Logo do TIM Beta.

O que o TIM Beta tem de bom?


8/4/19 às 9h39

Reza a lenda que, em blogs e canais de vídeo brasileiros especializados em tecnologia, alguns assuntos não têm leitores/espectadores, mas sim fãs. O leque é variado, vai muito além de celulares e computadores. Chega até a produtos e empresas inusitados, como fintechs de cartão de crédito. O segmento de telefonia móvel, longe de ser um queridinho do público — há duas empresas do ramo entre as cinco com mais reclamações da plataforma ReclameAqui —, tem defensores fervorosos nesses espaços graças a um plano em particular: o TIM Beta.

Quem já topou com algum cliente entusiasmado (talvez uma redundância?) do TIM Beta deve ter ouvido maravilhas do plano. Nas redes sociais, perfis que usam fotos e nomes fazendo referência a ele não são incomuns. Uma olhada no site oficial do TIM Beta ajuda a entender essa reação à primeira vista estranha: de fato, é difícil qualquer proposta da concorrência bater as condições oferecidas no plano. Mas, além disso, existe outro fator que contribui para insuflar o orgulho de ser um “beta”, que é como a operadora chama os clientes deste plano.

Em entrevista por e-mail1, a TIM explicou que, mais do que a relação custo-benefício, é a exclusividade a principal característica do TIM Beta. Qualquer um pode se cadastrar no plano e, com isso, ser um “Beta Basic”, mas para usufruir dos benefícios que destacam o TIM Beta é preciso se tornar um “Beta”, o que só acontece quando esse cliente recebe um convite de alguém que é “Beta Lab”, status que um “Beta” ganha ao atingir a pontuação mínimo em uma rodada do “Blablablâmetro”, uma espécie de jogo para clientes do TIM Beta.

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O TIM Beta mistura as estratégias de “member get member” (convites) com a de gamificação. Entrar e permanecer no plano é um esforço constante, como demonstram os grupos dedicados ao TIM Beta em aplicativos de mensagens e redes sociais.

O esforço é válido? Do ponto de vista puramente financeiro e considerando alguém que use muitos dados móveis, sim. O Beta Basic, sem surpresa, foge à regra: é pouco competitivo frente às ofertas do tipo “controle” das operadoras rivais e até da própria TIM. Na cobrança mensal, ele custa R$ 55 e oferece apenas 1,5 GB de franquia de dados, 500 minutos de ligações, SMS à vontade, acesso livre ao streaming de músicas Deezer e 15 GB de espaço na nuvem da solução da TIM. No Beta, acessível mediante convite recebido de um Beta Lab, o valor da mensalidade não se altera, mas a franquia de dados sobe para 10 GB e os minutos de ligações, para 600. No Beta Lab, que se conquista fazendo a pontuação mínima (atualmente, 1.230 pontos) em cada “rodada”, que costuma durar três meses, novamente o valor não muda, mas o cliente passa a ter 20 GB de franquia mensal e 2 mil minutos de ligações para qualquer operadora, além do direito de convidar um Beta para entrar no clube dos Beta Lab.

A título comparativo, Claro e Vivo oferecem 5 GB em seus planos do tipo controle de R$ 65 — no caso da Claro, com fidelidade de 12 meses. Na TIM a contratação de qualquer outro plano é desvantajosa: no plano controle convencional, o cliente tem franquia de 6 GB por mês, ou cerca de 33% do que um Beta Lab dispõe pagando os mesmos R$ 55.

Uma característica curiosa do TIM Beta é que se trata, em essência, de um plano pré-pago. Porém, o “jogo” para se manter Beta Lab o transforma quase em um plano pós-pago, já que a principal “missão” é fazer recargas mensais. Até 31 de março, havia uma parte das missões que envolviam redes sociais, o que explica a profusão de perfis com fotos e nomes fazendo alusão ao TIM Beta. Isso mudou e as redes sociais caíram fora. As novas regras também prejudicaram quem compra pacotes diários ou semanais, no que fica implícito um direcionamento da TIM para que os betas comprem os pacotes mensais.

Tabela de pontuação do TIM Beta de acordo com as novas regras de abril de 2019.
Basta fazer recargas para atingir a pontuação mínima do Beta Lab. Imagem: TIM/Reprodução.

Só para jovens

Ricardo Ferreira Lacet, 55 anos, é músico e assessor parlamentar em João Pessoa, capital da Paraíba. Poderia acrescentar a seu currículo, também, o cargo de administrador do maior grupo do TIM Beta no Facebook. Lá dentro, mais de 120 mil pessoas trocam informações e tiram dúvidas diariamente, além de compartilharem notícias de tecnologia. “Fui chamado de maluco, de doido”, disse ele relembrando os primeiros dias do plano, quando seus amigos custavam a acreditar que pudesse existir uma oferta tão boa no mercado brasileiro.

Isso aconteceu no final de 2010 e Lacet beneficiou-se de uma fonte interna, um amigo que trabalhava na TIM e que lhe antecipou a novidade dias antes do lançamento. Esse, bem curioso: o TIM Beta foi lançado com um jogo, feito em Flash e publicado no finado Orkut, chamado “Bloqueia Véio”. O jogo testava a audição das pessoas que, na medida em que envelhecem, supostamente perdem a capacidade de ouvir sons em frequências mais altas. A brincadeira era, na realidade, uma parte importante da estratégia da TIM para o Beta: segmentar o público-alvo.

Print do jogo Bloqueia Véio, da TIM.
Bloqueia Véio, o jogo de lançamento do TIM Beta. Imagem: Efeito Cubo/Reprodução.

A TIM disse que o plano foi criado e continua mirando nos “jovens mais digitais e conectados”. Sem revelar detalhes, a empresa garante que o TIM Beta gera “resultados operacionais positivos” e que, além disso, traz um ganho de imagem relevante. Apesar disso, como prova Lacet, o TIM Beta é um sucesso entre todas as idades.

Quando o TIM Beta foi lançado, o pré-pago reinava nas operadoras brasileiras. Ele oferecia internet, ligações e mensagens SMS ilimitados por R$ 0,10 ao dia. Uma pechincha. Ao longo desses sete anos, a TIM mexeu profundamente no plano. Por volta de 2014, a franquia diária do plano era de 100 MB, mas a TIM fazia vista grossa e não baixava a velocidade após o cliente estourá-la. Com o tempo — e tendo que enfrentar uma gritaria em redes sociais —, a operadora passou a impor o limite.

A alteração mais recente nos benefícios afetou os minutos de ligações, antes ilimitadas, agora restritas a 2 mil minutos por mês nas categorias Beta e Beta Lab. Não que faça muita diferença no dia a dia dos clientes, a maioria longe de bater no teto (é preciso falar pouco mais de uma hora por dia para tal), mas a mudança feriu o ego dos exclusivos betas, como conta Lacet: “A galera tem reclamado muito do [fim das] ligações ilimitadas, agora de dois mil minutos. A maioria não usa [o limite], mas quer ter o status de ter ligações ilimitadas”.

O Blablablâmetro

Durante a apuração, entrei em grupos dedicados ao tema e impressionou-me a movimentação. Em um relativamente pequeno no aplicativo Telegram, com cerca de 500 participantes, era comum chegar ao fim do dia com centenas de mensagens publicadas. No Facebook, há inúmeros grupos, vários com com milhares de clientes e interessados em aderir ao plano.

Ser um beta tem um custo que vai além do financeiro. Parece, visto de fora, um investimento de tempo e esforço para estar a par das missões e controlar a pontuação. Houve períodos em que as missões eram elaboradas, como atestam vídeos de 2016 do canal do TIM Beta no YouTube que pediam aos clientes para tirarem fotos em shows, pontos turísticos e jogando video game (?) e postá-las em redes sociais.

Nem mesmo aderir ao plano é simples. Por não ser um plano muito difundido (questionada, a TIM não quis revelar quantos clientes tem no TIM Beta), nem sempre há um amigo com disponibilidade para enviar um convite para ser Beta. É aí que os grupos podem ser úteis.

No grupo de Lacet no Facebook, é proibida a troca ou venda de convites. “Não que eles [a TIM] vão fiscalizar, mas porque polui muito o grupo. Sem notícia, só venda, venda, venda, você não dá informação nenhuma a ninguém. Achei melhor não liberar essa venda”, justificou.

Outro caminho para se conseguiu um convite é em plataformas de vendas online. Embora a TIM reforce que a comercialização de convites é proibida e passível de bloqueio da linha, no Mercado Livre, por exemplo, sobram ofertas de convites para o TIM Beta com preço médio de R$ 30.

Pensando no cliente que não tem amigos Beta, vez ou outra a TIM libera convites para o Beta a qualquer interessado. A última janela do tipo foi aberta em fevereiro deste ano. Como as campanhas são feitas sem aviso prévio e só valem para quem já estava cadastrado na plataforma do TIM Beta, é mais uma questão de sorte mesmo.

A concorrência reage

Os benefícios do TIM Beta valem o esforço para aderir ao plano e, depois, manter-se no Beta Lab? Como dito ali em cima, eles são generosos pelo preço que o cliente paga. Para quem usa muito a internet no celular, é vantajoso.

Essa vantagem talvez diminua ou se dissipe no futuro. No início de março, a Oi reformulou seus planos do tipo controle e um deles, o intermediário, parece ter sido feito sob medida para balançar os clientes do TIM Beta. O custo é similar (R$ 55 por mês) e, em troca, o cliente dispõe de uma franquia mensal de 16 GB (sem desconto de dados no uso do Facebook, Messenger e WhatsApp) e 1.500 mensagens SMS. A franquia de dados fica no meio das dos planos Beta e Beta Lab, com a vantagem de que não é preciso esperar um convite nem ficar contando pontos. Vale lembrar que a Oi atualmente está em processo de recuperação judicial após chegar a dever R$ 65,4 bilhões.

Se as outras operadoras reformularem seus planos comerciais à imagem do TIM Beta e dos novos do tipo controle da Oi, é de se esperar que a TIM mexa novamente no TIM Beta. Afinal, se não for muito vantajoso, como é atualmente, o plano perde a sua razão de existir. Imagine a barulheira que os betas fariam se isso acontecesse…

  1. Entrevista meio estranha. Perguntas minhas foram ignoradas e várias que não tinha feito, incluídas. As respostas não vieram assinadas.

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