Detalhe da tampa do MacBook Pro.

MacBook Pro por alguém que sempre usou notebooks Windows


26/11/15 às 9h52

Eu estava satisfeito com meu notebook. Muito. Mesmo com três anos de uso, ele me atendia bem: era rápido, confiável, leve e até bonito. Não tinha planos para trocá-lo tão cedo, especialmente com esse cenário desolador da categoria no Brasil. Mas aí a mão do destino pesou, ele me foi roubado e tive que comprar um novo. Acabei com um MacBook Pro.

Não pretendo escrever um review. Por outros motivos achei que valia a pena escrever alguma coisa sobre o MacBook Pro aqui. Na verdade, dois em especial. Primeiro porque o tema cabe no que proponho discutirmos aqui no Manual do Usuário — novos gadgets e como eles se encaixam nas nossas vidas. O outro, porque, embora estejamos distantes nos últimos anos, por muito tempo tive uma relação de proximidade com a Microsoft, mais especificamente com o Windows. Uma relação que, ao menos no dia a dia, meio que chegou ao fim.

Um pouco de contexto

Quando estava no Ensino Médio criei um site chamado WinAjuda. Era, como o nome sugere, uma tentativa de ajudar pessoas com problemas em seus computadores rodando o sistema da Microsoft. (Na verdade, foi o primeiro assunto que me ocorreu a fim de pretexto para exercitar minhas recém-adquiridas habilidades com HTML.) Aquilo cresceu ao longo dos oito anos em que o site ficou no ar, me trouxe alguns bons frutos e, de certo modo, pavimentou a minha carreira.

Em 2007, por exemplo, fui convidado pela Microsoft para conhecer sua sede no Brasil. Foi a minha primeira viagem a trabalho e quando tive o primeiro contato direto com executivos de uma grande empresa. Mais tarde, no começo de 2010, fui agraciado pela Microsoft com o título de Most Valuable Professional, uma honraria que eles concedem a líderes de comunidades independentes acerca dos seus produtos. Durou só um ano e aproveitei menos do que poderia, mas encarei como um reconhecimento do trabalho feito no WinAjuda. Em 2013, já no Gizmodo, viajei para San Francisco e cobri uma BUILD, conferência anual para desenvolvedores da Microsoft. Vi Ballmer falar alucinadamente a menos de 10 metros. Foi legal, foi tudo muito bom.

O WinAjuda não existe mais. Em 2010, vendi o site para a Digerati, editora que publica a Revista Oficial do Windows no Brasil, que decidiu, em algum ponto do passado recente, arquivar (ou apagar) o conteúdo do meu antigo site e redirecionar o endereço para o da revista.

Eu também mudei desde então. A transição do centro gravitacional da tecnologia de consumo para o mobile me levou a um distanciamento da Microsoft. A estratégia desastrosa com dispositivos móveis, decisões malogradas no Windows e, principalmente, as eternas promessas não cumpridas ou entregues pela metade — algo que eu sentia mais por acompanhar de perto a empresa — me fizeram procurar por alternativas. Gosto de várias empresas e gosto muito da Microsoft, mas não ponho o apreço por nenhuma acima dos meus interesses. Se o concorrente oferece algo melhor, por que não usá-lo?

Aquele notebook Samsung Série 9 era a última coisa da Microsoft que existia no meu workflow. Rodava o Windows, ainda na versão 8.1 Update. Além de ter um papel importante na minha história profissional, o Windows era, até então, o único sistema para computadores que havia usado por mais de uma semana ininterruptamente desde que tive o primeiro contato com eles. (Experimentei o Linux em diversas ocasiões, mas essa semana para o Giz foi o período mais prolongado de uso.)

O MacBook Pro que uso agora, rodando o OS X El Capitan, embora se apresente como amigável vem com uma proposta levemente diferente. Ele exige um mínimo de boa vontade. Eu estava disposto, desta vez, a dar uma chance, a usar de fato outro sistema e encarar a curva de adaptação que todos, em menor ou maior grau, impõem.

Faz mais ou menos um mês que estou usando o notebook da Apple. Já adaptado, é hora de relatar a mudança. Achei mais fácil e didático dividi-lo em duas partes: uma referente ao hardware e outra ao software. São duas metades que, juntas desde a concepção, fazem um produto superior.

O hardware do MacBook Pro

MacBook Pro numa mesa.

Este é, fácil, o notebook mais agradável que já usei, mas não por uma distância muito longa do meu antigo Série 9. Na verdade, acho aquele notebook da Samsung mais bonito; é nos detalhes que o da Apple vira o jogo e, no fim, acaba sendo um produto melhor.

O MacBook Pro é robusto, potente e fácil de usar. Quando digo “fácil”, não é ao software que me refiro, mas sim num nível de hardware mesmo. O teclado é ótimo: as teclas têm o espaçamento ideal, bom “travelling”, dão o feedback exato para se fazerem sentir e passar confiança a quem digita. O touchpad é irretocável. Grande e preciso, ele casa muito bem com a suavidade do OS X ao lidar com rolagens, seleções e zoom. O meu modelo é um daqueles mais recentes, já com a função Force Touch no touchpad. Isso significa que ele detecta a pressão dos toques, acionando comandos diferentes quando apertado com mais força. Não é nada do outro mundo, mas me vejo usando-o com frequência para coisas como buscar a definição de palavras (no dicionário nativo!) ou alternar entre as janelas abertas de um mesmo app.

MacBook pro visto de cima.

Tudo parece estar no melhor lugar possível, como o posicionamento dos alto-falantes, por exemplo. O design unibody transmite uma sensação boa de robustez. Ele é bonito e funcional, e tem alguns detalhes que, por mais óbvios que sejam, são raríssimos de se ver em outros notebooks: não há qualquer adesivo grudado no notebook nem inscrições, obrigatórias (essas ficam no software) ou de branding (qualquer um sabe que se trata de um MacBook Pro). Parece que a continuidade do projeto, o mesmo há anos, com leves mudanças (ou seriam ajustes?) pelo caminho, somada às prioridades da Apple, resulta nesse conjunto que, particularmente, me atrai mais. (Existe coisa mais abominável num notebook do que aqueles adesivos gigantes, ou mesmo os pequenos, nos apoios para os pulsos ao lado do touchpad?)

Detalhe da tela Retina.

O que mais chama a atenção ao ligar o MacBook Pro é a tela Retina. À distância normal que alguém fica enquanto digita, os pixels são indistinguíveis, parece papel impresso. Há alguns solavancos em sites não adaptados que tornam algumas imagens borradas. Fica estranho, mas é tolerável. Na maior parte do tempo não há do que reclamar.

Outro aspecto muito legal e que costuma ser negligenciado pelas fabricantes de notebooks Windows é a autonomia da bateria. Meu uso é relativamente leve, consiste em muita navegação web, e-mail e editor de texto. Eventualmente abro o Pixelmator, um editor de imagens mais simples e amigável aos não iniciados no Photoshop. Como uso ele majoritariamente em casa, sempre ligado à tomada, até agora só exauri a bateria uma vez. E demorou um bocado. A autonomia é comparável à de um bom tablet, o que é sensacional para um notebook.

Conector MagSafe desgastado.

A única bola fora, aliás, bem fora, é o conector do MagSafe. A ideia e a execução são estupendas; o problema é que o plugue meio que descascou o compartimento do conector. Não dá para ver, a menos que você olhe diretamente para o buraco, mas… poxa, é dos detalhes que a Apple se gaba, certo? O teclado também já está meio “brilhante” em alguns pontos. Como é o segundo notebook premium que apresenta esse desgaste precoce, nem critico. Deve ser natural, ou são as minhas mãos, ou… sei lá.

São contratempos estéticos e, mesmo sendo isso um problema, eles são mínimos. De outra forma, o MacBook Pro não me trouxe dores de cabeça. É um hardware muito, muito bom. Não cogito usar Windows aqui, mas a ideia não é condenável — e, pelo que pesquisei, é simples e possível de dois modos, via Parallels ou Boot Camp. É um hardware fantástico, talvez sem paralelo na indústria, suficiente para se destacar independentemente do OS X. Só que muitos dizem não abrir mão de hardware da Apple apenas por causa do software, justificativa que também faz sentido. O OS X, embora não seja coisa de outro mundo, é bem bacana.

O software do MacBook Pro

Teclado e parte da tela do MacBook Pro.

Uma coisa que é preciso dizer logo de cara é que o OS X não é um salto tão grande quanto alguns usuários de longa data ou aficionados por Apple podem nos fazer pensar. Isso, claro, tomando-me por base e estendendo esse parâmetro ao que seria um “usuário médio”.

Acho que para alguns perfis o poder das raízes Unix do OS X e alguns apps exclusivos devem fazer diferença, mais ainda para quem usa o sistema há muito tempo e incorpora rotinas complexas no dia a dia. Para gente comum, curiosos ou interessados em deixar o Windows de lado (talvez pelo hardware da Apple), ele eventualmente revela alguns facilitadores; nada, porém, imprescindível. O bom é que isso ajuda a tornar o processo de migração tranquilo. Não tive nem perto dos entraves que esperava que fosse ter.

É inegável que o OS X é mais bonito que o Windows. Além do bom gosto na parte estática, o sistema parece mais fluido, com animações suaves, agradabilíssimas. O Windows nunca foi algo bonito, à exceção, talvez, do Windows 7, mas cumpre suas tarefas a contento. No Mac rola a mesma coisa, mas o caminho é mais agradável aos olhos.

Algumas coisas que a Microsoft tenta implementar desde o Windows 8 já são praxe no OS X, como o dicionário/corretor ortográfico que abrange o sistema inteiro, o gerenciamento simplificado de aplicativos e as ideias paralelas de ocultá-los e fechá-los de fato — Commando+H e Command+Q, respectivamente. No geral, ele não é tão fechado quanto o iOS, mas dá para sentir que ambos compartilham dos mesmos princípios. Também são notáveis os aspectos que os separam. O OS X é mais maleável, pode ser mais exigido, mas àqueles que não querem fazer uso desse poder ele se apresenta como um sistema bem amigável e fácil de usar. Ele não é intimidador, é convidativo.

Menu do Safari com teclas de atalho em destaque.

Uma vantagem que provavelmente não tem tanto apelo ao público em geral, mas que para mim foi uma grata surpresa, é a atenção enorme com atalhos do teclado e o fato deles funcionarem da mesma forma em quase todos os apps. A barra de menus, no topo, exibe-os em frente aos comandos correspondentes e a consistência através dos apps agiliza muito o trabalho de quem prefere recorrer mais ao teclado do que ao mouse/touchpad. Alguns são casca grossa, como o que cola texto sem formatação (Command+Option+Shift+V), mas o mero fato de que algo assim existe já me deixa feliz1. As teclas auxiliares, Command, Option e Control, são meio confusas, mas com o tempo se acostuma. Alguns atalhos, porém, atentam contra a fisiologia humana — o Command+Control+A para arquivar e-mails no Mail é dureza. No geral, é bom ter tantas opções e essas poderem ser descobertas com facilidade.

Aqui e ali encontrei coisas que ainda não estão bem resolvidas. O sistema de divisão de janelas ocupando toda a tela, que apareceu no El Capitan, equivalente ao Aero Snap do Windows, é péssimo. Do modo de acioná-lo à execução em si, tudo fica aquém da solução da Microsoft. O Finder, que muitos usuários de Mac reclamam, tem coisas legais e outras nem tanto. A Dock, se deixada fixa, ocupa uma boa parte vertical da tela — e ainda tem a barra de menus no topo. Ocultá-la resolve o problema do espaço perdido, mas torna menos ágil o acesso aos apps.

Outras soluções, a maioria, arrisco dizer, são bem feitas e úteis. Até apps em tela cheia (Command+Control+F) acabo usando vez ou outra, algo a que nunca recorri no Windows (navegador, no caso) pelo isolamento que causava. No OS X, arrastar três dedos lateralmente pelo touchpad me permite navegar entre áreas de trabalho virtuais e apps em tela cheia com conforto e rapidez, o que viabiliza o recurso para mim. É preciso estar aberto a mudar velhos hábitos e, por alguns dias, lutar contra alguns cacoetes. Com o tempo, essas pequenas alterações vão sendo internalizadas e se consolidando.

Venho usando a maioria dos apps nativos e não sinto falta do que deixei para trás no Windows. Meu navegador é o Safari, o cliente de e-mails é o Mail e alguns textos maiores, como este, escrevo no Pages. O Numbers dá algum trabalho, mas nada muito diferente do que teria no Excel, dada a minha inabilidade com planilhas e números em geral. O Spotlight é bem esperto e um economizador de tempo. Consigo alternar entre unidades de medida, peso, moedas e obter rapidamente outras informações básicas do tipo, apenas apertando Command+Barra de espaço e começando a digitar. Mesmo ainda arranhando a superfície do OS X e restrito a apps básicos/nativos, certas coisas se sobressaem quando comparo meu novo workflow ao antigo, do Windows. Porém, repito: nada muito drástico.

Convertendo moedas no Spotlight.

Como os apps nativos da Apple não abrangem tudo o que preciso, fui à Mac App Store pegar o que faltava. Desses eu uso mais o Pixelmator, um editor poderoso, porém simples, que supre as ausências do IrfanView e do Fireworks. Para edições em arquivos HTML e CSS, optei pelo Atom. O meu querido Notation foi substituído pelo app oficial do Simplenote. Também instalei Spotify, Telegram, Slack, Pocket, Dropbox e Filezilla.

Editando uma foto com o Pixelmator.

Estou de olho no Byword, para editar textos em modo imersivo, e no Tweetbot. O problema é que eles são caros, ainda mais porque são cobrados em dólar. Já morri no Pixelmator e devo deixar mais alguns trocados com desenvolvedores terceiros. Assinei o Appshopper e sempre fico de olho em promoções. É a vida do iOS migrada para o computador e é o que se paga pelo zelo e qualidade dos apps para Mac.

Por que o MacBook Pro?

Vista diferente do teclado do MacBook Pro.

O que eu faço com o notebook, basicamente, é ler e escrever. Vez ou outra abro um editor de imagens e uns arquivos do site para alterar HTML e CSS, mas mesmo disso qualquer notebook consegue dar conta. Poderia ter pego um dos notebooks “ideais para o consumidor brasileiro” que nos são empurrados aqui, mas não quis.

Comodidade conta e ter um equipamento confiável ajuda muito, especialmente por ser a minha ferramenta de trabalho. Se puder (obviamente), não economize naquilo que você mais usa. É o tipo de economia burra da qual somos lembrados, reiteradamente, a cada olhada de lado na tela que se mostra inútil porque fica esbranquiçada fora do ângulo ideal, toda vez que a rolagem de uma página falha por culpa de um touchpad ruim ou quando, naquelas ocasiões onde o editor de imagens se faz necessário, ele demora horrores para abrir ou responder até que, eventualmente, trava. Talvez seja um exagero, mas nesse caso é preferível pecar por excesso.

Um Mac não era a minha primeira opção, porque o Windows sempre me satisfez e, como pude agora constatar, ele não me limitava se comparado às alternativas. Até cheguei a comprar um notebook da Samsung antes dele, o Style S20, crente de que se tratava de uma atualização direta do antigo Série 9, o que, para minha decepção, não se revelou verdade — a tela, embora tenha resolução maior, apresenta ângulos de visão severamente limitados e o acabamento caiu muito de qualidade. Devolvi.

E aí, na hora de buscar alternativas, vi que as realmente boas e equiparáveis a este MacBook Pro, como o XPS 13 da Dell e o ThinkPad X1 da Lenovo, custam o mesmo ou até mais caro. Achei que era hora de experimentar o OS X e tudo mais. Até agora, tem se mostrado uma decisão acertada, livre de arrependimentos.

Revisão por Guilherme Teixeira.

  1. Alguns apps no Windows implementam essa função de forma independente, como Chrome e Office.

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