[Review] Acer C710: quando o pioneirismo não sustenta o produto

Detalhe na tampa do Acer C710.

Primeiro Chromebook a chegar ao Brasil, o Acer C710 está perto de completar um ano no país e dois desde que foi lançado lá fora. Com sucessores já disponíveis em outros países e cada vez mais difícil de ser encontrado nas lojas daqui, optei por fazer um review mais sucinto em vez daquele tradicional. Há algo que se destaque neste equipamento? Venha comigo para descobrir.

Não fosse pelo logo do Chrome na tampa, o C710 seria facilmente confundido com os melhores netbooks — apesar de soar contraditória essa descrição. É um projeto bem conservador, com conexões legadas, um teclado bem esquisito e visual familiar. Bem familiar mesmo: pelo menos lá fora trata-se de um sabor do Aspire One, a linha de notebooks de entrada com Windows, que passou por um processo de rebranding.

As configurações são bem básicas: processador Celeron 1007U dual-core rodando a 1,5 GHz, 2 GB de RAM e um SSD de 16 GB. Todo de plástico, o Acer C710 herda algumas virtudes e uns tantos defeitos dos antigos netbooks.

De positivo, a facilidade em abri-lo para trocar o SSD e acrescentar memória, mais a bateria, que é removível. (Aos curiosos, indico a operação cirúrgica a que o Nagano submeteu o C710.) É um ponto interessante para quem gosta de mexer nas entranhas do gadget, só que é de se questionar a popularidade desse perfil de usuário — ele parece estar minguando na medida em que os notebooks ficam menores, leves e mais fechados. As portas e conexões são relativamente fartas: VGA, Ethernet, HDMI e três USB, mais a saída/entrada de áudio em um cabo só, como nos smartphones, um slot para cartão SD e a trava de mesa.

Ethernet, VGA e grade.

Ao levantar a tampa, as decepções superam as surpresas. A tela, com resolução de 1386×768 pixels dispostos em uma superfície de 11,6 polegadas, tem tamanho e densidade de pixels adequados, apresenta bom brilho e contraste, mas sofre com os reflexos e o limitado ângulo de visão, detalhe que em notebooks é mais grave do que em dispositivos menores/mais pessoais, como smartphones. Uns poucos graus desalinhado são suficientes para acabar com o contraste da tela e levá-la a um nível que a torna quase ilegível.

A tela exige o ângulo certo para não distorcer as cores.

Já o teclado tinha tudo para ser legal para essa faixa de preço. Ele desconsidera o sumiço da tecla Caps Lock em Chromebooks e a mantém no seu lugar de sempre. O botão de pesquisa fica no lugar daquele com o logo do Windows em notebooks que rodam esse sistema. Isso chama a atenção, porém não atrapalha. Problema mesmo são outros dois detalhes: o padrão internacional e o tamanho das teclas.

São raras as empresas que não localizam seus teclados ao venderem notebooks no Brasil. O C710 vem com um no padrão internacional, o que dá um nó no cérebro. (O plug da tomada, antes que alguém pergunte, é o tridente/novo padrão.) Quanto ao espaçamento, na maior parte do teclado ele é satisfatório. As teclas são dispostas em ilhas e proporcionam uma digitação, se não ótima, tranquila. O problema é que na ânsia em não deixar nada de fora, a Acer entupiu a esquerda de teclas. Kudos por trazer Page Down/Up, teclas que uso bastante e adoro, mas essa posição… Mais atrapalha do que ajuda. Mesma coisa o Enter, que divide espaço com a barra invertida e promove um festival de erros até que se memorize o layout.

É difícil acertar de primeira essas teclas minúsculas.

O touchpad só peca pela altura, que é curta. Não é fantástico, mas responde bem e funciona a contento no dia a dia. A sequência de bons touchpads em Chromebooks talvez tenha mais a ver com o sistema do que com o hardware.

Falando em hardware, o Acer C710 apresenta uma mudança fundamental em relação ao Chromebook da Samsung: em vez de vir com um SoC ARM, ele tem um processador x86, um Intel Celeron. Por melhores que sejam, as ofertas da ARM ainda não batem a arquitetura x86 em desempenho. Só que na prática não notei muitos ganhos, pelo menos não evidentes, nessa transição.

O Samsung Chromebook já era bem rápido, mostrando sinais de cansaço apenas quando muito exigido (dezenas de abas, várias multimídia); com o Celeron do C710, também não tive problemas. A leveza do Chrome OS se faz notar em todos os casos e permite que mesmo um hardware simples entregue uma experiência satisafória.

Por fim, mas não menos importante, autonomia. O processador do C710 é baseado na arquitetura Ivy Bridge, que não é lá tão otimizada para o baixo consumo — TDP de 17 watts, nesse caso. A promessa da Acer é de que esse equipamento aguenta até 4h longe da tomada, bem abaixo das 6h30 prometidas pela Samsung no concorrente direto.

Na prática, consegui em média 3h30. Não fica muito longe do tempo declarado pela fabricante, mas deixa a desejar para profissionais que vivem na estrada e nem sempre têm uma tomada dando sopa. Para um Chrome OS, deixa a desejar. Agravante: ele tem uma ventoinha, e ela entra em ação com frequência.

Google Now, agora no Chrome OS.

O Chrome OS, aliás, não mudou muito desde que testei o Chromebook da Samsung. Ele dá conta de atividades rotineiras sem maiores transtornos e não suporta plugins como Java e Silverlight — o que pode ser bom ou ruim, dependendo da sua necessidade em usá-los. Alguns web apps, principalmente os do próprio Google, podem ser acessados offline, mas para tirar total proveito do sistema é preferível que se tenha conexão.

Acer C710.

A única loja em que encontrei o Acer C710 à venda foi na Fast Shop, e cobrando R$ 1.221 por ele — pouca coisa abaixo do preço sugerido de R$ 1.299. É difícil justificar a compra de qualquer Chromebook por esse preço, ainda mais a desse: é um equipamento um tanto defasado, há problemas consideráveis, em quantidade e gravidade, de projeto (teclado ruim, baixa autonomia) e, para piorar, existe um concorrente melhor em quase todos os aspectos e bem mais barato.

A Acer ganhou pontos em ser a primeira a trazer um Chromebook ao Brasil, mas pioneirismo, ainda mais depois que o nicho passa a ser povoado por outras marcas, não quer dizer muita coisa. Já passou da hora de atualizar esse dispositivo e, se possível, trabalhar melhor o preço.

Acompanhe

Newsletter (toda sexta, grátis):

  • Mastodon
  • Telegram
  • Twitter
  • Feed RSS

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

13 comentários

  1. Desculpa,mas acho que esse produto ñ vale a pena ainda. Ele ñ mostrou ainda REALMENTE a que veio. Um SO limitado e dependente de conexão. Sem internet vira um peso morto.Conheço duas pessoas que têm Chromebooks da SAMSUNG.Ele estão AMARGAMENTE arrependidos de ter comprado isso.Enfim,acho melhor negócio comprar o NOTE normal msm,visto que faz a msm coisa que isso e muito mais.

  2. Só vim aqui para reclamar dessa zona que são os teclados: por que colocar teclas como Pg Up, Pg Down, Home e End em lugares aleatórios? Nem mesmo teclados de mesa são todos iguais e, geralmente, é de difícil acesso se você está digitando. A solução da Apple é bem melhor: command + seta. Intuitivo e fisicamente próximo da área de digitação.

  3. Ô Ghedin, viajando aqui… porque não faz o “review do usuário”? Dentre os assinantes, garimpa um dos que topam para passarem uma semana com gadgets mais básicos. Todo mundo sai ganhando: o usuário assinante que pagou por um diferencial, o não assinante que vai ler uma opinião de um “leigo” como ele (além de ser tentado a assinar por esse plus), e o Manual por terceirizar gratuitamente.

    1. Não é uma ideia ruim, @jootudo:disqus, mas tem dois problemas que a torna inviável:

      1) Perde-se consistência nos reviews. Tem um monte de gente que morre de amores por gadgets que detonei aqui. O ponto é: quem lê um review do Manual do Usuário sabe a linha que eu sigo e eu escrevo todos eles tendo uma visão panorâmica de todos. Consistência, eu e os leitores perderíamos isso.

      2) As assessorias vedam o empréstimo de gadgets de testes. Não posso repassar a ninguém sem o aval delas e entendo a preocupação — são coisas geralmente caras. Talvez com jeitinho até conseguisse fazer isso funcionar, mas demandaria uma burocracia enorme, acompanhamento, edição etc… No fim, acho que trabalharia mais do que apenas usando e analisando, como faço hoje.

  4. Esses Chromebooks nessa faixa de preço não parecem um bom negócio, considerando que nem slot 3g possuem. Deveriam custar no máximo uns R$1000.
    Qual o apelo para o público? Seria de início o preço, a leveza e a praticidade do OS, mas uma vez que não são baratos e o sistema funciona bem de verdade apenas conectado, realmente não vejo a razão de comprá-lo.
    Minha namorada até cogitou de comprar um da Samsung, mas a desencorajei por essas razões. Por pouco mais de 1400 pegou um ultrabook da lenovo (com touch inclusive!). Está super feliz com o produto.

      1. Ahnm aí a história é outra. Valeria a pena como um dispositivo para levar para a aula e fazer anotações e edições rápidas.

    1. Eu também achava isso, antes de passar a usar um ABNT — e isso tem mais ou menos uma década :-)

      Em ambos os casos, é questão de costume. Com a prática, tanto o internacional quanto o ABNT são bons de digitar. A minha crítica se deve pelo Acer C710 destoar da praxe no Brasil. Deve ser frustrante para quem usou ABNT a vida toda e nunca mexer em um internacional se deparar com esse. (Basta ver as reações de quem compra um MacBook sem nunca ter usado outro antes e se enrola todo com a acentuação.)

      1. Considerando que estou na área de desenvolvimento, profissionalmente, desde 1999, já vaguei entre o ABNT e Internacional várias vezes.

        Estou satisfeito desde 2009 com teclado internacional, principalmente os da Apple.

        Atualmente só uso meu macbook, e minha digitação é excelente e rápida.

        ABNT só quando tenho que ir sofrer em visitas a clientes. O mesmo vale para o Windows.

      2. Eu msm fiquei PERDIDO logo de cara com o teclado do MACBOOK. Depois de 3 dias me acostumei.KKKKKK
        Mas ainda prefiro o ABNT,como vc disse é questão de costume.

Do NOT follow this link or you will be banned from the site!