Meu trabalho em risco

Gravura de dois ludistas ingleses tentando destruir uma máquina de tear.

Alguns séculos depois, sinto hoje o que artesãos e pequenos produtores ingleses devem ter sentido quando viram chegar as primeiras máquinas e serem inauguradas as primeiras fábricas durante a Revolução Industrial.

Tecnologia recente, as inteligências artificiais (IA) gerativas representam uma ameaça a trabalhos intelectuais que, até pouco tempo atrás — coisa de cinco anos — pareciam garantidos frente à automação avassaladora do trabalho.

Não mais. IAs como o ChatGPT, as do tipo LLM (de “large language model”), são capazes de gerar textos originais coerentes a partir de “prompts” (enunciados) curtos escritos por humanos.

Como toda tecnologia revolucionária, parece mágica. E não é por acaso que volto ao mesmo tema em menos de dois meses. O ChatGPT foi lançado cinco dias após eu publicar aquela primeira coluna.

Em vez de gastar algumas horas com pesquisa, redação e edição para publicar este texto, por exemplo, eu poderia ter pedido ao ChatGPT para que escrevesse algo a respeito da ameaça das IAs a quem trabalha com a escrita. Muito meta — e manjado; pouparei você disso.

O resultado não seria o mesmo, mas provavelmente seria “bom o bastante”. Sabemos, não de hoje, que “bom o bastante” costuma ser… o bastante para muita gente. E sendo mais barato e mais rápido de produzir, fica difícil resistir.

Hoje, as IAs gerativas ainda são uma espécie de curiosidade, tópico para textão deslumbrado no LinkedIn, testes criativos, soluções experimentais. O potencial, porém, está ali, escancarado.

A Microsoft, uma das principais financiadoras da OpenAI, empresa por trás das IAs mais avançadas (além do ChatGPT, também é dona do DALL-E 2, GPT-3 e do Codex), anunciou nesta semana a oferta serviços da OpenAI em sua solução de nuvem e já oferece recursos baseados nelas em alguns produtos comerciais, como o Github Copilot e o Microsoft Designer. Rumores sugerem que o ChatGPT chegará em breve ao Bing e aos aplicativos de produtividade (Word, Excel, PowerPoint etc.).

No jornalismo e na escrita para a web, o potencial é explosivo.

Há anos algumas redações, como a da Associated Press, usam robôs para produzirem textos simples, como notícias de balanços trimestrais de empresas e resultados esportivos.

Com as novas IAs gerativas, essa prática muda de patamar. Até então, os textos escritos por robôs eram meio que um “script” lógico, compreensível: pegue esses dados e coloque-os em um modelo. Com um ChatGPT da vida, porém, o robô parece ganhar imaginação e a lógica se perde em meio a algoritmos complexos e opacos.

O resultado também é de outra magnitude. O ChatGPT cria argumentos, detecta consensos, descobre controvérsias. Embora carente de consciência, simula uma. É “bom o bastante”.

A CNet, uma publicação norte-americana que cobre tecnologia, começou testes com uma IA do tipo em novembro de 2022 da pior maneira possível: com pouca transparência.

Alguém descobriu e, sob escrutínio, erros básicos foram descobertos nos quase 80 textos robóticos publicados. Uma falha generalizada: da IA e do ser humano (supostamente) responsável por verificar e editar o texto artificial.

São erros que talvez a próxima versão do GPT não cometerá. O ritmo é alucinante.

No domínio do jornalismo as IAs gerativas talvez não estejam prontas para produção, mas em outros menos exigentes elas já passam muito bem, obrigado: respostas rápidas para e-mails, respostas a perguntas em buscadores, posts de redes sociais, conteúdo topo de funil para blogs institucionais.

Não precisa pesquisar muito para topar com dúzias de startups tentando largar na frente dessa nova corrida do ouro — tentando vender pás aos garimpeiros que, no fim, acabaram usando-as para cavarem as covas das suas profissões e das de outros trabalhadores.

Quando essas IAs são boas o bastante, vagas de trabalho são reduzidas e as atribuições de quem sobra mudam. De redatores e editores, por exemplo, viramos todos babás de robôs, corrigindo erros flagrantes (para humanos) que porventura passem no texto artificial e que, claro, consigamos captar. (Porque se tem uma coisa em que somos bons é em falhar; até nisso a IA nos reproduz.)

Em breve, minha rotina ganhará mais uma demanda: a de me provar de carne e osso em um ambiente puramente digital, repleto de “rivais” que não se cansam, não adoecem, não têm variação de humor. Estamos jogando no campo do adversário. É uma luta inglória.

Ao contrário dos luditas britânicos do século XVIII, eu não tenho sequer uma máquina para chutar. As IAs gerativas que ameaçam meu ofício existem na nuvem, esse conceito etéreo, mero eufemismo para “grandes computadores em armazéns controlados e bem longe da gente”. Nada de luta armada contra robôs que se parecem com o Arnold Schwarzenegger, esqueça isso. A revolução das máquinas será discreta.

E diferente do que as melhores utopias previam, nem ao menos poderemos nos dedicar às artes, porque as IAs gerativas também já produzem ilustrações, pinturas e fotos. Até ganham concursos.

Talvez o nosso destino, o destino da humanidade, seja virarmos todos vovôs Simpsons gritando contra a nuvem. Que fim patético.

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4 comentários

  1. Uma coisa que penso é que “Inteligência Artificial” tipo ChatGPT na verdade é só uma biblioteca eletrônica e mais nada. Como dito tanto aqui quanto no da Jacqueline, sempre vai ter um humano por trás da máquina alimentando a forma de saída que o programa tem que emitir – ou melhor, o resultado esperado.

    No Jornalismo, não acho que este tipo de aplicativo vai substituir o que jornalistas como você fazem – ligar para fontes, conversar com partes de uma matéria, investigar dados (se bem que este último ao menos tem ferramentas que ajudam e fazem ganhar tempo), etc…

    Quando não, visitar um lugar e até sofrer com o risco de tiro, porrada e bomba. Uma IA pode escrever um texto, mas não vai transpor o sentimento de quem esteve em guerra vivenciando. Neste caso, uma IA sofre o risco de mesmo se dizendo “isenta”, no final querendo ou não acabar escrevendo de forma que gere apoio a um dos lados da guerra.

    Pedir para um ChatGPT fazer uma matéria no final é aquela coisa de fazer matérias tipo “Caetano estaciona carro no Leblon”: uma coisa que os caras (editoriais e responsáveis do faturamento) só esperam que ajude a encher linguiça no site, dando tráfego e audiência.

    Como o Bracht responde nos comentários:

    Quem escreve como uma máquina vai ser substituído, mas quem escreve como um ser humano vai ser cada vez mais valorizado e diferenciado.

    Esperemos que os próximos tempos não sejam de uma IA contra as pessoas, mas apenas para auxiliar as pessoas. E isso, bem, são as pessoas que tem que correr atrás para mudar isso, não?

  2. Isso me lembra muito o começo dos anos 2000 quando o uso do AUTOTUNE, que é um programa que ajuda a corrigir a afinação das vozes, virou praticamente lei em diversos tipos de música.
    Alguns artistas começaram a colocar nos encartes dos discos que no álbum não teve uso de programas para correção de afinação das vozes.

    Lembro que tem dois discos do Silverchair com essa informação, mas muitos outros tb fizeram isso.

  3. No fundo, toda tecnologia é pra reduzir empregos, desde que o mundo é mundo. Talvez o susto maior seja pq agora quem escreve está sentindo o risco de ser a bola da vez.

  4. oi finalmente vamos ter o comunismo no mundo… porém talvez só os ricos de hoje cheguem a ver isso no futuro :P

    ps. legal ver esses dois textos logo ouço o podcast ^^