tudo a seu alcance para evitar a tentativa de golpe. Era, de novo, mentira. No relatório, os pesquisadores defendem que a ação da rede social foi insuficiente e que, num próximo episódio, ela possa “se sair melhor”. O relatório não veio à luz por um lapso de consciência do Facebook: quem o revelou foi o BuzzFeed News, em abril.

Quer outro exemplo? Na primeira semana de agosto, o Facebook desativou as contas de pesquisadores da Universidade de Nova York que analisavam a divulgação de mentiras dentro do Facebook por meio dos seus anúncios publicitários. “Os pesquisadores do Ad Observatory Project vem analisando há anos a ferramenta Ad Library, do Facebook, onde é possível buscar quais os anúncios veiculados nos diferentes produtos do Facebook. O acesso era usado para descobrir falhas sistêmicas na Ad Library, para identificar mentiras em anúncios políticos, incluindo muitos semeando desconfiança no nosso sistema eleitoral, e estudar a aparente amplificação de desinformação partidária no Facebook,” afirmou em comunicado Laura Edelson, a principal pesquisadora do grupo Cybersecurity for Democracy da New York University”, diz a reportagem da AP.

O Facebook já conhecia Laura. Em março, o mesmo grupo Cybersecurity for Democracy divulgou um estudo mostrando que contas de extrema-direita conhecidas por espalhar mentiras não apenas estão bombando no Facebook como estão atraindo mais engajamento, sejam eles likes, compartilhamentos e comentários, do que outros tipos de conteúdo.

“Na extrema-direita, fontes de mentiras têm desempenho muito melhor que fontes de notícias reais. Fontes de extrema-direita identificadas como espalhadoras de mentiras tiveram uma média de 426 interações por mil seguidores por semana, enquanto fontes não mentirosas tiveram uma média de 259 interações semanais por mil seguidores”, diz a íntegra do estudo. A ferramenta que Laura e sua equipe usaram para obter e analisar os dados e chegar à conclusão? O Crowdtangle.

Além da pesquisa, o grupo criou uma extensão para Chrome e Firefox chamada Ad Observer, para coletar os anúncios que os usuários veem em seus feeds. Ao instalar a extensão, eles são informados e consentem com o repasse das informações aos pesquisadores. Por que esse detalhe é importante? Para justificar o bloqueio, o Facebook alegou que os pesquisadores estavam raspando dados dos usuários sem que eles tivessem autorizado. Era, de novo, uma mentira. Dona do Firefox, a Mozilla, que não estava envolvida originalmente na querela, veio a público defender os pesquisadores: “O Facebook alega que as contas foram encerradas por problemas de privacidade com o Ad Observer. Para nós, essas alegações não se sustentam. Nós sabemos isso já que, antes de encorajar nossos usuários a contribuírem com dados para o Ad Observer, nós revisamos os códigos nós mesmos.” Não acredita na palavra da Mozilla? O código do Ad Observer e todos os fluxos de dados usados pela extensão são abertos. Você mesmo pode confirmar a mentira do Facebook.

Não é a primeira vez que o Facebook faz isso. Em 2019, a rede social fechou o acesso a uma ferramenta criada pela ProPublica com a Mozilla e a Who Targets Me para dar mais transparência ao funcionamento da publicidade no Facebook.

O caso do Ad Observer nos mostra que, ao contrário do discurso oficial, o Facebook não só não está interessado em combater mentiras, como está engajado em espalhá-las para salvar a própria cara. Como o Facebook pode estar lutando contra desinformação dentro da plataforma quando ele mesmo mente para justificar ações do tipo? A guerra do Facebook não é com a desinformação. É com a informação, tal qual o Big Oil nos últimos 70 anos. Em nome do lucro, esconde-se a realidade revelada pelos dados para se lapidar, mentira sobre mentira, uma narrativa no departamento de relações públicas que não condiz com os horrores que estão acontecendo. Ao ter controle não apenas dos dados, mas também de quem pode ter acesso a eles, o Facebook tranca os próprios podres num cofre e dificulta a vida de quem se dispõe a descobri-los e alertar o resto do mundo. Antes fosse só esse grupo prejudicado: quem sofre com o impedimento somos todos nós. Só se cria políticas públicas para resolver os problemas mais sérios da sociedade quando existem dados concretos

Há quem defenda que, como entidade privada, o Facebook tem todo o direito de divulgar o que quiser. É um erro defender isso. A partir do tamanho que atingiu, da relevância que tem nas nossas vidas e da sombra das consequências do Big Oil ignorando dados oficiais, o Facebook não tem mais esse direito. Ninguém está falando de abrir ao público informações financeiras. Estamos falando de dados que nos permitam entender quais são os impactos das decisões do Facebook no debate público, na forma como a sociedade se organiza e quem usa suas ferramentas para fins terroristas, como é o caso da tentativa de golpe em 6 de janeiro, nos Estados Unidos.

A Big Tech se tornou presente demais em nossas vidas para decidir se vai divulgar dados ou apenas relatórios de PR com um spin positivo.

Para fechar, o que se pode fazer? Das nomeações de Tim Wu para o Conselho de Economia Nacional e Lina Khan para a FTC (a Anatel deles) às frases recentes, o governo Biden já deixou claro que uma das suas prioridades econômicas é a regulamentação de monopólios para devolver a competitividade a setores como a tecnologia. A Big Tech sabe disso. O que o Facebook faz é um conjunto de medidas desesperadas para tentar atrasar o inevitável. Entre as medidas, uma óbvia é a exigência de APIs abertas para quem quiser ter acesso a dados brutos anonimizados que permitam analisar as dinâmicas internas da plataforma. De novo: ninguém está falando em ter acesso ao seu nome, telefone, CPF e tamanho de cueca ou calcinha. É preciso que essas plataformas onde a sociedade se comunica forneçam dados que permitam análises e estudos independentes para entendermos o que acontece lá dentro. Se o Facebook vive em seu mundo de ilusão, isso não quer dizer que a sociedade tenha que viver junto, com todas as consequências escabrosas. Há décadas eram baleias. Hoje, somos todos nós, seja pelas mentiras do Big Oil ou, agora também, pelas da Big Tech.

Foto do topo: Zachary Theodore/Unsplash.

  1. Dados prontos, não por API.

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3 comentários

  1. Felitti, você viaja em relações, a principio díspares, mas as quais você conecta com coerente e argúcia. Quero ser seu amigo numa conversa de bar *rs.
    Parabéns pelo conteúdo.
    Muuuito bom.

  2. Hoje eu li, em vez de escutar.
    Bem bacana o texto, acho legal abrir espaço para outros autores(as).

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