Magazine Luiza revela identidade de clientes que compram em lojas de parceiros

Logo do programa Parceiro Magalu contra um fundo azul.

Em 2011, o Magazine Luiza lançou o Magazine Você, uma iniciativa de “social commerce” para alavancar o poder das redes sociais — na época, Facebook e Orkut — e convertê-lo em vendas. Dez anos mais tarde, o programa, hoje chamado Parceiro Magalu, continua ativo e evoluindo, mas segue expondo um dado sensível dos consumidores aos parceiros.

Programas de afiliados são comuns no varejo digital. Por eles, alguém indica produtos de uma loja usando links especiais e, quando outras pessoas compram a partir desses links, recebe uma comissão em cima da venda, que costuma variar de 1% a 12% do valor do produto.

Além do Magazine Luiza, a Amazon e a B2W (Americanas e Submarino) também têm sistemas próprios de afiliados. Outras lojas, como as da Via (Casas Bahia e Ponto) e AliExpress, terceirizam o trabalho a plataformas como Rakuten e Lomadee. Elas formam um filão conhecido como marketing de afiliados.

Uma diferença revelante entre o programa do Magazine Luiza e os demais é o público-alvo. Historicamente, esses programas se destinam a publicações e “criadores de conteúdo”, ou seja, empresas e pessoas que têm grandes bases de seguidores na internet. O Associados Amazon, por exemplo, informa em seu site que “ajuda criadores de conteúdo, editores e blogueiros a monetizarem seus sites”.

O Parceiro Magalu tem outra pegada. Ele se apresenta como uma fonte de renda extra ao alcance de qualquer pessoa, como uma solução para se tornar um(a) empreendedor digital. Ao acessar o site do programa, o visitante lê a seguinte chamada: “Com o Magazine Luiza você pode conquistar sua independência financeira!” Em seguida, uma breve explicação: “Através da nossa loja online grátis, você vende na internet e recebe comissões para realizar os seus sonhos.”

Print da página inicial do site Parceiro Magalu.
Imagem: Magazine Luiza/Reprodução.

Em vez de links personalizados que levam as pessoas ao domínio principal da loja, no Parceiro Magalu cada membro ganha uma loja própria, com endereço magazinevoce.com.br. A loja pode ser personalizada com diferentes layouts e ofertas em destaque. (Veja a do Manual do Usuário.) São fachadas diferentes para o Magazine Luiza — todas as compras feitas nas lojas de parceiros são processadas pelo Magalu, como se tivessem sido feitas no site principal, o magazineluiza.com.br.

O programa do Magazine Luiza é como se fosse uma versão digital daqueles catálogos impressos que revendedores recebiam para vender produtos aos vizinhos. No Brasil, a Avon com suas revistinhas talvez tenha sido o maior expoente do modelo.

Na internet, o Magalu o atualizou levando ao extremo a tendência dos nano influenciadores — como o mercado chama aqueles com até 10 mil seguidores —, apelando a pessoas que dialogam com dezenas ou no máximo poucas centenas de outras pessoas em suas redes digitais. Uma evidência nesse sentido é o foco, perceptível no canal do YouTube do Parceiro Magalu, na promoção das lojas personalizadas via WhatsApp.

As diferenças entre os programas se estendem a outros aspectos, e é num desses que surge o problema de privacidade no do Magazine Luiza.

Quando uma venda via link de afiliado é convertida, o dono do link consegue visualizá-la no painel de controle do respectivo programa. Todos os programas do tipo informam detalhes da venda, como produto, quantidade e valor pago. Além de antecipar quanto o parceiro receberá no fim do mês, esses dados são úteis para detectar tendências e direcionar os esforços de marketing a produtos que têm mais saída.

O Parceiro Magalu informa todos esses dados e mais um: os nomes completos das pessoas que compraram pela loja/link do afiliado.

Não é preciso pensar muito para vislumbrar as implicações negativas dessa abordagem. Hábitos de consumo são muito valiosos porque são muito reveladores, além de serem íntimos. Imagine-se comprando um produto erótico ou fazendo uma compra volumosa numa dessas lojas de parceiros, sem saber que o dono dela conseguirá identificá-lo(a).

Eu me sinto desconfortável toda vez que o Manual do Usuário converte uma venda pelo Parceiro Magalu1 e recebo uma notificação informando quem comprou o quê.

No painel de controle do Parceiro Magalu, as vendas aparecem assim:

Print do painel de controle do Parceiro Magalu, mostrando duas compras com os nomes completos (ocultados) dos compradores.
Obviamente, os nomes foram ocultados para a publicação nesta matéria. Imagem: Parceiro Magalu/Reprodução.

A identidade dos compradores também é revelada na notificação enviada por e-mail assim que uma venda é faturada:

E-mail de notificação de nova compra no Parceiro Magalu, revelando o nome do(a) comprador(a).
Imagem: Parceiro Magalu/Reprodução.

Reforçando: nenhum outro programa de afiliado revela a identidade dos compradores, só o do Magazine Luiza.

Em nota enviada ao Manual do Usuário (leia a íntegra a seguir), o Magazine Luiza explicou que “quando um cliente realiza uma compra ou contrata um serviço no Magalu ou nas empresas do nosso grupo econômico, alguns de seus dados pessoais são tratados com o objetivo de viabilizar a operação”, e que “entre esses dados pessoais, o nome fornecido pelo cliente no cadastro serve para identificá-lo corretamente tanto nas atividades inerentes ao procedimento de venda de produtos (logística, emissão de notas fiscais etc.) quanto nas diversas atividades internas que asseguram o controle e idoneidade das operações realizadas em nossas plataformas, incluindo aquelas viabilizadas por Parceiros Magalu, que por sua vez são instruídos a tratar todo e qualquer dado acessado sob confidencialidade”.

As cláusulas de confidencialidade dos termos de uso do programa determinam que “o divulgador obriga-se a manter o mais completo e absoluto sigilo sobre quaisquer informações confidenciais do Magazine Luiza” (8.1), e que são consideradas informações confidenciais “todos e quaisquer dados ou informações fornecidos pelo Magazine Luiza, que o divulgador venha a ter acesso, conhecimento ou que venha a lhe ser confiado em decorrência deste Contrato” (8.2).

O Manual do Usuário participa do Parceiro Magalu, bem como dos programas de afiliados da Amazon e da B2W, e oferece links de afiliados nas indicações de livros desta página, nas indicações culturais do podcast Guia Prático e na newsletter Achados e perdidos. Sempre informamos a existência desses links nos locais onde eles aparecem.

Na data desta publicação, eu tinha ações do Magazine Luiza (MGLU3).

Íntegra da nota do Magazine Luiza

O Magalu tem a proteção de dados pessoais de seus clientes, colaboradores e parceiros como um dos mais sólidos princípios de sua atuação, adotando rígidos padrões de segurança para a preservação de tais informações em conformidade com a legislação vigente, com o estado da técnica e com as práticas de mercado, sempre em constante evolução.

Quando um cliente realiza uma compra ou contrata um serviço no Magalu ou nas empresas do nosso grupo econômico, alguns de seus dados pessoais são tratados com o objetivo de viabilizar a operação. Os detalhes das práticas adotadas pelo Magalu estão dispostos em nossa Política de Privacidade.

Entre esses dados pessoais, o nome fornecido pelo cliente no cadastro serve para identificá-lo corretamente tanto nas atividades inerentes ao procedimento de venda de produtos (logística, emissão de notas fiscais etc.) quanto nas diversas atividades internas que asseguram o controle e idoneidade das operações realizadas em nossas plataformas, incluindo aquelas viabilizadas por Parceiros Magalu, que por sua vez são instruídos a tratar todo e qualquer dado acessado sob confidencialidade.

Ao anuir com as obrigações inerentes às atividades na plataforma, o Parceiro Magalu se compromete a manter o mais completo e absoluto sigilo sobre quaisquer informações fornecidas pelo Magalu ou que venham a ser acessadas por ele, incluindo todos e quaisquer dados, devendo tomar todas as medidas necessárias para impedir que tais informações sejam transferidas, reveladas, divulgadas ou utilizadas, sem autorização, a quaisquer terceiros.

O Parceiro Magalu é uma plataforma de empreendedorismo digital única, que possibilita aos inscritos a criação de uma loja online personalizada com todos os produtos do Magalu em um ambiente seguro, contando com apoio da empresa nas etapas de venda, cobrança, entrega e pós-venda, permitindo ao Divulgador recomendar sua loja nas suas redes sociais e ou por meio de email marketing e receber uma comissão por cada produto vendido.

As regras às quais cada Divulgador se submete ao criar sua loja estão dispostas nos Termos de Uso publicados no site da plataforma.

  1. Foi numa dessas que me ocorreu de abordar este assunto aqui no site.

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11 comentários

  1. Ghedin, baseado no disclaimer ao final do texto, gostaria de sugerir uma pauta sobre a sua experiência no mercado de ações.

    A internet está cheia de gurus de investimentos, alguns deles com promessas mirabolantes até demais.

    Acredito que ler sobre o tema sob seu ponto de vista pode ser bastante esclarecedor.

    1. Hmmm, eu não acho que seja a melhor pessoa para abordar esse assunto, Pedro. (Também acho que esses gurus não são as melhores pessoas para abordar esse assunto 😄)

      Resumidamente, tenho um perfil de investimento meio conservador, do tipo que aloca um percentual baixo em renda variável e que investe e esquece que aquilo existe (no sentido de que não fico comprando e vendendo). Não tenho pretensão de enriquecer com isso, muito pelo contrário. Como sou autônomo, não tenho FGTS nem perspectiva de receber uma aposentadoria, encaro esses investimentos como o meu “plano de previdência”.

      PS: Não encare isso como conselho de investimento.

      1. Ghedin, eu imagino (penso) que tu fique meio desconfortável em falar sobre os investimentos (até pela transparência, e tbm pra não ser recomendação e tal), mas quem sabe um dia seria interessante ver uma pauta sobre isso por aqui. Educação financeira é algo muito importante (e pouco ensinado), principalmente com isso em mente (aposentadoria ao invés de lucro rápido), e acho que a comunidade aqui que te acompanha ia gostar desse ~approach do MdU ao assunto. Fica de sugestão :)

        1. Vez ou outra o assunto dinheiro/educação financeira surge nos comentários. É sempre polêmico, porque cada um tem uma experiência e, num país tão desigual como o Brasil, não é difícil topar com gente que ganha menos que o suficiente — o que torna o assunto “investimento” meio inoportuno.

          Apesar disso, concordo contigo que é um tema importante. Manteremos no radar; de repente rola um podcast ou algo do tipo?

  2. Pensando aqui.

    Geralmente em processos de compra digital, o vendedor acaba de alguma forma tendo os dados do contato – isso vale no Mercado Livre, Olx, Marketplace (Facebook).

    Entendo que se é fornecido apenas o nome completo (ou o nome cadastrado), não há tanto problema, mas entendo perfeitamente a preocupação aqui, dado que com um nome completo, é possível buscar informações do mesmo, fazer uma espécie de “cruzamento de dados” e com isso usar a informação de forma negativa, como golpes por exemplo.

    Ponho-me aqui como se imaginasse o gestor do sistema de franquias do “Magazine Você”: o ideal aqui é tentar pensar de forma que o franqueado/parceiro (como você) age tal como um funcionário da loja, e que a mesma responsabilidade que um operador de vendas teria na hora de manipular as informações seria a mesma aplicada a qualquer parceiro, seja Ghedin, Vagner ou demais.

    Só espero que com este artigo, cria-se algum debate sobre a manipulação de dados por terceiros, diga-se de passagem. Isso me lembra que vejo muito em anúncios aqueles convites de “trabalhe em casa”, e não duvido que seja justamente para atividades de gerenciar vendas eletrônicas por exemplo, no que teria responsabilidade similar.

    1. Acho que o paralelo com plataformas como Mercado Livre e OLX não é muito preciso, Ligeiro. Nessas, você (vendedor) precisa conhecer o comprador para enviar o produto. No Parceiro Magalu, o divulgador não lida com esse processo (cobrança, logística da entrega, pós-venda); isso é feito integralmente pelo Magazine Luiza. Seu trabalho como divulgador é apenas direcionar vendas ao Magazine Luiza, logo, não há necessidade de abrir o nome dos compradores a ele.

      1. Entendi. Mas entendo neste caso que por exemplo, a pessoa (divulgadora) seria uma “testemunha” também. “Ah, Vagner vendeu para Ghedin um mouse” por exemplo.

        De qualquer forma, como falei, entendo como questão de risco, mas também entendo que é um risco quase similar ao que um funcionário (mesmo, seja terceirizado ou direito) da Magalu pegar os dados para algum tipo de ação indevida – isso de ambos os lados, diga-se.

        É desconfortável para ti que já conhece os meandros da privacidade, mas para um vendedor comum, fica como “um controle” (seja positivo ou negativo ao comprador) também – se a compra não é concretizada, a pessoa (divulgadora) sabe quem fez o golpe e também pode bloquear no face por exemplo, isso falando de algo simples. Ou no caso de golpes, aí entrando na sua preocupação, uma lista seja para algo simplório como um “mailing/mala direta”, seja para golpes reais mesmo.

        Novamente, algo para se discutir por lá (e espero que o pessoal da Magalu te escute. :) ).

        1. Não entendi a parte do golpe. Que tipo de golpe poderia decorrer desse programa?

          E não acho que um divulgador seja comparável a um funcionário ou mesmo vendedor do marketplace do Magalu. Literalmente qualquer pessoa pode ser divulgadora, e o vínculo dela com o Magalu é fraquíssimo. Tudo isso leva ao questionamento inicial: revelar os nomes dos compradores aos divulgadores não enseja qualquer benefício à relação — positivo; para mau uso, dá para pensar em vários…

          1. > Literalmente qualquer pessoa pode ser divulgadora, e o vínculo dela com o Magalu é fraquíssimo.

            Humm… esse é um ponto importante. Até ver esse argumento eu tava num pensamento “bah, Ghedin não tá fazendo tempestade em copo d’água?”

          2. Só imaginando que no caso de um golpe de um comprado contra um divulgador, seria responsabilizar o divulgador por alguma suposta falha de compra, por exemplo. Não que seja possível ou não, entendo que aí precisaria de um entendimento melhor do nível de segurança, mas só supondo.

O site recebe uma comissão quando você clica nos links abaixo antes de fazer suas compras. Você não paga nada a mais por isso.

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