A volta dos que não foram: Galaxy Note 8


23/8/17 às 20h50

Em março deste ano, quando após o lançamento do Galaxy S8 e S8+ nesta mesma Nova York eu perguntei ao André Varga, diretor de produtos da Samsung, se a linha Galaxy Note ia morrer ou pelo menos mudar de nome, ele franziu a testa como quem duvida da pergunta e, ainda incrédulo, disse não. Aquela imagem ficou marcada na memória. Para mim, parecia que algo deveria mudar depois de tão grave erro.

Desde que os problemas de bateria do Galaxy Note 7 começaram, há quase um ano, e diante da decisão pelo fim da comercialização em vários países, passou de fato pela minha cabeça que a linha, pelo menos com esse nome, pudesse acabar — afinal, se o prefixo Galaxy já causa confusão, imagina o Note depois dessa crise toda. Mas diante dos esforços da Samsung de criar novos processos, de reaproveitar alguns componentes remanufaturando aparelhos até lançar uma Fan Edition, da segurança do executivo brasileiro e dos inúmeros pedidos de desculpas que se seguiram ao ocorrido, acreditei que o Note não morreria. E ele não morreu. Ainda bem.

O “ainda bem” poderia ser pessoal, afinal eu mesma sou uma fã de Galaxy Note desde a versão 4, quando o aparelho ainda tinha aquela traseira de plástico horrível. Eu nunca tive um Note, mas desde sempre foi um aparelho que cogitei comprar porque realmente gosto da caneta. No evento de lançamento do Galaxy Note 8, percebi que não estava sozinha: quem gosta de Galaxy Note, gosta mesmo (né, Samir?), tanto que prefere dar uma segunda chance à empresa que errou (feio e rude) com um dos aparelhos mais promissores da época, do que comprar outro modelo ou um smartphone de outra marca.

A Samsung, é claro, não abre números, mas para fazer um evento para mais de 1.500 pessoas (cerca de 700 jornalistas) no Park Avenue Armory, um prédio do século 19 que é meio palácio, meio galpão, é porque existem usuários, clientes, consumidores ou ainda fãs da linha e eles são muitos. Se lá em 2011, quando nasceu, o Note era um produto de nicho, hoje ele é uma opção diferenciada para quem compra topo de linha, mas está mais interessado em funcionalidades do que no design ou apenas em câmeras.

Mas voltando ao meu ainda bem, ele vale mesmo é para a indústria e para o mercado de tecnologia como um todo. Primeiro, porque o Note foi uma aposta da Samsung, no início mais na tela grande do que na produtividade, mas hoje basta pegar a caneta na mão e testar seus recursos para ver que ela realmente tem sentido de existir e que, a cada ano que passa, ela fica mais útil para o usuário: tradução e conversor de moedas (online), criação de gifs e atualização do recurso que permite você escrever na tela quando ela está desligada (podendo chegar até 100 páginas de notas) fazem parte das novidades apresentadas junto ao Galaxy Note 8. Isso sem falar em escrita na tela, na seleção inteligente e no app de notas.

De certo modo, e pensando nos concorrentes, o Note 8 é a melhor prova, mais até do que o S8 — que por muito tempo correu atrás do iPhone em termos de câmeras e design — que a Samsung é capaz de criar algo próprio e, pelo menos por enquanto, único. Pare e pense: quem é o concorrente do Galaxy Note 8 hoje? Eu diria que mais o Galaxy S8+ da própria Samsung, que não tem caneta, mas tem uma tela de 6,2 polegadas e 3.500 mAh (contra uma tela de 6,3 polegadas e bateria de 3.300 mAh do Note 8), do que o celular de qualquer outra marca que seja. Para o mercado e para a indústria, seria muito triste que um produto com a evolução do Note acabasse.

Mas o ainda bem também diz respeito à postura da Samsung frente à crise toda. Eu, pessoalmente, tenho algumas regras para esse tipo de situação e por isso talvez tenha admirado as atitudes da empresa. A primeira é que antes de entrar em desespero, sou a favor de se tentar buscar uma solução. Mas, se não há remédio, o passo seguinte é, sim, admitir o erro. E a Samsung fez os dois, desde o princípio: primeiro tentou consertar o problema de bateria das unidades que já tinham sido vendidas, mas diante da impossibilidade de prever que unidades teriam o mesmo problema, visto que ambos os lotes de bateria apresentavam defeitos, fez o recall. E, caras, vocês devem saber, mas recall global é o maior pesadelo de qualquer empresa. Aliás, se o problema não fosse na bateria, um componente que, bem, pode explodir mesmo, é muito provável que o recall não tivesse acontecido. Defeitos em produtos existem e já vimos outras empresas fazerem apenas trocas porque a antena não funcionava. Mas como com bateria não se mexe, o jeito foi cortar o mal pela raiz e tirar o produto de circulação mesmo, fazendo explodir a crise de confiança na marca.

Em janeiro, com todos os produtos sendo recolhidos, a Samsung prestou contas à sociedade em um evento específico para contar o que aconteceu, como aconteceu, e o que aconteceria dali para frente com o controle de qualidade da bateria. Em todos os eventos globais, pedidos de desculpas: CES, MWC e Galaxy S8. Virou até piada entre os jornalistas. No lançamento do Note, não poderia ser diferente: mas além de pedir desculpas, a Samsung agradeceu a comunidade de usuários do Note que mesmo decepcionados com a marca deram uma nova chance ao produto, fãs que no Brasil, por exemplo, esperam por um novo aparelho desde 2015, quando o Galaxy Note 5 foi lançado, alguns desde 2014, ano do Galaxy Note 4. A Samsung nunca vai esquecer o ano de 2016, isso é um fato, até porque essa obsessão por qualidade foi o que transformou a Samsung no que ela é hoje. Assim como sua paranóia por inovação, que talvez tenha atropelado o passo.

Foi na década de 1980 e, de certa forma, aquela crise foi importante para transformar a Samsung na líder global que é hoje e para guiá-los nessa verdadeira bomba que foi o Galaxy Note 7. O episódio ficou conhecido internamente e exeternamente como Reunião de Frankfurt e é realmente emblemático. Uma reportagem da Época Negócios, de 2010, quando a Samsung estava investindo em um celular chamado Wave que ninguém deve se lembrar e em um sistema operacional de nome Bada, antes mesmo do Tizen, dá detalhes:

Para chegar a esse ponto, Lee [presidente da Samsung] envolveu-se pessoalmente em questões de qualidade. Contratou seis conselheiros estrangeiros para analisar cada processo da empresa e como se poderia avançar. Mandou filmar linhas de montagem e detectou a origem de erros na produção de máquinas de lavar. Convocou quase 2 mil executivos dos quatro cantos do mundo para uma reunião em Frankfurt, na Alemanha. Forças-tarefas foram mobilizadas para traçar uma estratégia. As mudanças atingiram até o horário de expediente. Em vez de iniciar às 8h30 e encerrar às 18h, foi permitido que os funcionários entrassem uma hora e meia mais cedo e saíssem às 16h. Assim teriam mais tempo para estudar, com benefícios claros para a companhia. Hoje, 10% da força de trabalho da Samsung na área de Pesquisa e Desenvolvimento é formada por Ph.Ds. 

Se na década de 1980 a Samsung aprendeu que qualidade era imprescindível e que cada reclamação de cliente importa, em 2016 pode se dizer que a sul coreana percebeu que pode ser mais humana, tentando consertar e mesmo assim falhando, assumindo seus erros e lutando pelo que acredita, no caso, o Note 8.

Como diz na minha terra, não está morto quem peleia.

Mas, afinal, o Galaxy Note 8 vale?

Para a Samsung, certamente sim. Não fazia sentido desistir de um produto que nasceu como nicho, se transformou em laboratório para novidades que, posteriormente, aparecem no Galaxy S — a tela enorme em um smartphone (Note), a conexão USB 3.0 (Note 3), o acabamento mais refinado com moldura de metal e a tela QHD (Note 4), as bordas curvas (Note Edge), scanner de íris (Note 7) e, agora, a câmera dupla –, e hoje ocupa o topo ao lado da linha Galaxy S.

Essa, aliás, é a principal novidade do Galaxy Note 8, que tem configurações de hardware bem semelhantes ao Galaxy S8, mas câmera traseira dupla com resolução de 12 megapixels. Uma das lentes é grandeangular, com abertura f/1.7 e distância focal padrão, enquanto o outro sensor é acompanhado por uma lente teleobjetiva, com abertura de f/2.4, que permite zoom óptico de 2x. Além dessa novidade, uma inovação: as duas câmeras tem estabilização óptica e, para evitar que pessoas tipo eu coloquem o dedo na câmera quando forem usar o sensor de digital na traseira — que eu detesto –, há um espaço separando as lentes do sensor. Graças a essa tecnologia é que a Samsung pode anunciar seu Foco Dinâmico, que permite que o usuário faça foto de pessoas com o fundo borrado atrás, como já faz o iPhone. A câmera frontal de 8 MP e tem abertura de f/ 1.7.

Outro destaque do Note 8 são as novas funções da S Pen: além de ajudar na tradução de textos e de converter moedas e medidas quando o aparelho está online, ela permite que o usuário faça GIFs com textos ou escreva em cima de imagens e mande mensagens personalizadas para seus contatos. São as chamadas, adivinhe, mensagens animadas. O mais legal, porém, é que agora a funcionalidade de escrever no smartphone com a tela apagada é quase sem limites: você pode escrever até 100 páginas de anotações na tela apagada. E, mais do que isso, pode deixar suas anotações ali, na tela Always On Display, como se fosse um lembrete, um post-it virtual.

Anunciada com o Galaxy S8, a Bixby não chegou a 200 mercados no dia 21 por acaso. Foi bem a tempo do Galaxy Note 8 e do seu evento. Algumas novas funções foram anunciadas, como a possibilidade de gravar ações rápidas no botão dedicado e de deixar a inteligência artificial organizar suas fotos, por exemplo. Por enquanto, a assistente virtual por comando de voz só entende coreano e inglês, mas ei, em breve, vai ser integrado ao Spotify. Ok, veremos se funciona antes. Por enquanto, sem previsão dela falar em português.

Pouco maior do que o Galaxy S8+ e com menos bateria — tela de 6,3 polegadas e 3.300 mAh, o Galaxy Note 8 herdou muitas especificações da linha S: tela Quad HD+ (2960×1440) Super AMOLED; IP68 (inclusive na S Pen e no espaço da caneta); processador Samsung Exynos Octa core; armazenamento de 64GB, de 128GB ou 256GB, todas expansível por microSD, bandeja Dual SIM híbrida, 6 GB de RAM; sensores como leitor de íris e de impressão digital (infelizmente na traseira), NFC e MST (Samsung Pay), entrada USB-C e para fone de ouvido de 3.5mm.

As cores, porém, mudaram um pouco e eu tive que abandonar minha preferência pelo azul, que está mais claro do que antes. O Ametista está mais para o bege, o cinza ou um furta cor, o preto continua preto e o dourado, bem, finalmente eu gostei de um smartphone dourado. 

Na minha mão, continua grande ainda que a proporção 18,5:9 ajude na pegada. E aquele leitor de digital ainda está na parte de trás, e não na frente como deveria ser. Essa é uma decisão que eu vou continuar questionando, até que eles mudem como fizeram com a interface do sistema operacional que era horrível e hoje está tão melhor que eu quase não lembro de mencionar a TouchWiz. A câmera traseira promete muito mais com as duas lentes (olha que as câmeras de S7 e S8 são muito boas), mas para mim ficou faltando aquele recurso da concorrente sul coreana que permite que o usuário escolha com que lente vai fazer a imagem. Para cobrir esse evento eu usei bastante esse recurso, aliás. Fica a dica, Samsung.

O Galaxy Note 8 chega aos principais mercados no dia 15 de setembro, o que nos dá alguma esperança de ver o Brasil incluso nesta data. Mas sem saber o preço exato (nos Estados Unidos está na casa dos US$ 900, logo, quase R$ 4.000 na conversão direta), é difícil dizer se vai valer o investimento. Afinal, será bem caro. E como opinião de fã não vale, limito-me a dizer que não é o aparelho perfeito, provavelmente tem mais defeitos dos que mencionei, mas ainda bem que ele existe.

*Emily viajou à convite da Samsung e também escreveu para a Gazeta do Povo.

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