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Blogs à moda antiga

Dois prints do Firefox, com o Bear Blog e o Mataroa, sobrepostos. Ao fundo, a palavra “blog” bem grande.

Quem viveu os anos 2000 na internet provavelmente se lembra da explosão dos blogs. De repente, qualquer um podia criar o seu, virar editor e expressar-se para o mundo todo ler — ainda que esse “mundo” fosse composto quase sempre por dois amigos, seu pai e sua mãe. Blogs enquanto novidade duraram pouco, porém, apenas o tempo para que as redes sociais comerciais surgissem, se apropriassem de algumas boas ideias no sentido de facilitar a publicação online e as expandisse para mais da metade da humanidade. Sobrou espaço para os blogs de outrora na internet dominada por plataformas dos anos 2020?

Parece que todo excesso gera um refugo, uma negação por qualquer motivo — estafa, rebeldia, nostalgia. Se hoje estar na internet significa ter um perfil no Instagram ou no Twitter, ainda há quem resista nos blogs, talvez a “rede social” (no sentido amplo do termo) original do ambiente virtual.

Herman Martinus e Theodore Keloglou são duas dessas pessoas. Eles curtem tanto blogs que decidiram criar, de maneira independente, plataformas próprias de blogs. Simples, sem grandes ambições, do jeito que eles gostariam que fosse.

“Construí a plataforma [Bear Blog] para satisfazer a minha própria curiosidade, pois estava sufocado com as opções disponíveis e desapontado que nenhuma delas era exatamente o que eu procurava”, disse Herman em entrevista por e-mail. Ele intitula o Bear Blog, criado no início de 2020, como “a menor plataforma de blogs de todas”. O nome é uma brincadeira com a palavra “bare”, uma alusão à ausência de códigos JavaScript e o foco em texto puro, mas como “bare blog” leva a uma interpretação dúbia (“poderia soar como um blog de nudez”), Herman adotou “bear” (“urso” em inglês, que tem uma pronúncia quase igual à de “bare”).

Print do Firefox para macOS com um post aberto do blog do Herman no Bear Blog.
Blog do Herman no Bear Blog.

Poucas semanas separam o nascimento do Bear Blog do Mataroa, cria de Theodore: “A primeira linha de código do Mataroa foi escrita em 27 de maio, e a primeira versão estava no ar e aberta às pessoas para se registrarem em 31 de maio de 2020”. Sua inspiração foi… o Bear Blog: “Eu vi aquilo e pensei ‘isto é incrível! Adoraria construir algo similar.’” O impulso inicial de Theodore era criar por criar, “mas na medida em que progredia, notei que aquilo poderia se tornar algo útil de fato”.

“Mataroa” é uma palavra do idioma maori, dos povos nativos da Nova Zelândia. Pode ter vários significados, mas Theodore a escolheu por causa do navio de guerra RMS Mataroa, que “teve um significado histórico interessante em 1945, na sequência da II Guerra Mundial”.

Print do Firefox para macOS com um post aberto do blog do Theodore no Mataroa.
Blog do Theodore no Mataroa.

A inspiração fica evidente ao abrir os dois serviços lado a lado. São sites leves, fortemente baseados em texto, sem firulas ou opções de personalização1, ambos com foco em privacidade, velocidade e com modelos de negócio simples e acessíveis. Apesar da semelhança visual e dos laços que unem o surgimento de ambos os serviços, há diferenças nas motivações dos dois desenvolvedores/empreendedores solo para abraçar o estilo frutal que lhes é comum.

“Eu adoro sites pequenos e os sites simples, baseados em texto das antigas”, diz Herman. Esse apreço aumenta na web contemporânea, onde sites “carregados e lentos” são o padrão. “[Eles] dificultam a navegação em celulares e interrompem o usuário o tempo todo”, justifica o desenvolvedor, que já escreveu uma crítica pública a sites ditos “modernos”. “Eu queria fazer algo onde as palavras dos escritores fossem a coisa mais importante. Sem formulários de newsletters ou estatísticas. Sem publicidade. Somente palavras.”

Para Theodore, a simplicidade é um meio: “Confiabilidade é o que eu mais valorizo. Ser simples facilita muito ser confiável.” Ele admite, porém, que em termos de design valoriza a estética minimalista. “No fim das contas, eu diria que personalização é algo para quem hospeda seu próprio blog. Nós [o Mataroa] fazemos poucas coisas importantes de uma maneira simples.”

Simplicidade para todos

Serviços como Bear Blog e Mataroa suprem uma lacuna talvez estreita na internet contemporânea. De um lado estão as grandes plataformas e os sistemas complexos de publicação online, que são fáceis de usar, gratuitos, mas por atenderem a uma fatia enorme de usuários e casos de uso, se distanciam da simplicidade. O maior expoente dessa vertente é o WordPress. Muitos ainda se referem a ele como um “sistema de blogs”, o que não deixa de ser verdade (este Manual do Usuário roda no WordPress), mas não conta nem metade da história.

O WordPress está por trás de 1/3 dos sites da web ativos, e nem todos são blogs. Ao longo dos anos, o WordPress evoluiu para atender sites institucionais, comerciais, lojas virtuais e outros tantos tipos. Decisões importantes, mas controversas, como a introdução do sistema de blocos para editoração, no final de 2018, evidenciou o que já era sabido: que o WordPress transcendera de um “sistema de blogs” para algo muito maior2.

Do outro lado estão os geradores de sites estáticos, que também têm serventia para além dos blogs, mas costumam ser a primeira opção daqueles com algum conhecimento em tecnologia e programação em busca de algo simples para publicar na web. A filosofia desses — Jekyll, Hugo, 11ty — está alinhada à simplicidade dos blogs de outrora, mas a barreira técnica é bastante alta3.

Serviços como Bear Blog e Mataroa unem a facilidade de um WordPress da vida à simplicidade e foco de um Jekyll ou similar.

Tal posicionamento faz com que Herman e Theodore não enxerguem concorrentes às suas pequenas plataformas. “Não vejo o Ghost ou o WordPress como concorrentes porque não toco o Bear como uma entidade com fins lucrativos”, explica Herman. “O Bear não é adequado para rodar o site da sua empresa. É bem de nicho. É para pessoas que querem escrever e terem suas palavras lidas sem atritos que tradicionalmente são acrescentados aos sites.”

Foto em preto e branco, de homem branco, com barba curta e cabelos espetados, olhando para a câmera.
Theodore Keloglou. Foto: Arquivo pessoal.
Theodore trabalha como engenheiro de software em paralelo ao Mataroa. Nasceu em Tessalônica, na Grécia, e hoje vive em Londres. Ele também não encara sistemas de blogs mais estabelecidos e comerciais como rivais: “Primeiro, [porque] o bolo é muito grande e está crescendo. Segundo que o objetivo deste projeto não é pegar uma fatia daquele bolo; é oferecer um sistema de blog mínimo para aqueles que querem um sistema de blog mínimo — e também contribuir para a web aberta e descentralizada.”

O dono do Mataroa enfatiza a liberdade dos usuários de irem e virem. Ele afirma que a maioria das plataformas tentam trancar o usuário dentro delas, dificultando a migração para outras, e que apesar disso as pessoas acabam preferindo essas soluções por elas serem mais fáceis de publicar do que instalar um sistema manualmente. “O Mataroa tenta oferecer o melhor dos dois mundos”, argumenta, “tornando fácil começar e, ao mesmo tempo, fácil sair se você assim quiser.”

Quanto custa?

Não dá para dizer que Mataroa e Bear Blog sejam grandes negócios — figurativa e literalmente. Embora ofereçam planos pagos, os valores são baixos, a quantidade de usuários, idem, e não há qualquer pretensão de ganhar escala ou enriquecer.

Homem branco, de barba, óculos de grau, toca rosa, camiseta cinza de Star Wars e cachecol preto, olhando para a câmera em uma espécie de aeroporto ou estação de metrô (fundo desfocado).
Herman Martinus. Foto: Arquivo pessoal.
Herman abandonou o mercado de trabalho formal em agosto de 2019 para focar em seus pequenos projetos. Além do Bear Blog, ele mantém o serviço JustSketchMe, um serviço que auxilia desenhistas. Vive na Cidade do Cabo, na África do Sul (“o lugar mais bonito do mundo”), mas diz passar muito tempo viajando (quando conversamos, no início de agosto, ele estava no Colorado, EUA, fazendo “turismo de vacina”). A combinação dos dois negócios “paga um salário decente e eu espero jamais ter que voltar a um escritório outra vez”.

A julgar pelos números, porém, é provável que o JustSketchMe seja a sua maior fonte de renda. O Bear Blog tem 3 mil blogs ativos, embora essa classificação seja imprecisa — “não tenho uma boa maneira de mensurar usuários ‘ativos’, já que até eu às vezes passo meses sem escrever qualquer coisa”, confidencia.

Herman explica que o Bear Blog é estruturado como um “projeto de código-aberto financiado pela comunidade”. Ele já se viu tentado a transformá-lo em um serviço freemium, ou seja, com um plano gratuito e limitado e outro pago cheio de recursos, mas “percebeu que isso conflitava com o ‘ethos’ do Bear”. “Não quero que as minhas opiniões e decisões sejam turvadas por questões financeiras”, alega. Todos os recursos do Bear Blog, incluindo os avançados, como domínio próprio, são liberados, e ele recebe doações de alguns usuários. Atualmente são 19, que rendem cerca de US$ 150 por mês. “Os custos mensais de hospedagem são de apenas US$ 25, o que significa que eu fico com US$ 125 para o cafezinho.”

O Mataroa é ainda mais econômico, custa apenas US$ 6,50 por mês, já considerando um fundo para neutralizar a pegada de carbono que gera. Conta, no momento, com 158 usuários, dos quais 6 são pagantes. (Esta página de transparência traz dados atualizados.) Por US$ 9 ao ano, eles ganham direito a usar um domínio próprio e à auto-exportação por e-mail. A exemplo do Bear Blog, seu código também é aberto, e outras característica pró-privacidade como a ausência de sistemas de rastreamento dos leitores e de cookies, também se fazem presentes.

Projetos prontos, longe das redes sociais

Bear Blog e Mataroa são considerados projetos prontos por seus criadores. Herman imagina alguns poucos recursos adicionais que ainda deverão aparecer no Bear, como um sistema básico de newsletter e uma API para usuários avançados, mas diz que, fora essas poucas exceções, não quer criar muitas opções porque isso “gera obstáculos ao fluxo opinativo e fácil” com que vem tocando o projeto.

Para Theodore, o Mataroa “é considerado bem completo”. Ele se diz contente com a quantidade de recursos que o sistema oferece, mas admite que algumas boas novas ideias que ainda não teve ou que surgirão de outros lugares aparecerão. Para ele, outras plataformas de blogs se preocupam demais em conseguir novos usuários, convencê-los a ficar, capturar novos mercados etc. “Interoperabilidade e privacidade de dados são — pelo menos no momento — ideias que se chocam com essas [das outras plataformas de blogs], motivo pelo qual, acho eu, esse domínio permanece inexplorado”.

Quando perguntados sobre redes sociais, os nêmesis dos blogs duas décadas atrás, os dois desenvolvedores não esboçam muita preocupação. Herman responde que acha os blogs uma espécie de rede social; já Theodore, que os veem como uma espécie de oposto das redes sociais. “Por outro lado”, prossegue o criador do Mataroa, “também os encaro como uma coisa antiga a que as redes sociais foram o oposto. Redes sociais ofereceram algo novo, um charme e glamour mais visual, impressionante, com imagens e vídeos, que fez as pessoas desistirem dos blogs.” Para superar as atuais redes sociais comerciais, portanto, precisamos de algo novo e diferente, que sirva de antítese a elas. “Creio que provavelmente não serão blogs à moda antiga.”

Por que se importar com isso, então? Theodore especifica que não é o formato blog que o fascina, mas o conteúdo de fôlego, longo. “Conteúdo de fôlego é pensamento organizado. Nós diminuímos sua importância ao consumir vídeos curtos, mas no fim é nele em que o pensamento verdadeiro, concreto, acontece. E nós, com certeza, queremos ter um lugar para isso. Pelo blog a gente pode descobrir como o conteúdo de fôlego será no futuro. Talvez o motivo (equivocado?) para eu pensar assim é pelos blogs terem feito tanto sucesso. De qualquer forma, a atual leva de ‘newsletters’ estilo Substack. Não há menção à palavra ‘blog’ no site do Substack, mas em essência é exatamente o que ele é.”

“Não gosto da economia da atenção do Facebook, Instagram, Twitter”, diz Herman. “Apaguei minhas contas nesses lugares há mais de dois anos. A economia da atenção é a causa de muitos dos problemas do mundo moderno e acho que o ressurgimento da escrita de fôlego e dos feeds RSS é uma espécie de curativo.”

O que esperam do futuro os donos desses serviços lançados em 2020, mas com cara de início dos anos 2000?

“Espero, em um ano, ter um espaço tão estável que eu poderei esquecê-lo por completo e ele se tornaria uma parte robusta da internet por toda a eternidade”, disse Herman do Bear Blog.

“Espero que ele cresça lentamente nos próximos 5–10 anos. Não acho que ele mudará muito em termos de recursos ou funcionalidades”, diz Theodore do Mataroa. Em qualquer outro negócio essa seria uma declaração problemática. Para sistemas de blogs simples, super leves, sem fins comerciais e baseados em texto, é um projeto de futuro dos mais promissores.

  1. No Bear Blog é possível altera a fonte; no Mataroa, nem isso.
  2. O Gutenberg, nome do plugin de blocos padrão do WordPress, está longe de ser uma unanimidade. A avaliação dele no diretório oficial é péssima (2 de 5 estrelas). O Editor clássico, plugin-tampão que preserva o editor antigo, é avaliado com nota máxima e recentemente teve seu suporte estendido para pelo menos até o final de 2022.
  3. Digo por experiência própria; meu blog pessoal é feito em cima do Jekyll, mas não me pergunte como eu o instalei porque não saberia responder.

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10 comentários

  1. A leveza e a impossibilidade de grandes extravagâncias me atraiu ao bearblog, tanto que resolvi fingir que estamos em 2005 e comecei um blog por lá.

    Alguém saberia me dizer se tem como deixar os posts na página inicial?

  2. uso o blogger há anos
    barato ou de graça e fácil de usar
    só acho chato a parte de adsense, que desisti de usar por causa das “frescuras”

  3. Tenho um blog com Jekyll e já acho minimalista o suficiente. Porém, se não tivesse um publicado, consideraria usar o Bear Blog ou o Mataroa.

    Acredito que o movimento pró blogs só tende a aumentar, principalmente conforme as pessoas forem percebendo o quanto as redes sociais prejudicam o nosso foco.

  4. Existem pelo menos dois softwares livres nessa linha de blogs minimalistas:
    – Write Freely: https://writefreely.org/
    – Plume: https://joinplu.me/
    O interessante é que, além de você poder instalá-los e ter seu blog pessoal, existem instâncias públicas deles também, pra quem não usa nenhuma hospedagem. Ah, e são blogs federados, ou seja, é possível que usuários de serviços do chamado “Fediverse” (https://fediverse.party) acompanhem suas publicações a partir de seus próprios serviços (como o Mastodon, Friendica, diaspora, etc.). O resultado final é bem interessante, uma mistura de blog e mídia social.

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