Uma alternativa ao YouTube

Foto em close do logo do YouTube no site, com a moldura da tela do notebook visível.

Em dezembro de 2020, quando pensava o próximo ano do Manual do Usuário, decidi que faria vídeos. É um formato popular, acessível e, imaginava, com potencial para alcançar um público maior, que talvez não conheceria o meu trabalho de outra forma. No meio do caminho, porém, havia um obstáculo: o YouTube.

Desde que relancei o Manual, no início de 2019, temos como política interna reduzir ao máximo a dependência da chamada Big Tech, as grandes empresas de tecnologia. Porém, Google, Amazon e Facebook estão embrenhadas na estrutura da internet, de modo que escapar delas é difícil, às vezes impossível.

Apesar do desafio, com a ajuda inestimável do James Pond, da Cipher Host, temos feito um bom trabalho de contornar as facilidades atraentes e baratas da Big Tech para manter este site no ar com a melhor qualidade possível. Tudo corria tranquilamente nesse departamento até tomar a decisão de publicar vídeos na internet. Quando estruturava essa nova área, não consegui dispensar o YouTube.

É verdade que existem outras plataformas de vídeos, como Vimeo e Dailymotion, mas elas carecem de um fator exclusivo do YouTube e que, em grande parte, justificava todo o trabalho extra que teria com o novo formato: pessoas. Se o objetivo dos vídeos era/é alcançar novos públicos, estar no YouTube é quase obrigatório. Questione-se os motivos, mas o YouTube é, hoje, sinônimo de vídeos com mais de 15 segundos na internet.

Assim, fiz um canal no YouTube. A recepção de quem já acompanhava o Manual foi boa, chegamos a pessoas que não acompanhavam o site, tudo dentro do planejado — incluindo aquele desconforto de ter mergulhado nossa frente de vídeos no ecossistema do Google.

Embora tenha sido manifestado publicamente em maio, neste Guia Prático e à luz da notícia de que o Google passaria, no mês seguinte, a veicular anúncios mesmo em canais não elegíveis sem dividir receita — caso do do Manual —, a ideia de oferecer uma alternativa ao YouTube para os nossos vídeos sempre esteve na mesa. E, após muita pesquisa e reflexões, nesta quarta (14), isso se tornou realidade.

A partir de agora, e em breve para todo o acervo de vídeos do Manual, será possível assistir aos nossos vídeos aqui no site, em um player próprio. Veja como ficou o primeiro:

A solução adotada é da Bunny, CDN que já usávamos para entregar elementos da interface do site. Esse produto cumpre uma série de demandas modernas que são esperadas pelas pessoas, como múltiplas resoluções de vídeo e adequação automática da melhor delas para a velocidade de conexão, um player de vídeo com vários controles e, claro, velocidade. Quem preferir a versão do site não estará perdendo nada, em termos técnicos, à do YouTube.

Do nosso lado, eu perco algo que adiou essa novidade por algumas semanas: dados de audiência. O YouTube, sendo de quem é (Google), entrega dados até demais: sei quantas pessoas assistem aos vídeos, por quanto tempo, de onde elas vieram e aspectos demográficos da audiência, como gênero e idade. A Bunny só informa o tráfego gerado pelos vídeos, o que não diz muita coisa, mas é importante na nossa relação porque é o critério de cobrança usado pelo serviço.

Em junho, refleti muito sobre essa perda. E concluí o óbvio: que numa escala de prioridades, a privacidade e o bem-estar de quem nos acompanha deve estar acima dos dados de audiência. Que importa se não os teremos? Livrar-me dessa expectativa era o que faltava para trazermos os nossos vídeos para dentro de casa.

Os vídeos continuarão saindo no YouTube em paralelo, ao mesmo tempo. Afinal, o objetivo deles é alcançar novos públicos, por isso a presença no YouTube é, de certa forma, estratégica. Mas eles também são feitos pensando no(a) leitor(a) que já nos acompanha. Num cenário ideal, as pessoas nos “descobrem” pelo YouTube e passam a acompanhar o site pelo… site. E agora, se um dia o YouTube não estiver mais cumprindo seu objetivo ou pisar feio na bola, será bem mais fácil abandoná-lo já tendo o nosso acervo aqui.

Com esse pequeno passo, o Manual mais uma vez se posiciona em favor da descentralização da web e contra as grandes plataformas monopolistas de tecnologia. Hoje é difícil, mas com pequenas atitudes como esta a gente espera que amanhã seja menos difícil e, um dia, talvez, que seja fácil virar as costas ao Google sem que isso implique em experiências pioradas ou negócios inviabilizados.

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Foto do topo: NordWood Themes/Unsplash.

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18 comentários

    1. O lance do Lbry é que é um serviço que você roda no seu computador ou em um servidor (e garante controle total do processo).

      Se quiser ter menos trabalho, tem uma instância pública que é o Odysee (https://odysee.com/). Pode ser uma alternativa interessante pra quem só quer se preocupar em publicar e mais nada.

      1. Acabei não utilizando muito por conta do tempo de resposta de acesso que é alto, deixa um pouco lento o consumo do conteúdo ainda, acredito que não tenham um espelho/cache aqui no Brasil ou Latam. O proprio conteúdo é muito restrito, não se encontra muitas coisas do nosso país por lá, isso muda conforme a adesão. Mas eles fornecem API o que em tese permite criar um serviço (web app por exemplo) em cima do serviço deles. Se isso relmente ocorrer e for realmente “Livre” e realmente tiver controle independente, há muito potencial nesse serviço.

  1. (repostando)

    Faz algum tempo que concluí que o YouTube não tem concorrentes a altura – no sentido de ser uma “rede social” com vídeos, que permite comentários, inscrições e notificações, e não simplesmente um site de vídeos. Pode até existir, mas não chegam a ter uma fração da audiência do YouTube, e isso meio que explica o “monopólio” do Google nesse setor.

    E não faltam big techs que poderiam investir em algo do tipo. As poucas alternativas que consigo pensar (como o Facebook Watch por exemplo), são tão aquém que não faz sentido as empresas, com o porte e dinheiro que elas tem, não terem desenvolvido algo melhor. Então me pergunto, por que o YouTube ainda não tem concorrentes a altura?

    1. Só consigo imaginar que seja porque o retorno financeiro não vale o investimento. Pra ter a capilaridade do YouTube, vai precisar um mega investimento, esforço em acordos, etc, e o retorno não é garantido.

      Essas empresas (Facebook por exemplo) devem saber que vale mais a pena investir em outros recursos que trazem maior retorno.

  2. Parabéns por mais este passo, Ghedin. Fico realmente muito feliz em poder acompanhar o MdU neste rumo que está sendo seguido. Sei o quão importante atitudes como esta podem ser. Simbora, meu caro! \o

    1. Faz algum tempo que concluí que o YouTube não tem concorrentes a altura – no sentido de ser uma “rede social” com vídeos, que permite comentários, inscrições e notificações, e não simplesmente um site de vídeos. Pode até existir, mas não chegam a ter uma fração da audiência do YouTube, e isso meio que explica o “monopólio” do Google nesse setor.

      E não faltam big techs que poderiam investir em algo do tipo. As poucas alternativas que consigo pensar (como o Facebook Watch por exemplo), são tão aquém que não faz sentido as empresas, com o porte e dinheiro que elas tem, não terem desenvolvido algo melhor. Então me pergunto, por que o YouTube ainda não tem concorrentes a altura?

    2. Ops Diego, foi mal. Meu comentário não era pra ser resposta ao teu… Acho que cliquei no botão Responder errado sem querer.

      Ghedin, se quiser pode deletar. Vou repostar em um comentário a parte.

  3. Obrigado por esse texto!

    Vi o vídeo lá no outro artigo e achei o player muito bonito, cairia como luva num projeto que tô trabalhando. Olhei o código fonte do manual para descobrir de onde ele era (o iframe é um tal de mediadelivery.net o que não ajudou muito), cheguei até a ver um link para um buraco negro (e confesso que fiquei com vontade de clicar pra ver o estrago). Mas a resposta tava aqui o tempo todo. =D

  4. A um tempo atras fiz um projeto mais longo de alternativa ao Youtube de baixo custo, a combinação foi:

    Para conversão:
    – Coconut (https://www.coconut.co/) Que tem uma API super simples com uma cota gratuita e faz conversão em diversos formatos.
    A plataforma baixava de uma URL de origem (até mesmo um dropbox), faz conversão e enviar diretamente para um ftp ou s3.

    Para storage (1 ou 2):
    1 – A BackBlaze (https://www.backblaze.com/) que tem um custo de storage e envio extremamente baixo, mas com servidores somente nos EUA
    2 – Spaces da DigitalOcean (https://www.digitalocean.com/products/spaces/) que tem custo de storage muito baixo, mas permite colocar um CDN na frente.

    Player:
    Existem algumas opções de código aberto como VideoJS, mas uma solução muito completa, inclusive para publicidade foi o Radiant Media Player (https://www.radiantmediaplayer.com/).

          1. Sim, mas porque o time comercial fechou pacotes de publicidade diretamente, então o ganho é de 100%.
            Se for depender de programática, tem opções tradicionais (Google IMA), mas é dificil chegar no 0 a 0 do investimento técnico, a saída seria apelar pra uma Adx digamos “suspeita”.

            Uma vantagem do Radiant Media Player é que ele tem formatos de publicidade em vídeo como funcionalidade do player, então dava para ir além com programática e aproveitando o investimento.

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