Números enormes

Números que ajudam a colocar em perspectiva o tamanho do setor de tecnologia — em vários sentidos.

De acordo com a Nielsen, o Brasil tem 10,4 milhões de influenciadores digitais. Para a consultoria, qualquer perfil com mais de mil seguidores é considerado influenciador. Esses números podem variar muito. Em 2022, a Adobe estimou esse número em 20,1 milhões — considerando quem tinha +5 mil seguidores e ganhava algum dinheiro com posts em redes sociais. / uol.com.br, news.adobe.com (em inglês)

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Pela primeira vez em 12 anos (!), o Medium fechou um mês no azul. Com mais de um milhão de assinantes pagantes (a empresa não revelou os números exatos), o TechCrunch fez as contas e estimou o faturamento anual em US$ 50–60 milhões. / techcrunch.com

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De acordo com o Banco Central, entre janeiro e maio deste ano os brasileiros mandaram US$ 7,3  bilhões em criptomoedas para o exterior — o mesmo valor gasto por brasileiros em viagens a turismo para fora do país. / investnews.com.br

A infernal vida em que todos precisam ser “influencers”

Pintura de pessoas em trajes de época, aglomeradas em frente ao mar do Rio de Janeiro, com uma banheira do Brasil tremulando no topo de um prédio ao fundo.

por Guilherme Felitti

Não é sempre, mas uma gota sozinha pode transbordar um balde. Abre aspas para a BBC Brasil:

Corre em livros de História a seguinte anedota sobre o então imperador Dom Pedro II: ao chegar ao baile que veio a ser o último do seu reinado e da monarquia, no dia 9 de novembro de 1889, tropeçou ao entrar no salão. Ao se reerguer, disse, brincando: “A monarquia tropeça, mas não cai.”

Se verdadeira, a piada carregava uma ironia que Dom Pedro II só conheceria mais tarde. A festa derrubou, de fato, a monarquia seis dias depois, em 15 de novembro de 1889.

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Notícias da semana

Curadoria das principais notícias de tecnologia da semana.

Segunda, 29/7

A Apple liberou a Apple Intelligence, seu conjunto de ferramentas de IA, nas versões de testes do iOS 18.1 e macOS 15.1. Deve chegar em outubro, mas só para quem usa o sistema em inglês. / 9to5mac.com (em inglês)

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Terça, 30/7

Foi disponibilizado o primeiro Plano Brasileiro de Inteligência Artificial, com previsão de investimentos de R$ 23 bilhões até 2028. O texto prevê um supercomputador e um LLM brasileiro. / agenciabrasil.ebc.com.br

O Google começou a integrar o Pix em sua carteira digital, via parcerias com C6 e PicPay. A disponibilização será gradual. / mobiletime.com.br

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Quarta, 31/7

A Senacon publicou uma nota técnica com quase 100 exigências para plataformas sociais relacionadas à transparência da publicidade que veiculam. Elas têm até dezembro para se adequarem. / nucleo.jor.br

A Bending Spoons, empresa italiana que adquiriu o Evernote uns anos atrás, abriu a carteira outra vez e comprou o WeTransfer. O valor do negócio não foi divulgado. / techcrunch.com (em inglês)

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Quinta, 1º/8

A Intel vai demitir 15 mil funcionários como parte de um plano de corte de custos. / g1.globo.com

A Anthropic lançou o Claude, seu assistente de IA, no Brasil. A assinatura custa R$ 110/mês. / anthropic.com (em inglês)

A última rede social “good vibes”

Print do feed da rede social Posts.cv em uma janela do Safari do macOS.

Tenho a teoria de que o destino de toda rede social é se afundar em tretas. O que não deveria ser surpresa quando juntamos milhões de pessoas no mesmo ambiente e as estimulamos a opinarem sobre tudo.

O Posts.cv é a exceção que confirma a regra. Despretensiosa, com foco em design, arte digital e carreira e uma curadoria humana, os posts mais polêmicos que vi nos meses em que frequento o local são de gente frustrada com empresas que não retornam entrevistas de emprego. Mesmo esses são raros e o tom deles, ameno.

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Não deu para BeReal e Koo, mas talvez dê para o Mastodon

Dinheiro de sobra, juros baixos, deslizes frequentes das big techs, a boa e velha concorrência. Esses e outros motivos culminaram, na primeira metade dos anos 2020, no lançamento de plataformas sociais que prometiam ser o que as incumbentes — em especial Instagram e X — não podiam ou estavam deixando de ser.

As promessas de BeReal e Koo não resistiram por muito tempo, porém.

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Tecnologias anti-inteligência artificial

Uma nova rede social fez barulho esta semana com uma proposta diferente: ela é anti-IA. Chama-se Cara e é uma espécie de Instagram misturado com portfólio. Atraiu artistas — o que não é de se estranhar —, mas viralizou o bastante para ser comentada em outros círculos. (Ganhou um tópico no Órbita, aliás.)

Não me parece ser algo que valha o seu ou o meu tempo. É mais uma rede fechada que, se vingar — uma remota possibilidade —, será vendida, fechada ou corrompida por anúncios invasivos daqui a alguns anos. As defesas contra a coleta de imagens para treinar IAs são frágeis e não há qualquer garantia de que funcionem.

Em junho de 2023, uma construtora na Bélgica deu uma zoada no ChatGPT para se promover. Era marketing de ocasião, tipo quando perfil de empresa no Twitter pega carona em memes. Sinal de que o objeto da gozação chegou ao grande público — e, no caso dos memes, sua sentença de morte.

O caso da Cara chama a atenção porque não usa a IA como gancho para uma piada. Ela leva esse posicionamento a sério. É tipo quando alguém sai do Instagram ou do Twitter e vai para o Mastodon sem ter outro assunto que não falar de como o Instagram e o Twitter são ruins, ou seja, é insustentável.

Por outro lado, fico pensando se, em algum momento futuro, a IA não se transformará em uma espécie de gordura trans da tecnologia, um recurso indesejado, nada digno de se gabar, mas tolerado, mais ou menos como o assalto à privacidade que plataformas e aplicativos comerciais fazem e estamos aí, cientes e paralisados — ou quase; o dedão ainda se mexe para rolar a tela.

A ojeriza à IA de (parte) das pessoas não é a única explicação do sucesso repentino — ainda que limitado — da Cara. A toxicidade do Instagram talvez seja um incentivo ainda maior.

Nesta semana, a Meta confirmou que está testando anúncios não puláveis no feed. Para estarem cogitando isso, significa que estão confiantes de que os usuários engolirão mais essa.

A Meta é uma versão moderna daqueles testes bizarros que Skinner e Milgram faziam nos anos 1960. “Que prática abusiva e/ou repulsiva a gente vai colocar no Instagram hoje a fim de determinar o máximo que as pessoas toleram antes de desinstalarem o aplicativo?” Pelo visto, isso ainda vai longe.

Professor alemão compartilha apreensões absurdas das polícias brasileiras 

Não sei o motivo nem quando isso começou, mas Christoph Harig, professor do Royal Danish Defence College, publica fotos de apreensões absurdas das polícias brasileiras com comentários hilários em seu perfil no Bluesky. Brisadeiros, dominó de cocaína e mudas de cannabis são alguns exemplos.

Não está no Bluesky? Dá para seguir perfis de lá via RSS.

LinkedIn sem o feed é o melhor LinkedIn

Hoje cedo entrei no LinkedIn e entre dois ou três posts legais, dentro da proposta da rede, dei de cara com um monte de ~opiniões que me cansaram um tanto. Aí arregacei as mangas para tentar ocultar o feed do LinkedIn.

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Primeiro o Reddit, depois o Quora e, agora, o Stack Overflow: as três empresas, criadas em cima de conteúdo gerado pelos usuários, com um forte apelo comunal, ou seja, de pessoas interagindo com pessoas, fecharam acordos com a OpenAI para fornecer esse conteúdo humano para treinar inteligências artificiais/grandes modelos de linguagem (LLMs).

É bem provável que os termos de uso dessas plataformas permitam tal atitude, mas não deixa de ser, para muitos, uma espécie de traição — piorada quando tentativas de mitigar o assalto de trabalho voluntário e desinteressado são combatidas a ferro e fogo pela plataforma.

Os “reply guys”

Não se pode dizer que os estadunidenses são ruins de dar nomes às coisas. Veja, por exemplo, os “reply guys”: caras que publicam respostas desagradáveis em posts públicos de mulheres.

Em um curto intervalo, duas mulheres que se destacam em áreas dominadas por homens, Veronica (Linux/software livre) e Sophie (desenvolvimento web), reclamaram da ação de “reply guys” no Mastodon.

Veronica resolveu fechar sua conta no Mastodon por tempo indeterminado. No caso da Sophie, um post descompromissado em que ela comparava a cor do cabelo com a do seu editor de código foi parar até em chans porque o código no print não era acessível — o que não importava muito nesse contexto.

Não é um problema novo. Em 2020, o Twitter implementou filtros para limitar quem podia responder posts numa tentativa de desestimular os “reply guys”. Em novembro de 2023, foi a vez do Mastodon tentar conter o problema, mostrando alertas no Android para quem tenta responder posts de perfis que não se seguem mutuamente ou muito antigos.

São medidas válidas. Em seu relato, Sophie exalta os recursos de bloquear e silenciar do Mastodon, embora a implementação no seu aplicativo preferido, Ice Cubes, deixe a desejar.

Talvez o grande dano das plataformas sociais dos anos 2010 ao debate público foi incutir na gente a ideia errada de que devemos dar opinião para tudo, de que não podemos passar batido por um botão “Responder” na internet — ainda mais se a outra pessoa não for um homem, mesmo que nada ali nos diga respeito ou que o erro não importe.

Acredite se quiser, mas é possível ler uma opinião ou comentário inconsequente de alguém e ignorá-lo, deixar pra lá.

Um efeito colateral desses tristes episódio é destacar que não existe paraíso na internet. Até por ser o contraponto do Twitter pós-Elon Musk, o Mastodon ganhou uma aura de virtuosismo que não se sustenta. Não me entenda mal: no frigir dos ovos, acredito que o Mastodon funcione melhor que o Twitter/X e outras alternativas, mas apenas porque esses eram/são muito ruins.