Quem precisa de “notch” quando se tem o entalhe?

Detalhe no entalhe do iPhone X.

O dicionário do meu computador define “entalhe” como:

2. corte, incisão, ranhura na madeira; entalha, entalhamento, entalhadura, entalho. 3. p.ext. esse mesmo tipo de corte feito em outros materiais (metal, cerâmica, vidro etc.)

Reconheça-se que não se trata de uma palavra muito popular fora de alguns meios, como a marcenaria e o artesanato, ainda assim é assimilável por qualquer um que fale e conheça minimamente o nosso português.

Nos últimos dois anos, “entalhe” ganhou um novo significado na tecnologia de consumo. O termo é usado também para se referir ao recorte — ou entalhe — no topo das telas de celulares que ocupam quase toda a área frontal do aparelho. O caso mais notório é o da linha iPhone X, da Apple, mas hoje praticamente toda a indústria faz uso do recurso.

Nesse período, vimos ocorrer um fenômeno linguístico curioso no Brasil. Puxado pela imprensa (inclua aí blogueiros e youtubers), o público mais aficionado por tecnologia resolveu ignorar o termo “entalhe”. Em vez dele, optaram pela sua tradução literal em inglês, o famigerado “notch”.

Na última sexta-feira, publiquei um pequeno desabafo no Twitter:

Uma das maiores derrotas recentes do jornalismo de tecnologia brasileiro foi a adoção do termo “notch” para se referir ao entalhe na tela de celulares. Tanta palavra — franja, testa, chifres e a tradução literal, entalhe —, mas não, vamos usar o termo importado dos EUA porque vá saber.

A ele se seguiu uma grande discussão envolvendo o poder de influência da imprensa, a defesa do nosso idioma e os ruídos na comunicação no século XXI.

Alguns campos profissionais se destacam pela adoção de termos em inglês. A publicidade, com seus “jobs” que precisam entregues no “deadline” para “performar”, talvez seja a mais adepta a esse tipo de estrangeirismo. Mas a tecnologia de consumo não fica muito atrás.

Há uma raiz para essa obsessão em importar termos ingleses para o português: muito do que usamos nasceu e se desenvolve nos Estados Unidos. Daí falarmos sem qualquer constrangimento “mouse”, “notebook” e “tablet”. A língua é viva e se metamorfoseia por diversos fatores, então essas importações sem qualquer adaptação local ou cuidado acabam ocorrendo.

“A transformação da língua portuguesa ou de qualquer língua ocorre por questões que fogem completamente do controle de qualquer órgão ou grupos de pessoas. Sempre foi assim”, diz Paulo Pilotti Duarte, tradutor freelancer formado em Letras com ênfase em tradução do inglês pela UFRGS e leitor do Manual do Usuário. “A questão, contudo, é quando temos a possibilidade de escolha e mesmo assim optamos pelo termo em inglês. Esse é o problema que eu enxergo atualmente em várias áreas”, complementa.

O “notch” entra nesse grupo de escolhas infelizes. Chega a ser simbólico. Primeiro porque é algo recente, surgido há menos de dois anos, o que nos deu — minha geração e nós, da imprensa — a chance rara de optar pelo termo a ser usado. Tentar emplacar “rato” para se referir ao mouse hoje, como fazem os nossos amigos do outro lado do Atlântico desde sempre, seria uma batalha quixotesca.

Já o “entalhe” para se referir ao recorte em telas de celulares? Por um breve período, foi uma possibilidade real. Até porque não foi a indústria que criou o termo. A Apple, que popularizou esse detalhe nas telas dos celulares, nunca o usou em sua comunicação institucional ou em apresentações a investidores e ao público em geral. Nos releases que recebo das assessorias brasileiras, zero menção a “notch”. De onde ele veio, então?

Ironicamente, o termo “notch” surgiu na imprensa norte-americana, fonte em que a imprensa especializada de tecnologia brasileira bebe bastante — às vezes, como neste caso, até se embriagar.

Uns disseram, na discussão na rede social, que o papel da imprensa não é emplacar termos, mas apenas relatar fatos, como se nesse ato as decisões editoriais não impactassem a maneira como o público leitor reage ao que é veiculado. Sinto dizer, mas esse tipo de jornalismo, que se quer ver mero espectador que não influencia o objeto que cobre, é quase um paradoxo.

Na discussão no Twitter, outro argumento recorrente nas respostas que recebi foi o de que “notch” é o que o povo entende. O que é curioso, já que o idioma estrangeiro, por si só, é uma grande barreira para a maioria no Brasil.

Uma pesquisa de 2013 da British Council (PDF), organização internacional do Reino Unido que promove a cooperação com o Brasil nas áreas da língua inglesa, artes, esportes e educação, constatou que apenas 5,1% dos brasileiros com mais de 16 anos afirma possuir algum conhecimento do idioma inglês. Mesmo na faixa etária com mais entendedores, entre 18 e 24 anos, o percentual segue ínfimo — é de apenas 10,3%.

Ainda que esse índice fosse muito maior, o “notch” deste contexto era algo completamente novo também em inglês quando os primeiros rumores do iPhone X surgiram, com o ícone da silhueta no iOS 11 mostrando o entalhe no topo da tela. Foi (e ainda é) preciso explicar a que nos referimos quando recorremos ao termo. Em outras palavras, qualquer que fosse o escolhido, português ou inglês, o trabalho de explicá-lo ao leitor seria praticamente o mesmo. Em português, por associação a outros tipos de entalhe, talvez tivesse sido até mais fácil.

A essa altura, sei que se trata de uma batalha perdida em publicações especializadas. Mas capitular não significa que se encerram os problemas. Quando tentamos falar com um público mais amplo, por exemplo, ruídos na comunicação aparecem.

O termo em inglês, “notch”, está longe de ser óbvio e ainda traz o fator de dificuldade do idioma. “Quando um jornalista chama de ‘notch’ aquele pequeno entalhe na tela do iPhone, a minha mãe, por exemplo, não entende de forma rápida do que é e do que se está falando”, exemplifica Duarte. “É necessário apontar o que é o tal ‘notch’, ao passo que dizer que temos um entalhe na tela deixa claro logo de cara e para todos os que dominam minimamente o vocabulário brasileiro do que se trata”.

Por curiosidade, fiz algumas pesquisas em grandes jornais brasileiros pelo termo “notch”. Na Folha de S.Paulo, a pesquisa não retorna resultados. N’O Globo e no Estadão, alguns parcos. Se isso não prova algo (foi uma pesquisa informal, sem qualquer validade científica), no mínimo oferece subsídios para sustentar que, ao contrário do que se pode pensar dentro das bolhas de tecnologia, “notch” não está difundido.

(Eu tenho outra teoria para explicar essa escassez de referências nos grandes jornais: a de que ninguém liga para entalhes nas telas fora aficionados e publicações especializadas.)

“Perdemos, sendo objetivo, clareza e capacidade de (re)passar informação quando optamos por termos em inglês que poderiam ser perfeitamente traduzidos para o português”, diz Duarte. O português é um idioma tão bonito, tão rico. É frustrante quando abdicamos dele a troco de nada, trocando um correspondente exato desnecessariamente.

“Notch” não é uma marca registrada (como “Gorilla Glass”) nem traz qualquer ganho em brevidade (“smartphone” em vez de “celular inteligente”). Seu uso no português não traz qualquer vantagem frente a sua tradução literal, “entalhe”. E nem entrei no mérito dos outros termos que, não sendo traduções literais, explicam melhor a característica por comparação — franja, dente e chifres.

Como a tecnologia de consumo é célere, não adianta chorar o leite derramado. (Embora aqui, no Manual, continuarei usando “entalhe”.) Assim sendo, é hora de nos voltarmos à próxima batalha: como chamar os celulares com um furo na tela para abrigar a câmera frontal. Blogs norte-americanos estão usando “hole punch”. Por aqui, já sugeriram “verruga”. Ideias?

Foto: Aaron Yoo/Flickr.

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58 comentários

  1. Fico pensando em como se chamariam, se tivessem sido criados por esses dias, coisas como o “corrimão”…

    Reiterando: esse buraco na tela tem que ser chamado de FURICO. Pelamordedeus, Ghedin! :D

  2. O engraçado no termo “notebook” é que nos países de língua inglesa não se utiliza essa palavra pra se referir aos computadores portáteis.
    Nos EUA, Reino Unido, e até em países lusófonos como Portugal se usa a palavra “laptop”.

    Apesar da relação ser óbvia, tenho curiosidade de pensar por que no Brasil se passou a utilizar notebook.

  3. Ghedin, essa discussão é recorrente no meio. Você ou Mobilon não eram nascidos e discutimos como se falaria em português termos com bit, byte e word. Essa discussão ficou restrita à mídia impressa que era a única que havia à época. Com o advento da internet, novamente discutimos como notar site, link, etc. B.Piropo escreveu colunas muito aprofundadas para defender seu ponto de vista, que coincide com o seu. Ele jamais escrevia site nos seus escritos, apenas sítio.
    Especificamente, prefiro entalhe, e acho que você deve continuar escrevendo assim.
    Apenas não gosto de traduções de termos específicos, como bit, ou termos que podem causar confusão, como mouse traduzido para rato.

  4. Seria legal poder “curtir” alguns comentários!
    É uma discussão interessante, uma pena que a “grande mídia brasileira especializada” não esteja tão interessada assim.

  5. Acho bastante válido a discussão e sou do time que apoia a diminuição do uso de estrangeirismos. Pra mim é difícil engolir tanto “10 % off” pra cá, “home banking” pra lá e “digital influencer” acolá… Mas, enfim, cada um usa o termo que preferir e se houver dificuldade de entendimento, os interlocutores que arcarão com as consequências, mas acabarão se entendendo de uma forma ou de outra.

    E pra mim o melhor termo para essa novidade nas telas é “franjinha” mesmo.

  6. Lembrei que também me causa um incômodo a mídia usar o termo “fake news”, tão exaustivamente usado nos últimos tempos. Não é muito mais simples, e prático, chamar de notícias falsas?

    Meu pai tem 75 anos, e outro dia me perguntou o que era “essas tais fake news que tanto falam nos telejornais?”. Quando expliquei que significava notícias falsas, ficou muito mais compreensível para ele o que os jornalistas tavam debatendo.

  7. “Como chamar os celulares com um furo na tela para abrigar a câmera frontal.”(?)
    Tem que chamar de FURICO!!!!!! Por favor Ghedin, nunca ti pedi nada kkkkkkk

    Mas falando sério, concordo muito com o seu texto, e não imaginava que essa questão de nomenclatura iria gerar um debate tão acalorado por aqui.

  8. Que discussão desnecessária.
    Péssima maneira de estrear essa nova fase do site, e uma ótima maneira de afastar os leitores, incluindo este subscritor.

    1. Não vá embora, Gustavo!! Também acho essa levemente constrangedora, mas há nesse vira-latismo nosso em adotar, sem muito questionamento, termos importados, um significa mais profundo que achei que valia trazer para cá.

      A língua é primordial em qualquer grupo de pessoas. É o que nos une e permite compartilharmos a nossa identidade e história. Ao minarmos ela substituindo termos existentes no português por alternativas em outros idiomas, estamos coletiva e conscientemente a enfraquecendo. E, em um contexto mais amplo, se nos subjugamos ao estrangeiro em um detalhe bobo desses, o que podemos esperar de relações acerca de temas mais importantes?

      De qualquer forma, o Manual trará uma boa variedade de assuntos, então não tome este texto como um sinalizador da linha editorial do blog. Fica aí, vai ser legal :)

      1. Boa!!….parabenéns pela matéria.
        sou também contra os termos estrangeiros generalizados em nosso belo português ( brasileirado, claro.), acho desnecessário…gosto do “rato”, ” notícia falsa”, “promoção”…e por aí vai….o assunto tem que ser mais divulgado…tanto aqui na página como em todas as outras linhas de imprensa…

    2. Eu acho bem necessária essa discussão.
      Acho até que ele deveria bater mais nessa tecla.
      Youtubers e alguns blogueiros não tem responsabilidade com nada.
      Falam e escrevem sem critério sem se preocupar com o impacto disso.
      Isso que ele colocou foi só um exemplo.

  9. Gente, de onde veio tanta gente mal educada por aqui? Vamos discordar sem levar para o lado pessoa, gente…

    Eu acho que notch não vai pegar. Isso aqui é BR. Mas tenho apenas uma evidência anedótica: meu pai veio outro dia comentar comigo que agora tinha uns celulares novos com dente na tela, que ele tinha achado muito feio.

    Vou tirar uma onda aqui: sou fluente em inglês, já morei fora, assisto filme sem legenda. E tive que recorrer ao pai dos burros (o dicionário) quando surgiu essa história de notch. Realmente não é auto-explicativo, nem em inglês. Da mesma forma, a palavra entalhe não é de uso corrente em português coloquial.

    Sobre a verruga, acho depreciativo. Eu votaria em olho. Até pq combina com a ideia da câmera. O olho que tudo vê!
    Abraços e longa vida ao MdU

    1. aqui em sp é bolacha e se reclamar leva um biscoito na cara! não, espera…
      a discussão é útil, pq puxa muitas outras. notch é um mote. avançando todo mundo pode explorar mais a própria língua. aliás, é sabido q os melhores tradutores não são aqueles q conhecem bem o idioma q vão traduzir, ao contrário, os melhores são aqueles q conhecem bem o seu próprio idioma.
      eu mesmo fui lá ver a etimologia de várias palavras só por causa dessa discussão.
      saca o filme “a chegada”, saca?, começa com uma aula sobre o português de uma professora-protagonista.

      1. Aliás, ela é linguista e tradutora. E faz todo o sentido aquele meio/modo de comunicação que os aliens usam no filme: totalmente diverso do que temos aqui na terra, afinal, a característica da fala (e posterior escrita) seria, segundo o Chomsky, uma habilidade inata do ser humano (gerativismo).

        Quem não se preocupa com a própria língua, seu uso e as implicações derivadas destes usos não entendeu direito ainda a sociedade. Língua é basicamente um instrumento de dominação, resistência e formação de cultura.

        É dito que na fase de mais terror no Timos Leste, quando foi proibido falar português, algumas pessoas se reuniam nas igrejas apenas para conversar na língua nativa deles. Nessa época de ocupação o português era inclusive arma de resistência. Hoje o tétum virou o idioma das gerações mais jovens e o português dos mais velhos.

        Quem relega a língua apenas ao papel de meio de comunicação não entendeu ainda onde vive.

        1. essa discussão é tão boa q me animei de ir lá ver o q vilén flusser fala sobre o assunto. vc certamente o conhece. o cara era um puta gênio – meio desconhecido por aqui, apesar de ter passado uma boa parte da vida entre nós. e olha só q cara esperto: “Perco o rumo da minha vida se não lidar com a língua, e sei disso. Pode-se considera uma língua, em si, todas as línguas, com,o a maior das obras de arte que gerações burilaram e poliram, tornando-a em mutis níveis – começando pela semântica e passando pelo ritmo, a melodia e sintaxe – um dos instrumentos mais requintados que se pode imaginar. Posso racionalizar minha fascinação pela língua, mas com isso não acerto o alvo. A língua fala a mim, ela me chama, ela soa em mim. Ela ecoa em mim. Pelo menos quatro línguas o fazem. Elas me exortam a intervir nelas e a transformá-las”. (Comunicolgia: reflexões sobre o futuro, Vilém Flusser)

          esse trecho do livro é longo e muito esclarecedor pra uma discussão como essa. relegar o q se discutiu aqui a nacionalismo ou falar q é inútil é um erro.

  10. Não podemos, ainda, negar que variação deste português mais recheado de termos em inglês e decalques está intimamente ligada à necessidade de se distanciar de certos grupos e de se aproximar de outros – língua é pertencimento. Um vocabulário recheado de estrangeirismos serve também como reforço de identidade perante um certo recorte social (eu cheguei a falar sobre isso com o Edney nessa discussão do Twitter).

    Estamos vivendo isso com mais afinco nos últimos anos, sem dúvida. Aplicar, numa clara alusão ao “apply” do inglês é usado errada diariamente por empresas e pessoas de RH com sinônimo de candidatar (a regência do verbo aplicar é ignorado por essas pessoas), por exemplo. Esse é outro empréstimo, dessa vez semântico, desnecessário e que cria confusão em certos locais mas que, ao mesmo tempo, serve como ente delimitante entre dois grupos de pessoas.

    1. Acho que o Paulo está certo. Linguagem tem a ver com pertencimento. Talvez os jornalistas tec no Brasil com isso estejam apenas expressando sua vontade de pertencer ao centro do debate, que é feito em inglês. Mas com isso estão deixando de atingir a um público mais amplo, em minha opinião.

  11. Quem precisa de “mouse” quando se tem o rato?
    Quem precisa de “notebook” quando se tem o computador portátil?
    Quem precisa de “power bank” quando se tem a bateria portátil?
    Quem precisa de “HD” quando se tem o disco duro?
    Quem precisa de “SSD” quando se tem unidade de estado sólido?

    Deixa de ser chato, o termo que se popularizou foi “notch” e esse é o termo que será utilizado. Tu não dita moda, aliás, tu não dita nada. Nem te conhecia antes da tua discussão bosta com o Mobilon.

    Jornalista (ou entusiasta) que se preze sempre vai procurar utilizar o termo que as pessoas mais entendam ou compreendam, fazer birra é infantilidade!

    1. Prazer em conhecê-lo, Marcos! Meu nome é Rodrigo Ghedin e eu falo “bateria portátil” (quem fala “powerbank”!?) e “disco rígido” (“disco duro”, de fato, eu nunca ouvi alguém falar.)

      O que eu questiono no texto — e que talvez tenha lhe escapado — é que o termo “notch” se popularizou por causa dos jornalistas. O Mobilon argumentou no Twitter que a imprensa apenas relata os acontecimentos, como se fosse uma entidade neutra no debate público, e eu discordo veementemente disso. Chega a ser absurdo desprezar o poder de influência da imprensa, mais ainda vindo dela mesma.

      Ah, e jornalista que se preze deve privilegiar o português e a cultura nacional. Está no código de ética da profissão, pode conferir.

      1. Ghedin, ou você não entendeu, ou continua distorcendo o meu argumento pra caber na sua narrativa.

        Em nenhum momento disse que “a imprensa apenas relata os acontecimentos, como se fosse uma entidade neutra no debate público”. Muito menos desprezei o poder de influência da mesma. Isso é desonestidade intelectual.

        O que eu disse é que o mundo é globalizado e as pessoas hoje em dia tem voz própria. Elas assistem lives, conversam no WhatsApp, debatem no Twitter e no Facebook. A imprensa não cunha mais termos com a mesma facilidade de antigamente, porque a comunicação foi descentralizada.

        Com todo o respeito, você estudou comunicação, deveria saber isso de cor.

        Você assume que a realidade é a de que a imprensa emplacou o notch e depois constrói a narrativa em torno disso. Mas não existem evidências empíricas apontando para o que defende.

        Você procurou nas redes sociais quando foi o primeiro tweet em português com a palavra notch? Foi antes das matérias da imprensa? E no whatsapp, quantas pessoas falavam sobre o notch do iPhone? Tem acesso a esses dados?

        Se não tem, a narrativa cai por água abaixo. É só achismo.

        E o seu próprio texto prova o meu ponto: nenhum veículo de massa usa Notch. O próprio TB não tem uma regra sobre isso, usamos todas as variações. Na Rádio Globo, que fala com um público leigo, eu preciso sempre falar primeiro “notch” e depois “recorte” no resto do programa, que é para as pessoas entenderem o que diabos é esse tal de recorte.

        Quando te questionam sobre todos os outros termos tecnológicos em inglês, você justifica que não dá pra alterar porque já foram popularizados. Mas quando eu uso essa mesma justificativa pra quem gosta de usar “notch”, você fala que é o nosso papel forçar essa mudança.

        Ainda diz, em tom depreciativo e irônico, que “fica assustado que o dono de um grande veículo esteja desprezando o poder de influência da imprensa”.

        Você não enxerga a contradição?

        Enfim, pra mim fica claro que o seu debate é puramente ideológico. É nacionalismo fantasiado de jornalismo.

        Se o problema fosse os termos em inglês, você mesmo não usaria “slow web” (só pra citar um termo que você usa bastante aqui no MdU). E eu te garanto que notch é um termo MUITO mais popular no Brasil do que “Slow Web”. Então porque não tentar emplacar uma tradução? Slow Web também não é marca registrada…

        Mesmo no seu nacionalismo, você implica com um termo e faz vista grossa para vários outros.

        Enfim, boa sorte na nova fase do MdU!

        Abs

        1. Ah pronto, agora tudo é “desonestidade intelectual” e “ideologia”.

          Não vou me estender, apenas quero rebater apenas alguns pontos:

          1) Você escreveu, em um tweet: “a gente não escolhe, a gente usa o que as pessoas entendem”. A mim, que “estudei comunicação”, isso soa a se isentar da responsabilidade. Sim, existe WhatsApp, YouTube e tudo mais, mas (ainda) existe imprensa e educar e conscientizar estão entre suas atribuições. E o Tecnoblog, por mérito teu e da equipe, é grande e influente. O que vocês publicam faz a diferença, ajuda a direcionar o público mesmo com todos esses outros canais disputando a atenção dele. Se eu fosse você, seria o primeiro a defender essa posição.

          2) Eu não assumo nada, só relatei o que vejo: que a maioria dos sites especializados brasileiros usam o termo “notch” quando a tradução literal daria conta sem qualquer prejuízo de entendimento — pelo contrário, como você mesmo confirma quando fala do seu trabalho na rádio.

          3) Slow Web é uma ideia derivada do movimento Slow Food. Não é uma característica de um produto, que já tem tradução no português, caso do “notch”. Eu não tenho problema algum em usar termos de outros idiomas que não tenham tradução direta no português ou já estejam enraizados aqui. Uso vários deles, numa boa. O problema, neste caso (e desde o começo, aliás), está limitado ao “notch”, que, repetindo pela enésima vez, é uma característica que tem tradução literal em português e, portanto, poderia ser traduzida.

          4) Não é nacionalismo, é cuidado com o nosso idioma e com os nossos valores. O que, aliás, é um dos deveres do jornalismo — está lá no empoeirado e destratado código de ética da profissão.

          Uma coisa que me intriga é que em momento algum eu citei o Tecnoblog e, mesmo assim, você comprou essa briga a ponto de vir aqui deixar um comentário.

          1. “Não é nacionalismo, é cuidado com o nosso idioma e com os nossos valores.”

            Nacionalismo:

            “1. Ideologia que foca a salvaguarda dos interesses e exaltação dos valores nacionais.
            2. Sentimento de pertencer a um grupo de mesmos valores nacionais: por vínculos raciais, linguísticos e históricos que reivindica o direito de formar uma nação autônoma.”

            Eu só vim aqui responder, porque você citou sim o meu nome. E novamente, distorcendo o que eu disse. O quote citado argumenta a mesma coisa que você argumenta: certas coisas vieram antes de nós. Dá pra mudar? Então dá pra mudar tudo, inclusive Slow Web – que aliás, sua resposta ensaboou e não justificou nada. É perfeitamente traduzível da mesma forma e mais fácil de emplacar, já que ninguém sabe o que diabos é isso fora da mídia especializada.

            E falar no código de ética da profissão, enquanto cria toda essa discussão e ataca veículos e colegas publicamente, chamando de “derrota” e outros termos pejorativos… francamente… Tá precisando tirar a poeira do manual, mesmo.

        2. Mobilon, na boa, um nome que poderia ser um farol pra vc é Alberto Dines. Certamente vc o conhece, pois a reputação dele é muito maior q minha indicação ou de qualquer outra pessoa. Ele, q infelizmente nos deixou (RIP), construiu um belo legado e, por sorte, tive a honra de conhecê-lo em vida e, cara, desde o ‘Observatório da Imprensa’, um novo padrão se apresentou aos jornalistas atuantes e, principalmente, estudantes, coisa q eu era época do meu primeiro contato com o trabalho dele. Acesse o web site e veja vc mesmo. Sim, é antigão (total old school) e nem deve abrir direito no seu moderno ‘mobile’ com entalhe, mas muita gente de peso discutiu ali os estrangeirismos (se vacilar vc era só um garoto qdo elas ocorreram; algumas datam do início desse século). Discutir o jornalismo (sua produção textual especialmente), seja por seus pormenores, é salutar em qualquer país civilizado com imprensa livre.

          Desonestidade intelectual, permita-me a correção, é outra coisa – e bem distinta – e não está presente no trabalho do Ghedin conforme não apenas eu, mas muitas outras pessoas podem observar elas próprias seja no MdU ou outros lugares… Ideologia, ah, essa sim está presente aqui e tb, veja só, no seu trabalho, quer vc queira assumir isso ou não: toda escolha de pauta, por exemplo, implica em ideologia.

          Agora, defender uma tradução não é nacionalismo…, é, no máximo, zelo com a língua pátria q, além de ser uma das mais faladas do mundo, é, provavelmente, uma das mais belas. Podemos não influenciar tanto qto os americanos ou os franceses (q eram o mesmo q os americanos em termos de influência no século xix), mas nosso idioma encanta quem quer q tenha contato com ele. Cara, se Fernando Pessoa (insuspeito pq tb escrevia em inglês) disse q a sua língua (e tb a nossa) era a sua pátria.., a mim me resta só me curvar ante ao mestre q escreveu o “Livro do desassossego”. Deixe as graphic novels de lado um pouquinho e leia nossa boa poesia tb, com certeza ela pode te inspirar a fazer um bom trabalho.

          祝你好運!

          1. “toda escolha de pauta, por exemplo, implica em ideologia.”

            Não apenas isso, toda a escolha, seja de pauta ou de terminologia/tradução, é ideológica.

            A imprensa de TI do Brasil parece um bando de crianças mimadas liberteens que não conseguem ser questionadas sem partir para ad homines ou dizer que é tudo “ideologia”, como se eles próprios não estivessem propaganda ideologia.

            Ideologia virou palavrão e um adjetivo que caracteriza “tudo aquilo que eu não gosto”.

      2. Ghedin, parabéns, você tem uma paciência e uma gentileza invejáveis — sobretudo com gente que não lê o texto e reclama só pelo contexto.

    2. Eu mesmo não concordo com algumas opiniões do Rodrigo e ainda acho que ele é um dos melhores JORNALISTAS de tech do Brasil. Ele está bem longe do corporativismo e ego que marca o jornalismo em geral e não tem medo de discutir (respeitavelmente) com um colega. Agora você pode concordar com o Mobilon sobre um assunto, discordar do Rodrigo e ser educado e respeitável também. Ninguém está ditando nada e sim analisando um comportamento jornalístico.

      Qual o problema do Manual ser um local que observa e comenta sobre as atitudes da imprensa tech no país, cuja qual tem tantos problemas claros. (e nem estou me referindo ao Tecnoblog).

      E noves fora que eu tbm entendo que notch seja mais adequado em uma publicação especializada, existe sim um certo estrangeirismo exagerado no Brasil. Valorizar nossa língua é importante.

  12. Paulo Pilotti sabe das coisas!
    Bom, fica a minha contribuição: o dicionário “O léxico de Guimarães Rosa” pode ajudar a traduzir as inusuais palavras com as quais nos referirmos aos celulares e suas partes. O entalhe eu chamaria tranquilamente de ‘corta-jaca’, afinal, ‘lanhar’ o aparelho deixa ele muito… ‘chibante’ em alguns casos.
    E q 2019 seja repleto de intervenções (‘melhormente’ falando) do Paulo Pilotti no MdU.

  13. Tecnologia e língua inglesa sempre andaram próximos, então não entendo como um estrangeirismo exagerado e sim natural. Ficando em telas, temos LED, AMOLED LCD, CRT, Edge e toda uma infinidade de termos em inglês. … nenhuma leva o termo em PT-BR, a não ser tela em si. Pq chamar tela de display é sim estranho. Talvez entalhe (pra mim) fique tão relacionado a madeira que seja estranho dizer que aquela tela tenha um entalhe. Franja fica mais pessoal e menos jornalístico.

    E de certa forma sua teoria meio que responde um pouco a questão. Se a percepção de uma tela com Notch (ou AMOLED EDGE) fica restrito a aficionados e publicações especializadas o uso do termo em inglês faz mais sentido.

    1. tem gente q chama tela de ecrã e é bem mais bonito q tela.
      e olha q boniteza: do fr. écran (sXIII) ‘pano que serve para proteger do calor de uma fogueira ou lareira’, (1859) ‘tela branca em que se projeta a imagem de um objeto’, empr. ao hol. scherm no sentido de ‘biombo, paravento, tela’, com metátese do -e- e do -r-

      1. Olá Fábio! A quanto tempo não te respondo por aqui. hahaha
        =)

        Ecrã é bonito em sua fonética, mas é tão estranho em sua aplicação. Talvez por costume, mas chego a rir de pensar que podemos ter um telefone equipado com uma moderna Ecrã Matriz Ativa de Diodo Orgânico Emissor de Luz com bordas sem limite. AMOLED vira MADOEL. Quase um português gripado chamando seu amigo Manuel. hahahaha

        Até ligado a este post, o Português de Portugal tem muito mais traduções. Aids é CIDA, Mouse é Rato. A valorização da língua é muito mais forte na terrinha.

        1. Eu acho que siglas não devem ser traduzidas (e isso vale para as brasileiras) porque carregam consigo já uma marca/significado.

          Termos, contudo, devem ser traduzidos quando estes trazem o mesmo sentido e maior clareza. Perceba que o ponto chave aqui é clareza e sentido. Notch não obedece nenhum desses critérios, por exemplo, e se torna apenas acessório ególatra do jornalista que coloca ele como “padrão” da indústria. Não é.

          O mesmo vale pra job, target, performance e tantos outros que a publicidade importa e decalca na língua portuguesa. De alguns não temos como fugir – ninguém joga ludopédio, por exemplo – mas de outros temos (e devemos). Foi o caso do notch nos blogs de TI brasileiros.

          1. A publicidade realmente extrapola.. muito mais que a áreas técnicas como TI ou engenharia que tem ao menos a necessidade técnica de alguns termos. Por outro lado é um setor peculiar que é bem fechado, então não chega a ser um problema.

            Como falei no primeiro comentário, entalhe não remete a uma tela ou um produto tecnológico. Entalhe é algo rudimentar, bruto, que recorta algo resistente como a madeira. fica estranho de ligar isso em uma tela. (eu pelo menos estranho)

            Uma outra coisa que penso sobre os termos é o fator comercial e a fonética. Quando a Asus basicamente disse que “meu notch é maior que o da apple” ela criou uma função para aquilo..e ficou comercialmente ok. Sobre a fonética, Notch fica aceitável ao ser falado com sotaque PT-BR. É diferente de “Hole Punch” que fica até engraçado.

        2. salve, amigo!
          deixa ver se estou bem lembrado: vc é grande responsável por viciar as pessoas paçoca de aveia, por acaso?
          como o paulo disse, eu não traduziria as abreviações. me irritam traduções e adaptações mal feitas. há coisas q demandam um poeta pra serem bem traduzidas, pq implica na escolha da palavra exata. algumas coisas podem mesmo ficar sem tradução e serão compreendidas.
          o q tá pegando, me parece, é q virou algo feio, sujo e malvado defender a língua em um ambiente em q há, sim, preponderância de muitos termos em inglês. é estrangeirismo puro e simples. eu evito, pq, modéstia à parte, tenho um vocabulário amplo e sei me virar com isso. e isso, claro, vem de muita leitura – de qualidade, os mestres, clássicos etc.
          cada um usa o repertório q tem.

  14. O furo na tela pode ser chamado apenas de… furo? Ou buraco ou qualquer coisa bem simples assim haha. Tem também os com um entalhe tão pequeno, no meio, que são chamados de gota, ao menos esses tem sido chamados por um bom termo em português.

    1. “Hole punch” é aquele buraco feito pelo furador, aquele utensílio de escritório para furar as folhas de papel para que as mesmas possam ser agrupadas em pastas, sem usar o grampo. Então, se a ferramenta chama-se furador em português, furo é o mais certo. Agora “verruga”? Cara, que eu saiba verruga é exatamente o oposto de um furo. Ela é mais alta que a superfície da pele. Furo ou buraco (hole) é o correto…

      Mas como “entalhe” era também o correto e Iphone “dez” e não “xis” como os entendidos falam…

      E o pior, ainda me lembro que quando o Windows 7 (sete) foi lançado, passei anos corrigindo pessoas para não chamá-lo de Windows “Seven”….

      1. Windows “seven” era de doer os ouvidos, haha!

        O lance da verruga foi mais uma piadinha para encerrar o texto do que um convite real para encontrarmos um termo. “Furo” ou “buraco” realmente nos servem muito bem.

        1. Sabe que uma coisa que dita o estrangeirismo com algumas situações é a fonética. “Hole punch” é meio esquisito de ouvir. Notch tem uma fonética mais palatavel.

          No caso da verruga negativa, tô achando que vai virar buraco-na-tela mesmo

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