BUILD 2015: A tentativa de agradar todos os desenvolvedores o tempo todo

Na abertura da BUILD 2015, a conferência para seus desenvolvedores, a Microsoft deu mais detalhes sobre o vindouro Windows 10, apresentou novas formas de trazer apps à plataforma, revelou o nome comercial do novo navegador Project Spartan e estabeleceu uma meta ambiciosa: em três anos, ter um bilhão de dispositivos rodando a última versão do seu sistema.

Foi uma apresentação longa, com quase três horas de duração e que eu não acompanhei. Li o que rolou pelo Twitter e em matérias posteriores, e algumas coisas me chamaram a atenção. Para segmentar os comentários e livrá-lo de partes que não queira ler, dividi o post em três partes. As outras são sobre o novo navegador Edge e a meta de um bilhão de dispositivos com Windows 10 em três anos.


Loja unificada do Windows exibida em um notebook.

Os desenvolvedores, que criam os apps e experiências em cima da camada do sistema e em boa parte ditam o sucesso ou fracasso de uma plataforma, são importantes. A Microsoft sabe disso, não é o ponto, e desde sempre faz de tudo para agradar esse público, com ferramentas fáceis de programar, suporte a múltiplas linguagens de programação e ferramentas, e outros mimos dignos de nota. Só falta um importante, e que está além da alçada da empresa: gerar faturamento.

descaraterização do Windows 10 para smartphones ficou mais claro. Já sabíamos que o intuito dessa iniciativa era aproximar a experiência do Windows Phone à do Android e iOS. Com os anúncios de ontem, ficou subentendido que um objetivo secundário é facilitar o recebimento de apps de outras plataformas, que agora rodarão no Windows.

O Windows 10 rodará apps do Android nativamente. Os desenvolvedores poderão e serão incentivados a fazerem pequenas adaptações em duas frentes: primeiro, para cobrir eventuais lacunas deixadas pelas APIs proprietárias do Google. A Microsoft tem uma série de equivalentes usando suas próprias APIs, algo similar ao que a Amazon faz com seu FireOS. A outra é com a integração de recursos exclusivos do Windows Phone, como o suporte a blocos dinâmicose integração com a Cortana.

Já os apps do iOS, desenvolvidos em Objective-C, precisarão ser recompilados e levemente mexidos para funcionarem. A King, que já portou um jogo, Candy Crush Saga, nesse sistema, disse só ter alterado uma “pequena porcentagem” do código para fazê-lo funcionar no Windows.

Para jogos é uma saída fácil e cômoda (para todas as partes), mas é de se questionar como ficarão os apps mais tradicionais, que no Android e iOS aderem a diretrizes de interface e elementos do sistema para comporem seus visuais. Sem falar no gostinho de “terceiro,” ainda mais amargo agora. A Microsoft parece ok com a ideia de ser a terceira a receber os apps mais quentes e populares, e essa medida visa apenas garantir isso e, se muito, diminuir o tempo em relação aos lançamentos para Android e iOS.

A Microsoft também anunciou outros dois novos SDKs. Um, destinado a apps tradicionais, desses que rodam no ambiente clássico do Windows 8 e no Windows 7. Eles passarão a ser tratados como apps modernos, ou seja, instalados pela loja e rodando isolados do sistema, usando a tecnologia de virtualização criada para o Hyper-V. Por fim, o quarto novo meio de criar apps para o Windows 10 será o empacotamento de páginas web, com acesso a recursos nativos como notificações, blocos dinâmicos e até pagamentos pelo sistema da Microsoft.

O plano, ressaltaram, não é afastar os desenvolvedores da plataforma Windows (“se é fácil portar do Android para cá, por que se preocupar com apps nativos?”), mas demonstrar o potencial da plataforma reduzindo a barreira de entrada. É uma aposta alta e não estou muito certo se vai colar, mas dado o estado atual do sistema, com poucos apps e quase todos ruins, parece uma medida desesperada justificável.

Ainda falando em apps, outras novidades foram anunciadas:

  • Suporte à cobrança pela operadora (em planos pré e pós-pago) estendido a todos os dispositivos com Windows 10. Hoje ele só funciona no Windows Phone, e o feedback tem sido bem bom — de acordo com a Microsoft, em países emergentes esse método de cobrança aumentou em 8x as compras na loja.
  • Suporte a anúncios em vídeo (mais caros, logo mais rentáveis aos desenvolvedores) e monitoramento de instalações, habilitando cobranças do tipo CPI (“cost per install”).
  • Suporte à cobrança de assinaturas via compras in-app.
  • Programa de afiliados para a loja do Windows.

Algumas das novidades da Loja do Windows.

Loja, aliás, que passa a ser unificada: uma para todos os dispositivos, e uma para todos os itens digitais à venda (apps, músicas, filmes etc).

A ideia de universalização sempre esteve em voga na Microsoft, mas parece que finalmente está sendo levada a cabo. O ápice dessa mentalidade é o Continuum for Phones, que transforma um smartphone com Windows 10 em PC ao conectá-lo a mouse, teclado e um monitor:

A ideia não é nova. Antes, a Motorola tentou com o Atrix e a Canonical, com o Ubuntu for Android e o Ubuntu Phone. Só que a execução, agora, parece mais acertada, embora possa ser tarde demais para algo assim fazer sucesso. Pena que ele exigirá hardware novo, ou seja, será incompatível com todos os Lumias atualmente em uso.

Tenho algumas restrições com a ideia, acho ela conceitualmente retrógrada. A nuvem tirou o peso de se ter todos os seus dados o tempo todo num único dispositivo; ela atua como uma fonte universal de dados, logo faz mais sentido usar vários dispositivos, cada um adaptado às circunstâncias. E quem tem um mouse, teclado e monitor dando sopa para ligar o celular? Apesar disso, não machuca ter o recurso disponível, e se ele funcionar direito, melhor ainda.

A Microsoft está chegando a extremos para estimular o ecossistema do Windows 10, trazendo apps de plataformas rivais, facilitando a cobrança, o desenvolvimento, o que for possível. A exemplo da atualização gratuita do Windows 10, todos esses facilitadores não garantem uma mudança de postura por parte dos desenvolvedores. Há mais empecilhos no meio que impedem o Windows de cair no agrado de quem desenvolve e seria maluquice achar que umas mudanças de bastidores bastarão para virar esse cenário. O jeito é esperar para ver.

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21 comentários

  1. Só espero que isso funcione bem. Sou usuário Android, mas, não posso negar como vários aplicativos oficiais são problemáticos e tem um funcionamento ruim (o próprio Outlook da Microsoft era péssimo no Android e nem ao menos sincronizava). Já imaginou portar um aplicativo nessas condições ou um “pirata” (essa semana que passou tinha um dubsmash na Play Store que mesmo com a conferência humana, na verdade abria pornografia sem os usuários saberem)?

  2. A Microsoft está no caminho certo, começaram com o pé direito ao anunciar o Visual Studio Code gratuitamente e multiplataforma (lançamento importantíssimo, faltou citar no artigo), disponibilizar tecnologia de ponta para todos é o que vai estimular os desenvolvedores, além disso, essa fusão de sistemas vai impulsionar muito também, já que a codificação feita pra uma plataforma vai poder ser levada de forma fácil para ambas as outras. Sobre a compatibilidade dos softwares da Microsoft com tecnologia de terceiros já era pra se ter a muito tempo, um bom exemplo disso é a Xamarin, e só agora com o VS Code deram atenção para o Linux (uma das maiores se não a maior comunidade de desenvolvedores). O Visual Studio é a melhor IDE que já utilizei, a documentação e suporte da Microsoft (e comunidade) são incríveis. Essa nova empreitada tem tudo para dar certo, é só não serem precipitados ou fazerem idiotices financeiras como costumam fazer.

    1. Mas o Visual Studio nada tem a ver com o Visual Studio Code, né? Foi o que eu entendi, pelo menos (nunca usei nenhum dos dois, não trabalho nessa área). O Visual Studio é um IDE todo bonzão e fodástico, já o Visual Studio Code eu entendi como sendo apenas um novo editor, não um IDE.. algo parecido com o SublimeText. Se for isso que eu entendi, não vejo mesmo muito motivo para dar destaque ao novo editor. Vai ser só mais uma opção, em um ramo onde já existe um ótimo player (ou mais? falo do Sublime porque é o que eu conheço). Diferente seria se lançassem o Visual Studio (o IDE) gratuitamente para todos os sistemas.

      1. Cara, eu ainda não dei uma olhada bem técnica no VS Code, e sim, sobre ser apenas um editor de texto, e não igual a versão completa como o Visual Studio tradicional, você esta correto (meu sonho é que um dia ele se torne free, ou pelo menos mais barato). Porém, o que temos que ter em mente é, apesar do VS Code não oferecer tantas ferramentas quanto o VS Tradicional, ele trabalha com as mesmas tecnologias, ou melhor dizendo, utiliza o mesmo framework (.NET). Sendo assim, programadores mais experientes que fazem tudo na unha (não utilizam arrastar e soltar por exemplo) vão conseguir trabalhar tranquilamente com o VS Code fazendo as mesmas coisas que podem ser feitas no VS Tradicional. E o melhor de tudo, agora se tem uma ferramente Microsoft totalmente compatível com o Linux, algo que muita gente que trabalha com tecnologias como ASP.NET gostaria de ver.

      2. Sim, o VS Code é um editor, aparentemente baseado no promissor Atom, do GitHub, com algumas adições e melhorias da Microsoft. Baixei aqui agora pra testar e a primeira coisa que notei é que não tem o limite de 2Mb. para arquivos existente no Atom.

  3. A Microsoft está no caminho certo, começaram com o pé direito ao anunciar o Visual Studio Code gratuitamente e multiplataforma (lançamento importantíssimo, faltou citar no artigo), disponibilizar tecnologia de ponta para todos é o que vai estimular os desenvolvedores, além disso, essa fusão de sistemas vai impulsionar muito também, já que a codificação feita pra uma plataforma vai poder ser levada de forma fácil para ambas as outras. Sobre a compatibilidade dos softwares da Microsoft com tecnologia de terceiros já era pra se ter a muito tempo, um bom exemplo disso é a Xamarin, e só agora com o VS Code deram atenção para o Linux (uma das maiores se não a maior comunidade de desenvolvedores). O Visual Studio é a melhor IDE que já utilizei, a documentação e suporte da Microsoft (e comunidade) são incríveis. Essa nova empreitada tem tudo para dar certo, é só não serem precipitados ou fazerem idiotices financeiras como costumam fazer.

  4. Não entendo isso, a galera fala que o problema do Windows Phone são apps, ai quando a Microsoft faz a melhor opção possível pra resolver esse problema a galera fala que vai trocar de sistema?!?

    Eu sai do WP pro Android justamente pela falta de apps, mas se começarem a aparecer apps no Windows Phone de volta (pelo menos os que são essenciais pra mim que não tinham na plataforma antes) eu volto sem sombra de dúvidas.

  5. A dúvida que ficou para miim: agora qual o grande apelo do Windows Phone? No começo, era o design e desempenho bem acima da média. Atualmente, Android e iOS estão muito bem nesses dois aspectos.

    Como você comentou, conversões rápidas de apps e esse último redesign é uma uniformização do design. O desempenho é um problema cada vez menor no Android e o iOS nunca teve muitos problemas com isso.

    1. Só sobra preço. Alguns (no plural) Lumias estão abaixo de R$ 300, inclusive lançamento (Lumia 435). É uma faixa difícil até para o Android; o único que me vem à mente é o Xperia E1, e ele foi lançado há mais de um ano…

      1. Pode ser, mas vender esse tipo de produto não ajuda muito como plataforma: provavelmente são usuários com baixo interesse e/ou baixo poder aquisitivo.

        Principalmente pensando que a faixa de R$600,00 já tem bons Androids, os quais pessoas com poder aquisitivo um pouquinho maior já podem investir.

        1. Gabriel, esses mais baratos pegam quase todos os usuários, especialmente os curiosos, que não querem gastar fortunas testando uma plataforma, tenho um L630 e um S4 com CM 12, já tive o 520 e o 530, são competentes, mas o que acho interessante é o suporte técnico, que era da Nokia, e é bastante competente além das s atualizações que, nesta faixa de preço, esquece quando android nesta faixa de preço…

          1. Eu, como usuário de Windows Phone, tenho como principal fator de compra a câmera. Comprei o Lumia 920 em relação ao Moto X (1ª geração) por conta disso.

            Mas agora esse gap já está caíndo. Ainda gosto bastante do sistema, mas cada vez estou tendo menos motivo para continuar nele. Espero que o Windows 10 traga mais motivos para continuar. Se não, vou ser obrigado a ir pro reino do robô.

          2. Filipe vai ter vnext da build? vocês deram um tempo do podcast?

          3. Cara, quase certo.

            Eu mudei de trabalho e de cidade, ai com isso enrolou tudo. Tem um episódio pra sair nesse fim de semana, mas depois a gente vai fazer um da BUILD sim. Já tem uns textos no gatilho pra sair lá no site :)

          4. Eu comprei um Lumia 925 ano passado por causa da câmera também. Ela me serviu muito bem, obrigado, tirando ótimas fotos. Mas no dia a dia o (velho) problema dos apps acabou pesando mais, e troquei o aparelho por um Moto G 2.

          5. Eu comprei um Lumia 925 ano passado por causa da câmera também. Ela me serviu muito bem, obrigado, tirando ótimas fotos. Mas no dia a dia o (velho) problema dos apps acabou pesando mais, e troquei o aparelho por um Moto G 2.

  6. Estou muito bem no w7 ultimate, mas gostei do que vi no w10. testei no início do mês e tá bem esperto.

    o iniciar voltou, mas ta um misto do iniciar do 7 + 8.1 …meio tosco. mas isso talvez se corrija com o uso do dia a dia..

  7. Aguardando essa versão, pelo o que está sendo apresentado na Build, a Microsoft quer reconquistar o espaço que vem perdendo ao longo dos últimos anos…

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