Nesta sexta (17), a plataforma Read.cv anunciou que foi adquirida pela Perplexity, uma startup de inteligência artificial, e que, com isso, encerrará as atividades. / read.cv, @andy@posts.cv (ambos em inglês)

A Read.cv tinha uma rede social focada em design, a Posts. Em junho de 2024, escrevi a respeito dela. Chamei-a de “a última rede social ‘good vibes’”. Por essa lógica, acabaram-se as redes sociais “good vibes”. / manualdousuario.net

Coincidência ou mau agouro, o anúncio coincidiu com a manifestação da minha opinião de que a única maneira de blindar uma plataforma social (qualquer empreendimento, na real) de bilionários excêntricos e mega-corporações é impossibilitar a sua venda. / manualdousuario.net, youtube.com/@mdu

Nesse contexto, o Mastodon e outras aplicações baseadas no protocolo ActivityPub é a única solução viável que temos hoje.

US$ 30 milhões para reinventar a roda

Tenho pensado e lido um bocado a respeito da Free Our Feeds, uma campanha para “salvar as redes sociais da captura por bilionários”. / freeourfeeds.com

A Free Our Feeds consiste em um grupo de especialistas disposto a levantar US$ 30 milhões via doações, em um intervalo de três anos, para criar uma fundação e “transformar a tecnologia fundamental do Bluesky — o protocolo AT — em algo mais poderoso que um único app”.

É um fim nobre, porém pouco original. No site do Bluesky, uma das primeiras frases da capa diz:

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Dia agitado para as plataformas sociais descentralizadas. O Mastodon anunciou que migrará a propriedade de seus componentes-chave para uma organização sem fins lucrativos. Eugen Rochko, fundador e atual CEO do projeto, não seguirá no cargo; em vez disso, focará em estratégia de produto. / blog.joinmastodon.org (em inglês)

Do outro lado da arena, um grupo de especialistas se juntou para criar a Free Our Feeds, uma futura fundação independente que terá como missão libertar o protocolo AT, do Bluesky, da centralização exercida pela startup. / freeourfeeds.com (em inglês)

É bom correrem: segundo fontes do Business Insider, o Bluesky está próximo de fechar uma nova rodada de investimentos, a terceira, que o avaliaria em US$ 700 milhões. / businessinsider.com (em inglês)

Todo o conteúdo do Bluesky e Mastodon, em tempo real e no mesmo lugar 

As APIs escancaradas de protocolos abertos, como o protocolo AT (Bluesky) e ActivityPub (Mastodon e outros), permite que qualquer um observe todo (ou quase todo) o conteúdo que rola nelas.

Primeiro apareceu o Firesky, uma “mangueira” (“firehose”) de todos os posts publicados no Bluesky, em tempo real. (Dá para filtrar por idioma.) / firesky.tv

Alguém fez um equivalente para o ActivityPub/fediverso, o Fedi on Fire. / fedionfire.stream

O Fedi on Fire saiu do ar após o criador da ferramenta receber um feedback negativo.

Aliás, vale o alerta de que tudo que é publicado nessas redes é, no mínimo, semi-público. Aja de acordo 👀

O fato das plataformas criadas em cima do ActivityPub, como o Mastodon, não terem fins lucrativos é visto como problema para uns, virtude para outros. Eu sou do time que considera virtude.

Caso em tela: o aplicativo Mammoth, que tinha um servidor próprio (moth.social) e havia lançado não faz muito tempo um serviço de assinatura paga para o fediverso, o sub.club, anunciou que está fechando as portas. O app será removido da App Store e o servidor e o sub.club serão encerrados no final de janeiro, a menos que alguém assuma o rojão. / @mammoth@moth.social (em inglês)

Paulo Freire na era digital

Paulo Freire, educador e filósofo brasileiro, tornou-se assunto espinhoso no Brasil nos últimos anos. Seu nome é gasolina em discussões inflamadas nas redes sociais que transbordam para embates políticos no mundo real — ou vice-versa.

Ao lado de outras quimeras da polarização entre direita e esquerda, como comunismo, ideologia de gênero e meritocracia, o pensamento de Paulo Freire é discutido com paixão por gente que, ao que tudo indica, nunca sequer folheou um de seus livros. Ou, se sim, de duas, uma: não os entendeu, ou serviu-lhe a carapuça.

Ainda que evite embates (virtuais ou não), às vezes eles são inevitáveis. Num desses, dei-me conta de que nunca havia lido o autor, de quem o meu conhecimento se limitava à batida frase invocada em várias das contendas que envolvem seu nome:

Quando a educação não é libertadora, o sonho do oprimido é ser o opressor.

O que é curioso, dado que a frase não consta em Pedagogia do oprimido, de 1974, em que ele trata do assunto.

(mais…)

o(m)g:image 

Jim Nielsen criou um quiz em que você tem que adivinhar qual o título do post vinculado à imagem do cartão de redes sociais — a quem entende do riscado, à og:image. / omgimg.jim-nielsen.com (em inglês)

Em seu blog, Jim publicou uma crítica a essas imagens junto ao anúncio do jogo, ou “à ideia de que toda página na web no mundo inteiro precisa trazer uma imagem que sintetize o seu conteúdo em uma única expressão visual”. O jogo, no caso, “ilustra o absurdo dessa noção tanto em princípio quanto na prática no mundo real”. / blog.jim-nielsen.com (em inglês)

A maioria dos posts do Manual usa uma og:image padrão (esta). Já acho que faço muito em compartilhá-los em redes sociais…

O ministro Dias Toffoli defendeu, nesta quinta (5), a inconstitucionalidade do artigo 19 do Marco Civil da Internet. Ele relata um dos dois casos que estão sendo julgados a respeito da responsabilidade das plataformas digitais por conteúdos de terceiros. / folha.uol.com.br

É uma postura polêmica, provavelmente sem unanimidade na corte. Toffoli argumenta que, embora os conteúdos sejam de terceiros, as plataformas se beneficiam deles: “Ao recomendá-los ou impulsioná-los a um número indefinido de usuários, o provedor acaba se tornando corresponsável pela sua difusão.”

Meta complica, mas libera usuários do Threads para seguirem pessoas no fediverso

A Meta deu mais um passo na integração do Threads ao fediverso, ou seja, na compatibilidade com o ActivityPub e plataformas que usam esse protocolo, como o Mastodon: agora é possível a pessoas no Threads seguirem perfis de outros servidores do fediverso que já tenham interagido com o Threads. / @zuck@threads.net (em inglês)

Achou complicado? Calma, ainda estamos na parte simples.

Adam Mosseri, executivo que lidera o Threads, deu mais detalhes:

Você pode ver as postagens deles [pessoas do fediverso] navegando até seus perfis e também pode optar por ser notificado quando eles postarem em seus servidores. / @mosseri@threads.net (em inglês)

Em outras palavras, os posts vindos do fediverso/Mastodon não aparecem no feed e em outras linhas do tempo públicas.

Para piorar, o caminho para de fato seguir alguém de outro servidor/instância é cheio de pedras. O site We Distribute deu uma fuçada e explica:

O Threads oferece um link especial que pode ser usado para procurar perfis específicos [de outros servidores], desde que cumpridos estes requisitos:

  1. Você tem o “Compartilhamento no fediverso” definido como Ativado em sua conta no Threads. [Ative-o aqui.]
  2. Essa pessoa não te bloqueou.
  3. Essa pessoa ou quem administra o servidor não bloqueou o threads.net. / wedistribute.org (em inglês)

Ficarei surpreso se aparecer algum seguidor do Threads no meu perfil no Mastodon

Robôs do Marreta estão disponíveis no Bluesky e Telegram

O Marreta agora tem robôs no Bluesky e Telegram para facilitar a derrubada de paywalls.

No Bluesky, você pode publicar o link e mencionar o perfil do Marreta, @marreta.pcdomanual.com, ou mencionar esse mesmo perfil em resposta a um post com link (exemplo).

O robô do Bluesky é criação do Joselito.

No Telegram, adicione o robô @leissoai_bot e envie links de notícias com paywall para receber outro link do Marreta ou de outros quebradores de paywall. (Esse robô é do Renan Altendorf, criador do Marreta.)

O Mastodon ganhou uma retrospectiva do ano, nos moldes daquela famigerada do Spotify. Por óbvio, é bem mais simples: mostra o aumento dos seguidores, post mais popular, total de posts e hashtag mais usada. (Para ver as de quem já tem, a hashtag é #wrapstodon.) Ela está sendo liberada aos poucos na instância principal (mastodon.social). / @Gargron@mastodon.social

Em outras instâncias, é preciso atualizá-la para as versões mais recentes de testes (alpha ou nightly) e colar uns códigos via linha de comando. O blog ao lado ensina o caminho das pedras. / blog.thms.uk (em inglês)

Dados de 1 milhão de posts do Bluesky são usados para treinar IAs

No último dia 15, o perfil oficial do Bluesky disse que “não usamos seu conteúdo para treinar IAs generativas e não temos a intenção de usá-lo”. / @bsky.app/Bluesky (em inglês)

Na noite desta terça (26), Daniel van Strien, funcionário da Hugging Face, uma espécie de marketplace de grandes modelos de linguagem (LLM), disponibilizou um conjunto de dados composto por 1 milhão de posts coletados da API do Bluesky. Ops! / @danielvanstrien.bsky.social@bsky.app, huggingface.co (ambos em inglês)

O protocolo AT, base do Bluesky, é completamente público. É por isso que ainda não é possível “trancar” um perfil. Tudo — posts, curtidas, RTs, quem segue quem — é disponibilizado em tempo real por uma API que eles chamam de “firehose”, ou mangueira de incêndio, em referência à alta vazão de dados que passa por ali.

Isso não é ruim. É graças a essa API que se pode criar aplicações criativas, análises jornalísticas e científicas e toda a sorte de coisas legais. E nem tão legais, como o conjunto de dados para treinar IAs.

Diante da repercussão, van Strien removeu o conjunto de dados do Bluesky da Hugging Face. Antes disso, o pacote estava entre os mais baixados da plataforma, ou seja, apesar de ter sido rápido, a remoção pode ter ocorrido tarde demais. / @danielvanstrien.bsky.social@bsky.app (em inglês)

O perfil do Bluesky também se manifestou. Disse que “é uma rede pública e aberta, como sites na internet”, e que estão analisando a inclusão de uma opção que permita aos usuários sinalizarem que não consentem com o uso de seus dados para o treinamento de IAs, como o famigerado robots.txt em sites. O que não garantiria qualquer coisa, visto que o robots.txt e uma opção similar no Bluesky não têm qualquer peso jurídico nem eficiência técnica. / @bsky.app@bsky.app (em inglês)

Isso não é exclusivo do Bluesky. A diferença é que outras empresas do setor fecharam suas APIs nos últimos anos para cobrarem (caro) por ela, casos do Reddit e do X, por exemplo.

Em qualquer lugar, mas ainda mais naqueles onde um terceiro controla seus dados e que não ofereça criptografia de ponta a ponta, é boa ideia considerar que tudo que for publicado, em público ou não, pode ser acessado por pessoas indesejadas em algum momento.

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Ainda no departamento das dores de crescimento do Bluesky, na segunda (25), a União Europeia deu um puxão de orelha na startup pela falta de uma página em seu site informando o número de usuários que residem no bloco e onde fica sua sede.

O Bluesky ainda está longe do piso para ser considerado uma “plataforma muito grande” segundo o Regulamento dos Serviços Digitais (DSA, na sigla em inglês). A obrigação de expor as informações acima, porém, vale para todas as empresas que atuam na UE, disse o porta-voz da Comissão Europeia, Thomas Regnier, ao Financial Times. / ft.com (em inglês)

snac, servidor simples e minimalista de ActivityPub 

O snac é um sistema compatível com o ActivityPub, mas com uma pegada diferente da do Mastodon — “simples e minimalista”, e escrito na linguagem C. Ainda assim, é compatível com a API do Mastodon, o que permite o uso de aplicativos de terceiros, e tem quase todos os recursos esperados numa rede social. / codeberg.org (em inglês)

Veja a interface web no perfil do Grunfink, criador do snac. / @grunfink@comam.es (em inglês)

Algo que você aprende quando tenta explicar o fediverso às pessoas comparando-o ao e-mail é que ninguém entende como o e-mail funciona também.

— Hannah Isopod / @root@isopod.zone (em inglês)