Pessoa lendo jornal em papel.

Ficar bem informado sem depender de redes sociais e do WhatsApp é possível. Veja como


18/2/19 às 9h13

Alguém pergunta como se informar por outras fontes que não sejam o Facebook. No Twitter, viraliza uma mensagem de um guru da extrema-direita perguntando se você “já cancelou sua assinatura na grande mídia”. (Sem surpresa, o nome do usuário contém um sapo e o endereço da rede social Gab.) Nunca tivemos tanto acesso à informação, o que por um lado é ótimo. Por outro, a avalanche de notícias, reportagens, mensagens no WhatsApp e posts em redes sociais vem com muito entulho no meio: boatos, informações não verificadas, erros intencionais cometidos para confundir e desunir.

Soa a chover no molhado um guia que apresente alternativas de informação a quem está condicionado a consegui-la apenas via feed do Facebook, timeline do Twitter e/ou grupos do WhatsApp. Elas sempre estiveram ali e continuam a existir: jornais, revistas, publicações sérias. Só que, às vezes, é preciso dizer o óbvio. Para reforçar, relembrar.

Não é só possível informar-se sem depender das redes sociais. É preferível que nos informemos por meios que têm algo a perder com erros e imprecisões, como os jornais, e que tenham motivações minimamente claras. Por mais que o seu amigo que sabe a verdade que a Globo não mostra insista que o Diário do Zapzap é onde está a informação confiável, isso está longe de ser verdade.

Tweet de um cara informando os telefones de cancelamento da assinatura de grandes jornais brasileiros.
Este desserviço teve 5,5 mil retuítes e mais de 20 mil curtidas. Imagem: Twitter/reprodução.

O que se segue é uma proposta de roteiro para ser um cidadão bem informado, para saber o essencial que alguém minimamente interessado precisa da sua comunidade, do seu país e da sua área de atuação, escrito por alguém que tem alguma bagagem em comunicação — eu! O guia traz apenas indicações da internet, ou seja, não considera TV e rádio, embora essas duas mídias sejam vitais e devam estar no cardápio de todos.

Complementos e questionamentos nos comentários são bem-vindos.

O básico: assine jornais

Isto talvez soe esquisito, mas existe um tipo de empresa especializada em fornecer notícias apuradas, bem redigidas e com responsabilidade. Elas produzem um negócio chamado “jornal”. Antigamente era em papel e saía, em média, uma vez por dia. Hoje, está na internet, em sites na web e apps para celulares e tablets.

Assine um jornalão nacional (Folha, Estadão ou O Globo). Se não morar em São Paulo ou no Rio de Janeiro, sedes desses jornais, assine também um local, da sua cidade.

Essas duas fontes são suficientes para cobrir o básico do que você precisa saber do Brasil e da sua cidade. É caro? Se tomarmos a renda média do brasileiro, sim. Mas se houver condições, o valor de duas assinaturas de jornais se torna uma pechincha perto da maioria das alternativas. Pense no tempo que se perde com informações duvidosas, futilidades e distrações, mentiras deslavadas nos grupos de WhatsApp…

Existem publicações generalistas que não cobram pelo acesso e mantêm excelentes padrões de qualidade. Para citar alguns, temos o paradigma desse tipo, o inglês The Guardian. No Brasil, o G1 e as versões locais da BBC News e do El País. Embora o jornalismo custe caro e os modelos de negócio que podem propiciar a gratuidade ao leitor estejam emperrando, algumas empresas fazem malabarismos que lhes permitem abrir o conteúdo sem prejuízo.

Não basta assiná-los, é preciso lê-los. Muito antigamente, as pessoas tinham o hábito de acessar sites diretamente, sem a mediação de redes sociais ou buscadores. Apesar de uma prática antiga, ela continua sendo muito eficaz.

Crie o hábito de entrar direto no site dos jornais, pelo menos uma vez por dia. O fato de estar pagando ajuda, pois cria um vínculo mais forte com a publicação. Outra medida que pode ajudar é colocar os endereços dos jornais nos favoritos do navegador. Qualquer que seja a estratégia, é preciso um esforço no início — e só no início, porque depois fica natural, automático.

Em vez de depender de um algoritmo, você lê uma seleção feita (por enquanto) por pessoas, com a sensibilidade de organizar visualmente o que de mais importante está acontecendo no momento. O filtro passa a ser o seu, que, ao passar os olhos pelos destaques do dia, escolhe ler o que chama a atenção ou julga mais importante, sem deixar de, no mínimo, passar os olhos pelas chamadas das demais notícias.

Importante: não se contente com os veículos que você assina. Vez ou outra, acesse outros jornais concorrentes. É salutar ter acesso a diferentes pontos de vista, nem que você fique apenas nas capas desses sites.

Duas observações importantes antes de passarmos ao próximo passo.

Primeiro, fique sempre alerta aos vieses na cobertura. Durante as últimas eleições, por exemplo, testemunhamos jornais e redes de TV renomados fazendo coberturas explicitamente inclinadas ao candidato que acabou vencendo o pleito. Parcialidade não é um problema (não existe imprensa imparcial) desde que você esteja ciente de que há uma inclinação e para que lado.

A segunda observação é prestigiar publicações menores, como as independentes e as versões brasileiras de publicações de fora. Elas trazem frescor, audácia e fôlego novo ao noticiário, abordando pautas marginais que, por vários motivos, quase sempre ficam fora do radar dos grandes jornais. As que eu acompanho e recomendo são: Agência Pública, Ponte, revista piauí e The Intercept — além dos já citados El País e BBC News.

Para se aprofundar

Jornais tradicionais focam no factual. Quase todos têm colunistas que ajudam a interpretar o que está acontecendo, mas nem sempre esse material é didático o suficiente para quem caiu de paraquedas ou não acompanha o assunto em questão desde o início.

Nos últimos anos, surgiu um tipo de publicação que lá fora chamam de “explainers”. Eles não publicam factuais como os jornais, mas partem deles para explicar o que está acontecendo de maneira mais detalhada. No Brasil, o Nexo se destaca nessa área. Lá fora, a Vox (em inglês) é uma boa pedida.

Print da tela de revistas disponíveis para ler no GoRead.
Imagem: GoRead/Reprodução.

Revistas com periodicidade semanal ou mensal são valiosas nesse sentido. Além de leituras aprofundadas, elas contam com o benefício do tempo para resumir o período entre as duas últimas edições com os assuntos mais resilientes e de maneira mais consolidada.

É uma delícia ler no papel, mas custa muito caro. A boa notícia é que, se você assina um plano de internet móvel pós-pago ou controle, tem à disposição um punhado de revistas gratuitamente em formato digital, como Veja, Exame, Carta Capital e Você S/A.

Na Vivo, tem o GoRead; na Claro, o Claro Banca; na TIM, o TIM Banca Virtual. Basta fazer o cadastro seguindo as orientações da sua operadora e baixar o respectivo aplicativo.

Especialidades

Subindo a nossa pirâmide nutricional da informação, temos as publicações especializadas, de interesse pessoal ou profissional. Aqui, imagino que você já conheça alguns veículos, então o trabalho é listá-los e criar o hábito de visitá-los regularmente.

Se esses sites fornecerem um feed RSS (entenda o que é isso), você pode baixar um aplicativo como o Feedly ou o Flipboard e cadastrar os seus sites favoritos nele. Assim, será sempre lembrado quando eles publicarem novidades de uma maneira tão cômoda quanto a das redes sociais, mas sem os defeitos delas e um algoritmo opaco definindo o que é ou não relevante. Novamente, com o RSS, o filtro é você.

Dependendo do volume de conteúdo publicado por essas fontes, o RSS fica inutilizável. Se for o caso das suas, considere acrescentar esses sites mais prolíficos aos que visita regularmente, junto aos dos jornais citados acima.

Outra ótima fonte de informações são as newsletters, principalmente as que têm curadoria humana. O grande barato dessas é que, geralmente, quem faz a curadoria é alguém muito entendido da área, então você recebe mastigado um resumo de tudo de relevante que está acontecendo nela. Eu sigo (e pago, embora seja gratuita) a Farol Jornalismo, especializada em jornalismo. É uma fonte inestimável de conteúdo da minha área de atuação e o valor mensal, para recompensá-los pelo trabalho e apoiá-los, é irrisório perto do que eu recebo em troca.

O Manual do Usuário também tem uma newsletter semanal gratuita, com um resumo do que acontece na tecnologia pessoal e muitas indicações de leitura para o fim de semana. Assine-a aqui ou no formulário no rodapé desta matéria.

Outras recomendações de newsletters especializadas: InternetLab (políticas de internet), Meio (generalidades), Norte (tecnologia), Pinguins Móveis (tecnologia móvel) e Seu Dinheiro (finanças).

Redes sociais?

De todas as redes sociais, para mim a única que acrescenta algo a essa proposta de dieta informacional é o Twitter, com algumas importantes ressalvas.

O Twitter é uma ótima fonte de bastidores, contexto e pequenas doses de informação que, longe de substituirem os jornais, ajudam a ficar por dentro de assuntos que ainda estão se desenvolvendo.

O grande problema do Twitter é a sua “relação custo/benefício”: há muito ruído e informação ainda em processo de apuração, o que transforma a timeline em um negócio caótico.

Para amenizar isso, recomendo a criação de listas para segmentar seus interesses e perfis seguidos. No computador, acesse o Twitter por apps que permitem visualizar múltiplas colunas ao mesmo tempo, como o Tweetdeck (web, para quem usa Windows) ou o Tweetbot (macOS).

O Manual do Usuário publica, diariamente, notícias, threads e alertas de tecnologia. Siga o @manualusuariobr no Twitter.

Print do Tweetbot com três listas segmentadas abertas em colunas.
Tweetbot organizado em listas.

Tem outra: o uso do Twitter pode viciar. Como toda rede social, ali também há incentivos equivocados e obsessão por “engajamento” que, na real, funcionam como armadilhas para capturar a nossa atenção. Por isso, é bom se policiar. A minha sugestão: se não precisar do Twitter para o trabalho, desinstale o aplicativo do celular. Acesse pelo navegador web, onde a qualidade da experiência é pior, ou deixe para fazer isso quando estiver no computador, caso tenha acesso fácil a um ao longo do dia.

O que mais?

Muito cuidado com aplicativos de mensagens, como WhatsApp e Telegram. Grupos muito grandes e/ou com desconhecidos ou aqueles em que te colocam sem que você tenha pedido, devem ser encarados com um pé atrás. No caso do Telegram, certifique-se de seguir canais que identificam os responsáveis pelo conteúdo.

O Manual do Usuário tem um canal no Telegram, onde publica notinhas diárias do que acontece na tecnologia. Acompanhe.

Em todo caso, sempre procure pela fonte da informação. Se quem a enviou não souber dizer ou tergiversar, desconfie. Se for algo de seu interesse, busque validá-la em outros meios. Para conteúdos políticos e outros polêmicos, agências de checagem como Aos Fatos e a Agência Lupa fazem um bom trabalho.

Por fim, podcasts são acessíveis, quase sempre gratuitos e têm aquela vantagem do distanciamento temporal das revistas. O Estadão Notícias é diário e aborda temas importantes do país com comentários de especialistas. O Nexo tem alguns — o diário Durma com essa e o semanal Politiquês. Da revista piauí vem o ótimo Foro de Teresina, publicado sempre às quintas-feiras.

Foto do topo: Kaboompics.com /Pexels.

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