O fato das plataformas criadas em cima do ActivityPub, como o Mastodon, não terem fins lucrativos é visto como problema para uns, virtude para outros. Eu sou do time que considera virtude.

Caso em tela: o aplicativo Mammoth, que tinha um servidor próprio (moth.social) e havia lançado não faz muito tempo um serviço de assinatura paga para o fediverso, o sub.club, anunciou que está fechando as portas. O app será removido da App Store e o servidor e o sub.club serão encerrados no final de janeiro, a menos que alguém assuma o rojão. / @mammoth@moth.social (em inglês)

Paulo Freire na era digital

Paulo Freire, educador e filósofo brasileiro, tornou-se assunto espinhoso no Brasil nos últimos anos. Seu nome é gasolina em discussões inflamadas nas redes sociais que transbordam para embates políticos no mundo real — ou vice-versa.

Ao lado de outras quimeras da polarização entre direita e esquerda, como comunismo, ideologia de gênero e meritocracia, o pensamento de Paulo Freire é discutido com paixão por gente que, ao que tudo indica, nunca sequer folheou um de seus livros. Ou, se sim, de duas, uma: não os entendeu, ou serviu-lhe a carapuça.

Ainda que evite embates (virtuais ou não), às vezes eles são inevitáveis. Num desses, dei-me conta de que nunca havia lido o autor, de quem o meu conhecimento se limitava à batida frase invocada em várias das contendas que envolvem seu nome:

Quando a educação não é libertadora, o sonho do oprimido é ser o opressor.

O que é curioso, dado que a frase não consta em Pedagogia do oprimido, de 1974, em que ele trata do assunto.

(mais…)

o(m)g:image

Jim Nielsen criou um quiz em que você tem que adivinhar qual o título do post vinculado à imagem do cartão de redes sociais — a quem entende do riscado, à og:image. / omgimg.jim-nielsen.com (em inglês)

Em seu blog, Jim publicou uma crítica a essas imagens junto ao anúncio do jogo, ou “à ideia de que toda página na web no mundo inteiro precisa trazer uma imagem que sintetize o seu conteúdo em uma única expressão visual”. O jogo, no caso, “ilustra o absurdo dessa noção tanto em princípio quanto na prática no mundo real”. / blog.jim-nielsen.com (em inglês)

A maioria dos posts do Manual usa uma og:image padrão (esta). Já acho que faço muito em compartilhá-los em redes sociais…

O ministro Dias Toffoli defendeu, nesta quinta (5), a inconstitucionalidade do artigo 19 do Marco Civil da Internet. Ele relata um dos dois casos que estão sendo julgados a respeito da responsabilidade das plataformas digitais por conteúdos de terceiros. / folha.uol.com.br

É uma postura polêmica, provavelmente sem unanimidade na corte. Toffoli argumenta que, embora os conteúdos sejam de terceiros, as plataformas se beneficiam deles: “Ao recomendá-los ou impulsioná-los a um número indefinido de usuários, o provedor acaba se tornando corresponsável pela sua difusão.”

Meta complica, mas libera usuários do Threads para seguirem pessoas no fediverso

A Meta deu mais um passo na integração do Threads ao fediverso, ou seja, na compatibilidade com o ActivityPub e plataformas que usam esse protocolo, como o Mastodon: agora é possível a pessoas no Threads seguirem perfis de outros servidores do fediverso que já tenham interagido com o Threads. / @zuck@threads.net (em inglês)

Achou complicado? Calma, ainda estamos na parte simples.

Adam Mosseri, executivo que lidera o Threads, deu mais detalhes:

Você pode ver as postagens deles [pessoas do fediverso] navegando até seus perfis e também pode optar por ser notificado quando eles postarem em seus servidores. / @mosseri@threads.net (em inglês)

Em outras palavras, os posts vindos do fediverso/Mastodon não aparecem no feed e em outras linhas do tempo públicas.

Para piorar, o caminho para de fato seguir alguém de outro servidor/instância é cheio de pedras. O site We Distribute deu uma fuçada e explica:

O Threads oferece um link especial que pode ser usado para procurar perfis específicos [de outros servidores], desde que cumpridos estes requisitos:

  1. Você tem o “Compartilhamento no fediverso” definido como Ativado em sua conta no Threads. [Ative-o aqui.]
  2. Essa pessoa não te bloqueou.
  3. Essa pessoa ou quem administra o servidor não bloqueou o threads.net. / wedistribute.org (em inglês)

Ficarei surpreso se aparecer algum seguidor do Threads no meu perfil no Mastodon

Robôs do Marreta estão disponíveis no Bluesky e Telegram

O Marreta agora tem robôs no Bluesky e Telegram para facilitar a derrubada de paywalls.

No Bluesky, você pode publicar o link e mencionar o perfil do Marreta, @marreta.pcdomanual.com, ou mencionar esse mesmo perfil em resposta a um post com link (exemplo).

O robô do Bluesky é criação do Joselito.

No Telegram, adicione o robô @leissoai_bot e envie links de notícias com paywall para receber outro link do Marreta ou de outros quebradores de paywall. (Esse robô é do Renan Altendorf, criador do Marreta.)

O Mastodon ganhou uma retrospectiva do ano, nos moldes daquela famigerada do Spotify. Por óbvio, é bem mais simples: mostra o aumento dos seguidores, post mais popular, total de posts e hashtag mais usada. (Para ver as de quem já tem, a hashtag é #wrapstodon.) Ela está sendo liberada aos poucos na instância principal (mastodon.social). / @Gargron@mastodon.social

Em outras instâncias, é preciso atualizá-la para as versões mais recentes de testes (alpha ou nightly) e colar uns códigos via linha de comando. O blog ao lado ensina o caminho das pedras. / blog.thms.uk (em inglês)

Dados de 1 milhão de posts do Bluesky são usados para treinar IAs

No último dia 15, o perfil oficial do Bluesky disse que “não usamos seu conteúdo para treinar IAs generativas e não temos a intenção de usá-lo”. / @bsky.app/Bluesky (em inglês)

Na noite desta terça (26), Daniel van Strien, funcionário da Hugging Face, uma espécie de marketplace de grandes modelos de linguagem (LLM), disponibilizou um conjunto de dados composto por 1 milhão de posts coletados da API do Bluesky. Ops! / @danielvanstrien.bsky.social@bsky.app, huggingface.co (ambos em inglês)

O protocolo AT, base do Bluesky, é completamente público. É por isso que ainda não é possível “trancar” um perfil. Tudo — posts, curtidas, RTs, quem segue quem — é disponibilizado em tempo real por uma API que eles chamam de “firehose”, ou mangueira de incêndio, em referência à alta vazão de dados que passa por ali.

Isso não é ruim. É graças a essa API que se pode criar aplicações criativas, análises jornalísticas e científicas e toda a sorte de coisas legais. E nem tão legais, como o conjunto de dados para treinar IAs.

Diante da repercussão, van Strien removeu o conjunto de dados do Bluesky da Hugging Face. Antes disso, o pacote estava entre os mais baixados da plataforma, ou seja, apesar de ter sido rápido, a remoção pode ter ocorrido tarde demais. / @danielvanstrien.bsky.social@bsky.app (em inglês)

O perfil do Bluesky também se manifestou. Disse que “é uma rede pública e aberta, como sites na internet”, e que estão analisando a inclusão de uma opção que permita aos usuários sinalizarem que não consentem com o uso de seus dados para o treinamento de IAs, como o famigerado robots.txt em sites. O que não garantiria qualquer coisa, visto que o robots.txt e uma opção similar no Bluesky não têm qualquer peso jurídico nem eficiência técnica. / @bsky.app@bsky.app (em inglês)

Isso não é exclusivo do Bluesky. A diferença é que outras empresas do setor fecharam suas APIs nos últimos anos para cobrarem (caro) por ela, casos do Reddit e do X, por exemplo.

Em qualquer lugar, mas ainda mais naqueles onde um terceiro controla seus dados e que não ofereça criptografia de ponta a ponta, é boa ideia considerar que tudo que for publicado, em público ou não, pode ser acessado por pessoas indesejadas em algum momento.

***

Ainda no departamento das dores de crescimento do Bluesky, na segunda (25), a União Europeia deu um puxão de orelha na startup pela falta de uma página em seu site informando o número de usuários que residem no bloco e onde fica sua sede.

O Bluesky ainda está longe do piso para ser considerado uma “plataforma muito grande” segundo o Regulamento dos Serviços Digitais (DSA, na sigla em inglês). A obrigação de expor as informações acima, porém, vale para todas as empresas que atuam na UE, disse o porta-voz da Comissão Europeia, Thomas Regnier, ao Financial Times. / ft.com (em inglês)

snac, servidor simples e minimalista de ActivityPub

O snac é um sistema compatível com o ActivityPub, mas com uma pegada diferente da do Mastodon — “simples e minimalista”, e escrito na linguagem C. Ainda assim, é compatível com a API do Mastodon, o que permite o uso de aplicativos de terceiros, e tem quase todos os recursos esperados numa rede social. / codeberg.org (em inglês)

Veja a interface web no perfil do Grunfink, criador do snac. / @grunfink@comam.es (em inglês)

Algo que você aprende quando tenta explicar o fediverso às pessoas comparando-o ao e-mail é que ninguém entende como o e-mail funciona também.

— Hannah Isopod / @root@isopod.zone (em inglês)

O resultado das eleições estadunidenses criou um pequeno êxodo do X. O maior beneficiado tem sido o Bluesky, que bateu 20 milhões de usuários cadastrados na terça (19). / @samuel.bsky.team/Bluesky

O crescimento do fediverso sofre com as dores inerentes à descentralização. Ainda assim, serviços como o Mastodon também se beneficiaram da radicalização do dono do X. Segundo Eugen Rochko, criador do Mastodon, os downloads do app oficial aumentaram 47% no iOS e 17% no Android, as inscrições subiram 27% em comparação ao mês anterior (embora isso signifique ~90 mil novas contas) e o total de usuários ativos (MAU) nos vários servidores de Mastodon bateu 894 mil. / @Gargron@mastodon.social (em inglês)

Não parece pouco. É pouco. E… tudo bem? Nas palavras de Eugen:

O Mastodon (e o fediverso) provou ser uma plataforma de comunicação eficaz e confiável ao longo dos últimos 8 anos, e sem depender do capital de risco para sobreviver. O #fediverso é o futuro.

Sill é um “Nuzzel do Bluesky e/ou Mastodon”

Em outra vida, existiu um serviço chamado Nuzzel que fazia uma varredura dos links compartilhados por quem você seguia no Twitter e entregava um e-mail bonitinho, todo dia, com os mais populares.

Em 2021, o então Twitter comprou e encerrou o Nuzzel. / daringfireball.net (em inglês)

O Sill, criado por Tyler Fisher, ressuscita a proposta do Nuzzel, só que usando o Bluesky e o Mastodon como motores. (Dá para combinar duas contas nos dois serviços.) Por enquanto, é gratuito. / sill.social (em inglês)

Incompreensível que o Bluesky, que se apresenta como plataforma descentralizada, tenha sofrido com instabilidades e indisponibilidade nesta quinta (14) diante do dia de maior tráfego da sua história, graças a uma nova leva de refugiados do X. / theverge.com, @dholms.xyz/Bluesky (ambos em inglês)

Se fosse no Mastodon/ActivityPub, isso não teria acontecido.

O jornal britânico The Guardian e o espanhol La Vanguardia anunciaram, nesta semana, que deixarão de interagir no X, a rede social do bilionário, troll e futuro secretário de “eficiência governamental” (rs) dos EUA, Elon Musk. theguardian.com (em inglês), lavanguardia.com (em espanhol)

Os motivos, você deve imaginar, giram em torno dos níveis elevados de teorias da conspiração, desinformação e conteúdo perturbador na plataforma, parte do chorume disseminada pelo próprio Musk.

Este Manual abandonou o então Twitter em dezembro de 2022.

Passo por uma fase menos ~ativista, priorizando a sanidade mental no lugar de comprar qualquer briga. Sinal mais forte disso foi a mudança recente do grupo de assinantes do Manual do Signal para o WhatsApp, plataforma de outro sociopata do Vale do Silício.

(Relato do front: o pessoal está curtindo o Zap. O lance de comunidades é confuso, mas funciona. As conversas estão frenéticas.)

O que me leva à reflexão do permanecer fora do X. Para além do meu desprezo por Musk, não é como se estivesse perdendo alguma coisa ao ignorar o X. Deixar aquela plataforma, hoje, é uma decisão muito mais pragmática que ideológica.

Quando a plataforma voltou ao ar no Brasil, após um mês suspensa por determinação do STF, loguei no meu perfil pessoal para… sentir o clima. Pareceu-me terra arrasada: virais apelativos, anúncios de golpes dos mais variados tipos a cada dois posts, maluquices para todos os gostos.

Ignorar é a melhor arma de que dispomos na guerra por atenção. Dito isso, vale o registro de que até mesmo jornalistas, os últimos crackudos de Twitter, estão abandonando o barco. Já não era sem tempo.

E fica a pergunta: qual será o primeiro grande jornal brasileiro que fará tal movimento?

A ANPD mostrou seus dentes e determinou que o TikTok tome medidas imediatas para mitigar o uso da plataforma por crianças e, em paralelo, instaurou processo administrativo para apurar práticas irregulares da plataforma no tratamento de dados pessoais de crianças e adolescentes. / gov.br/anpd

As medidas imediatas contra a ByteDance/TikTok consistem em desativar o acesso sem cadastro ao feed “Para Você” em até 10 dias úteis e a apresentação de um “plano de conformidade” em até 20 dias úteis.

As determinações, anunciadas nesta segunda (4), resultam de um processo de fiscalização iniciado em 2021. Ela foca em um princípio da Lei Geral de Proteção de Dados Pessoais (LGPD) de observância do “melhor interesse” de crianças e adolescentes. / convergenciadigital.com.br

ONGs que trabalham na proteção de menores no ambiente digital, como o Instituto Alana, gostaram da medida. O Núcleo lembra que a lógica do “For You” do TikTok — fluxo de vídeos recomendados acessíveis sem cadastro — existe em plataformas similares de vídeos curtos, como Kwai e YouTube Shorts. / nucleo.jor.br