Há alguns meses, youtubers denunciaram intervenções não solicitadas do Google para “melhorar” seus vídeos com IA generativa. Parecia um teste; agora, é oficial.

Donos de canais podem desativar esse recurso no Studio: entre em Configurações, Canais, Configurações avançadas e desmarque as duas opções no tópico Melhorias na qualidade dos vídeos. Para quem assiste ao vídeo, a saída oferecida pelo Google é alterar a resolução nas configurações do próprio player.

Acho fascinante que tanta gente compre a falácia de que a inteligência artificial é confiável o bastante para balizar a tomada de decisões. E, às vezes, acho engraçado também.

A Jumpad intriga já na proposta: uma “plataforma self-hosted, instalada na nuvem da empresa” que permite habilitar APIs de serviços externos, como os da OpenAI e Google. Hm, ok. O serviço “envolve dashboards de engajamento e treinamentos gamificados, contribuindo para a transformação da cultura”. Como exemplo de “transformação da cultura”, somos brindados com esta pérola:

Em um dos clientes, houve a constatação de que 25% do tempo dos funcionários era gasto em calls e reuniões, mas cerca de 80% deles não participavam ativamente. Ou seja, era uma grande perda de tempo.

Imagine ter que torrar o planeta para “descobrir” que a maioria das reuniões poderia ser um e-email.

(As informações são do Brazil Journal.)

Bolhas financeiras não têm data marcada para estourarem, mas sempre há sinais que precedem o evento. O mercado de inteligência artificial, sério candidato a próxima bolha, tem sido abastecido por “negócios circulares” financiados por Nvidia e OpenAI na ordem de US$ 1 trilhão, segundo a Bloomberg. O movimento lembra aquela esquete do Chaves em que ele vende todo o estoque de churros do Seu Madruga para si mesmo usando a mesma única moeda.

Eu nunca levei a sério a teoria da internet morta, mas parece que há de fato muitas contas do Twitter administradas por LLMs [IAs generativas].

Homem branco, de cabelos escuros e curtos, com olheiras.Sam Altman
Co-fundador e CEO da OpenAI

Se ao menos soubéssemos quem foi o “jênio” que começou toda essa bagunça…

Não usaremos um LLM [IA generativa] para adicionar um chatbot, uma solução de resumos ou um mecanismo de sugestão para preencher formulários para você, até que maneiras mais rigorosas de fazer essas coisas estejam disponíveis.

Homem branco, de barba e cavanhaque, com cabelo curto escuro.Jon von Tetzchner
Co-fundador e CEO do Vivaldi

Num momento de euforia em que até a Mozilla, que mais poderia se beneficiar da cautela em relação à adoção destrambelhada da IA generativa, pelo menos um navegador web abraça esse posicionamento.

Exclua e-mails e fotos antigos, pois os data centers exigem grandes quantidades de água para resfriar seus sistemas.

— Departamento de Meio Ambiente, Alimentação e Assuntos Rurais do Reino Unido.

A orientação absurda compõe uma lista publicada pelo governo do Reino Unido para mitigar a seca severa que afeta a Inglaterra, ao lado de clássicos inúteis (“tome banhos mais curtos”) e outras sandices (“use água da cozinha para regar plantas”).

Como apontou David Gerard, o documento não faz menção às ineficiências das companhias de água (privatizadas) nem aos sedentos data centers voltados à inteligência artificial. (A grande ironia é que a sugestão de excluir e-mails para economizar água pode ter vindo de uma IA generativa. É assim que a IA vai acabar com a humanidade?)

Print da apresentação do GPT-5 com dois gráficos cujo eixo Y aparece totalmente errado.
Imagem: OpenAI/Reprodução.

Será que a OpenAI usou o ChatGPT para fazer os gráficos malucos da apresentação do GPT-5? Estão chamando por aí de “vibechart”. Via @joshuabenton.com‬/Bluesky.

Navegadores web com assistentes de IA estão chegando

No momento em que a Justiça estadunidense decide se o Google terá que se desfazer do seu navegador web, o Chrome, uma nova geração de rivais surge, trazendo como diferencial “assistentes” de inteligência artificial embutidos.

É bem provável que seja uma coincidência, mas não deixa de ser uma curiosa. Há vários asteriscos nessa história, a começar pelo fato dos novos rivais serem construídos em cima da base do Chrome, o Chromium. Deixarei esses asteriscos de lado, porém, porque a questão mais importante é se esses assistentes vieram para ficar.

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Este botão desativa o Meta AI e aumenta a privacidade em conversas no WhatsApp

Lembra quando o WhatsApp era só um aplicativo de mensagens levinho? Saudades. Hoje há tantas funções, tantos anúncios de novidades que, às vezes, algumas úteis passam batidas.

Por acaso, dia desses topei com a “Proteção avançada da conversa”, disponível nas opções de grupos e de conversas individuais. Foi lançada em abril deste ano.

Ao ser ativada, três coisas acontecem:

  • Desabilita a exportação da conversa. Isso dificulta o repasse das mensagens para terceiros e o processamento delas por IAs externas, como o klinsmann ensinou no Órbita.
  • Desabilita o download automático de mídias.
  • Por fim, desabilita o acesso à Meta AI, a irritante IA da Meta que, por padrão, pode ser invocada digitando @meta em uma conversa.

Infelizmente (mas não surpreende), não existe um botão geral para ativar a proteção avançada em todas as conversas; só dentro da opções de cada conversa.

Diante da impossibilidade de usar um aplicativo melhor, como o Signal, é uma boa opção para ativar quando assuntos sensíveis estão sendo debatidos.

Uma história de Borges sobre um cara que consegue que a IA resuma toda a informação do mundo para ele, e depois resuma o resumo, até que a IA tenha o mundo inteiro resumido em uma única palavra. Ele fica sozinho em sua mesa, encarando a palavra, repetindo-a infinitamente, certo de que está experimentando tudo.

Homem branco, de barba e cabelos compridos, com óculos; ao fundo, parede com quadros.Marcus
@marcusjmerritt.com/Bluesky

Dica do Gabriel, na comunidade do Manual no WhatsApp (um dos benefícios a assinantes).

Sensibilidades anônimas e amenas têm valor porque a música de hoje — criada e selecionada por humanos ou máquinas — costuma ser usada para fazer as pessoas não sentirem nada em vez de sentirem algo. […] Essa música não é feita para ser ouvida; ela é usada para abafar todo o resto.

Homem branco, de óculos de grau, barba preta e cabelo comprido, preto e liso. Foto em preto e branco.Ian Bogost
The Atlantic

Ian reflete o pequeno sucesso do Velvet Sundown, uma banda feita por inteligência artificial que já se aproximava de 1 milhão de músicas executadas no Spotify. “Esta é uma audição musical de segunda ordem, na qual você experimenta a ideia de ouvir música. Que melhor banda para fornecer esse serviço do que uma que nem existe?”

O Washington Post reporta o incômodo que profissionais do colarinho branco estão tendo com a presença cada vez maior de robôs de IA tomadores de notas em videochamadas. Há casos em que há mais robôs que seres humanos nas reuniões.

Este talvez seja um resultado positivo da adoção caótica de inteligência artificial nas empresas. Quando todo mundo estiver mandando robôs para videochamadas e lendo resumos em texto das mesmas, talvez esse pessoal finalmente se dê conta de que todas aquelas reuniões poderiam, de fato, terem sido e-mails.

Todas essas histórias [de IAs se comportando como humanos] têm a mesma validade intelectual de escrever “estou viva!” em um pedaço de papel, fotocopiá-lo e então dizer “Veja só! Na nossa análise, a fotocopiadora diz que está viva!”

Homem branco, cabelos curtos, óculos de grau com armação preta.Benedict Evans
Newsletter, edição 597

A história a que ele se refere é a de um “estudo” da Anthropic que notou que IAs generativas “mentem, trapaceiam e roubam” para atingir suas metas. Sim, porque foram instruídas para isto.

Fotos geradas por IA podem ser arte?

Na exposição Indomináveis Presenças, em exibição Centro Cultural Banco do Brasil, no Rio de Janeiro, até 30 de junho, são exibidas obras da artista Mayara Ferrão. Feitas com inteligência artificial generativa, elas emulam fotografias antigas a fim de “ressignificar o passado”: mulheres indígenas e escravizadas se beijando (exemplo), cenas que provavelmente ocorriam, mas de que não se tem registros por motivos óbvios.

O perfil do CCBB carioca no Instagram está batendo boca com alguns seguidores indignados com a promoção da arte criada com o auxílio da IA. Até em temas profundos, ainda sem respostas de quem vive de encontrar essas respostas (filósofos, no geral), o @ccbbrj está se posicionando:

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A era do ninguém se importa

Um dos últimos deslizes motivados por IA generativa, a indicação de livros que não existem em um “suplemento especial” dos jornais estadunidenses Chicago Sun-Times e Philadelphia Inquirer, gerou mais uma onda de críticas à tecnologia.

Dan Sinker definiu o momento como a “era do ninguém se importa”:

O autor não estava nem aí. Os editores do suplemento não estavam nem aí. O pessoal de negócios dos dois lados da venda do suplemento não estava nem aí. O pessoal da produção não estava nem aí. E o fato de ter levado *dois dias* para alguém descobrir essa cagada épica no impresso significa que, no fim das contas, o leitor também não estava nem aí.

É tão emblemático do momento em que vivemos, a “era do ninguém se importa”, onde coisas completamente descartáveis são produzidas de qualquer jeito para as pessoas basicamente ignorarem.

Ele foca na IA, mas tenho comigo que o problema é mais profundo e anterior. Suplementos do tipo já existiam antes e, embora deslizes dessa natureza fossem raros, o fato deste ter levado dois dias para ser notado implica que do lado do leitor ninguém se importa, sim, e há muito tempo, muito antes da popularização da IA generativa.

Fico imaginando quanta coisa já não foi impressa para não ser lida ou, no máximo, ser lida e ignorada. Ou, no digital, quanta coisa não é publicada não para ser lida e gerar ações ou fazer pensar, mas para preencher espaço, ganhar a atenção para direcioná-la a anúncios ou coisas do tipo.

A “era do ninguém se importa” pode ser lida como a segunda fase da revolução das máquinas de conteúdo.

Rob Horning levantou esse argumento de modo mais completo e elegante, como lhe é costumeiro:

O fato de que os LLMs conseguem gerar quantidades infinitas de conteúdo explicitamente “falso”, com os vestígios de intenção e presença humanas profundamente diluídos através de inúmeras camadas de processamento e concatenação, poderia, espera-se, desmistificar não apenas aquela posição específica do sujeito que busca refúgio seguro em “textos reais” — ou seja, um álibi num “suplemento real” para os prazeres duvidosos que tais suplementos sempre proporcionaram —, mas também a fantasia de acessar a autenticidade perfeita através da mídia.