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Toda a sua história

Homem e mulher sentados em cadeiras, em uma sala com vista para o quintal cheio de plantas, olhando para uma TV que não aparece no enquadramento. Homem aponta uma espécie de controle remoto, não visível na imagem.

Em sua última atualização, o Signal ganhou um recurso que, ao ser ativado, passa a excluir automaticamente mensagens antigas, sendo “antigas” um período definido por você, usuário(a). Isso me deixou pensativo.

Embora o digital tenha muitas características próprias e distintas do mundo físico, não é raro — cada vez menos raro, na real — migrarmos ações e comportamentos do mundo físico para o dos bits sem considerar essas diferenças. E embora numa olhada rápida elas possam parecer insignificantes ou sejam imprevisíveis, quase sempre acabam por revelar implicações profundas.

Dois prints da tela de configuração do prazo para mensagens que desaparecem no Signal.
Imagem: Signal/Divulgação.

Peguemos o ato de conversar. Eu tenho, e tenho certeza que você também tem, amigos, colegas e parentes com quem falo mais por mensagens de texto no WhatsApp do que por qualquer outro meio, incluindo o presencial, mesmo considerando o período anterior à pandemia.

O que se perde quando trocamos o olho no olho, o falar e ser ouvido no mesmo ambiente, por textos digitados na tela do celular e trocados via internet, é bem óbvio, a ponto de dispensar explicações. Boa parte do que ganhamos também é evidente — disponibilidade, acesso, um tipo de comunicação que é instantâneo e ao mesmo tempo assíncrono. Até aqui, se você já parou para pensar nisso, nenhuma novidade.

O recurso do Signal me apresentou a outro ganho das mensagens de texto do qual ainda não havia pensado: a eternidade.

No post do blog oficial do aplicativo, Jim O’Leary, engenheiro do Signal, escreveu:

Na medida em que as normas sociais de como as pessoas se relacionam mudam, muito da comunicação que no passado acontecia em cafés, bares e parques, agora acontece em dispositivos digitais. Um efeito colateral dessa mudança do analógico para o digital é a mudança paralela do efêmero para o eterno: palavras outrora faladas que se perdiam no ar são agora — na maioria das vezes — dados guardados para sempre.

Uso o WhatsApp desde 2010, ou 2011, mas só tenho registros de conversas a partir de setembro de 2016. Abri o arquivo dele e rolei a tela até o final. Lá no fundo, encontrei conversas interrompidas com contatos sem nome, ou seja, que não estão mais na minha agenda. Gente com quem um dia ri, flertei, negociei, briguei, conversas banais e algumas, aparentemente, mais significativas. Apenas cinco anos mais tarde, não tenho a menor lembrança da maioria dessas pessoas, mesmo relendo as conversas na tentativa de entender cada contexto. Imagino que eu também não represente muita coisa a elas, quiçá seja lembrado.

Sinceramente, não sei o que fazer com isso, com essas conversas antigas. Não são dados importantes para mim, ou não teria esquecido deles, mas também não é algo que ocupa espaço (na minha memória nem na do celular), então… tanto faz? Talvez o questionamento correto seja por que esses dados existem. Por quê?

O digital não tem como premissa replicar o mundo físico, pelo contrário, mas talvez as nossas dinâmicas sociais, desenvolvidas por milhares de anos, possam auxiliar algumas das interações que migramos para o digital.

Creio que, com algum esforço, eu consiga lembrar de conversas presenciais que tive em 2016, embora nenhuma delas com o nível de precisão que registros do WhatsApp, do Signal, qualquer coisas digital, garantem. E talvez isso seja bom? Quando alguém diz que “o tempo é o melhor remédio”, está dizendo, com outras palavras, que nosso cérebro é bom em esquecer o que nos machuca e que, no longo prazo, se tornarão vagas lembranças sem maiores consequências.

Evidente que o novo recurso do Signal não elimina a possibilidade de outros tipos de registros — nada no digital está livre de um “copiar e colar” — e não estou fazendo aqui apologia ao esquecimento absoluto. Minha primeira reação à novidade do Signal foi negativa, mas me questiono se eles não estão tateando algo positivo, passível de ser aplicado nessa e em outras áreas das nossas vidas digitais.

Ainda no comparativo entre físico e digital, imagine se todas as conversas presenciais que você já teve, as íntimas, as difíceis, as banais, fossem registradas por você e por seus interlocutores e permanecessem acessíveis indefinidamente, sob demanda? Isso é muito Blac… não, é sério: isso é mesmo muito Black Mirror. Terceiro episódio da primeira temporada, “Toda a sua história”. Pode conferir. É um dos melhores da série, aliás.

Alguns comentários mais técnicos/operacionais do novo recurso do Signal para evitar mal entendidos, confusão e gritaria:

  • O recurso vem desativado por padrão.
  • Ao ser ativado, ele vale apenas para novas conversas. As que você já tem no app não são afetadas pela configuração global.
  • Cada conversa, individual ou em grupo, pode ter uma configuração específica. Se você quiser manter o recurso ativado, mas preservar conversas com familiares ou com seu(sua) cônjuge, é possível. Também dá para manter o recurso desativado, mas ativá-lo apenas em uma ou algumas conversas.
  • Em conversas que têm esse recurso ativado, o prazo estipulado aparece embaixo do nome do contato/grupo e cada mensagem tem um contador próprio, que identifica o tempo transcorrido desde o envio.
  • Uma vantagem colateral de ativar esse recurso é economizar espaço na memória do celular.

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Foto do topo: Channel 4/Divulgação.

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15 comentários

  1. Eu sou do tipo de pessoa que adora achar um print antigo ou recuperar algum comentário de 2000 e bolinha, mas que vira e mexe apaga tudo, hahaha! Eu sou organizada por natureza e gosto de ter tudo arrumado. Mesmo que eu saiba que tenha espaço de sobra, eu não consigo guardar só por guardar, me dá fadiga.

    Gente, dez anos desse episódio de Black Mirror!! Eu fui ver alguns anos depois, mas mesmo assim já tem muito tempo!! Esse eo Be Right Back me deixam super preocupadas (na verdade, todos os episódios deixam, né?). Como uma pessoa meio low profile, eu definitivamente seria vista com suspeita.
    (Vou ouvir o podcast depois.)

    Sem contar que, com esse roubo de celular frequente, e quebra de senhas e vazamentos também, até e-mails eu tou cogitando apagar e salvar localmente as mensagens que preciso.

  2. anos atrás participei do É pau é pedra — podcast colaborativo — sobre a primeira temporada de Black Mirror: https://soundcloud.com/paupedra/epep-69-black-mirror-temporada-1

    fica o convite para ouvir :)

    ainda sobre o assunto: o grande problema não é a existência da possibilidade de guardar eternamente os registros de nossas conversas cotidianas. O problema — como aparece no próprio episódio — é a forma como naturalizamos esse registro e passamos a considerar suspeito quem se livra dele.

    1. outra coisa:

      vocês têm noção de que em dezembro vai fazer DEZ ANOS que esse episódio foi ao ar pela primeira vez?

    2. Cara, É pau, é pedra é muito bom! Ouvi sobre Harry Potter, vou checar esse sobre BM depois.

      Tu vê dessa forma? De suspeito quem se livra desses registros? Nunca tinha pensado dessa forma. Eu gosto das minhas coisas organizadas e simples, limpo tudo para poder manter essa ordem. Somente isso.

      PS: não entendi o link postado. o.o’

      1. não, quero dizer que acho que pode-se começar a naturalizar-se esse arquivamento quase compulsório de cada aspecto de nossas vidas que os eventuais desviantes podem passar a ser considerados suspeitos

  3. Acho um bom recurso, principalmente pra quem tem o habito de apagar conversas.

    Passei por esse questionamento do Ghedin essa semana, comprei um iPhone e queria migrar as conversas do WhatsApp do Android se tivesse esperado um tempo conseguiria de forma oficial.

    Depois de muito refletir migrei e perdi todas as conversas, no começo doeu um pouco perder todas as conversas e mídias armazenadas por lá. Mas ao mesmo tempo deu pra se desapegar a coisas do passado, não é como se sempre eu ficasse relendo mensagens antigas o que mais sentiria falta seria mensagens do trabalho essas sim serviam de referências. Mas ….

    É claro que eu salvei todas as mídias, e umas poucas conversas importantes no pc, e assim segue a vida rs

    1. O lado bom de perder um backup é que você se sente mais leve, haha!

      Para fins de arquivo, tem a função (que imagino você tenha utilizado) de exportar conversas. Fica legal, bem legível/acessível.

  4. Essa reflexão me lembrou algo que eu e minha ex-namorada conversamos certa vez. Costumávamos conversar muito por whatsapp a noite. E certa vez comentamos que volta e meia alguma acha um baú antigo contendo várias cartas e correspondências antigas e imaginamos uma situação hipotética onde no futuro ao invés de encontrarem as cartas que eu e ela trocávamos, alguém encontrasse nossas mensagens do Whatsapp perdidas em algum servidor, muitas centenas de anos no futuro.

    1. Imagina um futuro tipo mad max…. vai ter gente catando sucata eletronica com a esperança de plugar e encontrar resquicios de uma época perdida.

    2. Sim, esse tipo de registro é muito valioso. Ainda não passei pela experiência de perder alguém muito próximo, mas imagino que deva ser algo bastante forte, poder voltar e ler frases, ouvir áudios da pessoa que se foi. O bom do recurso do Signal é que ele é seletivo: dá para personalizar quais conversas ficarão gravadas e quais não.

      1. Antes eu apagava com frequência as conversas aqui do WhatsApp. Hoje, mantenho todas as conversas de parentes, principalmente dos meus irmãos e da minha mãe, pensando justamente nisso (tenho quase 50. A perda de pessoas próximas já acontecem, infelizmente). Lá tem áudios, desabafos, etc.. Já passo por isso no e-mail: Ontem mesmo, coincidência, tava revendo e-mails de uma colega que não está mais aqui. A gente chega a se emocionar. Forte mesmo.

  5. Isso é um recurso interessante, mas acho meio redundante. Já podemos deletar as mensagens, eu pelo menos faço isso, sempre deleto as conversas que não são necessárias, a exceção é só grupo do trabalho e a conversa com a Esposa, o resto, incluindo grupos de amigos, tá sempre zerado ou excluído.
    Acho interessante esse acúmulo de “coisas digitais”. Não jogamos fora (deletamos) porque não nos incomoda, mas vira e mexe nos perguntamos se jogamos fora (deletamos), mas continuamos deixamos ali, acumulando.

    1. Não acho que seja redundante. É um recurso simples, pois apenas automatiza isso que você já faz manualmente, mas que muda a dinâmica de uso do aplicativo. E, importante, pelo recurso a conversa é excluída nas duas pontas, e não só no seu celular.

  6. Me considero uma pessoa com memória muito boa e costumo relembrar de anedotas e conversas que tive com outras pessoas com certos detalhes. Isso tem alguns efeitos curiosos; por um tempo, fiquei pensando no quanto isso faz com que eu carregue por tempo demais uma certa “culpa” de quando falei besteira ou magoei alguém, mesmo quando o outro lado da conversa nem se lembra mais que essa conversa existiu. Ademais, um amigo já fez piada comigo dizendo que é tênue a linha que separa ter memória boa e parecer um psicopata, hehehe. Então já me vi em situações de ter que regular algumas coisas que lembro pra não assustar terceiros.

    Tudo isso pra dizer que em momentos que as pessoas duvidam de mim, em assuntos sérios ou não, são ajudados em histórico de conversa guardada. Ao mesmo tempo em que boa parte delas não sei se são tão vitais para mantê-las. Acho que eu só apago quando sei que não vou precisar ou estou com crise de espaço no celular (nunca aconteceu)

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