Uma decisão corporativa da 3M quase me fez jogar no lixo dezenas de ganchos plásticos em perfeito estado

Três ganchos removíveis 3M em uma parede branca, com foco no central, sem nada pendurado.

Na cobertura de tecnologia, fala-se há anos sobre os desafios da melhoria do impacto social dos equipamentos que usamos. Telas, resistores, conectores e placas, além dos muitos plásticos que embalam os equipamentos, são difíceis de reciclar e boa parte deles acaba poluindo o meio ambiente. O descarte, quando precisa acontecer, deve ser cuidadoso e feito em locais específicos, que ao menos cuidam para tentar reaproveitar algumas partes ao desmontar os aparelhos.

A dificuldade em lidar com o descarte de gadgets obsoletos é um tema frequente no Guia Prático, podcast semanal que apresento com o Rodrigo Ghedin. Ele tem o hábito de usar os aparelhos até onde for possível e além, reaproveitando-os para outros fins.

Motivada por essa conscientização acerca do impacto ambiental (e, cá entre nós, financeiro também!) das coisas que compro, quando mudei de apartamento, algumas semanas atrás, decidi reaproveitar todos os ganchos plásticos removíveis que tinha no antigo lar.

A maioria dos ganchos é da linha Command da 3M, que vêm acompanhados de tiras removíveis. São bons produtos. A remoção dos ganchos da parede foi tranquila, já que bastava puxar para baixo a lingueta para que a tira se descolasse lindamente da parede e sem trazer o reboco junto, como já aconteceu comigo com outros adesivos de parede.

Enquanto removia os ganchos, sentia a satisfação de estar fazendo alguma coisa sobre essa questão de produzir menos lixo. “Imagina só, agora posso pendurar tudo o que eu quiser na nova casa, os ganchos estão todos bem conservados e branquinhos”, pensava comigo mesma. Cheguei até a lavar os mais empoeirados e passar sapólio nos que estavam gastos. Sequei e guardei lembrando que só precisaria comprar um refil de tiras adesivas e pronto, essas dúzias de ganchos poderiam ser reutilizadas em novos lugares e com novas utilidades.

Ledo engano.

Assim que cheguei na Leroy Merlin, eu estranhei. A variedade de ganchos adesivos e removíveis era imensa, mas… onde estava o pacote de refil? Não o encontrava. Achei que era problema de falta de estoque na loja. Visitei uma segunda loja. Fui até a Sodimac, e nada. “Deve ser algum gargalo logístico da pandemia, será que ainda é possível ter isso?”, imaginei enquanto procurava online. Rá, finalmente encontrei! Um pacote de tiras adesivas… por R$ 200 reais? Frete internacional? Os únicos refis disponíveis para compra, via Amazon, eram da 3M, só que importados, por isso a pequena fortuna e os mais de 30 dias de frete.

Peraí, quer dizer que só americanos podem reutilizar os ganchos? Achei esquisito e decidi entender melhor essa história.

Mandei uma mensagem ao atendimento ao consumidor da 3M:

Prezados, estou com dificuldades de encontrar os adesivos em modo refil para os ganchos removíveis. Podem me indicar onde posso comprá-los ou se há alguma forma de encomendá-los diretamente com vocês? Grata, Jacqueline.

Poucas horas depois, abri empolgada o email com a resposta, já achando que ia encontrar um link ou, no mínimo, um endereço. Nada disso:

Agradecemos o seu contato! Informamos que temos no mercado os Ganchos Command econômicos, que não contém refil sobressalente na cartela, e os Ganhos Command que contém refil sobressalente para uma nova aplicação. Caso tenha comprado a cartela econômica ou descartou o refil que sobrou da cartela que vem com refil, será necessário realizar a compra de um novo gancho completo.

Quer dizer que as tiras adesivas, que por acaso tenho guardadas, foram compradas num golpe de sorte? Porque claramente eu sempre busquei as opções mais econômicas, que certamente vinham sem adesivo sobressalente. E… e eu só posso reutilizar o gancho uma única vez?

Imaginei que talvez minha redação tivesse ficado confusa. Será que a atendente entendeu que eu queria comprar uma cartela só com os adesivos de refil?

Oi, Fulana, obrigada pelo retorno. Isso significa que vocês não tem os refis do adesivos para vender em território nacional? Porque no mercado internacional existe, só que importar vai custar uma fortuna. Eu já tenho os ganchos, só precisava dos adesivos mesmo.

O assunto do email subsequente mudou e já era desanimador. Dizia “Re: Sem Solução de Produto”, seguido por uma mensagem que informava que as tiras adesivas em separado não eram comercializadas.

Chocada com esse desfecho, decidi registrar uma reclamação. Como pode uma marca que vende o conceito de reutilização para os ganchos decidir que eu só posso reutilizar uma vez, isso se eu tiver optado por pagar mais caro lá atrás, tiver armazenado as tiras devidamente, e olhe lá. Não parecia justo.

A resposta da reclamação me trouxe mais informações, que continuaram frustrantes, mas elucidaram melhor a questão. Além de prometer levar as observações ao setor responsável, a atendente me deu uma saída. Ela disse que os adesivos do Gancho Removível foram produzidos e comercializados pela 3M no Brasil até o ano de 2020, quando foram descontinuados. A dica era tentar ver se algum distribuidor tinha os pacotes só com os adesivos ainda em estoque, mas ela não podia garantir.

Eu tentei reutilizar os ganchos no ano imediatamente seguinte à decisão da empresa de descontinuar os refis. Se de repente alguém ainda tivesse as tiras em estoque, eu até conseguiria comprar, mas tal esperança não resistiu a uma rápida busca online, que me mostrou os refis de adesivos esgotados em todos os lugares. “Avise-me quando retornar ao estoque”, dizia o triste botão ao lado da loja virtual. Claro que não vai retornar, porque o produto não é mais comercializado pela fabricante.

Indignada, na sequência eu fiz o que todo millennial sabe fazer bem: reclamei muito no Twitter e no Instagram, em busca de alguém que pudesse me dar dicas de como resolver ou de pessoas que tivessem tiras adesivas sobressalentes para doar, sei lá — a essa altura, qualquer coisa estava valendo. Eu não tinha feito o processo de remoção cuidadosa de todos os ganchos da antiga casa para desistir agora e jogá-los fora.

Os analistas de mídias sociais da 3M foram até bacanas, pediram desculpas e confirmaram o que o atendimento ao consumidor já tinha me dito, que os refis não eram mais comercializados no Brasil, já que “o produto foi descontinuado por uma decisão corporativa”.

Vários ganchos removíveis, a maioria brancos, sobre uma superfície verde escura.
A coleção de ganchos removíveis da Jacque.
Movida por uma persistência que me é quase natural, insisti uma última vez para tentar entender que raios de decisão corporativa tinha sido essa. Porque se você não se escondeu numa caverna nos últimos anos, reparou que as medidas relacionadas à redução do nosso impacto ambiental estão em alta.

Em São Paulo, já não se leva mais sacolinhas plásticas do mercado sem pagar por elas. Estamos nos adaptando a usar canudinhos de papel que se desintegram no meio do milkshake, mas que poluem menos o meio ambiente. O Cannes Lions, maior prêmio da publicidade mundial, premiou com leões de prata e bronze a campanha Your Plastic Diet, que explicava de maneiras muito didáticas o impacto do plástico no meio ambiente e na gente. E se nada disso puder comover as corporações, as regulamentações globais estão cada vez mais preocupadas com pautas de ESG1.

Mudei a abordagem para o “modo jornalista” e questionei a assessoria de imprensa da 3M no Brasil sobre o vácuo dos refis adesivos. As respostas demoraram quase um mês para chegar, o que me deu esperanças de que trariam alguma novidade. Parece que eu não me canso de ter esperanças vãs, porque a nota da 3M foi quase menos explicativa que o atendimento ao cliente ou a resposta das redes sociais:

Grande parte dos produtos da linha Command já trazem em suas embalagens tiras adicionais par que sejam usadas como refis dos ganchos Command. Assim o consumidor pode utilizá-las para remover o produto sem estragar a parede ou ainda, se preferir, optar por reposicionar o produto. No momento, não estão sendo comercializados os refis do produto separadamente.

Questões como a preocupação da marca com o lixo plástico gerado pelos ganchos que não seriam reutilizados, quais teriam sido os motivos corporativos para descontinuar os refis ou até a oferta de um caminho excepcional para os excêntricos clientes que reutilizam ganchos adesivos ficaram sem resposta, o que me levou a insistir uma última vez. Quer dizer, pela nota recebida, eu estava entendendo que a empresa não tinha exatamente uma preocupação com o reaproveitamento dos ganchos plásticos removíveis — o limite máximo de utilizações seria duas vezes (máximo de tiras sobressalentes vendidas), e depois disso os ganchos devem ser descartados, ainda que estejam em bom estado. Será que era isso mesmo?

Enquanto aguardava a resposta da marca, a conclusão que ficou, para mim, é que por mais que Cannes Lions dê prêmios, que as pautas de ESG avancem ou que consumidores como eu se dediquem a reduzir o consumo reutilizando o que conseguirem, eventualmente o desafio da vivência sustentável esbarra em barreiras estruturais, além da nossa capacidade individual de ação.

No meu caso, uma decisão razoavelmente recente de uma empresa que é líder em adesivos que não levam o reboco da parede junto quando são removidos não me permite ter a opção de reduzir meu consumo de plástico ao reutilizar ganchos mais do que uma vez. No final, os ganchos são removíveis e até reutilizáveis, pero no mucho. Olhei de novo a caixinha dos ganchos na prateleira do mercado e reparei que a embalagem diz “removíveis” e não “reutilizáveis”. Talvez, no final, a marca nunca tenha mentido?

Depois de reclamar com amigos, familiares, colegas no Twitter, com o Ghedin, seguidores no Instagram, me vi diante de três possibilidades:

  1. Reconhecer a derrota, deixar a 3M feliz e comprar novos ganchos, dessa vez atenta para evitar os pacotes econômicos e garantir que cada novo gancho tenha a sua tira adesiva sobressalente. Eu precisaria comprar novos ganchos em uma proporção equivalente a 50% do que já tenho para garantir fitas adesivas a todos, aumentando desnecessariamente minha coleção de ganchos plásticos;
  2. Usar outro tipo de adesivo nos meus ganchos, ainda que elas não sejam as mais indicadas para este fim; ou
  3. Dar de ombros à comodidade e apelar para um martelo e vários pregos, e a Jacqueline do futuro que se vire para tapar os buracos nas paredes.

Confesso que fui chegando ao final desta saga frustrada, mas ciente de que o problema não sou eu, é o sistema. Estava pronta para encontrar a parte Cristal Muniz que vive em mim, uma vida talvez não sem lixo, mas pelo menos sem ganchos plásticos de parede extras, mas quanta dificuldade. Parte dos ganchos eu fui colando nas paredes da nova casa, adesivados com outras tiras adesivas que não são tão boas, mas que resolvem. Se a remoção dessas será tranquila como com as tiras originais, só o tempo dirá.

Com um prognóstico pouco positivo, mantive os outros ganchos guardados na minha caixinha da Fotóptica (reutilizada da minha tia-avó), na expectativa de, quem sabe, um improvável levante popular pela volta dos refis adesivos da 3M sensibilize a empresa. Ou, quando a pandemia arrefecesse a ponto de voltarmos a viajar, eu pudesse fazer o cúmulo de aproveitar uma viagem ao exterior para trazer tiras adesivas de ganchos removíveis na mala. Ou, ainda, me fazer ouvir por uma alma desprendida e com um estoque generoso de tiras, disposta a compartilhar algumas comigo.

Já estava pronta para admitir a derrota, para lidar com a dura realidade de que brigar com “decisões corporativas” vai além do que uma simples indivíduo como eu consegue resolver, um David e Golias moderno, com um final menos edificante que o da história original.

Foi nesse clima de desalento que recebi outra resposta da 3M, via assessoria de imprensa, informando que os refis tinham sido descontinuados “devido à baixa procura do item pelos consumidores nos canais de venda”. Apesar disso, a 3M insiste que “está constantemente preocupada com o ciclo de vida e a sustentabilidade de seus produtos e estuda voltar a oferecer o refil do item em seu portfólio”. E, para minha surpresa, apesar das tiras refis terem sido descontinuadas, a assessoria me ofereceu algumas unidades de refis.

Era preferível que, para refletir essa alegada preocupação com o ciclo de vida e sustentabilidade dos produtos, a 3M oferecesse um canal para todos os consumidores que queiram reutilizar os ganchos pudessem fazer uma encomenda especial de tiras adesivas como refil. Oferecê-los via assessoria, um canal a que só tenho acesso na condição de jornalista, não é bem o que tinha em mente quando decidi investigar essa história. Eu estava muito disposta, como consumidora, a comprar em um regime especial, quem sabe por meio de um depósito equivalente que permitisse receber um pacote de tiras refil em casa, por exemplo.

No entanto, decidi aceitar a oferta da assessoria. Afinal, ainda possuo ao menos 30 ganchos de diversos tipos, cores, materiais e tamanhos, que agora, depois de 23 emails, 12 stories, uma mensagem direta no Instagram, um tuíte e um artigo de opinião, finalmente não irão para o lixo.

Foto do topo: 3M/Divulgação.

  1. Sigla em inglês para os cuidados com o Meio Ambiente, Impacto Social e Governança.

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16 comentários

  1. O problema começa que sustentabilidade capitalista é uma ideia falsa, como ensina Ailton Krenak.

  2. Que saga! Parabéns pelo empenho. Eu provavelmente teria deixado os ganchos (e talvez ate alguns quadros) na parede durante a mudança.

  3. Dica para remover a fita dupla-face comum da parede, sem estragar a pintura: Use um pedaço de fio dental ou linha de pesca (ou outra linha que não arrebente fácil) atrás da fita e vá passando como se estivesse cortando.

  4. Esses tempos atrás fui atrás dos mesmos refis. Tenho vários desses ganchos também e igual você, não achei. Porém não procurei a fundo nem sabia que havia sido descontinuado. No meu caso, taquei fica Scotch mesmo e o Ilton do futuro que se vire com massa corrida e tinta…

    1. O que isso tem a ver com o texto? Homofóbico sempre quer forçar uma brecha para se manifestar.

      1. Elen, acho que o André não foi homofóbico. Acho que foi irônico, pois muitas empresas usam bandeiras das minorias mostrando que se preocupam com a inclusão destas e não passa de marketing, assim como a bandeira da ecológica.

  5. Parabéns pelo empenho! Quando removi os ganchos de uma casa para outra, no fim acabei utilizando uma dupla face comum mesmo, da 3M ou não da 3M, não me recordo. Não é tão prático para remover e mudar de lugar, por exemplo, mas como boa parte dos quadrinhos em casa são presos com dupla face, já estou acostumado ao perrengue de remover a fita da parede sem arrancar a pintura ou reboco.

  6. Jacqueline, que saga. Senti em mim o que você relatava. Que frustrante! Eu confesso que busquei muito essas tiras adesivas. Por não achar, comprei aquela fita dupla face VHB extraforte da 3M, cortei no tamanho dos meus ganchos e deu certo! Pra tirar da parede o cuidado é maior, porque a parede quase vai junto (kkkk) (Sim, sou cringe).

    1. Eu acho que tem algumas coisas que dá pra ir passando no adesivo pra facilitar a retirada, não? Sei que acetona diminui o poder de adesivos (mas testa no cantinho da parede antes pra ver se ela não reage com a tinta!) e hoje em dia vendem até mesmo produtos próprios pra isso.

  7. Uma jornada e tanto iniciada com simples ganchos. Interessante imaginar que muito dessa preocupação ambiental é apenas publicitária, assim como muitas empresas se pintam como “great places to work” e na realidade são lugares extremamente tóxicos e horríveis (estou olhando para você, empresa da qual me demiti ano passado).
    Mas esta matéria foi muito importante em lembrar que é necessário uma certa dedicação para consumir de forma consciente, diminuir nossa pegada de carbono e fazer nossa pequena, mas essencial, parte em um futuro melhor.
    E por fim, excelente texto Jacqueline!

    1. Poxa cara… a empresa desenvolveu o produto reutilizável, abasteceu o mercado com os refis e os consumidores simplesmente ignoraram. Não sei se a 3M teria muito que fazer nesse caso (talvez até a logística reversa dos refis vencidos estivesse causando impacto ambiental desnecessário).

      1. Mas seria interessante se a empresa mantivesse um bom estoque para 5 anos de refil (ao que entendi, ficou no mercado 2 anos só).

        Apesar dos consumidores “ignorarem”, na verdade pode ter existido falta de publicidade também.

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