Mate X em três estágios entre os formatos dobrado e aberto.

2019 é o ano dos celulares esquisitos


25/2/19 às 14h35

Fevereiro é o mês mais agitado do ano para a indústria de telefonia móvel. É quando a Samsung tradicionalmente apresenta o novo Galaxy S — neste, quatro modelos — e acontece o Mobile World Congress (MWC), principal evento do setor, em Barcelona, na Espanha. Em 2019, uma combinação de fatores fez com que fevereiro fosse meio estranho. Um fevereiro de celulares estranhos que pode estar dando o tom de que 2019 será esquisito (de um jeito bom) nesse setor.

Desde que o iPhone foi apresentado ao mundo, em 2007, o formato do celular não mudou muito. Trata-se de um retângulo fino com um dos lados quase todo preenchido por tela. Antes disso, a então líder do setor, a Nokia, pirava com uma diversidade de formatos dos seus celulares simples e smartphones primitivos de fazer inveja a Darwin: formatos redondos, mini-computadores com teclado físico completo na parte interna, video games com microfone e saída de som em locais inusitados.

Quatro modelos de celulares diferentes da Nokia, lado a lado.
Nokia 6800, 7600, N90 e 7280: bons tempos. Fotos: Nokia/Divulgação.

Nos dez anos pós-iPhone não se viu nada parecido com a invencionice da velha Nokia, mas seria injusto dizer que foram anos absolutamente parados. A chegada do 4G, com suas antenas grandes e a necessidade de mais bateria, fez os celulares crescerem fisicamente por volta de 2013, tendência que nem a Apple, que já fizera troça do gigantismo de celulares concorrentes, conseguiu escapar eventualmente. Também vimos tentativas frustradas de emplacar tecnologias questionáveis, como o 3D e a holografia. Do LG 3D ao Hydrogen One da Red, passando pelo FirePhone da poderosa Amazon, nenhum conseguiu se provar verdadeiro avanço perto das telas simples e acabaram varridos para baixo do tapete da história.

Os primeiros dobráveis

Voltei ao tempo para falar de agora, fevereiro de 2019. Se esta edição do MWC servir de termômetro para os anos que virão, alguém mais otimista pode apostar que estamos prestes a engrenar uma nova era de celulares malucos. Tudo dependerá, como sempre, da resposta do consumidor.

Entramos em 2019 na expectativa de ver os primeiros celulares com telas dobráveis, a resposta que a indústria apresenta ao desafio de entregar telas maiores ao consumidor sem comprometer a portabilidade dos aparelhos. A Samsung apresentou o seu, o Galaxy Fold de US$ 1.980, na última quarta-feira o modelo mais bem acabado do tipo. O reinado durou pouco.

A Huawei, que tem surpreendido com uma consistência que já periga se tornar obrigação enquanto luta para convencer o mundo de que não é ferramenta de espionagem do governo chinês, mostrou o Mate X à imprensa e, este sim, parece um negócio que alguém pode imaginar-se usando. Veja o vídeo oficial de divulgação:

O Mate X tem 11 mm de espessura fechado. Aberto, meros 5,4 mm, em linha com os tablets mais finos do mercado — iPad Pro e Galaxy Tab S5e. Ele usa uma tela só, externa, de 8 polegadas que se dobra para criar duas de pouco mais de 6 polegadas. As câmeras estão posicionadas de modo a estarem sempre do lado de trás de onde o usuário está usando. Vai tirar a selfie? Tudo bem, há uma tela (a mesma tela) atrás também, ao lado das câmeras.

Essa brincadeira custa caro, mais do que o Galaxy Fold. A Huawei está pedindo US$ 2.600 pelo Mate X. Se tomarmos o Galaxy Fold como referência, o extra parece racional — é, sob qualquer aspecto, um produto melhor. Mas não será nesse patamar que os celulares dobráveis ganharão o mundo. O que não é problema, porque o que não falta neste começo de 2019 é celular interessante — e maluco, para os desejosos por algo diferente.

O caminho do 5G

Coreia do Sul e Estados Unidos já têm redes 5G para clientes corporativos que só estão à espera dos primeiros celulares compatíveis para serem oferecidas ao público geral. Segundo relatório da GSMA, 79 operadoras de 50 países já anunciaram planos de lançarem redes 5G até o final de 2020. (O Brasil não consta na lista.)

Os maiores impactos do 5G devem ser em M2M (comunicação entre máquinas), Internet das Coisas e outras aplicações que vão desde a sua torradeira até o sistema de transportes de cidades inteiras. Mas, obviamente, celulares não serão deixados de lado.

Os que já foram anunciados até o momento têm uma característica comum: são enormes. O menor deles é o Mi Mix 3 5G, da Xiaomi, com tela de 6,39 polegadas e 15,79 cm de altura. O maior é o Galaxy S10 5G, com tela de 6,7 polegadas (quem precisa de tela dobrável?) e 16,26 cm de altura.

Com uma capinha, o V50 ThinQ ganha outra tela.
Foto: LG/Divulgação.

No meio está o curioso V50 ThinQ 5G, da LG (acima). À primeira vista, é um celular mundano, sem nada que o destaque em meio a tantas inovações. Mas um acessório, chamado Dual Screen, lhe concede uma segunda tela, como se ela estivesse conectada a uma capa. É uma abordagem mais pragmática e que deverá custar bem menos do que os aparelhos com telas verdadeiramente dobráveis. Suficiente para livrar a LG do seu eterno papel de coadjuvante? Pouco provável. Mas curioso — e, nesta lista, é isso o que importa.

Quantas câmeras são o bastante?

As cinco câmeras nas costas do Nokia 9 PureView.
Foto: Nokia/Divulgação.

A Nokia, que ressuscitou como marca de celulares em 2016 pela mãos da HMD Global, apresentou no MWC o Nokia 9 PureView, um aparelho com cinco câmeras nas costas.

Ao contrário do Galaxy S10 e da maioria dos celulares com mais de uma à disposição do usuário, aqui elas têm todas a mesma resolução (12 megapixels) e distância focal (28 mm). Duas delas têm filtro colorido, como qualquer câmera convencional. As outras três são em preto e branco, capazes de captar mais luz. Cada foto feita no aparelho é capturada pelas cinco lentes ao mesmo tempo (algumas vezes, mais de uma imagem por lente) e combinadas a fim de gerar imagens mais bonitas.

Efeitos de profundidade ficam mais realistas. A HMD Global diz que uma câmera comum de 12 megapixels consegue gerar cerca de 10 camadas de dados de profundidade para fazer uso desse recurso (tecnicamente conhecido como “efeito bokeh”). O Nokia 9 PureView produz 1.200 camadas. O objetivo, afinal, é tratar este aparelho como se fosse uma câmera real com uma lente prime (fixa) de alta qualidade. Parece que conseguiram.

“Parece um controle remoto”

Mão segurando o Xperia 1.
Uma tela loooonga. Foto: Digital Trends.

Em 2016, as telas dos celulares cresceram e mudaram de proporção, passando do padrão de TVs (16:9) para um mais alongado, o 18:9 (ou 2:1, se você preferir contas mais simples).

A Sony, em sua contribuição para este início de 2019 de celulares esquisitos, esticou ainda mais os novos Xperia. Eles têm telas com proporção 21:9, similar à dos cinemas. Como disse um repórter do The Verge, “parece que estou segurando um controle remoto”.

O Xperia 1 se gaba, além da telona esticada de 6,57 polegadas, de ser a primeira com resolução 4K e HDR, supostamente a primeira em um celular. Se pensarmos em feeds, textões como este que você está lendo e outras interfaces que transcendem a altura das telas, faz sentido. Problemas aparecem ao tentar alcançar elementos no topo da tela, algo corriqueiro em qualquer sistema operacional. Idealmente, não deveria serem necessárias duas mãos para simplesmente ver as notificações, certo?

Além do Xperia 1, que, dizem alguns rumores, terá sugerido de US$ 1.099 (outra tendência, essa triste, é a dos quatro dígitos em dólar dos topos de linha), a Sony também tem outros dois modelos com telão, mas configurações mais mundanas e provavelmente preços também: o Xperia 10 (tela LCD de 6 polegadas) e o Xperia 10 Plus (tela também de LCD com 6,5 polegadas).

Não parece, mas esquisito também

Pessoas mexendo as mãos em frente ao celular da LG para desbloqueá-lo.
Se o G8 ThinQ for popular, cenas como esta serão comuns. Foto: LG/Divulgação.

Mesmo os celulares que aparentam normalidade têm truques únicos na manga. Ou firulas — recursos que parecem legais em apresentações, mas pouco práticos para o dia a dia.

Alguém que veja o LG G8 ThinQ de relance pode confundi-lo facilmente com o LG G7 ThinQ, de 2018. O design é muito parecido e, para início de conversa, não é lá dos mais inspirados — entalhe no topo e bordas mínimas, como quase todos os aparelhos do ano passado.

O G8 ThinQ tem duas coisas bem originais. Primeiro, um alto-falante na própria tela. Não há furinhos nem caixa de som no topo; o som se faz através de vibrações da tela, como acontece com algumas TVs da Sony. Dizem os que experimentaram que ele não é muito alto, mas suficiente para ser audível.

A outra inovação é o que a LG chama de “Hand ID”, no que parece ser uma referência ao Face ID da Apple. Como o nome sugere, em vez do seu rosto a câmera frontal do G8 ThinQ reconhece a palma da sua mão e é capaz de distingui-la de todas as outras. Isso é possível graças a uma “ToF camera”, câmera capaz de detectar a distância baseada na velocidade da luz e na mensuração do tempo que um sinal luminoso leva para percorrer a distância entre a câmera e o que aparece em cada ponto da imagem. Ela detecta os vasos sanguíneos da palma da mão e cria uma assinatura única, que serve para autenticar o uso do celular.

Além de desbloquear o sistema balançando a mão na frente do celular, o G8 ThinQ também executa comandos simples, como abrir apps e ajustar o volume, com movimentos — no segundo caso, girando um dial imaginário no ar. É… interessante e potencialmente útil para interagir com o celular enquanto ele está sobre a mesa, mas parece o equivalente moderno daqueles controles remotos que vinham em kits multimídia de computadores dos anos 1990, uma época em que os monitores eram tão ruins que não permitiam o uso a mais do que um metro de distância.

O que vem por aí

Em 2018, foram lançados 400 celulares com Android no mundo inteiro. Ainda assim, esse mercado encolheu pela primeira vez em volume de vendas — segundo a GfK, o faturamento aumentou porque os preços subiram. Estamos no ponto de inflexão de uma indústria que rapidamente se acostumou a inovar em em um ritmo insano e que, agora, se vê pressionada a acelerar.

Boa parte dessas ideias malucas não encontrará respaldo junto ao consumidor. É do jogo. Mesmo embasadas por muita pesquisa, as fabricantes sabem que o risco faz parte do negócio e que nem tudo que aparece como demanda reprimida em gráficos e relatórios se transforma em produtos comerciais de sucesso.

As ideias mais malucas ganham manchetes e o imaginário dos entusiastas, mas não é como se os celulares “normais”, mesmo aqueles com bordas grossas que eles (e parte da imprensa) se apressam em tachar como defasados, de fato o fossem. Eventos como o MWC cada vez mais se assemelham às fashion weeks, à alta moda, ou seja, apresentam tendências exageradas que, com o tempo, alguns ajustes e a depender de fatores externos, chegarão aos celulares populares, que eu e você poderemos usar sem qualquer comprometimento.

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3 comentários

  1. “Eventos como o MWC cada vez mais se assemelham às fashion weeks, à alta moda, ou seja, apresentam tendências exageradas que, com o tempo, alguns ajustes e a depender de fatores externos, chegarão aos celulares populares, que eu e você poderemos usar sem qualquer comprometimento.”

    Acho que esse sempre foi o espirito desse tipo de evento, as empresas sabem que precisam de alguma forma chamar atenção, seja com utilidades que fazem sentido ou perfumarias estupidas que no fim, são uma grande piada (Sim, estou falando de você LG)!

  2. Independente do pq eu acho legal quando lançam coisas assim. Se for bom a moda pega, e barateia a tecnologia. Se for ruim alguém melhora. O importante, sempre, é que seja lançado, que tentem algo, que não deixem que caia na monotonia. A última que passei foi com o iPhone 7, que foi igual ao 6 e antecede o 8 com a mesma experiência. Gosto de ver ousadia. Samsung se ferrou no Note 7 e o mercado aprendeu, e ela pega a dianteira com a linha S8. Já diz o ditado: ‘Quem não arrisca não petisca’

  3. O desespero bateu à porta, ou é impressão minha. Está parecendo aquele tempo de TVs 3D ou TVs curvas. Novidades mirabolantes para tentar seduzir o consumidor. Mas essas novidades não parecem muito convincentes. Esses aparelhos dobráveis são caros e tem uma aparência de protótipo. Agora é esperar pra ver se a moda pega.