iOS 10 no iPhone 6s.

iOS 10: Menos elegante, mais funcional


13/9/16 às 9h11

Se você tem um iPad (4 em diante), iPod touch de sexta geração ou qualquer iPhone lançado nos últimos quatro anos (iPhone 5 em diante), já pode atualizá-lo para o iOS 10, a nova versão do sistema móvel da Apple que acaba de ser lançada. Ela traz diversas pequenas mudanças que, embora somadas não formem algo tão grande quanto foi o iOS 7, representam as primeiras mexidas significativas na interface desde então.

O iOS 10 foi anunciado em junho, na WWDC, evento anual da Apple para desenvolvedores. De lá até hoje, alguns betas foram lançados, inclusive para quem não desenvolve — o procedimento, explicado aqui, é ridiculamente simples. Isso permitiu sanar muitos bugs antes da liberação da versão final, mas ao mesmo tempo deu uma esfriada no fator surpresa. Assim que atualizei o meu iPhone para o iOS 10, uns dias atrás, já sabia de antemão o que procurar e onde. E, mesmo assim, alguns detalhes me surpreenderam.

O preço da metáfora de cartões

Exemplos do uso de cartões na interface do iOS 10.

O que chama a atenção logo de cara são as mexidas no visual, especialmente o uso exacerbado de cartões. Felizmente, elas não ficaram tão feias quanto os prints publicados à exaustão em blogs sobre Apple davam a impressão. Não sei  muito bem explicar os motivos, mas desconfio que seja a combinação desses três:

  1. O fato de as imagens divulgadas serem estáticas, o que exclui as animações suaves e de bom gosto do sistema;
  2. A escala. O iOS “diminui” o tamanho dos elementos exibidos na tela do dispositivo, coisa que poucos têm o cuidado de replicar ao publicar imagens dele na web. É difícil, acredite;
  3. E o hardware em si, que é uma parte importante no uso do software, tanto que muda a percepção que se tem dele — rodar o iOS, qualquer versão, em um iPhone com tela não-Retina deve ser bem desanimador hoje.

Em suma, o iOS 10 continua bonito, mas algumas coisas saíram bem esquisitas. Para colocar em uma palavra melhor, o sistema parece menos elegante.

O uso dos cartões nas notificações e nas áreas de widgets é o maior exemplo. Além dos cartões darem um ar mais cartunesco à interface, o “embranquecimento” dessas áreas contribuiu também para essa impressão de que estamos lidando com algo mais despojado — antes, os fundos dessas áreas eram de um preto semi-opaco e as demarcações entre os itens, mais sutis.

Talvez seja mais fácil para uma parte do público identificar os separadores e interagir com esses cartões e a adoção deles no iOS aumenta a consistência com a interface do watchOS, mas é inegável que, esteticamente, o resultado no smartphone é um passo atrás. E como a Apple sempre prioriza o deleite estético, acaba sendo uma movimentação estranha.

Botão Limpar nas notificações do iOS 10.Para além disso, há coisas inexplicavelmente feias. Caso em tela: o botão para eliminar uma notificação da central e da tela de bloqueio tem a mesma altura do cartão. É esquisito. Feio, eu diria, embora mais fácil de acertar do que a antiga bolinha com um “x” dentro.

Na tela “hoje”, à esquerda da inicial e da cortina de notificações, os cartões ficaram particularmente estranhos, talvez pelas diferenças de layout entre eles e a infelicidade no desenho de alguns. O que antecipa o próximo compromisso da agenda amontoa esse com o próximo alarme, o que me confundiu muito na primeira vez em que olhei — achei que a minha sessão de pilates tinha mudado de dia!

Nem tudo piorou, porém. A animação de sair de um app ficou melhor e, agora, ao expandir uma pasta de apps ela cresce e desfoca os ícones ao fundo, o que é mais agradável aos olhos e mais coeso para quem usa (dá uma noção melhor de onde se está).

Erros e acertos em usabilidade

Voltando aos probleminhas, também notei algumas complicações no uso do sistema. Dividir a Central de ações em dois painéis (três, se você usa alguma coisa que conversa com o HomeKit) significa um deslizar de dedo a mais. Outra: a configuração padrão do Touch ID, que agora exige um apertar no botão de início quando se desbloqueia a tela pelo de liga/desliga, é um pedágio para dar à tela de bloqueio a utilidade perdida com o Touch ID super rápido do iPhone 6s. Meio desnecessário. Felizmente, é uma mudança que pode ser desfeita nas configurações de acessibilidade.

A exemplo do visual, em usabilidade também o iOS 10 equilibra erros (falados acima) e acertos. A melhor coisa dessa atualização, para mim, é o “raise to wake”. Ele faz com que o aparelho se comporte mais ou menos como o Moto X: ao ser tirado do bolso ou pego de uma superfície, o chip M9 (ou M10, no iPhone 7) detecta o movimento e acende a tela automaticamente. Por depender desse componente de hardware, isso só funciona nos iPhone 6s/6s Plus, SE e 7/7 Plus.

É algo bastante cômodo, o tipo de coisa de que sentia muita falta depois de testar e devolver um Moto X da vida. E nem é tanto para usar o iPhone (embora também contribua nesse sentido); o “raise to wake” é especialmente legal quando tiro o celular do bolso para dar uma olhada na hora e nas últimas notificações. Nesses primeiros dias ele tem funcionado exemplarmente bem, o que me leva a imaginar que um futuro iPhone sem botões físicos seria não só viável, mas algo bem funcional.

Detalhes…

Fora essas novidades maiores, o iOS 10 traz um certo polimento e atenção a detalhes que não se vê com frequência, mesmo em grandes versões. Não por descaso, acho, mas porque o iOS sempre foi muito polido e bem feito — logo, por que mudar? Aparentemente, desta vez algum motivo houve. Se você prestar atenção, encontrará um monte de detalhes diferentes.

Os barulhos do teclado e do travamento da tela mudaram. A Siri (dizem) está mais esperta e agora é capaz de interagir com apps de terceiros (ainda não topei com nenhum).

Os emojis foram redesenhados e ficaram parecidíssimos com os da LG, o que não é bem elogio:

Novos emojis do iOS 10.

As smart replies agora mostram o campo de texto no rodapé da tela e (mais) opções em grandes botões no meio dela:

Como se comportam as smart replies no iOS 10

O atalho de navegação entre apps no canto superior esquerdo não esconde mais os sinais da operadora e do Wi-Fi:

Atalho para voltar apps no iOS 10.

Finalmente o corretor do teclado detecta automaticamente o idioma, ou seja, nada de ficar alternando entre eles como se fazia na década passada — e isso inclui os emojis, que são apresentados como sugestões de palavras quando se digita uma que coincida com algum deles:

Escrevendo em português, inglês e emoji sem mudar o teclado no iOS 10.

São detalhes, alguns meramente estéticos, outros úteis, que no geral deixam o uso do sistema mais ágil e natural. Se do iOS 6 para o iOS 7 houve uma revolução, pode-se dizer que o iOS 10 é uma mini-revolução: mudou pouco, mas foram mudanças pragmáticas e que se fazem sentir no dia a dia.

Apps nativos: ame-os ou desinstale-os

Além das novidades do sistema, vários apps nativos foram repaginados. Alguns, bastante: Apple Music e suas fontes pesadas, Relógio (que agora te avisa a hora de dormir e monitora o sono), Saúde e o pacotaço de melhorias do iMessage que, infelizmente, meio que se anula aqui pela onipresença do WhatsApp.

Novos visuais dos apps Relógio e Apple Music.

Em outros, foram (novamente) detalhes: o Mail, enfim, mostra mensagens de uma mesma thread de cima para baixo e em rolagem, em vez de ter que apertar botões para navegar entre elas, e o Notas permite compartilhar notas com outras pessoas.

Widgets com 3D Touch no iOS 10.

Esses apps também são a forma mais fácil de experimentar os novos widgets das telas iniciais acessíveis com o 3D Touch. Não parece ser, ainda, algo capaz de popularizar nem o 3D Touch nem os widgets do iOS, mas… ok, continue tentando, Apple.

Ah sim: agora você pode desinstalar a maioria dos apps nativos.

Para quem usa iPhone e algum Mac, a atualização conjunta com o macOS Sierra traz alguns benefícios extras como a área de transferência universal (funciona como o esperado) e o compartilhamento da Mesa e dos Documentos do Mac através do iCloud Drive (adeus, Dropbox?).

Atualização recomendada

Falar em “atualização recomendada” para o iOS é bobagem. Todas são e inevitavelmente você, mesmo que resista num primeiro momento, acaba aceitando elas. O controle exercido pela Apple sempre leva a maior parte da base de dispositivos à versão mais recente e isso tem um efeito cascata que culmina na inevitabilidade: cedo ou tarde um novo app ou uma atualização de um app exigirá a versão mais atual do iOS.

O histórico também joga a favor. Não há motivos para ficar com um pé atrás a menos que o seu dispositivo seja o mais antigo com suporte à versão — desta vez, iPhone 5 e iPad 4. Esses, geralmente sofrem um pouco mais para rodar os novos recursos e acabam sem acesso aos mais legais, então talvez seja uma boa aguardar alguns dias e ver como eles estão reagindo à nova versão do sistema.

Aos demais, há sempre o receio da redução da autonomia da bateria. Já li várias reclamações desse problema, mas parece-me efeito placebo ou reflexo do fator novidade que acaba nos estimulando a usar mais o smartphone. Aqui, pelo menos, sem qualquer teste elaborado, apenas usando o iPhone como sempre uso, a autonomia me parece igual à que obtia com o iOS 9.

Se não esteticamente, no funcional os ganhos do iOS 10 são bem evidentes e justificam o entusiasmo. Se a atualização deixa o sistema menos elegante, como já comentei, ao mesmo tempo o faz mais esperto e natural de se usar. Não se pode ter tudo e, desta vez, a Apple priorizou a função em vez da forma. O que não é de todo ruim, também.

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