Usar o ChatGPT consome uma garrafa d’água de 500 ml; e daí?

Das óbvias às delirantes, é longa a lista de preocupações com a inteligência artificial surgidas desde o final de 2022, quando o ChatGPT tomou do metaverso ou dos NFTs o título de “tecnologia do futuro”.

Tenho pensado muito a respeito de uma delas: o uso excessivo de energia e água, necessários para dar conta da sede insaciável de big techs e startups por mais dinheiro1.

Qual o custo ambiental de terceirizar tarefas ingratas ao ChatGPT, como escrever relatórios que ninguém lê ou gerar uma imagem de feliz aniversário àquela tia, com quem você não fala há seis anos, no grupo da família no WhatsApp?

Talvez a métrica mais popular para esse grande dilema dos anos 2020 seja a da garrafinha d’água de 500 ml para cada ~50 perguntas ao ChatGPT.

É muito? Pouco? A troca vale a pena? Como em tudo na vida, a resposta é: “depende”.

Todo dado do tipo, se analisado sozinho, soa absurdo. É preciso contexto. E quanto mais contexto, melhor. Nesse caso, interessa-nos em especial os relacionados a outras atividades corriqueiras que fazemos na internet, ou seja, que também dependem de grandes centros de dados, e o custo-benefício de jogar gasolina (mesmo que algumas gotas) no aquecimento global em troca de verborragia artificial e imagens cafonas.

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Há estimativas de que a corrida da IA dobrará a fatia do setor de tecnologia no consumo global de energia até 2026. O que… é bastante, considerando que o setor consumia entre 1–1,3% total no ano 0 AC2.

O que eu ou você podemos fazer se acharmos esse aumento um desperdício? Sendo bem honesto, acho que nada. Para nós, meros mortais, a IA é inevitável. Gostemos ou não, os executivos das grandes empresas — quem dá a palavra final nos apps e sites que usamos no dia a dia, e como os usamos — estão convencidos de que essa tecnologia é revolucionária.

Não só convencidos: estão investidos até o pescoço, esperançosos de que, como toda tecnologia de fato revolucionária, a IA reserva gordas recompensas àqueles que a dominarem, mesmo que incorram em “externalidades”, entre elas fritar o planeta.

A inevitabilidade já se faz sentir. Google e Microsoft enfiaram recursos de IA generativa em seus aplicativos de produtividade. Da noite para o dia, milhões de pessoas e empresas que dependem do Microsoft 365 (antigo Office) e Google Workspace ganharam assistentes de IA que não pediram e que vieram, é claro, com um aumento considerável no preço das assinaturas a tiracolo.

A Samsung desistiu de melhorar seus celulares — até piorou um pouco o Galaxy S25 Ultra — para dedicar seus esforços a recursos de IA no mínimo questionáveis como chamarizes, numa tentativa ousada de convencer as pessoas a trocarem de aparelho.

Do outro lado do duopólio, a Apple, que se recusava a dizer “IA” e chamava IA de “machine learning” até o ano 1 AC (antes do ChatGPT), abraçou a IA, inventou um trocadilho infame para se referir à sua (“Apple Intelligence”) e decidiu ativá-la por padrão no iOS 18.3.

É a mesma IA que, até antes dessa atualização, inventava notícias ao “resumir“ notificações de apps de jornais. A solução da Apple? Remover apps de notícias do resumo da IA. Digo, da “Apple Intelligence”. Ela te transformar em um trambiqueiro egoísta, na visão da Apple, isso continua valendo.

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Sendo inevitável, faz sentido opor-se ao uso da IA? Ou melhor: é possível deixar de usar recursos baseados em “IA”, votar com a carteira?

Os mais explícitos, talvez sim, talvez até desejável pois bregas e/ou quase inúteis. A Anthropic, startup de IA bancada por bilhões de dólares da Amazon e do Google, concorda.

O problema é que, em um contexto mais amplo, todos já usamos “IA” em larga medida. Da pesquisa por imagens no Apple/Google Fotos a rotinas mais inocentes, como o corretor ortográfico do celular ou traduções automáticas, tudo se baseia em conceitos e técnicas que, a depender da definição (se mais ampla), cabem debaixo do guarda-chuva da inteligência artificial. E com benefícios tangíveis, ou mais justificáveis, do que apagar gente feia do fundo de uma foto.

E é essa percepção que me leva a um cansaço que precede o dilema, porque inócuo. A famigerada garrafinha d’água de 500 ml que o ChatGPT consome é o novo “desligue a luz para economizar energia”, o “tome banho de 30 segundos para não faltar água no mundo”, no que quero dizer que tanto faz usar ou não o ChatGPT porque:

  1. O estrago já está feito e não serão uma ou um milhão de pessoas tentando ignorar as IAs (ou a parte evidente delas) que mudará o curso estabelecido pela indústria; e
  2. Ainda que por algum milagre aconteça um boicote significativo da IA, a infraestrutura já construída e a que está saindo do papel não serão derrubadas por falta de uso. Em vez disso, a indústria vai inventar novos usos porque não existe capacidade ociosa e, mais importante, ninguém está investindo uma quantia obscena de dinheiro só para ver se vai dar em alguma coisa.

Uma coisa é um punhado de startups vendendo promessas vazias bancadas por picaretas da laia do Marc Andreessen, como vimos no surto do NFT. Outra é as maiores empresas e fundos de investimento do planeta despejando centenas de bilhões de dólares (literalmente) em uma tecnologia que creem ser revolucionária.

Quando se chega a esse estágio, só há dois caminhos possíveis: um retorno altíssimo acompanhado de uma verdadeira revolução, ou uma quebradeira generalizada, doa a quem doer. Você deve imaginar o meu palpite de qual desfecho veremos.

***

É meio frustrante quando as respostas a um dilema ecoam os abrangentes e a essa altura cansados “é o capitalismo” ou “são problemas sistêmicos, não podemos fazer nada”. Mesmo que seja o caso. Por isso, quero terminar dando um pouco mais de contexto, no âmbito do indivíduo, para ajudar a expiar a culpa caso você queira usar o ChatGPT para qualquer tarefa modorrenta que te peçam no trabalho ou, sejamos realistas, experimentar as ferramentas disponíveis — numa dessas, vai que você acha algo útil?3

Sabe as videochamadas, o Zoom e o FaceTime que salvaram alguns fiapos de sanidade na pandemia e que normalizaram a videochamada? É das atividades digitais que mais consomem energia. E não precisa ser assim, se estivermos dispostos a desligar o vídeo e ficar só com o áudio. Como a gente fazia antes da pandemia. Esse gesto simples economiza 96% das emissões de carbono de uma videochamada4.

Antes de excluir o app do Zoom do seu celular, considere que, ainda que você não desligue o vídeo por qualquer motivo, uma videochamada é, por óbvio, muito mais econômica e eficiente do ponto de vista energético do que pegar um avião e depois um Uber ou alugar um carro para conversar cara a cara com alguém do outro lado do país.

Sabe o que mais consome muito mais energia do que centenas, milhares de respostas imbecis e códigos quebrados gerados pelo ChatGPT? Streaming de vídeo. Vamos todos cancelar a Netflix e o YouTube e voltar à internet dos anos 1990, baseada em texto puro, e às locadoras de DVDs? Pois é, eu e a Blockbuster também achamos que não.

Da minha parte, creio que direcionar a (nossa!) energia aos atores, instâncias e problemas com mais chances de retornos maiores (sistêmicos!) é um caminho mais promissor. Como? Sei lá. Deixo essa pergunta (e o meu apoio) para ativistas, cientistas, políticos comprometidos com o meio ambiente e quem mais estiver capacitado para ajudar. Eu sou só um cara qualquer escrevendo em um blog que quase ninguém lê.

Vamos lutar contra a instalação de centros de dados em locais que já sofrem com a estiagem, ou obrigar as big techs a serem mais transparentes em seus relatórios ambientais e mais eficientes no reuso da água e desenvolvimento de técnicas de mitigação do impacto ambiental.

Independentemente do que achemos das IAs no geral, das generativas em particular; se bregas, antiéticas, super legais ou revolucionárias, só sei que não é torcendo o nariz ou assediando quem as usa que resolveremos o problema. Pelo uso em si, quero dizer. Zoar quem se autoproclama autor de poemas feitos pelo ChatGPT, aí acho que tudo bem.

  1. Essa é uma diferença crucial da IA para outras modas: desta vez, não são só startups questionáveis convencidas de que estão prestes a mudar o mundo. As maiores e mais poderosas empresas do mundo também compraram a ideia.
  2. “AC” de “antes do ChatGPT”, que equivale a 2022 DC, “depois de Cristo”.
  3. Tenho usado o Perplexity Pro (cortesia da Vivo) para algumas respostas rápidas de dúvidas bobas e o GPT-4o via DuckDuckGo para me ajudar com alguns códigos para este Manual. Os resultados têm sido ok no primeiro caso e inconsistentes no segundo.
  4. Que, por coerência, passaria a ser apenas uma chamada.

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16 comentários

  1. Incomoda saber do consumo de água e energia com as consultas de IA, mas também alivia saber que o streaming de vídeo consome ainda mais.
    Resta ficar na expectativa que a própria indústria de IA generativa se torne mais eficiente com o passar do tempo, demandando menos recursos. Deixar de usar, falando em larga escala, parece impensável, é um caminho sem volta, então o jeito é otimizar.

  2. Eu tenho usado o Perplexity Pro pra me orientar em dúvidas de código mesmo, geralmente me respondendo as dúvidas com stack overflow. Tem sido ótimo.

  3. Tendo a concordar mais com abordagens como a do Edson. Acompanho o noticiário climático e é um tanto desesperador: todo dia notícias de novos recordes de calor e emissões de um lado e, do outro, quem tem poder largando mão de fazer algo. Vejam a edição de hoje da newsletter do Instituto Climainfo (https://mailchi.mp/ce49dc99cecc/climainfo-4-de-outubro-de-6099733?e=f19764a05c), por exemplo: De um lado, a notícia “Confirmado: mesmo com La Niña, janeiro de 2025 foi o mais quente da história”; do outro, “Petroleira norueguesa Equinor corta pela metade investimentos em energia renovável”. Ou seja, quem tem poder pra fazer algo está indo no caminho oposto. Há pouco tempo a Oxfam soltou um relatório dizendo que o 1% da população mais rica esgotou seu limite anual de emissões de carbono em apenas 10 dias neste ano (https://www.oxfam.org.br/noticias/1-da-populacao-mais-rica-esgota-seu-limite-anual-de-emissoes-de-carbono-em-apenas-10-dias/). Ou seja, não são os hábitos de nós, reles mortais, que fará muita diferença. Mas, dito isso, não acho desprezível buscarmos atitudes sustentáveis sempre que pudermos, e é o que busco fazer. Mas sem atitudes que acabem me prejudicando ou sejam muito trabalhosas, como baixar um filme ao invés de ver no streaming, exatamente pela consciência de que seria uma gota no oceano.

  4. Tropecei com esse assunto durante umas pesquisas por aqui. Um caso que me chamou atenção, mas que parece pouco discutido, é o de Quilicura, no Chile. Lá houve uma grande resistência da população local à construção de data centers porque eles começaram a ver os níveis de água baixarem e os danos à zona úmida se estenderem com o avanço da big tech.

    O caso é bem documentado pelas universidades próximas e os estudos sobre o processo de regulamentação das obras mostram muitos furos jurídicos. (Aliás, bem como a PL 2.238, de Rodrigo Pacheco, que simplesmente não prevê uma fiscalização de incidentes graves, violações ambientais, etc., ao “regularizar” a construção de data centers pelos “agentes de IA” no Brasil. O senador chegou até a ser nominalmente agradecido pelo CEO da Scala Datacenters (Data Bridge), que está construindo uma “AI City” em El Dourado do Sul).

    Eu só fico pensando que o capitalismo mundial integrado espalhou demais os eventos, e ficamos presos, empacados, entre uma ação individual (impotente, melancólica, precária e, pior, às vezes reduzida ao consumo) e uma ação estrutural que é tão grande e abrangente que sequer achamos quem seja capaz de fazer.

    Tenho achado melhor pensar a organização política de uma forma transversal (micropolítica?), em que se pensa o plano macro, mas se organiza a partir de acontecimentos locais. Da maneira como penso, a visão muito individual empaca pela incapacidade de mobilizar, mas a visão muito geral empaca pela perda do objeto de mobilização. Já quando algo acontece, a coisa é diferente. A ocupação das escolas pelos estudantes de SP, a Resistência Quilicura, os protestos depois da morte de Alexis Grigoropoulos, e até os zapatistas, por exemplo, se ordenam em torno de uma vivência coletiva que é bastante objetiva. Essas coisas podem ser reprimidas, podem se perder no meio do caminho, podem até não render frutos significativos (tudo isso é verdade em parte), mas é difícil não ver uma eficácia nesses movimentos, e é difícil não ver o quão difícil é freá-los.

    No caso do impacto ambiental da IA, parece muito mais interessante apontar o que tem acontecido na vizinhança dos data centers, nas causas locais, e lançar nelas um holofote, produzir um contágio, uma polêmica, um senso de comunidade. Acho que de pouco adianta sair silenciosamente do Gemini/Copilot (mas se puderem não depender deles é uma boa coisa) e de pouco adianta o cálculo gigantesco com dados ínfimos sobre quanto é gasto de água em cada pesquisa (mas, quem puder, que continue tentando calcular). O mais importante é estar atento e engatar no movimento quando se vão observando os efeitos negativos dessa expansão. É até uma questão de atenção: a essa altura se as pessoas saberem que IA não é mágica, que gasta energia, que gasta água, que se vale de mineração ilegal… isso já vai fazer muita diferença no Brasil.

    Mas, é claro, há uma tarefa transversal (?) que fica mais próxima do plano macro: é preciso exigir por transparência e por uma regulamentação de verdade, que acaba sendo uma ação que fica à mão dos deputados e senadores. Aí… bom, acho que estamos chegando cedo nessa briga e quanto mais gente estiver de olho, melhor. De todo modo, é só o começo.

    Fui longe, gente, mas espero que essa mensagem na garrafa chegue por aí e faça algum sentido pra alguém.

    1. Obrigado parça. Voce me devolveu a esperança com a reflexão da micropolitica. Eu tava pensando nessas ondas e não tava conseguindo me explicar o que era.

      1. Que massa, Jeff! :)

        Ando com receio de usar essas palavras, porque elas parecem ter sido cooptadas por um ar “good vibes” que me incomoda um pouco. (Incomoda porque tem pouco a ver com as implicações práticas da coisa, e aí é dois passos para cair em uma romantização complicaaada que só ela.)

        Mas acho um bom jeito de pensar… Tem ajudado muito do lado de cá, a sobreviver e a articular as ideias em conjunto também.

    2. Muito bom, Edson! Acho que estamos alinhados no diagnóstico de que essa ação “no meio”, entre o individual e o macro, é um caminho promissor. Apesar dos riscos. Estou lendo A década da revolução perdida (não gostei da tradução do título), do Vincent Bevins, que aborda as revoltas populares dos anos 2010 e como elas resultaram num mundo mais extremista, o oposto do que as ruas clamavam (ainda não cheguei nessa parte). Não sei como traduzir/interpretar as lições de lá no contexto da IA e da emergência climática, porém.

      É até uma questão de atenção: a essa altura se as pessoas saberem que IA não é mágica, que gasta energia, que gasta água, que se vale de mineração ilegal… isso já vai fazer muita diferença no Brasil.

      Dia desses saiu uma pesquisa apontando que quanto menos alguém sabe como a IA funciona, mais aberta a pessoa está a usá-la.

      Conscientização parece um bom primeiro passo para atacar os excessos e mentiras da IA generativa.

  5. Talvez esteja chovendo no molhado, mas gosto de trazer a incapacidade da ação individual frente a problemas sistêmicos. Esse tipo de midialização do aquecimento global, que traz o foco para o que você consome ao invés das políticas públicas é uma forma de manutenção do status quo

    Se iremos resolver essa crise existencial, eu não sei, mas tenho certeza que não é com capitalismo “verde”. Só nos resta o que Gramsci escreveu, pessimismo da razão, otimismo da vontade

  6. A boa notícia é que, questões como essas, do gasto de água, podem simplesmente desaparecer “da noite pro dia” devido a um súbito avanço nos algoritmos, algo que pode surgir a qualquer momento. Na verdade, já tivemos uma boa amostra disso com o DeepSeek, e só requer um tempinho (falo de semanas) para que toda a indústria implemente as inovações publicadas por essa empresa.

    Mas claro, isso não vai solucionar o problema do grande consumo assim tão rápido, pois quando uma tecnologia passa a gastar 100x menos energia, isso abre tantos casos de uso que, ao invés de diminuir, o consumo geral pode até mesmo aumentar.

    Não sou fã do hype em torno da IA, porém reconheço que tem algo de especial e verdadeiro nessa tecnologia e que muitos podem não enxergar devido à fumaça do próprio hype. Diferente de todas as tecnologias que o ser humano já inventou, essa é a única e a primeira que tem o poder de aprimorar a si própria de uma forma cada vez mais autônoma, digo, sem seres humanos no circuito.

    Ainda não chegamos a esse ponto, esse autoaprimoramento ainda é atingido de forma um tanto lenta e artesanal, porém, a distância se encurta a cada dia, com cada mini breakthrough que vem ocorrendo numa frequência quase semanal.

    O ponto a que quero chegar é que, a humanidade esbarrou numa coisa valiosa demais para sequer pensar no meio-ambiente. Infelizmente essa é a verdade. Não curto isso, nem aprovo, mas é o que vai acontecer: continuaríamos usando as IAs ainda que isso gastasse 10x mais litros d’água.

    Ainda tenho uma visão otimista: a de que a própria IA será usada para grandes descobertas científicas que ajudarão na recuperação do meio ambiente. No final é tudo física, matemática, biologia… e os benchmarks mostram como as IA estão se sobressaindo assustadoramente nessas áreas. É promissor.

    Parabéns pelo artigo aprofundado!

    1. Com todo respeito, mas sua fé, assim como a do Elon Musk, Sam Altman e outros está na ficção científica e em uma inevitável onda de progresso.
      Aumentar o impacto ambiental nesse momento já muito grave esperando que a chegada do Messias que nunca chega (a suposta AGI ou super inteligência) irá consertar os estragos que fizemos ao mundo é loucura. É levar a nós, e a milhares de outras espécies, a extinção.
      Não há garantia de que essas apostas que deixamos os bilionários fazer (colônias em Marte, um – horrível – mundo cyberpunk, AGI, etc) são de fato viáveis. A indústria segue nos coagindo com bons vendedores de futuro e milagres.

      1. Olá Arthur, entendo seus pontos.

        Mas é muito improvável que IA nos leve à extinção, ou mesmo que cause grandes catástrofes climáticas… Pode ficar tranquilão!

        Como estou tão seguro disso, se não sou nenhum profeta?

        Bem simples:
        Eu não enxergo o futuro, mas enxergo muito bem o sensacionalismo da mídia, especialmente quando isso envolve minha área, que é justamente TI e Inteligência Artificial.

        Essa visão apocalíptica é puro sensacionalismo da mídia. Desculpe ser franco e frontal nesse ponto, mas é a simples verdade. Será que IA pode trazer alguns contratempos para a civilização? Sim, claro. Tal como ocorreu com a invenção do automóvel, do plástico, da TV, da rede social, do smartphone. Isso podemos esperar com certeza, mas não será nada que a gente não aguenta.

        Não há garantia de que essas apostas que deixamos os bilionários fazer (colônias em Marte, um – horrível – mundo cyberpunk, AGI, etc) são de fato viáveis. A indústria segue nos coagindo com bons vendedores de futuro e milagres.

        Colocar IA no mesmo saco que colonização à Marte não parece fazer justiça a essa tecnologia. Embora eu concorde que Marte seja sim uma fantasia de bilionários, IA já está entregando resultados hoje: não é uma promessa.

        Embora IA seja sim uma tech explorada por bilionários, vale lembrar que os artigos acadêmicos, que são os fundamentos dessa tecnologia, são praticamente de “domínio público” e abertos à toda comunidade científica. Se levarmos em conta a forte tendência para o open-source, não é exagero dizer que IA já se tornou um patrimônio da humanidade.

        Vou ainda além ao dizer, mesmo parecendo sonhador, que IA pode se igualar à descoberta do fogo, ou à invenção da escrita. Porém, pra enxergar isso, é preciso retirar a camada capitalista que infelizmente mancha e confunde o significado dessa tecnologia.

        Mas enfim, só queria esclarecer esses pontos.
        Abraços.

  7. Esse episódio do Hard Fork (Em inglês) trouxe uma especialista nesses cálculos de impacto ambiental https://open.spotify.com/episode/1pRZKxizvp6cGoxmgLfebx?si=V0kQ4qpUSBiVqmJr3k3HNw achei bem legal.

    Acho que o problema de não desenvolver as IAs é porque elas são potencialmente imprescindíveis tal qual uma bomba atômica. Se (SE) surgir uma AGI algum dia, os países que não tiverem acesso a essa tecnologia ficarão rapidamente defasados contra quem tem. Esse é um risco que as potências que tem capacidade de treinar IAs não podem correr e vai sempre justificar essa tecnologia.

  8. Acho que a suposta inevitabilidade de uma tecnologia de alto impacto ambiental não justifica a aceitação resignada desse impacto. Imagine alguém nos anos 50 dizendo: “Petróleo é uma tecnologia inevitável. Aquece a atmosfera sim, e daí?”. Supostamente, se algo vai trazer imenso dano ambiental, ou se somar consideravelmente aos danos, o mínimo que se esperaria é que haja um benefício gigantesco, que compensasse isso. Se não houver, é destruição cega. E esse argumento ainda é bastante questionável, porque está sendo destruído algo que não pertence aos seres humanos, mas à toda biosfera.
    Não acho nem que o problema seja especificamente IA, mas sim a absurda ideia de aumentar muito a poluição e consumo de recursos exatamente em um momento de colapso, em que uma redução deveria ser buscada.

    1. Eu concordo contigo, sol2070. E vou além: videochamada é dispensável na maioria dos casos e com frequência me pego pensando se baixar um filme por torrent em vez de vê-lo por streaming impacta menos no uso de recursos naturais. Também penso em software ineficiente (maldito Electron), torturo-me quando sinto vontade ou mesmo preciso comprar qualquer gadget novo e outras questões que, acho eu, jamais passa pela cabeça da maioria das pessoas.

      É por esse ângulo que tentei abordar a questão. Seria melhor se pudéssemos debater a criação de novas infraestruturas que consomem mais energia antes de construi-la. Não foi o caso, o leite derramado não vai voltar para a jarra. Dado esse fato (e aqui entramos no momento que abordo no texto), é contraproducente nos martirizarmos por usar ou recriminar quem use um negócio que, embora contribua para a emergência climática, está além da nossa vontade, ou do nosso controle. C’est la vie, como diriam os franceses 😕

      1. Não acho que seja contraproducente certa recriminação. Exatamente o contrário: consciência crítica é um primeiro passo para uma possível mudança. Sem ela, é extinta até a ideia de algo poder ser diferente.

        Sim, “o leite não volta para a jarra”. Mas é a mesma coisa com o poder dado para as megacorporações ou até o sistema político-econômico. Não é por serem fatores sistêmicos que vou parar de ser crítico, inclusive autocrítico com minha participação.