Mulher deitada ouvindo música em fones de ouvido.

Como tornar a tecnologia cool em três passos


17/3/16 às 9h50

Nos últimos meses tenho lido muito sobre fones de ouvido. Não é que eu tenha me tornado um fã deles (sou Jaybird X2 e Sony DMR-10 desde criancinha), mas porque fiquei obcecado com como eles entraram na moda. Há décadas que ninguém fica engraçado usando um grande par de headphones. Nós usamos essas alças enormes e coloridas com conchas gigantes que parecem, numa análise fria, ridículas; mas os fones de ouvido por si só não parecem ridículos. Na pior das hipóteses eles são invisíveis; na melhor, são cool o bastante para que justifiquem as centenas de dólares que as melhores marcas cobram.

Uma grande parte dos eletrônicos que eu testei e que me surpreendeu no ano passado sofre de um único problema: eles não são cool. Quando usei o Avegant Glyph fiquei igual a algum fã maluco de Star Trek; quando coloquei os Bragi Dash ou os Doppler Labs nos meus ouvidos, tive a sensação de que todos estavam encarando as minhas orelhas. Falar com meu telefone me transforma naquele cara. É claro, provavelmente nada disso é real; se eu descobri uma coisa nessa vida é que absolutamente ninguém se importa comigo ou com você ou com qualquer um que não eles mesmos. O verdadeiro problema está na minha cabeça. Mas é um problema de verdade. Eu sinto que pareço ridículo. E se eu me sinto assim, não vou usar o produto. E se não vou usar o produto, eu não vou comprá-lo. E se não vou comprá-lo… você entendeu.

Propaganda impressa da Sony para o Walkman.

Existem alguns pontos marcantes na história dos fones de ouvido. O Walkman foi provavelmente o maior deles: ele tornou os fones de ouvido portáteis, acessíveis e algo que todos queriam. Certamente não foi um sucesso instantâneo, todavia, de acordo com um ótimo artigo no history.com:

A produção inicial de 30 mil unidades pareceu ambiciosa demais após um mês de vendas abaixo do esperado (apenas três mil foram vendidas em julho de 1979). Mas graças a uma campanha de marketing inovadora que envolvia os consumidores, na qual os representantes da Sony simplesmente se aproximavam de pedestres em Tóquio e davam a eles uma chance de ouvir algo no Walkman, o produto decolou, vendendo os estoques disponíveis antes do fim de agosto e sinalizando o começo de uma das histórias de maior sucesso da Sony.

O Walkman se tornou cool quando as pessoas puderam testá-lo, descobrir para que ele servia, vê-lo, ouvi-lo e tocá-lo por si mesmas. Todo mundo sabia o que ele era — muita gente o comprou na época e, tão importante quanto, aqueles que não, entendiam o que estava acontecendo quando te viam usando fones de ouvido: você tinha um Walkman no bolso ou grudado ao seu cinto, como um cara super descolado, e você estava ouvindo música. O iPod fez o mesmo para ainda mais gente, com usos ainda mais atraentes. E quando a Beats apareceu, os fones de ouvido já eram cool, porque usá-los era um símbolo do aparelho cool que você tinha no bolso. A Beats então tornou os fones de ouvido fashion.

Uma parte potencialmente subestimada do sucesso do iPod, acho, foi que seus fones de ouvido eram brancos. Desde o início, você via alguém com fones brancos e você sabia. (Você sabia que era um cara nerd com dinheiro pra esbanjar e um processo correndo na justiça por causa do Napster, mas esse não é o ponto.) Você sabia o que eles estavam fazendo e com qual aparelho eles estavam fazendo. Fones de ouvido são bonitos porque eles transmitem seus usos. Existe algo realmente poderoso nesse entendimento e feedback imediatos.

Mulher jogando em um Gear VR no metrô.
Foto: Paul Jerreat/DailyMail.com.

A nova tecnologia, pessoal e íntima com a qual estamos prestes a ser bombardeados, carece dessa vantagem. Se você está usando um Google Glass, eu não sei se você está olhando para mim, tirando uma foto minha, fazendo uma pesquisa, ouvindo música ou o quê. Dispositivos de realidade virtual são ainda piores. Eu amo a ideia de usar realidade virtual para assistir a filmes em um avião ou no metrô — digo, as pessoas assistem a filmes em seus smartphones no trem, isso não seria a mesma coisa, apenas cem vezes melhor? Mas se eu estiver ao seu lado usando um Gear VR, eu poderia estar fazendo qualquer coisa. Assistindo a um filme, jogando, vendo pornografia, planejando a sua destruição imediata. Isso é desconfortável. Mesmo com esses fones de ouvido verdadeiramente sem fios em que eu posso te ouvir mesmo quando estou os usando — na verdade, esse é o ponto –, como é que as pessoas vão saber se você as está ouvindo de fato? Todas as pistas se perdem, são erradas ou confusas.

Parte da solução é apenas reconhecimento. O Apple Watch alcançou um surpreendente nível de cool apesar de ser apenas uma tela em seu pulso (e uma nem tão boa assim) porque a Apple sabe como fazer isso. Ela deu Apple Watches ao Pharrel e à Katy Perry, e cobriu o universo de publicidade para que todo mundo soubesse o que o Apple Watch era e o que ele estava fazendo nos pulsos das pessoas. (E ele não tinha uma câmera.) O smartwatch da Apple ainda não ganhou o mundo, mas tem sido um bom começo.

Outras empresas, que não possuem o dinheiro e o marketing da Apple, estão menos confortáveis. Os executivos da Avegant me disseram que estarem no Tonight Show foi algo grande porque, de repente, milhões de pessoas estavam assistindo ao Jimmy Fallon dizendo o quão cool o Glyph é. No Coachella, esse ano, a tecnologia estará em todos os lugares: Google Cardboard, Doppler Here e muitos outros tentarão se colocar na frente de muita gente cool para que eles deixem de parecer apenas aparelhos novos extravagantes. Para eles, a frase “ah, eu sei o que isso é” é como um manjar dos deuses.

Mas isso é difícil. Levará algum tempo. E é instável: não há caminho de volta depois daquela foto no chuveiro com o Google Glass. Muitas tecnologias boas e úteis morrem porque o mundo decide, por qualquer razão, que não está interessado. Esse é o motivo pelo qual você vê a moda e as empresas de tecnologia se aproximando tanto. A moda precisa de um pouco de tecnologia, mas a tecnologia precisa muito da moda, porque a indústria de tecnologia é apenas parcialmente sobre tecnologia. Ela é principalmente sobre pessoas. E as pessoas são mais difíceis de decifrar do que a tecnologia.


Publicado originalmente na newsletter do David Pierce.

Tradução por Leon Cavalcanti Rocha.
Foto do topo: Lis Ferla/Flickr.

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5 comentários

  1. Acho esses fones da Beats e cia ridículos. Gosto dos meus fones discretos, in-ear, e de preferência pretos (para ficarem mais escondidos). Passo os cabos por dentro da blusa, para não ficar aparente também. Se conseguir passar despercebido, ótimo!

  2. “Fones de ouvido são bonitos porque eles transmitem seus usos”
    Mas para Kant não poderiam ser belos kkkk piada de filosofia =/
    – – –

    E pra mim a Apple fez os fones de ouvido serem fashion antes mesmo da Beats, com o próprio autor evidencia ao falar da cor branca: https://i.ytimg.com/vi/hQw3mVWXncg/maxresdefault.jpg

    E só precisa de uma boa propaganda para um produto ser ~cool Um bom discurso, mesmo se a estética for “duvidosa” é o suficiente.