Tornou-se comum ver em sites estrangeiros de tecnologia artigos condenando o Facebook ao ostracismo por causa da suposta falta de interesse dos jovens pela rede social1. A ideia é que se gente com menos de 20 anos não estiver usando seu app ou serviço, nada mais importa e o destino dele é a ruína.
Nos últimos tempos o assunto se intensificou, embora praticamente toda a Internet — incluindo os que estão chegando agora — continue, se não vivendo dentro dos muros azuis de Mark Zuckerberg, pelo menos com um perfilzinho lá. Isso me intriga um bocado, por vários fatores. (mais…)
O Twitter é incrível. Tudo o que está acontecendo está lá. Seus amigos, que usam o serviço, comentam diversas coisas e acabam mandando um punhado de links sobre os assuntos do momento. São muitos links de muitos amigos, o suficiente para se afogar neles. Como filtrar o que importa para ler depois? Com a ajuda de alguns apps — inclusive o do próprio Twitter! (mais…)
Na surdina o Twitter oficializou a injeção de conteúdo na timeline de perfis que o usuário não segue. Dan Frommer flagrou a mudança na página de ajuda do serviço que explica o que é a timeline (tradução livre, já que ainda não consta na versão brasileira):
Além disso, quando identificamos um tweet, uma conta para seguir ou outro conteúdo que seja popular ou relevante, podemos adicioná-lo à timeline. Isso significa que você às vezes verá tweets de contas que não segue. Selecionamos cada tweet usando uma variedade de sinais, incluindo o quão popular ele é e como as pessoas em sua rede estão interagindo com ele. Nosso objetivo é tornar a sua timeline ainda mais relevante e interessante.
A recepção dessa mudança nas regras tem sido pesada. Muita gente está insatisfeita, batendo o pezinho de braços cruzadas e cara emburrada antes mesmo de ver qualquer coisa diferente em suas timelines. Há potencial para estragos, certamente, mas também para o descobrimento de coisas boas. Nesse sentido, é interessante o uso do conectivo “ou” entre os adjetivos “popular” e “relevante”. Significa que os números de retweets e seguidores não serão os únicos critérios para expôr esses tweets não requisitados.
Ainda que sim, o Twitter não é mais o mesmo. Só uso o cliente oficial no Android, e ele é uma lástima, poluído e com acesso difícil a recursos básicos. A experiência é brutalmente diferente (e pior) da de acessar o serviço por um cliente mais convencional, como Tweetbot no iPhone, ou o Tweetdeck, do próprio Twitter, na web.
Essa movimentação do Twitter tem justificativa e objetivo bem claros: atrair mais usuários para agradar aos investidores. Parece que eles convencionaram o número de usuários como um parâmetro importante — no último trimestre, o crescimento da base, somado a outras métricas positivas, fez as ações da empresa dispararem.
Segunda-feira, neste post, citei o @congressedits, bot que monitora alterações anônimas feitas na Wikipédia a partir de IPs do Congresso norte-americano e as divulga no Twitter, como uma solução elegante e esperta para o problema. Por que não uma versão brasileira?
Pois bem, eis o @brwikiedits. Ele faz a mesma coisa do original britânico (@parliamentedits) e da variante do hemisfério norte citada acima, só que monitorando as redes das seguintes instituições brasileiras: Senado, STF, Câmara, Serpro, Procuradoria Geral da República, Dataprev, Petrobras, BCB, BB e Caixa.
O bot foi criado por Pedro Felipe (@pedrofelipee), desenvolvedor de 18 anos. Por e-mail, ele revelou como a ideia surgiu:
Há algumas semanas, pesquisando na Wikipédia, acabei caindo nas alterações das páginas e percebi que todas as edições anônimas tinham seus IPs registrados. Me veio à mente que algum serviço poderia monitorar e reportar mudanças feitas a partir da rede do nosso Governo e suas estatais. Logo depois o @congressedits surgiu e a etapa de desenvolvimento já estava eliminada, uma vez que o script por trás dele tem código aberto e qualquer um pode contribuir.
Até comecei a coletar alguns endereços que editam páginas do Palácio do Planalto e Câmara dos Deputados para tentar descobrir o intervalo de IPs. Foi frustrado, não consegui muita coisa e não era o bastante para começar o monitoramento, então deixei a ideia de lado. No começo dessa semana o escândalo explodiu e eu não poderia perder o timing.
Em vez de fazer a coleta dos intervalos de IP manualmente, o Pedro usou outra abordagem. Ele mesmo explica:
Todos os IPs estão registrados em nome de algum provedor, certo? Não sei se vou explicar com os termos corretos, mas os AS [sistema autônomo de roteamento] controlam vários intervalos de IPs. Todo provedor tem um.
Não foi tão simples como no exterior, onde os IPs de vários órgãos do governo americano estão disponíveis no Wikipédia, por exemplo. O que eu fiz foi buscar alguma lista com todos os AS brasileiros e caçar nomes dos órgãos e estatais. Com o código AS em mãos (ex. AS28629 Senado Federal), foi mais simples descobrir quais IPs estão sob seu controle.
Com o script em mãos, fiz algumas modificações, adicionei os IPs coletados, criei um perfil no Twitter e subi uma nuvem para monitorar. Ele funciona monitorando o IRC do Wikimedia, que publica todas as alterações anônimas com seus respectivos IPs num canal.
Ele diz que criou o perfil para dar mais transparência à questão e, também, pela diversão. As várias alterações que o pessoal da Petrobras fez hoje cedo na página do Digimon (!) são um exemplo.
O mais importante, porém, é que o @brwikiedits passa a monitorar instituições públicas importantes para eventuais alterações de viés político na Wikipédia. Especialmente agora, no período eleitoral, soluções do tipo contribuem bastante para tentarmos manter o nível das campanhas.
Quando o Twitter se preparava para seu IPO ano passado, 7% dos seus usuários ativos usavam a API [leia-se não acessavam o serviço pelos clientes oficiais]. A empresa também disse (p. 49) que esperava que essa porcentagem “diminuísse com o tempo, especialmente na medida em que o uso dos nossos aplicativos móveis crescesse.”
Na verdade, a porção dos usuários ativos por mês do Twitter que usa a API dobrou, para 14%. Aquele segmento de usuários cresce muito mais rapidamente do que os usuários ativos por mês que não usam a API do Twiter. Eles representam hoje 37,9 milhões de contas ativas, 148% a mais do que no ano passado.
Quarta o Twitter revelou o balanço financeiro do trimestre e, ante o aumento de 6,3% na base de usuários (271 milhões), suas ações dispararam. O humor dos investidores parece estar atrelado a esse critério, embora seja um bem ruim dadas as peculiaridades do serviço — problema bem explicado no texto acima.
Mais curioso, porém, é como a presença de bots em ambientes considerados humanos na Internet vem aumentando. Se no Twitter os bots formam uma parcela considerável, na web eles já são maioria. Em dezembro do ano passado, pela primeira vez na história a quantidade de bots/scripts navegando em sites superou a de seres humanos. A Incapsula, uma empresa especializada em rastrear bots, aferiu que 61,5% do tráfego na web era realizado por máquinas.
A volta do Digg é uma das coisas mais legais da web nos últimos anos. A Betaworks, atual dona e responsável por ressuscitar o sistema, continua adicionando recursos legais à plataforma. Primeiro, um agregador de feeds; hoje, o Digg Deeper.
O Digg Deeper é baseado na tecnologia do News.me, outro produto da Betaworks que foi descontinuado com a compra do Digg. Nesse retorno, ele analisa os links compartilhados por seus contatos no Twitter e faz uma curadoria automatizada dos mais relevantes, exibindo alertas na página inicial do Digg, por e-mail ou pelo app para iOS.
O ingrediente mágico é a forma como analisamos seu feed do Twitter para determinar o volume certo de alertas. Por exemplo, um componente do algoritmo mensura a atividade acerca de cada link no seu feed. Se você segue zilhões de contas que estão linkando para centenas de posts por dia, você pode receber um alerta se cinco amigos compartilharem o mesmo link. Mas se você segue apenas algumas contas, poderá receber um alerta quando apenas dois amigos compartilharem aquele link.
Nesse sentido ele se parece muito com o Fever, um agregador de feeds — a explicação do Paulo, que usa o Fever, é bem boa.
82% dos usuários do Twitter tem menos de 300 seguidores e 391 milhões de contas no Twitter têm zero. (…) De acordo com a empresa de estatísticas Beevolve, o usuário médio do Twitter tem cerca de 208 seguidores. Entretanto, quase metade (44%) de todos os usuários nunca enviaram um tuíte sequer.
Números interessantes que introduzem um assunto ainda mais: até que ponto a audiência no Twitter influencia o comportamento de quem é seguido? Na matéria, há dois “checkpoints”:
500: segundo Samir Mezrahi, responsável pelas redes sociais do Buzzfeed, esse é o ponto de equilíbrio no Twitter, uma quantidade de seguidores que não lhe deixa falando sozinho e que por outro lado não intimida a publicação de coisas menos planejadas, pensamentos soltos e meio malucos que teríamos receio de escrever a públicos maiores.
3000: também segundo Mezrahi, a partir daqui toda ação gera uma reação. Com três mil seguidores, é bem provável que todo tuíte, por mais bobo que seja, gere alguma resposta.
O limite? Não existe, claro. E infelizmente não adianta escrever alucinadamente no Twitter para conseguir seguidores; não há uma relação causal entre as duas coisas e outros fatores, como notoriedade (gente famosa), influenciam mais do que conteúdo.
O Twitter é uma ideia muito boa (e uma já bem sucedida) para não ter, algum dia, bilhões de usuários e bilhões de dólares em faturamento. O Facebook já tem mais de 1 bilhão de usuários móveis por mês; não há razão para que o Twitter, indiscutivelmente uma maneira melhor de receber notícias em seu smartphone, não alcance esse nivel com um produto melhor e bom marketing. O desafio será fazer o produto e o negócio trabalharem em harmonia, em uma escala muito maior do que acontece hoje. Dificultará isso o fato de que novos líderes, vários deles usuários recentes e casuais do Twitter, estão agora no comando.
Além das mudanças no comando do Twitter, o serviço continua experimentando: um botão “comprar” está em testes e deve aparecer logo em anúncios patrocinados, mais ou menos como o botão de instalação de apps que já existe.
Essa harmonia a que Frommer se refere, pelo menos para usuários de longa data, está bem distante de se concretizar. Uso bastante o Twitter, mas bem longe das ferramentas oficiais — no smartphone, Tweetbot; na web, Tweetdeck1. Quando volto ao Twitter web ou ao app oficial, é quase como se fossem serviços diferentes. A ânsia de gerar engajamento, de estimular ações artificialmente e conseguir novos usuários arruína consideravelmente a experiência.
Tecnicamente o Tweetdeck também é uma “ferramenta oficial”, mas graças aos deuses das redes sociais ele se mantém bem distante da experiência de usuário do cliente web oficial, do twitter.com. ↩
Sarah, uma adolescente de 14 anos que vive em Roterdã, Holanda, publicou uma mensagem bastante infeliz no Twitter ontem pela manhã. Era uma ameaça de atentado terrorista dirigida à American Airlines. Neste momento ela está detida para investigação. E amedrontada.
A menina, que escrevia no perfil @QueenDemetriax_ (ela apagou a conta), publicou a seguinte mensagem direcionada à American Airlines, uma companhia aérea dos EUA:
Screenshot: Business Insider.
“@AmericanAir olá meu nome é Ibrahim e eu sou do Afeganistão. Sou parte da Al Qaida [sic] e no dia 1º de junho farei uma coisa bem grande tchau”
A resposta do social media da American Airlines veio seis minutos depois:
Screenshot: Business Insider.
“@queendemetriax_ Sarah, nós encaramos essas ameaças com seriedade. Suas informações e endereços IP serão encaminhados à segurança e ao FBI.”
Sarah, claro, surtou. Nas mensagens seguintes, disse que ter sido uma piada, que se lamentava, estava com medo, jogou a culpa em uma amiga e afirmou que não era do Afeganistão.
Screenshot: Business Insider.
Foi uma piada, ou melhor, uma “piada” ruim. Não é isso o que está em questão. A reação da American Airlines, isso sim, foi o que mais me surpreendeu. Pareceu-me descabida dadas todas as circunstâncias.
A perigosa terrorista de 14 anos fã da Demi Lovato
A resposta da companhia aérea foi tão descabida quanto a ameaça da adolescente. Alguns podem alegar que foi uma resposta na mesma moeda, mas pense comigo: uma menina de 14 anos escrevendo algo estúpido na Internet? Ok. Uma empresa biolionária cheia de profissionais tocando o terror em cima disso? Preocupante.
Nem verdadeira a resposta da American Airlines era (era, do verbo não é mais, já que ela foi apagada do perfil): a empresa não tem acesso aos IPs de quem interage com ela no Twitter. Configurou-se, pois, uma espécie de ataque reverso: de ameaçadora, Sarah acabou vítima de terrorismo psicológico.
@neetzan @QueenDemetriax_ But @AmericanAir doesn't have the IP addresses and "details" of accounts that mention them on Twitter.
E temos as circunstâncias. Uma menina de 14 anos por trás de um plano maligno para derrubar aviões avisa de antemão a companhia aérea alvo do seu intento, via Twitter usando sua conta de fangirl da Demi Lovato, que algo grande acontecerá. Soa bizarro falando assim, mas foi exatamente o que aconteceu.
Eu entendo, e concordo, que com certas coisas não se brinca. Terrorismo é uma delas, e das mais sérias. A piada, como já disse, foi bem infeliz e passível de investigação, como a polícia de Roterdã, sem o envolvimento do FBI ou da American Airlines, está fazendo nesse momento. Aliás, a postura da polícia local é um sopro de sanidade em meio a tanta loucura. Ao Business Insider, um porta-voz disse:
“Não estamos em posição de comunicar qualquer ponto das acusações nesse momento. Apenas achamos que seria necessário trazer isso à tona pelo fato de que ela [a ameaça de Sarah] gerou muito interesse na Internet.”
Armar um circo em torno disso a ponto de amedrontar Sarah, de direcionar a ela comentários raivosos de gente que fica à toa na Internet, isso é pura e simplesmente errado. Antes de excluir sua conta ela ganhou uma avalanche de xingamentos vinda de estranhos. De “imatura” a “racista”, apenas tente imaginar como deve estar a cabeça dessa menina. Faça um exercício de analogia: pense nos comentaristas de portais dirigindo todo aquele chorume para você, destilando a raiva em relação ao sistema, aos petralhas, ao Sakamoto, aos direitos humanos contra você.
E lembre-se: ela tem 14 anos.
Poderia ter sido diferente
Existe um tratamento diferenciado para crianças e adolescentes em todas as esferas, incluindo a criminal, porque até certa idade nós não temos o discernimento desenvolvido — e muitos, inclusive, morrem velhos sem tê-lo funcionando plenamente. Para Sarah, ou a (suposta) amiga dela que fez a brincadeira no Twitter, isso se aplica também. Na hora em que começamos a ignorar essas nuances da psicologia humana, a enquadrar todo mundo em um crivo fixo para adultos e crianças, deixamos a humanidade um pouco de lado e voltamos algumas casas no jogo da evolução enquanto sociedade. Aproximamo-nos da Lei de Talião, do “olho por olho, dente por dente”.
Como proceder, então? A American Airlines poderia ter enviado a Sarah apenas metade da sua mensagem, a que diz que leva essas ameaças a sério, via mensagem privada. Seria suficiente para que ela percebesse que, hey, existem consequências para o que acontece na Internet, há limites para a zoeira. Em seguida, pedir à polícia de Roterdã para averiguar a ameaça, porque por mais tola que ela pareça, ainda assim é algo que merece ser investigado. Melhor não arriscar.
“Ah, mas agora serviu de exemplo”. Será? E se sim, a que custo? O trauma que ficará na menina extrapola qualquer lição que seu caso tenha deixado aos demais — e, pelas reações que vi até agora, ele tem servido mais para risadas, “hahaha se ferrou!”, do que para conscientizar alguém que seja. É a mesma lógica que muitos apregoam no trânsito: ao ver que outro motorista está fazendo alguma barbeiragem, esses iluminados da direção seguem avançando até o último segundo, assustando o “babaca que não sabe dirigir” para “ensinar como é que se dirige”. Apontam e reforçam o erro achando que estão conscientizando. Relatos dessa metodologia pra lá de questionável são recorrentes, sempre contados com um quê de orgulho. Até hoje não soube, porém, de um caso bem sucedido de educação no trânsito baseada na intolerância e na agressividade.
O mundo está maluco, as pessoas estão perdendo as estribeiras por pouco e, nesse contexto, é fácil pegar qualquer coisinha para “servir de exemplo”, até uma brincadeira boba na Internet feita por uma criança. Fácil, não correto. Vamos colocar a mão na consciência, pessoal. Sarah tem 14 anos e, daqui em diante, um trauma para a vida toda.