Talvez todos devessem ficar quietos um pouquinho

Pintura de pessoas discutindo em uma cafeteria.

https://twitter.com/daweiner/status/735149640857817090

No tweet acima, David Weiner diz (tradução livre): “Tem muita gente escrevendo na Internet”. Boa observação, aqui vai uma resposta idiota.

Esse cara está certo: tem gente demais preenchendo todos os orifícios possíveis da Internet com suas opiniões idiotas e preconceitos cômicos e argumentos mal construídos. É doloroso de ler e isso faz com que encontrar as poucas joias que existem por aí se torne uma tarefa tão difícil que mesmo o mais dedicado buscador de prosa legível se vê resignado à derrota e à culpa de clicar em algo que promete dizer “como fazer” ou “estamos obcecados com” apenas pra não ter que ficar sozinho com seus próprios pensamentos.

Mas: você tem visto o que não está na Internet? Você pensaria que, com a suposta influência daqueles que dominam os espaços offline, longe do nosso mundo “livre para todos” e “escreva e publique”, haveria segurança nos papéis pesados, suaves e com o acabamento brilhante de uma gráfica. O trabalho que os editores profissionais guiam através de várias rodadas de revisões (isso é como os editores profissionais justificam seus trabalhos) deveria, pela virtude desse processo, ser algum tipo de oásis distante da trincheira repleta de tristeza e desespero e de esperanças partidas e GIFs horríveis na qual tantas palavras na Internet caem. E ainda assim: ELES NÃO ESTÃO TÃO MELHORES ASSIM. (Mais longos, claro, mas esse é outro problema.) Marginalmente, talvez, mas é uma disputa acirrada e está apenas piorando1.

Da forma como acontece, abrir os portões para todo mundo não faz melhorar as coisas saindo das torres mais altas. Aqueles de nós que estavam lá durante a popularização da ideia de que se você removesse as barreiras haveria um fluxo melhor, mais interessante e menos incestuoso de novas vozes fascinantes e perspectivas sub-representadas devemos a todos um pedido de desculpas: acontece que a maioria das pessoas não tem nada muito interessante a dizer e elas são, na real, muito piores em se expressar do que nós imaginávamos. Além disso, o que ninguém esperava é que a merda se espalharia para cima, respingando nos melhores lugares onde olhávamos em busca de sabedoria e deixando-os com o mesmo acabamento esquisito de porcaria na forma de relato e que “gera identificação” cujo objetivo último é ser repassado sem que ninguém mencione o quão nojentas ficam as nossas mãos depois de nos livrarmos dela. Fomos avisados e não demos ouvidos; agora estamos todos pagando o preço.

Dito isso, não estamos enfiando o gênio de volta na lâmpada. A nossa melhor esperança é que essa ideia idiota de que o vídeo é a próxima grande coisa — e que desta vez vai, eles nos dizem — de fato se torne verdadeira e todos se afastem das palavras escritas porque não há como fazer dinheiro com elas. Então, e somente então, as pessoas que escrevem na Internet serão aquelas cuja única razão para fazê-lo é querer de fato, ou que elas são feias demais para o Facebook Live (embora, caso tenha visto muito Facebook Live recentemente, acho que você vai concordar que o padrão ali está comicamente baixo). Será esse um mundo melhor para aqueles de nós que gostamos de ler? Eu não consigo dizer com certeza, mas no mínimo será um mundo mais silencioso e, de verdade, a essa altura aceito qualquer redução de volume que for oferecida. Agora, se vocês me dão licença, preciso clicar em uma coleção de tweets sobre quais dos apoiadores dos pré-candidatos democratas à presidência dos EUA são os piores; enquanto estiver ocupado vocês podem usar o espaço para comentários para apontar que eu mesmo deveria escrever menos se eu quiser que haja menos coisas escritas, o que é um pensamento que nunca me ocorreu. Obrigado!


Publicado originalmente no The Awl em 24 de maio de 2016.

Tradução por Leon Cavalcanti Rocha.
Foto do topo: ja’s ink on paper/Flickr.

  1. Nota do editor: é verdade.

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18 comentários

  1. Acho importante essa liberdade que a internet proporciona de cada um dizer que o que pensa. Cabe à nós filtrar o conteúdo, o que é beeeem difícil.

    1. Será que cabe a nós? O feed do Facebook, onde a maioria das pessoas se informa, não é manipulável por nós. Até podemos deixar de seguir um ou outro desafeto, mas o algoritmo ainda impera. E esse é só o caso mais extremo e fácil. O meio influencia os nossos caminhos e o que consumimos. Se todos ao seu redor só compartilham listas bobas do BuzzFeed, a probabilidade de você se pegar vendo uma delas é maior.

      1. Falo por experiência: o feed meu é quase todo “desativado”. Só tem um ou outro. Já vi que o “popular” é o que impera. E muitos de nós que estamos aqui no MdU não gostamos do considerado “popular”. Seja uma lista boba do BuzzFeed (e vamos ser francos, há algumas que vamos dar risada :p :) ), uma piada requentada, memes bobas e tudo mais.

        É o que sempre digo: se “cultura” (usando o termo de cultura = algo culto, “inteligente”, etc…) fosse algo que as pessoas realmente quisessem ver, a TV Cultura seria líder de audiência.

        Filtrar conteúdo não é só depender do Facebook, mas realmente da nossa capacidade como indivíduo de encontrar informações relevantes para nossas vidas. A partir do momento que condicionamos a dependência de conteúdo a um alheio, estamos deixando que ele dite isso.

      2. Aproveitando que você tocou no assunto do feed do Facebook e possui uma influência e credibilidade enormes (beijo Xiaomi), já tem um tempo que eu venho querendo sugerir que você publicasse algo sobre os feeds RSS. Ultimamente venho notando que a maioria dos sites estão deixando de disponibilizar seu conteúdo via RSS ou “escondendo” tais links de uma maneira que é praticamente impossível encontrá-los. Não tem muito tempo só de abrir a página inicial de vários sites o ícone que identifica o link RSS do site era ativado e disponibilizava todos os feeds RSS daquele site (publicações, comentários, link pra algum conteúdo específico etc) e depois que o Facebook tomou de assalto a atenção da mídia é triste constatar que os produtores de (bom) conteúdo e até mesmo os grandes portais de notícias não estão dando mais a devida atenção ao RSS. Acredito que o leitor que assina o feed RSS do site o faz porque gosta e se identifica com o que é publicado, diferentemente daquele que só vê a chamada na publicação do Facebook, dá um “curti” quando acha interessante ou vai direto para parte de comentários escrever alguma coisa sem mesmo ler o que está comentando.

          1. Fiquei curioso aqui para saber quais navegadores são esses. Os dois com que tenho contato, Safari e Chrome, não exibem mais ícones de RSS…

          2. O Firefox disponibilizava o ícone direto na barra de endereço, mas depois de algumas atualizações é preciso ir no menu Personalizar e adicionar o ícone ao lado da barra de endereço agora, não fica mais dentro como antes.

          3. Eu uso o Firefox e quando ele detecta que o site dispõe de RSS o ícone é ativado, o problema é que cada dia mais esse ícone é menos ativado porque, pelo que pude perceber, os sites estão deixando de disponibilizar o RSS ou o Firefox não está detectando os feeds.

      3. Meu feed do Facebook é uma lista chamada “Pertinentes” que possui umas 20 e poucas páginas entre amigos e fanpages. É bem simples e consigo consumir só o que me apetece.

  2. Parece coisa de frustrado. Que não conseguiu o sucesso que almejava. Se souber procurar, é possível bons sites com conteúdo interessante. Nesse aspecto, é quase impossível controlar o acesso a internet e a possibilidade de qualquer un se manifestar como queira.

    1. Concordo com você! Existe bons sites, só basta procurar, deixei de visitar o Gizmodo Brasil e Pplware Portugual pois perderam qualidade. Hoje o meu refugio são os site MeioBit, Tecnoblog e o Manual.
      O You Tube ainda estou ensinado ao Google que não quero ver aqueles vídeos idiotas e sim contéudo.

      Uma frase que o autor escreveu e casou um pouco com o Gizmodo foi:
      ” Além disso, o que ninguém esperava é que a merda se espalharia para cima, respingando nos melhores lugares onde olhávamos em busca de sabedoria e deixando-os com o mesmo acabamento esquisito de porcaria na forma de relato e que “gera identificação” cujo objetivo último é ser repassado sem que ninguém mencione o quão nojentas ficam as nossas mãos depois de nos livrarmos dela.”

      1. Eu li esse texto (que, vocês devem ter notado, é cheio de ironias) mais como um apontamento genérico do que um problema pontual. Conteúdo bom existe e, em tese, quanto mais conteúdo, maior a quantidade de conteúdo bom (em quantidades absolutas, pelo menos).

        O problema, segundo o autor, é que esse conteúdo não é mais motivado pela vontade, pela necessidade de se expressar, mas por interesses que jogam essa motivação mais genuína para escanteio. Nesse contexto, estamos recebendo muito lixo porque o “conteúdo”, esse termo tão mal tratado nos últimos tempos, é o meio para os mais diversos fins.

  3. Ótimo texto. Mas gostei mais da primeira parte, quando o ficar quietos abrange tudo. No final quando ele restringe a escrita me parece meio em vão.

    Tudo poderia ser bem resumido em: ‘Não sou capaz de opinar’.

  4. A se pensar que se ficarmos quietos, talvez seja pior ainda. Afinal, não botaríamos para fora nossos sentimentos, e assim viveríamos nos oprimindo.

    No entanto, ao que vejo como uma pessoa comum, se busca nas pessoas “qualidades” que possam virar um padrão, e a partir dele todos sigam e ignorem qualquer outra visão sobre algo.

    É um dilema: a mesma “liberdade” de buscar algo é também uma “prisão”: quem defende a liberdade per si, sem regulações ou com estas mínimas, o resultado será conviver com padrões que não são adequados ao que se tem como conceito de “bom”. E “liberdade” por “liberdade” é uma anomia – uma ausência plena de regras.

    Dos comentários de internet as publicações impressas, o limite máximo para se difundiir algo será o código moral e legislativo daquela comunidade. Se tal código e legislação permitem coisas sem uma “qualidade” pré-definida, o resultado será sempre exposições de ideias e palavras de tal forma que desconforta as pessoas que buscam padrões mais estáveis e de acordo com o que pensam.

    Isolar a leitura de informação de qualidade não adequada a sua pessoa resulta em ignorância ao mundano e ao mesmo tempo um isolamento social também. Digo por experência própria: o que tenho feito é evitar ou recusar a leitura em sites que não estão de acordo com minha linha de pensamento. É errado, porém evito o desconforto de ler algo que não me agrade.

    Talvez entre ficarmos quietos e ficarmos “ignorantes”, o último seja um pouco mais útil caso a pessoa defende a liberdade de outrem.

    1. Acredito que ao dizer que a gente precise ficar quieto, o autor não quer dizer para a gente ficar quieto de fato.
      Mas sim que ao invés de escrever a torto e direito, comentando sobre tudo o que aparecer na nossa frente, nós deveríamos ler com calma, parar para pensar no que a gente leu, pensar no que escrever, pensar em como o que a gente quer escrever vai afetar os outros e só então escrever.
      Basicamente: refletir sobre as merdas que escrevemos diariamente, diminuir a quantidade de merda escrita e escrever mais conteúdo de alta qualidade.

      1. Isso que você fala é padrão de comportamento, ou melhor, a busca de um padrão de comportamento que seja comum a todos. E isso é difícil.

        Sendo chato e direto ao ponto um pouco, pego quantas vezes você e seu pessoal nos comentários dos sites por aí ficaram escrevendo um monte de besteira para provocar os outros. Quando eu critiquei vocês e usava termos iguais ao que você (e o texto) falam agora para justamente falar para vocês “olha, para de falar besteira se não gosta do espaço onde está”, vocês viviam me enchendo o saco e falando que eu estava errado, que era ditador, etc…

        Já vi que isso acaba se tornando o dilema: as pessoas querem ser livres para escrever o que quiser e o que julgam certo, mas querem censurar os outros que julgam errados . E tal censura pode ser na humilhação do humor (o trolling, as divulgações de prints, etc…), nos movimentos em grupo para eliminar comentários, etc… etc…

        Considerar algo “besteira” vai do julgamento individual. Só que quando muitas pessoas consideram algo “besteira” ou até o contrário, consideram tal “besteira” como algo de valor, temos um problema.

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