Pessoa de sexo não identificado, com cabelo roxo e pele azul, segurando uma xícara de café com vários ícones em alusão ao Manual do Usuário na fumaça e um celular na outra mão. Embaixo, o texto: “Apoie o Manual pelo preço de um cafezinho”.

O protocolo Gemini

Criar o meta blog do Manual, no início de 2022, foi um grande acerto. Criá-lo no Tumblr, não.

Existem dezenas, talvez centenas de CMSs — softwares que facilitam a publicação e gerenciamento de um site na web. O Tumblr é um deles, e um bem legal, dependendo do tipo de blog que se queira publicar.

Para o nosso meta blog, ele revelou-se… ruim. É pesado, o editor de textos é inconsistente e a renderização de códigos simples, quase impossível.

Dia desses me propus buscar uma alternativa. Queria aproveitar a oportunidade para testar CMSs diferentes, desses mais simples e que não tentam concorrer com o WordPress (mesmo quando existe uma janela, como a atual decorrente da desastrosa alteração de planos que a Automattic implementou). Coisas como o Mataroa e o Bear Blog, que cobri no final de 2021.

Foi numa dessas andanças que encontrei o Smol Pub, algo ainda mais simples — ou minimalista, se preferir. Nessa escassez de recursos, porém, o Smol Pub tem algo único: suporte a protocolos alternativos à web/HTTP. Um deles é o Gemini (lê-se “diêminai”).

Mentiria se dissesse que nunca ouvi falar do Gemini, mas é fato que nunca tinha dado bola. O interesse pelo Smol Pub me levou a entender melhor o que é o Gemini e o Gopher, outro protocolo, mais antigo e arcaico, também suportado pelo Smol Pub.

Fiquei encantado.

O protocolo Gemini foi criada em junho de 2019 e lembra um bocado a web das antigas, ou seja, aqueles sites simples, quase de texto puro, que aqueles de nós que já estavam conectados no final dos anos 1990 acessavam. Na real, o Gemini é como se fosse a web de uma realidade alternativa em que a web não foi dominada por empresas e instrumentalizada pela publicidade.

Eu não poderia explicá-lo melhor que a documentação oficial, então peço licença para fazer uma citação um tanto longa:

Gemini é um novo protocolo de internet no nível de aplicação para a distribuição de arquivos arbitrários, com especial atenção a servir um formato de hipertexto leve que facilite a conexão entre arquivos. Você pode imaginar o Gemini como “a web, reduzida à sua essência” ou como “a Gopher, um pouquinho mais encorpada e modernizada”, dependendo da sua perspectiva (a segunda visão é provavelmente a mais precisa). O Gemini pode interessar a pessoas que são/estão:

  • Opostas ao rastreamento onipresente dos usuários da web;
  • Cansadas de pop-ups inconvenientes, anúncios detestáveis, vídeos que tocam automaticamente e outras funcionalidades da web moderna;
  • Interessadas em computação de baixa potência e/ou redes de baixa velocidade, seja por escolha ou por necessidade.

O Gemini destina-se a ser simples, mas não necessariamente tão simples quanto possível. Em vez disso, seu design esforça-se por maximizar a “relação potência/peso”, mantendo ao mesmo tempo o seu peso dentro de limites aceitáveis. O Gemini destina-se também a ser muito atento à privacidade, difícil de ser expandido (para que permaneça simples e focado em privacidade) e a ser compatível com um ethos de computação “faça-o você mesmo”. Por esta última razão, o Gemini é tecnicamente muito familiar e conservador: é um protocolo no paradigma tradicional de resposta cliente-servidor e é construído em cima de tecnologias maduras e padronizadas como URIs, media types MIME e TLS.

As cápsulas, como são chamados os sites no protocolo Gemini, são formados por documentos text/gemini, que usam uma linguagem de marcação super simples chamada Gemtext. Ela não tem negrito nem itálico, e links ocupam sempre uma linha, ou seja, não existem links “inline”, no meio de um parágrafo, como esse na palavra “Gemtext” na sentença anterior.

Cápsulas também carecem de formatação mais elaborada. É texto puro, com imagens opcionais (você deve clicar nos links para carregá-las). A formatação é feita no navegador, pelo usuário/leitor. O uso de ASCII, aqueles desenhos feitos com caracteres de fontes monoespaçadas, é incentivado.

Para acessar as cápsulas, aliás, é necessário um navegador especial, capaz de conversar com o protocolo Gemini. Não adianta tentar acessar uma pelo Firefox, não vai rolar.

Por aqui, estou usando o Lagrange (Linux, macOS e Windows). No iOS, adotei o Elaho. Aqui tem uma grande lista deles, para diversas plataformas.

O Gemini foi amor à primeira vista e, por isso, decidi migrar o meta blog do Manual para o Smol Pub, mesmo com todas as limitações do CMS e que o Gemini implica à versão web/HTTP. Obviamente, o meta blog tem uma versão web/HTTP, que você acessa normalmente no https://bastidores.manualdousuario.net.

A versão no protocolo Gemini está em gemini://bastidores.manualdousuario.net.

Veja como fica lá:

Print de uma janela do navegador Lagrange, mostrando a cápsula do Bastidores com o post “A nova casa do Bastidores” aberto.
Cápsula do Bastidores no navegador Lagrange. Imagem: Manual do Usuário.

Essa versão no Gemini leva ao extremo uma característica que julgo vital ao nosso meta blog: disponibilidade. Escolhi um sistema fora da nossa infraestrutura para ter onde publicar em caso de emergências. Agora, a web inteira pode literalmente implodir que teremos um lugarzinho na internet, nosso, para continuarmos a conversa.

Existem poucas cápsulas, e desconheço outra em português do Brasil fora o nosso meta blog. Mas tudo bem, é assim que começa e, como dizem os próprios criadores do Gemini, o objetivo não é substituir ou rivalizar com a web, é só ter um espaço legal para publicar textos sem o excesso de bagagem, distrações e incômodos de outros espaços virtuais.

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11 comentários

  1. Wowww, estou fazendo um trabalho de segurança da informação pra faculdade, ao ver como a internet hoje em dia é muito poluída com propagandas e ferramentas de rastreamento, eu pensei comigo mesmo: “E se existisse outro protocolo que não fosse o HTTPS?” E hoje devido aos links legais desse sábado eu conheci o Gemini!! Muito Incrível!!
    Assim que sair do trabalho já vou instalar o navegador e explorar as páginas!
    Obrigado pelo artigo!

  2. @Ghedin, plataformas como essa, e como Mataroa e o Bear Blog, por exemplo, não rola muita perda de indexação e SEO não?

    Pergunto porque com o WP, por exemplo, temos o Yoast que, se bem configurado, ajuda demais da conta com SEO. Como tem sido sua experiência nessas plataformas mais clean e abertas nesse sentido?

    Tenho uma URL sob o WP, mas há tempos fico zapeando por esse tipo de CMS alternativo.

    Obrigado desde já.

    Abraços,

  3. Legal, mas não entendi muito bem a questão de você ainda servir em uma página HTTPS. Se isso é possível, isso não derrota o propósito de ter algo no Gemini?

    Além disso, o que impede de alguém expandir o Gemini para aceitar coisas como mídia, analytics, etc? É algo que a plataforma por si só proíbe ou é só um princípio?

    1. Se não tiver a versão web/HTTP, quase ninguém lê, o que vai contra ao objetivo principal do blog. A cápsula no protocolo Gemini é uma alternativa.

      O Gemini é deliberadamente simples e difícil de expandir, imagino que para resistir à tentação de incluir “só mais uma coisinha” e, nessa, de coisinha em coisinha, ele acabar virando algo parecido com a web contemporânea.

    1. Um blog sobre o blog.
      O meta é como “metalinguística”.
      Suponho. Só Ghedin pra confirmar.

    2. Ooops, falha minha! Um meta blog é um “blog do blog”, ou um blog do operacional/bastidores de outro blog — no caso, o blog do Manual do Usuário.

      Uso o nosso meta blog para falar de alterações, melhorias e decisões tomadas no dia a dia do Manual. Creio que uma passada pelo antigo meta blog, o do Tumblr, seja esclarecedora.

  4. Eu não conhecia o protocolo Gemini; nem navegadores específicos pra ele.
    Mas isso me lembrou uma outra proposta semelhante, com protocolo e navegador diferenciado: o Beaker browser. Ele usava o protocolo dat e o que ele anunciava como diferencial era poder criar websites p2p diretamente no navegador, e hospedá-lo diretamente no seu computador pessoal. Agora os desenvolvedores do Beaker estão usando outro protocolo, o chamado Hypercore. Na prática muito pouco mudou, mas o navegador me parece cada vez mais bugado, então isso me afastou um pouco. Mas ainda gosto da proposta de democratizar a criação de sites caseiros; aliás o pessoal do Beaker propagava muito a filosofia dos jardins digitais. Deixo essa curiosidade aí para os curiosos.

    1. Eu assinei o feed novo dos bastidores. O RSS está “fora” da rede gemini? Ou a rede aceita feeds?

      Se precisa baixar um navegador novo (procurei mas não achei extensão pro firefox que abra gemini), isso seria tipo criar uma web nova?

      1. O http e https são protocolos de internet. O gemini é mais um. E graças ao seu comentário descobri uma extensão pro Firefox chamada “Geminize” que permite navegar em sites gemini pelo Firefox. Obrigado e de nada!

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