Detalhe do entalhe na tela do iPhone X.

Todos os smartphones agora têm o entalhe da tela do iPhone X — e (quase) ninguém se importa


19/6/18 às 11h03

Desde a apresentação do iPhone X, em setembro de 2017, o mercado se viu inundado por smartphones Android com o mesmo “entalhe” do modelo da Apple, aquele recorte característico na parte superior da tela. O assunto gera debates acalorados em sites especializados e grupos de entusiastas, mas, no mundo real, a verdade é que quase ninguém liga.

O entalhe, também conhecido como “notch”, “testa” ou, invertendo o foco da protuberância para as laterais, “chifres”, foi a solução que a Apple e, antes dela, a Essential encontraram para aumentar a tela sem comprometer os sensores e câmera frontal do smartphone.

A indústria abraçou sem ressalvas o novo visual. Com poucas exceções, como a Samsung, todas as grandes empresas — e muitas menores — anunciaram, lançaram ou tiveram vazado algum aparelho com o entalhe na tela. Parece um caminho sem volta. Pode ser chocante a quem acompanha mais de perto esse mercado, mas à maioria dos consumidores, que veem o smartphone como meio e não como fim, que compram ele sem saber qual processador ou versão do sistema vem instalada, o novo visual é uma vantagem; no máximo, é indiferente.

Há evidências fortes que sustentam essa tese. O iPhone X, por exemplo, é o modelo que mais vende desde que foi lançado, segundo a Apple. A OnePlus, marca chinesa de nicho focada em entusiastas (o público mais exigente), diz que o OnePlus 6 foi o que mais rápido chegou a um milhão de unidades vendidas — mesmo com o entalhe. Mesmo a Asus, em sua estratégia de marketing estabanada e que capitaliza em cima de rivalidades artificiais e meio bobas, reconhece que o visual do Zenfone 5, feito à imagem e semelhança do “Fruit Phone X”, é assim porque “não podemos ignorar o que as pessoas querem”.

Apresentação do Zenfone 5, na Asus, durante o MWC 2018, com destaque para o notch.
Nosso entalhe é menor que o dos outros! Foto: @vladsavov/Twitter.

Quando questionadas da razão de tanto ódio, as respostas dos detratores do entalhe convergem sempre para uma só: a estética. Mesmo ignorando a vantagem que motiva a sua adoção — o ganho de espaço em tela —, ela derrapa ao tratar como universal um aspecto totalmente subjetivo. Alguém pode achar o iPhone X ou o Zenfone 5 feio, mas não pode negar que o entalhe concede um ganho de espaço real de tela, especialmente no Android, onde o centro no topo da tela já era vazio mesmo.

Nesse sentido, uns dizem que o entalhe é um comprometimento temporário até que tenhamos smartphones com toda a parte frontal ocupada por uma tela, como o recém-lançado Vivo Nex. É bem provável que seja isso mesmo. Se não for, tudo bem também, não há qualquer prejuízo. Mesmo os smartphones antigos, com bordas hoje tidas como grossas em cima e embaixo, servem a seu fim.

Não é de hoje que se nota uma desconexão entre quem cobre e/ou se interessa por tecnologia de consumo e as pessoas que a usam. Isso é um reflexo da explosão em popularidade que gadgets como smartphones passaram, de uma extravagância de um público bastante restrito (pense em quem tinha um Nokia N95 em 2007) para o produto tecnológico mais popular da história, hoje nas mãos de cerca de três bilhões de pessoas.

As expectativas e exigências de quem não passa o dia lendo sobre e obcecado pelos mínimos detalhes de um smartphone são diferentes.

Além disso, o mercado de smartphones está saturado. Em 2017, testemunhamos a primeira retração em vendas da história no setor. Em paralelo, temos aparelhos muito bons e duráveis há pelo menos quatro anos. É exponencialmente mais difícil iterar um produto tão bem resolvido como o smartphone.

Curiosamente, quem mais cobra por “inovações” é justamente o público entusiasta e uma parte considerável dos sites especializados, ou seja, o grosso do coro ruidoso que amaldiçoa o entalhe como se ele fosse um defeito crônico.

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