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YouTube derruba mais 4 vídeos onde Bolsonaro fala de remédios sem eficácia contra COVID-19, mas não suspende canal

Semana passada, o YouTube removeu um vídeo do presidente Jair Bolsonaro (sem partido) em que ele promovia o “tratamento precoce”. Na sexta (23), após questionado pelo G1, o YouTube removeu mais quatro vídeos de Bolsonaro. Pelas regras da plataforma, bastam três vídeos removidos por infrações às suas diretrizes para que um canal seja removido.

Não foi o que aconteceu com o de Bolsonaro, graças a uma manobra casuística. Na quinta (22), o YouTube anunciou um “período de carência” para novas regras que, convenientemente, livrou o canal de Bolsonaro de ser banido. Num post em forma de perguntas e respostas, Alana Rizzo, gerente de políticas públicas do YouTube no Brasil, disse que:

A política [de remover vídeos que promovem o “tratamento precoce”] será aplicada a todos os vídeos na plataforma, inclusive de maneira retroativa. Vale dizer que, quando atualizamos uma regra, algumas vezes oferecemos aos criadores um “período de carência” para que possam compreendê-la e se adaptarem. Isso significa que vídeos postados antes da mudança ou até um mês depois da atualização são removidos do YouTube, mas não geram um Aviso (strike) como penalidade. Depois desse período de carência, os criadores que postarem novos vídeos em desacordo com a diretriz passam a receber sanções, por isso, precisam redobrar a atenção.

Toda vez que alguém de grande projeção, como o presidente do Brasil, ultrapassa a linha do inaceitável, o YouTube a apaga e a redesenha um pouco mais além. Não é um problema exclusivo do YouTube, e tudo isso ajuda a explicar o buraco profundo em que nos metemos. Via G1.

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23 comentários

  1. Eu vou ser advogado do diabo aqui, mas, não acho correto esse tipo de ação por parte de nenhuma rede social. O Bolsonaro precisa falar o que quer e arcar com os custos sociais disso, seja na vida real ou na internet. Isso pode, e deve, ser usado para ele ser processado e responsabilizado criminalmente, mas apagado jamais.

    Além do que, isso gera um grande buraco negro onde qualquer outra conta pode ser impactada por uma decisão dessas. Na época da “limpa” do Twitter muita gente comemorou o Trump e muitos outros perdendo suas contas. Dias depois o Twitter apagou contas de assembleias de trabalhadores, de grupos organizados de luta por direitos, de pessoas ligadas às lutas por terra e moradia etc. Tudo se baseando na mesma premissa inicial do ataque ao Capitólio.

    Além do que, se formos começar a apagar a história (vídeos e textos) porque promovem ideias erradas, anticiência e outras coisas, não sobrará uma redação no Brasil. A imprensa brasileira (não sei das outras) é tão nociva quanto os canais de YouTube da extrema-direita (e a moda agora é virar sommelier de pobreza e ensinar como comer alimentos infestados com insetos, mofados ou vencidos; falar sobre como “é o gosto” da comida feita com lenha dentro de casa etc).

    1. Eu discordo, Paulo. A legislação de um país não excluí acordos entre particulares e, se você mora ou já morou num condomínio, sabe que regras de convivência em locais privados são necessárias, mais ainda num lugar privado que reúne um bilhão de pessoas. O Manual do Usuário, por exemplo, é um YouTube em escala nanoscópica: se um leitor publicar uma ofensa aqui, não é preciso levar a questão ao judiciário logo de cara. Existem regras mínimas de convivência e eu posso cortar esse mal pela raiz, sem envolver a Justiça/o Estado.

      O YouTube tem regras, mas não as aplica uniformemente a todos os seus usuários. Você, que manja de linguística, sabe que essa é a definição de privilégio, e sabe também que privilégios são perigosos e frequentemente injustos. O YouTube poderia se furtar de moderar conteúdo, mas aí teria que ser para todos ou estabelecer, de antemão, regras de exceção para figuras públicas. Não faz nem um, nem outro, o que cria terreno para a disseminação de discursos de ódio e desinformação.

      Quanto ao apagamento da história, é uma tarefa que não compete ao YouTube e nem é saudável que depositemos essa responsabilidade nele ou em qualquer plataforma das big techs. Elas têm zero compromisso com isso e não são confiáveis. E não é como se o YouTube fosse o único repositório de vídeos possível, né?

      1. A questão é que isso vai ser usado, como mostram outros momentos, para silenciar vozes que se levantem contra questões do capitalismo, como por exemplo, canais de movimentos sociais. Foi assim no Facebook, foi assim no Twitter. Compactuar com a retirada do Bolsonaro do YouTube, ou de qualquer outro canal, é dar vazão aos desmandos da plataforma contra qualquer pessoa, e no meu entendimento, apagar a história de um período ímpar da história brasileira. Acho que canais de presidentes nacionais (de qualquer país no caso) não poderiam ser deletados, assim como eles não poderiam deletar o conteúdo enviado à plataforma. Eles deveriam estar livres de strikes e qualquer problema deveria ser resolvido criminalmente na corte do país. Porque, convenhamos, não é um zé ninguém que está falando abobrinhas, é um chefe de estado, ele deveria ter esse privilégio e o mesmo tempo ser impedido apagar vídeos ou transmissões ao vivo.

        Ainda, eu acho completamente irrelevante se existem outros locais para subir vídeos. O YouTube é a plataforma dominante. Assim como Twitter, WhatsApp, Instagram e Facebook. Eles podem, e devem, se tornar um local de “luta e conscientização” exatamente pelo seu grande alcance e virtual monopólio. Sem esses canais você dificilmente alcança pessoas, algo muito relevante para movimentos sociais, por exemplo.

        E isso não é um argumento favorável às plataformas das Big Techs; mas a verdade é que não adianta eu subir um vídeo sobre o massacre das comunidades indígenas do RS/POA [1] no Telegram ou no Vimeo porque ninguém vai ver (ou apenas aquelas pessoas que já sabem do assunto vão ver). Como você disse, o YouTube poderia – deveria – se furtar de moderar conteúdos. É o meio mais “justo” de se resolver isso.

        xXx

        [1]: que ocorrem nesse exato momento, à revelia da imprensa local e nacional; inclusive o Facebook já deletou diversos conteúdos desse tipo, assim como Twitter, porque todos “convocavam luta” nos seus textos; ainda se consegue encontrar conteúdo desse tipo, mas normalmente postado por contas menores que não tem quase nenhum alcance, orgânico ou impulsionado.

        1. Acho que concordamos em discordar. O YouTube é como qualquer outro espaço privado, digital ou não, e tem o direito de estabelecer regras de convivência sob o risco de virar (ainda mais) um lixão. Se alguém se sentir prejudicado pela aplicação dessas regras ou se a moderação da plataforma falhar em coibir crimes (só para pontuar, não era o caso do Bolsonaro), aí sim cabe a judicialização.

          Aliás, o Gizmodo Brasil foi um pequeno experimento dessa ideia de deixar a coisa rolar sem moderação. Deu no que deu. 4chan, Parler, Gab… não consigo pensar em um ambiente sem regras que tenha prosperado. Você se lembra de algum?

          1. Não me lembro, mas não conheço tanto o ambiente virtual assim. De qualquer modo, a questão que eu coloco é que o YouTube abre, assim como outras plataformas, um precedente para apagar conteúdos de cunho social que sejam “extremos” (como esse do massacre indígena no RS) se baseando nas regras criadas anteriormente para a conteúdos de extrema-direita.

            E daí? Fazemos o que?

            Claro que do meu ponto de vista moral esses conteúdo de extrema-direita do Bolsonaro deveriam ser todos apagados, mas do ponto de vista social, esses conteúdos não precisam ser vistos e escrutinados? Ou melhor, não é mais vantajoso para a sociedade entender e saber como esse pensamento se movimenta pela internet, angariando jovens e pessoas com menor capacidade de discernimento, com mentiras?

            Eu sigo achando que a ideia de saber e manter esse conteúdo indexado e no ar é a melhor pra poder entender pelo que estamos passando.

            Mas reforço: a ideia central de defender a manutenção desses conteúdos é porque esse mesmo tipo de “amparo legal” do YouTube pode (e chuto que vai) ser usado pra derrubar vídeos do Tese Onze, Jones Manoel, Boitempo etc.

          2. Há uma diferença importante entre reportar e agitar ou infringir os termos de uso de uma plataforma como o YouTube. Pegando o seu exemplo, o do massacre indígena: um vídeo que mostrasse o massacre provavelmente seria excluído porque os termos de uso do YouTube vedam violência explícita, mas uma reportagem, uma crítica, um comentário, enfim, falar do evento, não. (Esse vídeo do massacre, aliás, não passaria em lugar algum “institucionalizado”, como na imprensa, e acho que está certo; assistir a mortes não resolve o problema.)

            Ocorre o mesmo no jornalismo (bem ou mal, a melhor ferramenta de divulgação de eventos de interesse público de que dispomos). Há convenções e regras próprias, que os veículos jornalísticos definem, para passar informações sem causam transtornos ou incorrerem em práticas que, ainda que não sejam ilegais, são de mau gosto, perturbadoras ou apenas indesejáveis. É por isso que há um cuidado especial ao reportar mortes por suicídio, ou que imagens chocantes, como mortes, não são veiculadas.

            Bolsonaro promovendo “tratamento precoce” é a imagem chocante que o YouTube não quer ali, nos seus domínios, e por bons motivos — como estamos testemunhando, é um discurso letal. Bolsonaro quer continuar pregando cloroquina? Ele tem um punhado de lugares para falar isso. Ele é o maldito presidente do Brasil. Em qualquer lugar onde ele falar, até numa padaria no meio de uma tarde de domingo, vai ter quem o ouça, registre, catalogue e preserve seus discursos. (Não se pode ignorá-lo, e concordo contigo, isso sequer é desejável.) Muito antes do YouTube já se sabia o que ele pensava, pelas atuações da imprensa e dele próprio, em sua (in)atividade legislativa.

            Canal no YouTube não é garantia fundamental, e não há que se falar em censura de entes privados — censura só se configura quando o Estado bloqueia a divulgação de um discurso.

          3. @Ghedin

            Eu não falo em censura, eu falo em usar esse tipo de expediente pra calar vozes que se levantem contra os desmandos. Por exemplo, um funcionário da Amazon que use uma plataforma dessas para denunciar as condições de trabalho dos armazéns pode muito se enquadrar numa “discurso que incite a violência”, por exemplo. Queremos isso? Espero que não.

            E faz muito tempo que a imprensa grande não serve pra muita coisa, senão reproduzir o pensamento liberal padrão como “defesa do estado democrático de direito” enquanto blinda figuras como o Paulo Guedes, Gustavo Franco, Dória e outros nomes da direita brasileira que são tão letais quanto o Bolsonaro, a diferença é que o Bolsonaro não é dissimulado como esses que eu citei e não esconde as suas opiniões.

            Quer um exemplo? O governador do RS (Eduardo Leite do PSDB) acabou de mudar todo o sistema de distanciamento controlado do estado, regredindo à bandeira vermelha (situação de alto risco) o meio de uma terça-feira. Porque? Porque o CPERS (sindicato dos professores do RS) conseguiu uma decisão judicial que suspende as aulas enquanto a bandeira de distanciamento social for preta (risco altíssimo); depois de perder pelo menos 4 “batalhas” na justiça o PSDB do Eduardo Leite simplesmente mudou os critérios para poder reabrir escolas e universidades no estado (diga-se, temos o Bibo Nunes como lobista do ensino privado atuando diretamente contra o sistema de bandeiras do estado).

            No que isso difere do discurso negacionista do Bolsonaro? O governador pretende, à revelia dos laudos epidemiológicos, reabrir as escolas do estado e correr sérios riscos de contaminar uma quantidade bastante grande de professores, merendeiras, secretários/as, crianças e parentes que morem junto dessas crianças.

            Nada foi feito para barrar o vídeo do governador no YouTube. Nada foi feito contra a decisão arbitrária dele que coloca em risco milhares de pessoas (minha mãe é professora e perdeu 4 colegas na pandemia, todas que estavam em contato direto com crianças e pais na entrega diária de atividades). As notas na imprensa questionam vagamente a questão (salvo mídias menores como Sul21) e ninguém se levantou contra a ação.

            A diferença crucial é que o Eduardo Leite é do PSDB, com sua máquina e sua maquiagem política, enquanto o Bolsonaro é um tosco, contudo, ambos são psicopatas.

            E a gente ainda poderia falar do prefeito de Porto Alegre (Sebastião Melo do MDB) com suas lives mandando as pessoas darem a vida pela economia, dos seus tweets inventando dados epidemiológicos e questionando declarações sobre medicamentos (ele também defendeu abertamente o tratamento precoce no Twitter, Facebook e YouTube).

            Enfim, temos “N” exemplos de que o problema do Bolsonaro é ele ser o Bolsonaro e não necessariamente o discurso dele.

          4. @ Paulo

            Não estou tentando fazer um julgamento do que é certo ou do que deveria ficar ou ser removido do YouTube. A análise que eu faço é a da aplicação das regras que o próprio YouTube definiu para todos os participantes da sua plataforma, e que Bolsonaro infringiu, o que ensejaria a remoção do seu canal, mas não foi o que aconteceu.

            E… é isso. A nossa legislação civil prevê e valida contratos entre particulares. Os termos do YouTube, que preveem essas punições, nada mais é que um contrato entre particulares. (Um contrato de adesão, mas enfim.)

            Poderia-se argumentar que promover remédios sem eficácia contra a COVID-19 ou discursar contra as vacinas configura crime com a saúde pública, o que não sei se é o caso. Digamos que não. Ainda assim, o YouTube tem um embasamento legal (seus termos de uso) para agir e remover o canal de alguém como Bolsonaro. Se Bolsonaro (ou Jones Manoel, ou a Sabrina do Tese Onze) tiverem seus canais removidos e discordarem dos motivos, aí sim eles podem judicializar a disputa porque o YouTube teria quebrado o contrato que firmaram.

            Não acho que seja muito diferente de alguém que, sei lá, chegue num restaurante e comece a gritar, a incomodar os outros clientes, e é convidado a se retirar. Ou, nessa situação, você acha que essa pessoa deveria ser tolerada, para sabermos o que ela pensa?

          5. @Ghedin

            Eu entendo o seu ponto, mas acho que você crê demais no direito.

          6. @ Paulo

            Bah, e qual a alternativa? Sei que o Judiciário, que todas as instituições, na real, têm problemas — umas mais que as outras, mas todas são problemáticas em alguma medida. Só que é o que temos, e se hoje elas funcionam mal, ainda há potencial para corrigi-las, porque as fundações são boas.

            Abre-se muito o leque de possibilidades quando cogitamos alternativas antissistêmicas, ou rupturas. Vide, por exemplo, o próprio Bolsonaro, que tenta corroer as instituições por dentro, esgarçando-as até que se tornem inúteis.

    2. Parece que quando a gente se torna mais velho (meu caso), entendemos um pouco mais do porque de que certas decisões que “mais velhos” geram existem, mesmo que nós contrariamos no passado.

      O seu discurso sobre “não banir” caí em um problema: o que aqui é considerado “censura”, indo de encontro com o que o Ghedin falou sobre o salnorabo poder falar onde quiser?

      “Se justifica a direita ser banida, justifica também a esquerda ser banida”. Não consigo ver assim, pois aí você entra em um dilema de comparação falsa – se “esquerda” e “direita” aqui atuam de formas diferentes e são opostos no que divulgam, obviamente e teoricamente NÃO DEVERIA ser banidos canais de esquerda de plataformas comerciais. Se são banidas – seja canais ou vídeos – o ideal é investigar o porquê, mas lembrando que estamos falando de um ente comercial, e não uma emissora pública.

      “Eles são ‘padrão de mercado’ (ou melhor, ‘a plataforma dominante’) e deveriam ser abertos a todos”. Eis um ponto: a Globo também o é, e é raro achar algo do PCO, do Jones ou da menina do Tese Onze (que provavelmente se incomodaria de eu usar o termo “menina” com ela, mas divago). Não a toa hoje tem TVT na tv aberta (apesar do baixo alcance).

      Isso na verdade iria cair em outro assunto: a influência da esquerda e sua forma de convencer as pessoas de suas ideias, no que na verdade deveria ser pensado com calma, não só jogando a culpa ou responsabilidade em “plataformas dominantes”, mas em si mesmo. É mais em como a esquerda deveria achar um caminho de se divulgar e mudar mentes, mas aí nem eu sei como debater isso.

      De qualquer forma, acho que o ideal é pensar que o banimento do salnorabo ajuda a equalizar o tom usado – e cá entre nós, sinto que o incômodo aqui é que parte da esquerda (a que crava uma “revolução) usa um tom de palavras próximo ao que o salnorabo usa. “Pegar em armas”, “atacar os poderes”, etc… Isso entraria em uma discussão boba que sinceramente eu sei que eu perderia no debate então nem precisamos nos estender sobre.

      Creio que no final o filtro é humano também: Eu sinceramente até tentei assitir Tese Onze e outros, mas me dá agonia. Tenho uma sensação de soberba próxima ao que vejo quando o Ciro Gomes as vezes quer dar uma de sabidão e vira um pedante.

      A imprensa brasileira tem um problema que é uma ilusão que o jornalismo vai salvar o país – sendo que nos jogou para este buraco de 2019-202*. Aí acho que uma teoria besta sobre a “valorização da pobreza” que vem sendo feito vem do misto que parte dos jornalistas de fato tem histórias oriundas de sua época onde o cara virava a madrugada estudando para o vestibulinho enquanto a mãe e/ou pai tava lá se virando para pagar as mensalidades do filho em uma região simples e com pouca grana. Aí é aquela coisa, vem a “nostalgia”, que aí os editoriais aproveitam-se disto e faz isso tudo.

      Só que “xingar muito no twitter” não tem resolvido esta forma de os jornalistas tratarem os pobres (estes que provavelmente nem vão ler o que está por detrás do paywall que valoriza a pobreza…)

      1. Sommelier de pobreza é a principal pauta da imprensa brasileira. É a fábula do menino Charlinho do H&R. Eles idolatram a pobreza e a dificuldade das pessoas com matérias como “veja o seu João que precisa trabalhar 16 horas por dia aos 90 anos pra complementar a renda”, sem explicar que isso ocorre porque não tem previdência pro seu João da história.

        Eu não assisto o Tese Onze da Sabrina e sou bloqueado pelo Jones, pra ver que eu não acho eles pessoas capazes, mas a questão é que os discursos deles podem se encaixar nas mesmas diretrizes que retiram os vídeos do Bolsonaro do ar. E isso é problemático pra qualquer pessoa porque cria um pensamento ainda mais padronizado do mundo (e olha que o pensamento liberal já é quase que unanimidade).

        A diferença crucial entre você e o Ghedin em comparação comigo, é que ambos acreditam nas instituições e no Estado Democrático de Direito; e o Ghedin acha que vale a pena salvá-lo (julgando pelo que ele escreve apenas, claro), ao passo que eu acho que ele deve ser obliterado porque eu enxergo nele as contradições do sistema capitalista (desigualdade e concentração) encarnadas tanto nas instituições como na própria democracia burguesa.

        Que fique claro, não acho que exista um pensamento correto nesse sentido, apenas visões bastante distintas sobre a solidez das instituições e se vale a pena salvá-las.

        1. Grato pelas palavras.

          Entendo assim: estamos nesta situação de “Estado Democrático” (vamos nomea-lo assim), na qual o Ghedin, em sua razão, defende-o, porque de alguma forma deixamos que fossem criados os mecanismos que o moldaram hoje. Ainda que tenha esta principal falha – um maior foco em defesa das oligarquias e de quem domina no capitalismo, ainda assim de alguma forma as pessoas aceitam os resultados que tais mecanismos geram, senão provavelmente estaríamos em alguma guerra civil ou situação diferente da tal.

          Acho que podemos ser sinceros e abrir o jogo: de fato, a censura seja no canal do salnorabo (ou parte de seus apoiadores) ou dos defensores do que muitos consideram “marxismo cultural / ou extrema-esquerda :p ” ocorre justamente pela proximidade do discurso proferido, no caso o uso de alguma forma de violência ou intimidação para mudança de poder. Isso falando baseado no preconceito que tenho, na qual obviamente preciso muda-lo também.

          E eis um ponto na nossa cultura “comum” (e não sei se o Ghedin ou outros concordarão comigo), mas a defesa de verbalização de atos nefastos, negativos ou de reação violenta acaba muitas vezes mais instigando e gerando conflitos (nas quais muitas vezes o próprio que o gerou não estará lá na linha de frente – vide Trump) do que gerando alguma mudança positiva em si. E censurar é um mecanismo para impedir que as pessoas vejam e se instiguem a fazer – só ver o Trump o que fez e gerou a situação no capitólio no começo do ano sem a devida censura.

          Tipo, é ok falar de certos pontos sobre violência ou defesa de direitos, ou até mesmo defesa de atos que sejam contrários a “inimigos”. O problema é o limiar – onde termina a opinião, fato ou exposição do que quer colocar e onde começa a instigação para situações prejudiciais a terceiros (talvez até a tua ou minha pessoa, ou de terceiros).

          Realmente não existe um pensamento correto, porém acho que quando se defende a censura de certos tipos de verbalização, é para justamente evitar um abuso onde passe de um ponto que saia desta penumbra e vire algo negativo a nossa pessoa.

          Uma curiosidade: inúmeras vezes já pensei em formas de ir atrás de quem me provocava online, não nego isso. Apenas uma vez fiz isso, isso na época do Orkut, porque de alguma forma conhecia os familiares da pessoa. Por sorte desta, o pai e a irmã eram advogados da pessoa na qual fui atrás, e amigos de um conhecido em comum. Conversamos e tudo se adequou.

          Os únicos lugares que tive maiores problemas a ponto de pensar em achar a pessoa ou meter algum processo foram o fórum Outer Space e a área de comentários do Gizmodo – neste último, acabei sempre tolerando devido ao respeito que tive aos editores chefes em questão, mas que sempre pensei em alguma forma de meter um processo em pelo menos dois dos comentaristas, isso sim.

          1. A questão que se impõe quando se pensa nos termos de “limiar” de ações é que esse limiar é determinado não por um consenso social e sim por um consenso de poder econômico. É aceitável que se fale publicamente de reformar estruturantes que colocam pessoas em insegurança alimentar ou que se defenda a volta às aulas no meio de uma pandemia; não é aceitável que se defende uma greve ou uma manifestação contrária a esses instrumentos, contudo.

            O limiar que você fala é um senso comum liberal herdado de anos de dominação econômica. Porque é aceitável que pessoas passem fome e morem na rua ao serem impedidas pelo processo capitalista de terem acesso à dignidade humana? Porque não é aceitável que se organize essas pessoas e se faça um ato violento contra os poderes (estatais e empresariais) para que se tenha uma distribuição de renda e uma rede de sustentação para essas pessoas?

            Alguém que crê no nosso sistema social poderá dizer que “essas pessoas devem buscar os métodos de representação dentro do sistema para melhorarem de vida”, partindo do pressuposto que é possível mudar a sua realidade sem romper com os mecanismos que a criam. Eu não concordo com isso e vejo diversos exemplos diários que me mostram que esse tipo de “senso comum” é apenas uma valoração social imposta pela burguesia conservadora. Tem quem enxergue nisso uma balança de pesos e contrapesos, contudo.

            A minha questão inicial é que o que tido como senso comum, aceitável ou limiar não é uma formação orgânica da sociedade e sim uma imposição econômica de alguns atores com muito poder que influenciam na nossa sociedade diuturnamente.

            Puxando a questão inicial: o banimento dos canais e vídeos do Bolsonaro ou do Trump servem, grosso modo, para criar a ideia de normalidade e sedimentar esse entendimento do que é “comum” para nós, assim, quando todo o pensamento “fora da curva” for impedido de ser dito a gente vai achar normal, afinal, fizeram o mesmo com o “outro lado”.

            Puxando a resposta do Ghedin, quando ele diz: “Se Bolsonaro (ou Jones Manoel, ou a Sabrina do Tese Onze) tiverem seus canais removidos e discordarem dos motivos, aí sim eles podem judicializar a disputa porque o YouTube teria quebrado o contrato que firmaram” é o equivalente a dizer, quando se organizam greves, que os trabalhadores deveriam buscar “meios legais” de resolver a questão porque eles concordaram com o contrato de trabalho que foi assinado na época da admissão. A questão é que nem sempre você tem escolha e nem sempre você tem como lutar fora de uma arena privada (no caso das plataformas web isso é bem claro quando comparamos os alcances).

            Confesso que essa questão é maior do que eu entendo e que isso vai acabar batendo, fatalmente, na discussão sobre as “Big Techs” serem, hoje, micro-estados privados. Mas acho que o caminho de aceitar os termos e as imposições que elas colocam não é correto e, muito menos, silenciar vozes de qualquer espectro político com base em vontades e discordâncias (como eu disse, pessoalmente eu acho muito bom qualquer liberal-conservador se dando mal).

        2. Vou usar um argumento parecido com o do Ghedin:

          Se eu fosse na frente da sua casa, bem de frente ao seu portão e começasse a esbravejar com um paredão de som (daqueles de funkeiros) um monte de coisa positiva sobre neo-liberarismo, qual seria a sua reação?

          1. Não sei. Provavelmente sairia de casa e te daria um tiro (se eu tivesse armado) ou desceria a porrada com o que tivesse à mão.

            Mas você está igualando uma luta de trabalhadores pra uma questão pessoal, o que é um erro. É como o economista que compara a economia de um país com a economia de uma casa de 4 pessoas. Pode parecer que faz sentido, mas não faz porque ambas tem ordens de grandeza diferentes.

        3. Não tou igualando a luta social, mas sim fazendo você pensar na sensação que as pessoas tem quando alguém “lutando” por “algo que acredita”, seja uma “luta social”, “o neoliberalismo”, ou mesmo “um doido gritando apenas por ser doido”.

          Explicando as aspas: botei o “lutando” entre aspas pois obviamente estou aqui botando uma dose de cinismo: uma luta social sempre será válida, porem, como dito o termo, “luta” é algo voltado ao uso de violência. E violência gera uma violência – o status quo vai usar de violência contra a violência que a luta social trava para tentar corrigir as falhas. (A propósito, esperemos que Rafael Pilha se livre da prisão ;) ).

          Você com certeza vai achar idiota a comparação, mas justamente por isso que fiz tal provocação: a violência que eu provocaria contra você (o incômodo para falar bem do neoliberalismo [cof-cof]) geraria um efeito contrário contra mim, que é a violência que você provocaria pela irritação, pelo sendo de correção, dado que você antes estaria em um estado de conforto).

          A opressão do Estado em evitar a luta social é para tentar manter um conforto a quem já está nele – incluso quem antes já teve luta social para ter algo, diga-se de passagem. Quantos não lutaram para ter uma COHAB ou projeto habitacional na cidade? Ao custo de vidas, inclusive.

          Mas voltando a questão da censura. Acho que tanto o exemplo do Ghedin no restaurante quanto do meu na sua casa mostra o ponto em questão: incomodar o alheio muitas vezes vai causar uma repulsa do que uma empatia para uma causa. Porque o outro está em um estado de conforto, e desconfortar obviamente vai irritar. E creio que para tentar convencer as pessoas para corrigir algo, algo que incomoda não é muito legal.

          (mas o que isso tem a haver com bolsonaro e a censura da esquerda?). A fala do salnorabo agrada a militância dele, mas obviamente cai nas falácias, mentiras e ameaças. Só que ele fala para a militância, sabe disto, sabe que “causa” com isso e por isso merece a censura – pois obviamente tal falta de censura ampliaria a amplitude das falas do mesmo e que há uma parcela da população que cairia fácil nas falas dele, tal como caiu em 2018.

          A fala das militâncias da esquerda varia muito de condição – e sinceramente não tenho capacidade para definir aqui se é válido ou não a censura, mas entendo pelo o que o Ghedin falou que houve motivos (como exposição de violência por exemplo). No entanto, entendo que há dois pontos que você já falou ao menos de um deles: O fato da “mídia dominante” ter um pensamento diferente das militâncias de esquerda (e por isso qualquer pensamento acima “do limite” deles seria censurado de alguma forma) e a forma como a esquerda espera que uma mídia considerada “de direita” abra espaço para ela. Aí é um ponto mais político na qual não entendo até hoje porque não houve algo mais viral da esquerda para reverter o quadro, e não caberia aqui a discussão pois sai do escopo da censura.

          Em tempos: a censura em um YouTube é no YouTube. Nada impediria a publicação em outros lugares, e pelo que acompanho das falas do Felitti no Twitter, o mecanismo usado hoje pelos salnorabistas foi um pouco modificado – eles usam o YouTube como uma pré-validação, mesmo sabendo dos riscos de censura. Assim eles espalham para a militância mais próxima o que precisa ser espalhado. Quando sair do ar, já estará o conteúdo deles “borrifado” em outros locais. A censura não existiu aqui – ela apenas hoje agora é parte do jogo de gato e rato da comunicação.

          1. A questão de ter outros locais eu acho bem mais complexa.

            O YouTube é o maior repositório de vídeos, muitas pessoas nem sabem que existem outros locais. E é muito difícil sair de uma plataforma grande, rica e com audiência pra outra, vide o gab e tantas outras tentativas de levar a massa conservadora pra outros locais com menos moderação.

            Ainda tem que se entender que a direita é mais “tech savvy” que a esquerda, tanto que o movimento nasceu nos chans faz bastante tempo. A própria dinâmica da “web comum” é completamente dominada pelos conservadores, ao passo que a ala progressista não sabe lidar com isso direito (ainda). O que isso tem de relevante? É muito mais fácil você mudar de local quando uma boa parte da sua audiência entende os mecanismos de propagação na rede e, principalmente, conhece outros locais, aplicativos e meios de comunicação fora do mainstream.

        4. Então.

          Parando para pensar junto com seu comentário, todo e qualquer mecanismo de comunicação foi criado por alguém que muitos considerariam “conservadores” (no sentido cultural de “manter tradições de família”), bem, na verdade eu teria que analisar caso a caso e quem a quem.

          Um exemplo óbvio: as maiores emissoras de televisão, ou melhor dizendo, boa parte das concessões de televisão no Brasil está na mão de “conservadores” (familia Marinho, familia Abravanel, Edir Macedo, etc…)

          Voltemos atrás. Quem trouxe a primeira televisão para o BR foi um cara que hoje se consideraria “liberal” pelo twitter do Joel Pinheiro :p

          Mas bem, tentando exemplificar melhor: as formas de comunicação em massa já são em grande parte moldadas ou criadas por os quais são considerados adversários em campos sociais – no caso os “conservadores”. Entre um “Grande Brother” e “as maravilhas do conforto sem tristeza”, estamos pendentes mais ao último (preciso rever estas duas obras, mas é legal relembrar este quadrinho também :D ) .

          Acho que a esquerda precisa voltar as ruas. Ao boca-a-boca. é a comunicação mais eficiente, barata e confiável que há. Mas novamente, isso cabem em outra discussão.

          1. Sim. Toda a sociedade ocidental, e toda a que foi influenciada por ela, é moldada pela burguesia liberal-conservadora via poderio econômico. Dominar a informação (ou o fluxo dela) e comunicação de massas é o primeiro passo pra moldar o pensamento social.

    3. PERFEITO!
      Quem deve decidir isso É A JUSTIÇA, e não as Bigtechs… Seja contra quem for!

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