O Guardian pescou um dado interessante (dentre os muitos interessantes) da edição 2025 do Digital News Report, talvez a maior pesquisa sobre a imprensa do mundo, produzida anualmente pelo Instituto Reuters:
Análise do Instituto Reuters para o Estudo do Jornalismo descobriu que 79% das pessoas pesquisadas sobre o assunto ao redor do mundo disseram que não recebem atualmente nenhum alerta [notificação] de notícias durante uma semana comum. Mais importante, 43% daquelas que não recebiam alertas disseram que os haviam desativado deliberadamente. Elas reclamaram de receber muitos alertas ou de não achá-los úteis, de acordo com a pesquisa, que abrangeu 28 países.
Houve uma época, ali por volta de 2014, em que as notificações do celular eram encaradas como “área VIP”, local de disputa pela atenção das pessoas, àquela altura já saturadas pelo volume de informações do digital.
Sem surpresa, a área de notificações também acabou saturada e descartada como mais um lixão digital. Suspeito que muita gente nem ligue para o que tem ali, acumulando dezenas, centenas de notificações não lidas, ignoradas.
O enfoque óbvio da pesquisa do Instituto Reuters, o jornalismo, me fez lembrar de um textinho ótimo do Ricardo Fiegenbaum, pesquisador do objETHOS, da UFSC. Um texto nada acadêmico (no melhor sentido), em que ele pensa alto o lugar do jornalismo hoje:
É nesse terreno minado, paradoxal, complexo e incerto que adentro quando penso o jornalismo. E cada questão que se apresenta neste cenário – lógicas, ideológicas, pragmáticas, tecnológicas, discursivas, etc. — leva-me sempre à pergunta fundamental: do que estamos falando quando falamos de jornalismo?
É uma boa pergunta.
Suspeito que a fadiga transcende as notificações e que boa parte do que se entende por “jornalismo”, hoje, escapa a uma das definições mais nobres do ofício, uma que o Ricardo menciona: atender às necessidades de informação das sociedades.
Do arquivo: em 2022, à luz da edição daquele ano do Digital News Report, me perguntava — ecoando Caetano — quem é que lê tanta notícia.