Fundo azul, com uma chamada para um PlayStation 5 no centro. À esquerda, a frase “Ofertas de verdade, lojas seguras e os melhores preços da internet.” À direita, “Baixe o app do Promobit”.

Celular com câmera vence câmera fotográfica

Câmera simples, preta e prata, com uma luz roxa incidindo, flutuando em um ambiente totalmente escuro.

Mês passado fui visitar minha família no interior1 e tive a chance de, enfim, usar aquela câmera para outra coisa que não me filmar ou tirar fotos de comida. Concluí que, para fotos de família, talvez não precise mais de uma câmera. Talvez ninguém precise mais. Temos celulares.

Para fotógrafos, minha epifania talvez seja notícia velha, por isso acho que vale um contexto. Eu já tive uma câmera “profissional”, ou dessas caríssimas, entre 2013 e 2015, até ela ser roubada. Na época, carregava um iPhone 5 no bolso e, embora gostasse das fotos que ele fazia, a diferença qualitativa entre as do celular e as da câmera era gritante. A câmera era muito melhor.

Havia justificativas técnicas, coisa da física, que explicavam a superioridade da câmera. No mínimo, há mais espaço para se colocar lentes melhores e sensores maiores, os dois fatores mais importantes para gerar fotos bonitas.

Só que nesse intervalo de quase seis anos em que estive privado de uma câmera dedicada — não só por isso, mas também porque achava a qualidade da do celular boa o bastante —, um terceiro fator entrou em cena: o software.

O Google é mestre nisso, mas hoje todas as fabricantes de celulares fazem e é um caminho sem volta. A chamada fotografia computacional supre aquelas lacunas físicas, mencionadas acima, com software. Algoritmos. Mágica. Dê o nome que quiser.

Só notamos a presença do software em casos extremos, como naqueles filtros de embelezamento bizarros ou quando tentamos capturar a Lua, mas na real ele está presente o tempo todo, em todas as fotos que tiramos com o celular. Ele faz diferença, para melhor. Das fotos noturnas ao HDR, a qualidade das fotos de celular hoje deixaria alguém embasbacado em 2015. Bem-vindo(a) ao futuro.

Não se engane, uma boa câmera dedicada nas mãos de um profissional ainda faz fotos melhores que qualquer celular. Isso não mudou. O que mudou foi que as mãos de um amador, agora, conseguem resultados melhores com um celular do que com uma câmera.

A facilidade de manuseio sempre foi uma vantagem do celular. É literalmente só apontar e clicar. A câmera dedicada também tem modo automático, mas ela brilha mesmo é no manual. No modo automático, o celular agora tem a vantagem dos algoritmos malucos que melhoram a imagem sem que o fotógrafo sequer perceba o que está acontecendo. A caixa preta ficou ainda mais complexa.

Para mim, o cenário em que essa diferença se escancara é no uso do HDR, técnica que consiste em tirar várias fotos quase simultâneas, mas com diferentes configurações de exposição, e depois “misturá-las” de modo a equilibrar as partes contrastantes. Tipo quando você tira uma foto de alguém de costas para o Sol? Um bom celular moderno faz esse trabalho sozinho e lhe entrega uma foto em que é possível ver o rosto da pessoa em primeiro plano e detalhes do fundo. Com uma câmera e desprovido de técnica, ou você vê uma silhueta e o cenário, ou o rosto da pessoa e um clarão atrás. Aconteceu comigo no interior.

Fotos noturnas, o terror das câmeras de celular desde sempre, também melhoraram dramaticamente nos últimos anos. O sensor da câmera não cresceu para absorver mais luz; foi o software que aprendeu a capturar melhor e a compensar, artificialmente, a ausência de informações captadas pelo sensor pequenininho quando no breu.

E nem é mais exclusividade dos celulares caríssimos, de muitos milhares de reais. Durante a minha estadia no interior, em um aniversário de criança2, notei alguém tirando fotos com um Moto G100, celular de ~R$ 3 mil. A qualidade é assombrosa. Soube o modelo do celular porque ele acrescenta uma marca d’água às fotos, algo de mau gosto que, arrisco dizer, nenhuma fabricante de câmera jamais faria. Não dá para ganhar todas.

Quando falávamos em “era pós-PC”, no início dos anos 2010, não estávamos profetizando a extinção dos computadores, mas sim eles seriam substituídos por celulares para a maioria das tarefas, para a maioria das pessoas. PCs ficariam restritos a certos usos e perfis de pessoas. Em 2005, você precisava de um para acessar o Orkut e fazer compras online. Em 2021, o celular basta.

Em paralelo, fenômeno parecido ocorreu com a fotografia. Câmeras dedicadas são fascinantes. Nas mãos de profissionais ou entusiastas, geram resultados inalcançáveis mesmo pelo melhor iPhone ou podem apenas ser ferramentas de diversão, expressão artística, um hobby. Mas viraram nicho, e nem foi pelos preços salgados. Há anos fotografamos mais com celulares. O bom é que agora, enfim, esses celulares tiram fotos tão boas quanto as câmeras dedicadas e continuam fáceis de mexer. Deixaram de ser bons o bastante para se tornarem melhores que as câmeras.

  1. Seguindo todos os protoc… ah, a quem quero enganar? Seguindo o que deu dos famigerados protocolos.
  2. Aqui a galera meio que decidiu tacitamente que os protocolos já eram. Eu continuei usando máscara, porém.

Este post saiu primeiro na newsletter do site. Cadastre-se gratuitamente para receber os próximos direto no seu e-mail.

Foto do topo: Robert Shunev/Unsplash.

Deixe um comentário

Seu e-mail não será publicado. Dúvidas? Consulte a documentação dos comentários.

19 comentários

  1. Usar software para aplicar configuração de uma foto, pra mim ainda ñ tem graça.
    Configurar o ISO, a abertura de uma lente, a velocidade do obturador é algo que um celular por enquanto ñ me encanta torna-lo como principal meio de capturar imagens

    1. sem dúvidas, mas note que para a imensa maioria das pessoas tudo isso são empecilhos “desnecessários”

      entendo que o argumento geral seja esse: para 99% dos casos, a câmara do celular — e sua caixa preta ainda mais profunda — venceu

      1. Mas ñ são empecilhos, no meu ponto de vista, já que faz parte da arte da fotografia.

        Mas compreendo que nem todo mundo quer aprender algo mais profundo.

  2. Lembro que quando as câmeras digitais começaram se popularizar (na época do Fotolog, Flogão e afins), meu sonho era ter uma Canon. Levei anos pra realizar, mas o modelo era a pilha (!) e não usei quase nada. Ainda tenho outra, de um modelo mais compacto, que uso bem de vez em quando, mas pra nada serio.
    Câmera do celular é só pra esses registros do dia a dia mesmo. E um PS: decepcionadíssima com a câmera do meu celular atual (a compra dele foi um erro, num geral, mas era o que eu pude pegar): apesar de um dos atrativos anunciados ser um conjunto de 4 câmeras de 48mp, as fotos saem horríveis!! E isso até pro meu padrão que é baixíssimo, já que quase não fotografo, kkkkkrying.

  3. Belo post!
    Uma das coisas que ainda não consigo, em nenhum smartphone, é registrar uma foto decente enquanto em movimento (aceito dicas!)… sempre perco nitidez, tudo se mistura e acabo excluindo a foto…

  4. “Não se engane, uma boa câmera dedicada nas mãos de um profissional ainda faz fotos melhores que qualquer celular. Isso não mudou. O que mudou foi que as mãos de um amador, agora, conseguem resultados melhores com um celular do que com uma câmera.”

    Acho que esse é um belo ponto pra destacar. Não me considero profissional, claro, mas tenho contato com fotografia há 20 anos (analógica no começo, incluindo a reveleção, e digital depois desde aquelas câmeras q usavam disquete!). Recentemente fui fazer uma atividade (uma visita técnica) de um curso q estou fazendo e a recomendação era não levar uma câmera, pq todos no local (na Pinacoteca) iam achar que se tratava de uma câmera profissional e isso requeria uma autorização especial etc, mas tirar fotos com o celular ok. É uma coisa curiosa essa separação tb no imaginário das pessoas: uma câmera pode e a outra não, sendo q, como o Ghedin mencionou, dependendo do q se faz com elas, o resultado é praticamente o mesmo (com desvatagem pra minha câmera q não pode compartilhar a imagem imediatamente).

    Um profissional consegue bons resultados com os dois aparelhos, dentro do limite de cada um, claro. Eu, com minhas limitações, só consigo alcançar os resultados que quero com uma câmera (a canon t7i) e lentes diferentes (um grande angular, uma macro e uma outra mais luminosa). Mas faço bons registros com celular tb (um Samsung s9+) qdo preciso. Mas separo a coisa assim: com um tiro fotos (algo mais pensado e sério) e com o outro faço registros (como se fossem anotações rabiscadas num caderno).

    Pode ser q com esses celulares com câmeras melhores, tipo esse novo da Sony, a coisa mudasse de figura e até cogitasse em dispensar a câmera. Mas como tive contato com um jeito de fotografar mais antigo (o analógico e depois mesmo no digital trocando lentes) acho q seria uma transição mais difícil… Eu, sinceramente, me canso às vezes de ter q carregar uma câmera, q mesmo não sendo das mais pesadas é meio um trambolho na mochila. Sem falar se vc levar lentes – dependendo da lente, q pode até ser mais cara q a prórpia câmera, ela tb vai ser um estorvo de carregar.

    E, como diz o pesquisador Joan Fontcubert, tirar fotos é mais um gesto de comunicação do qualquer outra coisa.

    1. Nunca vou entender essa regra de “câmeras profissionais”.

      Sobre ter câmera fotográfica, vou contigo. Nada é tão gratificante você ficar configurando a imagem que você vai capturar sem auxílio de software pra isso. Já usei câmera analógica, muito por causa dos entusiastas do fotoclube que participava, mas sou do digital (cresci já com as tecnologias rs) e sinto falta demais de lidar com o processo criativo de tempos atrás.

      Obs.: depois divulga ai se tiver em algum lugar seu trabalho.

  5. Concordo 100% com o texto.
    Só um comentário (nem tão) à parte assim: venho notando que os celulares sofrem uma lenta e pequena piora com o tempo, no quesito câmera. Creio eu que, discretamente, as fabricantes pioram pouco a pouco os celulares, quando os atualizamos.
    Tive um Galaxy S6, quando comprei, consegui fotos excelentes. Quando me desfiz dele, uns 3 anos depois, as fotos eram bem medianas.
    E não dá pra dizer que a fotografia em geral que evoluiu e deu essa impressão.
    Digo, quando eu comparava fotos tiradas assim que comprei o celular com fotos tiradas um pouco antes de trocá-lo, era visível a diferença na qualidade delas, sendo que foram tiradas com o mesmo celular.
    Talvez seja a tal da obsolescência programada agindo… vai saber.

    1. Tenho que concordar. Tenho um MotoX4 que comprei usado este ano e a pessoa que me vendeu formatou o aparelho antes de enviar.
      Quando o liguei pela primeira vez, antes de qualquer atualização, testei a câmera e achei as fotos muito boas. Brinquei com ele durante um tempo e tirei umas 20 fotos no total. Depois resolvi atualizar o aparelho e percebi que a qualidade das capturas havia caído. É como se a cada atualização do software da câmera eles piorassem um pouquinho mais. A sensação que eu tenho é essa.

  6. [Pasquale mode]
    Fotografia: escrita da luz
    [/Pasquale mode]
    Falando sobre foto (produto final), com tanta interferência de software, deixou de ser foto pra ser uma “pintura por IA”. Saem fotos artificiais, plastificadas, prontas pro Insta e mais nada. Usar o modo manual no celular é menos pior.

    Sobre o equipamento, para o usuário final não importa: O melhor equipamento é o que vc tem à disposição. Mas se a pessoa quer qualidade, uma camera prosumer é a melhor opção, seja DSLR ou mirrorless.

    Tenho uma leve experiência nesse hobby de fotografia, seja por usar SLR (deade antes da era digital, usando uma Zenith, agora com uma Canon T3i) e diversos camera-phones (Nokia N8, Galaxy S5 Zoom, Sony Ericsson Satio, Samsung Inovv8).

    1. Esse aí é um vespeiro filosófico. Poder-se-ia argumentar que a fotografia sempre é uma visão particular de dado momento e que a tecnologia é inerente à sua existência. Se eu configuro uma câmera com longa exposição, por exemplo, não obtenho um retrato fiel da cena. É sempre uma representação e, nesse contexto, vale (quase) tudo.

      Flusser reflete sobre isso. Escrevi um artigo a esse respeito quando a Huawei lançou aquele celular que tirava fotos da Lua.

      1. Insira aqui aquele meme: “então esse é o poder do ensino superior”, hahaha.

        Continuem, continuem. :D

      2. eu concordo

        não faz sentido dizer que a foto sai “artificial” — pois isso seria sugerir a possibilidade de uma foto “natural”

        em última instância, quem sugere a necessidade de combater essa “artificialidade” acaba defendendo uma autenticidade ideal e bastante distante das condições concretas de produção de imagens

        fora isso, um comentário sobre as câmeras “prosumer”: eu tenho a impressão de que elas simplesmente deixarão de existir. Alguém mais acha isso?

  7. Meio fora de tópico do texto, mas eu ri foi com as notas de roda pé sobre os protocolos sanitários :-)

    Sobre máquinas fotográficas dedicadas, você resumiu bem: “Não se engane, uma boa câmera dedicada nas mãos de um profissional ainda faz fotos melhores que qualquer celular. Isso não mudou.”

  8. verdade tanto que hoje nem penso em ter câmera, e além de ajudar as pessoas, o que faz alguns se acharem mais do que deveriam. Temos mais padronização da qualidade, o que é bom pra o cotidiano; mas não treina as pessoas para ver com mais emoção as fotos realmente artísticas.

  9. “Seguindo todos os protoc… ah, a quem quero enganar? Seguindo o que deu dos famigerados protocolos.
    Aqui a galera meio que decidiu tacitamente que os protocolos já eram. Eu continuei usando máscara, porém. ”

    Ainda tinha comentado no PostLivre sobre isto faz algumas semanas, aqui no interior de SP o uso de máscara é restrito em bancos, repartições publicas e locais do tipo(na maioria das vezes é a famosa máscara de queixo), na rua não se vê mais a máscara, em restaurantes tão pouco, inclusive pequenos restaurantes noturnos com “mini” baladas a máscara é lenda e só deve ter aparecido no dia do Halloween.
    Sobre as fotos além das câmeras estarem embarcadas com softwares que ajudam o usuário, ainda encontramos apps como o Snapseed que são uma mão na roda para melhorar as imagens.
    Sobre a marca d’agua é uma configuração que pode ser desativada ou até personalizada com uma mensagem ou com seu nome, mas…. de um modo geral os usuários deixam o recurso ativado.

  10. Vale citar a mudança no consumo: quantas fotos são consumidas em uma tela maior que do smartphone, por mais que uma fração de segundos? Há uma diferença que persiste de lentes boas e sensores maiores – mesmo após a compressão e tamanho reduzido – mas muito da diferença se perde pela mídia Instagram.

    Ótima reflexão de qualquer forma, a linha X100 que ilustra o post, é bem a cara desse novo cenário em que as câmeras na mão de amadores funcionam como os LPs: uma questão de experiência, mais que de cunho “técnico”.

Compre dos parceiros do Manual:

Manual do Usuário