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Qual plataforma de streaming tem o melhor acervo? Este programador descobriu


27/2/19 às 11h02

O aumento da oferta de serviços de streaming tem feito muita gente reavaliar os planos assinados e buscar alternativas mais baratas. Uma dessas pessoas resolveu dar uma abordagem analítica ao dilema: Sillas Gonzaga usou a programação para saber qual serviço de streaming disponível no Brasil tem o melhor acervo de filmes e séries.

A Netflix não reina mais sozinha no segmento de streaming no Brasil. Hoje, a empresa, praticamente pioneira no país, enfrenta concorrentes de peso, como a Amazon (Prime Video), a Grupo Globo (Globo Play, Telecine Play) e HBO (HBO Go), além de serviços menores e/ou especializados, como Looke e Mubi.

O tema foi debatido recentemente no Guia Prático. A fragmentação do mercado de streaming desalenta o consumidor por minar as principais vantagens do formato: a economia e a conveniência de se ter muitas opções de filmes e séries na mesma interface, ao alcance de um clique. Ouça:

Gonzaga é assinante da Netflix, mas ficou tentado a migrar para o Prime Video quando descobriu que a Amazon cobra metade do que ele paga à Netflix — e, ainda por cima, oferece um desconto ainda maior nos seis primeiros meses. Por falta de tempo, ele diz que não seria vantajoso assinar dois ou mais serviços, então tinha que fazer uma escolha.

“Pensei: ‘será que vale a pena cancelar a Netflix e passar para a Amazon?'”, disse. “Dei uma olhada no catálogo, pareceu legal, mas fiquei com essa dúvida. Então tive a ideia de coletar os acervos da Netflix e da Amazon e aí, a partir dos dados, analisar a qualidade e a quantidade dos filmes para chegar a alguma conclusão”.

Em seu blog, Gonzaga relatou toda a parte técnica da sua análise e os resultados e, em entrevista ao Manual do Usuário, deu mais detalhes do processo.

O primeiro passo foi obter os acervos dos serviços de streaming. Nenhum deles oferece APIs públicas, uma parte da programação de um sistema fechado que é fornecida a desenvolvedores terceiros para ajudá-los na criação de aplicações em cima da plataforma. Felizmente, existe um serviço agregador chamado JustWatch que acabou servindo ao propósito. Por ali, o programador conseguiu obter os acervos de 11 serviços disponíveis no Brasil: Amazon Prime Video, Claro Vídeo, Crackle, Fox Play, Fox Premium, HBO Go, Looke, Mubi, Netflix, Netmovies e Telecine Play.

Com os dados na mão, uma dúvida crucial surgiu: qual critério seria usado para definir o que é o “melhor” acervo? Gonzaga recorreu à lista dos 5 mil filmes e séries melhor avaliados no banco de dados cinematográfico IMDb, da Amazon, uma das fontes mais populares do mundo.

O passo seguinte foi confrontar as listas de cada serviço ao top 5 mil do IMDb e, enfim, analisar os resultados.

Qual o melhor streaming do Brasil?

Gráfico mostrando a presença de filmes e séries da lista dos 5 mil melhores do IMDb nas plataformas de streaming disponíveis no Brasil.
Gráfico: Sillas Gonzaga/Paixão por Dados.

“A Netflix ainda é bem melhor”, sentencia Gonzaga. Segundo sua análise, a Netflix possui pouco mais de 40% das melhores séries segundo o IMDb. Em filmes, a plataforma também lidera, oferecendo cerca de 14% dos melhores.

Nas séries, duas rivais correm atrás da Netflix: Prime Video e Claro Vídeo, cada uma com cerca de 10% das melhores disponíveis. Nos filmes, a segunda colocação é do Telecine Play, com cerca de 11% dos títulos disponíveis.

A conclusão mais chocante é a de que mais da metade dos melhores filmes, segundo o IMDb, não está disponível em nenhuma plataforma no Brasil.

Gonzaga fez ainda outros recortes a partir dos dados.

No primeiro, ele analisou a incidência de filmes e séries melhor avaliados em cada plataforma. Embora tenha um acervo menor, o Prime Video concentra a maior quantidade de filmes com notas entre 9 e 10 (máxima) no IMDb, seguido pelo Telecine Play. A Netflix amarga o terceiro lugar. Quanto o assunto é séries, a Netflix reina absoluta, com mais de 70% das séries 9–10 segundo o IMDb.

Gráfico mostrando a distribuição de filmes nas plataformas de streaming disponíveis no Brasil pelas notas do IMDb.
Gráfico: Sillas Gonzaga/Paixão por Dados.

E quanto aos exclusivos? Novamente, vitória da Netflix e seus 979 títulos que não se vê em nenhuma outra plataforma. O número é maior que a soma dos dois serviços seguintes, Prime Video (316) e Telecine Play (306). Na verdade, apenas 17 títulos estão disponíveis nas três plataformas.

Gráfico mostrando qual plataforma de streaming disponível no Brasil tem mais títulos exclusivos.
Gráfico: Sillas Gonzaga/Paixão por Dados.

Por fim, a idade dos filmes disponíveis. Gonzaga comenta:

O formato da curva referente à Netflix é muito interessante. Note como ela cresce numa velocidade muito maior a partir de 2010. Olhando para este ponto no eixo vertical, nota-se que 70% dos filmes e incríveis 80% dos seriados foram lançados a partir de 2010. De todos os 3 serviços de streaming, a Netflix é a mais enviesada para produções recentes. Note também como 70% dos filmes que não estão presentes em nenhum serviço por assinatura foram lançados antes de 2010. Na verdade, Netflix e Amazon Prime Video não possuem nenhum filme lançado antes de 1960.

Gráfico mostrando a distribuição dos títulos nas plataformas de streaming disponíveis no Brasil pelo ano de lançamento.
Gráfico: Sillas Gonzaga/Paixão por Dados.

A visualização por décadas é mais fácil de compreender:

Outro gráfico mostrando a distribuição dos títulos nas plataformas de streaming disponíveis no Brasil pelo ano de lançamento.
Gráfico: Sillas Gonzaga/Paixão por Dados.

O acervo é um dos critérios na hora de escolher um serviço de streaming. E dos mais importantes, mas não é o único e nem um objetivo, ou seja, pode ser que o seu gosto seja diferente do ranking do IMDb.

Alguém que tenha um Chromecast (leia a análise da terceira geração), por exemplo, precisa atentar ao fato de que o Prime Video não conversa com o aparelho, limitando o acesso ao serviço pela TV. Outras questões, como a localização, também podem ter peso — o Mubi, que prestigia filmes alternativos e antigos, carece bastante de legendas em português. A qualidade dos apps também deve ser levada em conta.

Resolvendo problemas com programação

Nascido em Aracaju (SE), mas atualmente morando na capital paulista, Sillas Gonzaga tem 25 anos, é formado em Engenharia de Produção pela Universidade Federal de Sergipe (UFS), trabalha com ciência de dados na Samsung SDS e ensina programação em R no Instituto Brasileiro de Pesquisa e Análise de Dados (IBPAD).

Embora tenha tido uma disciplina de programação na faculdade, conta ao Manual do Usuário que aprendeu mesmo a lidar com códigos e análise sozinho: “Aprendi pela internet, por iniciativa própria. É um hobby que acaba me ajudando profissionalmente, porque toda essa programação e análise de dados eu também faço no trabalho”.

Seu blog contém outras análise úteis ou apenas curiosas. Ele lembra de duas que chamaram mais a atenção. A primeira, da youtuber de finanças Nathalia Arcuri. Ele fez uma análise textual a partir das transcrições automáticas que a API do YouTube gera para determinar quais os temas mais comuns dos vídeos do canal (renda fixa e economia doméstica).

A outra foi do Big Brother Brasil, feita no início de 2018, em que, com a ajuda da chamada “técnica de grafos”, Gonzaga coletou notícias do portal oficial do programa no site da Globo, extraiu as citações aos participantes e conseguiu identificar quais eram os mais centrais e como eles se relacionavam entre si. “Eu não assisto [ao BBB], mas quando compartilhei os resultados com quem assistia, as pessoas disseram que faziam sentido”, relembra.

Sobre a opção pela linguagem R, conta que, embora tenha aprendido a programar em Python, prefere a outra porque “precisa de menos etapas para fazer algo muito legal”. Veja outros projetos de Gonzaga em seu blog, o Paixão por Dados.

Foto do topo: Netflix/Divulgação.

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