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3 dicas para evitar o algoritmo tóxico do YouTube e suas recomendações extremistas


20/8/18 às 14h47

O YouTube, como praticamente todas as redes sociais, tem um componente algorítmico que ajuda o usuário a descobrir conteúdo novo com base em seu histórico e preferências pessoais. Como a métrica prioritária ali é engajamento, ou seja, o tempo que o usuário passa assistindo a vídeos, nem sempre as recomendações são as melhores; elas se pautam pelos vídeos que mais prendem a atenção das pessoas. Isso pode ser bastante prejudicial.

Em 2016, o engenheiro e doutor em inteligência artificial Guillaume Chaslot, ex-funcionário do YouTube, desenvolveu um sistema capaz de capturar e analisar as recomendações de conteúdo dadas pelo algoritmo do YouTube. A hipótese era de que ele privilegiava vídeos mais radicais e extremistas em relação ao que fora assistindo anteriormente.

Chaslot compartilhou suas descobertas após 18 meses de trabalho com o jornal inglês The Guardian, no início deste ano. “O YouTube é algo que lembra a realidade, mas a distorce para fazê-lo passar mais tempo online”, disse. “O algoritmo de recomendação não é otimizado para o que é verdadeiro, equilibrado ou saudável para a democracia”.

O estudo de Chaslot analisou grandes eventos, como processos eleitorais nos Estados Unidos, França e Alemanha, além de teorias conspiratórias clássicas, casos da Terra plana e da que o aquecimento global seria uma grande farsa. A pesquisa dele sugere que o YouTube amplifica sistematicamente o que é divisivo, sensacionalista e conspiratório, favorecendo quase sempre vídeos com opiniões extremadas.

Outros pesquisadores reforçam o argumento de Chaslot. A colunista do New York Times e professora da Universidade da Carolina do Norte, Zeynep Tufekci, lembra que o modelo de negócio do YouTube, que gera receita exibindo anúncios segmentados a quem assiste aos vídeos hospedados na plataforma, depende de alto engajamento. “O que mantém as pessoas grudadas no YouTube?”, ela se questiona. “Seu algoritmo parece ter concluído que as pessoas não resistem a conteúdo que é mais extremado do que o que elas estavam assistiram — ou a conteúdo incendiário em geral”.

Um exemplo da ação desse algoritmo tóxico foi visto no último sábado, dia seguinte ao debate entre os presidenciáveis brasileiros na Rede TV:

O algoritmo do YouTube pode indicar novos canais e vídeos interessantes, mas, no momento, o risco de topar com conteúdo distorcido e mal intencionado supera os eventuais benefícios. Do que se conclui que, para preservar o seu tempo (quem nunca entrou no YouTube para ver um vídeo e perdeu horas vendo dezenas de outros?) e, principalmente, a sua sanidade, talvez a melhor saída hoje seja ignorar completamente as recomendações do algoritmo.

Para isso, siga estes três passos.

1) Desative a reprodução automática

Desativar reprodução automática YouTube.

Por padrão, o YouTube inicia um novo vídeo depois que um acaba, o mesmo expediente que a Netflix adota para séries. É um truque manjado e baixo (descubra outros), mas que funciona. A inércia, afinal, é uma força poderosa. Exceto se você estiver vendo uma playlist de vídeos, essa opção mostrará o vídeo recomendado pelo algoritmo — aquele mesmo radical de que falava acima e que raramente acrescenta algo válido.

Desative essa funcionalidade. No computador/web e nos apps do YouTube, há um botão localizado acima da miniatura do próximo vídeo. Basta desmarcá-lo para impedir que o YouTube inicie o próximo vídeo quando o que está sendo exibido acabar.

Atente que essa opção não está atrelada às configurações da sua Conta Google, mas sim ao dispositivo. Isso quer dizer que você precisa desmarcá-la no computador, celular, tablet e até na TV, um a um, e ficar atento para eventuais mudanças (como uma limpeza de cookies) que podem restaurar as configurações padrões.

2) Oculte os vídeos relacionados

Essa dica é para o computador/web, já que no aplicativo do YouTube é difícil, quase impossível interferir na interface. (No iPhone, você pode desinstalar o app oficial e ficar só na web, porém.)

1Blocker sem vídeos relacionados no YouTube.

Ao abrir um vídeo do YouTube no navegador web, uma lista de vídeos relacionados aparece à direita da janela. O algoritmo, você já deve imaginar, é o que define quais.

O objetivo desta dica é não dar chance à nossa curiosidade. O que não é visto não é lembrado, logo, a ideia é sumir com essa coluna que, não bastasse a curiosidade inerente do ser humano, com frequência usam títulos e miniaturas apelativas.

Se você tiver um bloqueador de conteúdo, basta acrescentar o elemento #related no domínio youtube.com à lista de bloqueios. Em algumas extensões, o elemento deve ser escrito assim: youtube.*###related

Outra saída é recorrer às extensões de navegadores. Tem para Chrome e Firefox.

3) Desative os históricos de pesquisa e visualizações

Desativar históricos de exibição e pesquisa do YouTube.

O Google guarda todas as pesquisas que você faz dentro do YouTube e o histórico de vídeos visualizados na plataforma. Tudo. Esse material informa o algoritmo dos seus gostos e preferências, ajudando-o na seleção de vídeos recomendados.

Para interromper o fornecimento desses dados, entre nesta página e desmarque as opções “Histórico de pesquisa do YouTube” e “Histórico de exibição do YouTube”.

Bônus: despersonalize os anúncios

Os anúncios exibidos dentro do YouTube são, por padrão, personalizados. Para desativar isso, entre nesta página e desmarque a única opção que aparece ali.

Desativar personalização de anúncios Google.

Este tutorial aponta outras portas abertas que o Google deixa para coletar informações do usuário e como fechá-las.

Outros caminhos

O uso do YouTube após a aplicação dessas configurações se torna menos automatizado, porém mais consciente. A descoberta de novos conteúdos se torna ativa. É preciso seguir canais, alimentar a playlist “Assistir depois” e confiar em outras fontes — indicações de amigos, outras redes sociais, newsletters, blogs.

De tudo que o Google oferece, o YouTube é uma das coisas mais difíceis de abandonar porque concentra boa parte da produção de vídeos, dos mais amadores aos profissionais. Plataformas alternativas, como Vimeo e Facebook, não chegam perto da diversidade e riqueza do conteúdo. Porque, apesar de empurrar os extremos aos seus usuários, há muita coisa equilibrada sendo publicada no YouTube e que não recebe a mesma divulgação do algoritmo.

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21 comentários

  1. Graças a esse post! Eu não aguentava mais os comerciais do Ifood. Além disso eu já havia parado de usar Facebook por conta disso, ocupava muito de meu tempo e depois disso o YouTube virou meu lixo algorítmico, mas agora não mais. Grato, Rodrigo!

  2. é realmente muito irritante, toda vez que eu vejo um video de musica pop descerebrada para relaxar, aparece a porra do “General mourão” ou um outro demente mental da mesma linha.

  3. Fora de tópico: Rodrigo gosto muito do Manual, mas em sua newsletter de 24/08 você colocou um link para o site interceptor.com/brasil, referente à uma candidatura falsa. Acontece que o referido site é simplesmente mais criado para enaltecer a esquerda e denegrir a direita. Não acho que tenha sido uma boa sugestão de leitura, pois a título de ilustrar uma candidatura falsa, eles atacam um partido político e colocam um link abaixo sugerindo “O caminho mais seguro para derrotar Bolsonaro é óbvio, mas há quem prefira flertar com o apocalipse”, com uma foto de um conhecido político morando provisoriamente em Curitiba. Não acho que misturar um site de tecnologia com política partidária seja uma boa ideia, acaba gerando conflitos dentro do site. Abs.

  4. Meu YouTube está excepcional nas recomendações. Tanto que vídeos “alheios” vejo no modo anônimo

  5. O Youtube faz isso há quanto tempo? A propósito, boa matéria, faltando algumas semanas para as eleições.

  6. Honestamente não tenho muito o que reclamar do YT tanto logado no PC quanto deslogado na TV. As sugestões de vídeos seguem uma linha similar: música e culinária respectivamente.

    O que me aconteceu de mais inusitado foi a reprodução automática “quebrar”. Todo vídeo, no PC, independente do tema, o próximo seria Black do Pearl Jam. Durou uns 2 meses isso

  7. Difícil achar canal de direita no youtube, que não seja extremista, infantiloide e papagaio. Os que choram aqui sabem que suas ideias somente sao pregadas desta maneira.

  8. Então a pessoa não tem maturidade nem auto controle para não clicar em um vídeo que ela não quer ver e a solução é esconder as sugestões?
    Daqui a pouco vai começar a pedir censura no YouTube também.

    1. Claro, porque você, o cara maduro, certamente tem mais capacidade que uma das empresas mais poderosas do mundo e todos os psicólogos, engenheiros e profissionais que trabalham lá e se dedicam a fazê-lo ver mais vídeos. Sim, total falta de autocontrole.

  9. o complicado é que mesmo com tudo desligado, ele vai querer indicar alguma coisa. e vão ser indicações mais genéricas acho que baseadas demograficamente, que pode ser até pior.
    aqui em casa, na conta que assistimos no ps4, vemos basicamente canais assinados. meu marido se incomoda com indicações que ele não quer ver (eu só ignoro e passo). ele fez tudo isso de desligar durante meses, mas continuava aparecendo muito kondzilla, videos evangélicos, futebol, revoltados brigando com a câmera.
    o youtube poderia usar os likes e subscriptions para indicar, mas não usava.
    eu falei para ligar o histórico de novo, acho que melhorou. tem o ocasional “vc viu um video feminista, q tal ver um hater agora?” (q vamos ignorar), mas é menos do q coisas completamente não interessantes q apareciam antes. até descobrimos canais bons novos de ciencias e cinema.

    1. Também acontece aqui (não sei por que o YouTube acha que eu tenho algum interesse em Danilo Gentilli), mas ainda acho melhor manter tudo desativado. Essas indicações não mudam muito com o tempo, então fica mais fácil ignorar algo que está sempre ali, sem outros vídeos tentando furar essa barreira.

      Eu basicamente vejo YouTube pela TV, dos canais que assino. A interface ali privilegia o consumo desses canais assinados. No computador ou celular deve ser mais difícil mesmo.

      1. Tanto pra FF como Chrome tem uma extensão chamada Youtube Video Blocker (e provavelmente tem pro Safari também) que bloqueia vídeos no Youtube de acordo com keywords e wildcards (e com o endereço do canal). Problema que isso só vale para web e que implica em carregar mais uma extensão no navegador.

    2. Tenho desligado quaisquer sistemas de anúncios no meu celular. Porém conversando com a esposa próximo ao celular DELA (e o meu no quarto) EU recebi algumas sugestões no YT sobre o que estávamos falando.

      Costumo filtrar bastante os vídeos da plataforma, pois há 14 anos não sei o que é TV, mas preciso de um “gerador de entretenimento aleatório” ( com os ads e afins devidamente bloqueados), que é o YouTube. Mesmo assim ainda aparecem sugestões sobre vídeos que assisti em outro navegador e sem login.