iPad Pro com teclado da Apple

E se tablets foram só uma modinha, tal qual os netbooks?


23/2/17 às 10h09

Há produtos que mudam o mundo e outros que parecem ter potencial para fazer isso. Quando surgiu, em 2011, o tablet moderno imediatamente despontou como um desses. Uma tela enorme para navegar na web e experimentar os apps mais malucos? A ideia era atraente. Passados seis anos do seu surgimento, o clima parece outro — o de oportunidade perdida. Talvez o posicionamento do tablet na história deva ser revisto.

As estatísticas de vendas são desanimadoras. Segundo a consultoria Strategy Analytics, no último trimestre de 2016 as vendas de tablets encolheram 9% no mundo inteiro. Outra consultoria, a IDC, apontou queda de 15,6% nas vendas de tablets em 2016 em comparação ao ano anterior. Só no quarto trimestre, ainda segundo a IDC, o tombo foi ainda maior, de 20,1%.

As duas maiores fabricantes, Apple e Samsung, viram quedas na casa dos dois dígitos no ano passado. A nova abordagem para tablets, destinada a perfis profissionais e acompanhados de teclados destacáveis, não surtiu o efeito esperado. E isso não é de agora. Desde o início de 2014, as vendas do iPad seguem uma descida constante:

Gráfico de vendas do iPad trimestre a trimestre.
Gráfico: Six Colors.

A estagnação, ainda em curso, tem alguns pontos em comum com a do PC, porém ocorre em um intervalo muito mais curto. Em seis anos, o tablet foi de promessa de revolução a fonte de desapontamentos.

Para que servem os tablets?

Nos idos de 2012, tentei racionalizar o que motivaria alguém a comprar um tablet. Muitas palavras depois, a mim eram as possibilidades oferecidas por apps que se aproveitavam da tela grande para oferecer experiências novas.

No lançamento do iPad e nos dois anos que se seguiram, essa sensação era recorrente. Quase toda semana aparecia um app bacana, inovador, ou nem tanto — nisso entravam as apostas, como a revista digital The Daily, que confiava no novo formato para requentar velhas ideias. O frescor do formato dava uma carta branca a desenvolvedores e produtores de conteúdo. Havia um esforço de todos os envolvidos em ver no que aquilo ali poderia resultar.

Hoje, apps exclusivos para iPad são raros e isso atinge em cheio aquele diferenciador em potencial dos tablets. O grande diferencial deles em relação aos smartphones, área real de tela, também foi severamente neutralizado — os tablets encolheram ao mesmo tempo em que os smartphones cresceram. Entre o iPhone de 2011 e o primeiro iPad, a diferença entre os tamanhos de tela era de 6,2 polegadas; hoje, entre o iPad mini e o iPhone Plus ela fica em 2,4 polegadas.

Os novos tablets profissionais têm tamanho similar ao de notebooks (o iPad Pro tem 12,9 polegadas, tela maior até que o do MacBook lançado em 2015) e contam com teclado físico. O chamariz seria um fluxo de trabalho mais simples e, ao mesmo tempo, poderoso. Só que isso depende de software e há poucos incentivos na economia das lojas de apps para que os desenvolvedores se dediquem a apps que rivalizem em complexidade com os feitos para macOS.

Além disso, a propensa simplicidade do iOS pode ser, para alguns perfis, contraproducente. Quem consegue se adaptar às limitações do iOS ganha uma estação de trabalho algumas ordens de magnitude mais simples de manter — é o mesmo apelo do Chrome OS, ou seja, sistemas que praticamente dispensam manutenção, não pegam vírus nem “quebram” fácil por interferências do usuário. Mas, novamente, é difícil migrar de um macOS ou Windows para algo mais simples, sem comprometimentos. Ainda que possível, existe uma curva de aprendizado e adaptações a que muitos resistem. Afinal, nesse período os sistemas “de verdade”, para computadores, não ficaram parados; macOS e Windows são, hoje, muito melhores do que eram em 2011.

Em conversas esparsas com conhecidos e leitores, os que ainda usam tablets costumam desempenhar atividades simples com eles, que independem de apps elaborados. Ler, assistir a vídeos, navegar na web. O que era dito em tom jocoso quando o tablet surgiu, de que se tratava de um smartphone esticado, parece o caso para essas pessoas. O meu, por exemplo, só é usado para ler — a tela levemente maior faz diferença na leitura de textos mais extensos. Funciona bem, mas é pouco perto do potencial prometido pelo tablet.

Quem compra tablets atualmente

O mercado também dá pistas de qual será o destino dos tablets. A Asus anunciou (paywall) uma redução drástica no segmento de tablets. Cerca de mil funcionários serão remanejados para outras áreas (smartphones, realidade virtual) e a produção de tablets será concentrada em modelos mais caros, com margem de lucro maior. Essa redução da operação se explica pelos números: em 2013, a empresa taiwanesa vendeu 12,1 milhões de tablets; ano passado, apenas 3,3 milhões. Apple e Microsoft, com seu Surface Pro, adotam a mesma estratégia.

Na outra ponta, a dos tablets baratinhos, está boa parte do crescimento do setor. Segundo a IDC, Amazon e Huawei tiveram um crescimento expressivo (98,8% e 49,9%) nas vendas ano passado. A Amazon vende tablets quase a preço de custo nos EUA; a Huawei, modelos com conectividade móvel especialmente na Ásia. Ryan Reith, vice-presidente da IDC, diz que há espaço para crescer em mercados como o Oriente Médio, África e no centro e leste europeu, mas com dispositivos simples e de baixo custo, o que implica em baixa lucratividade.

Tablets à venda no Brasil.

No Brasil, uma visita às lojas de departamento serve de termômetro para essa situação. Há uma infinidade de modelos baratos produzidos por marcas locais, um ou outro tablet intermediário da Samsung e, no topo, iPad e mais Samsung. Nas ruas e nos restaurantes, qualquer um fica com a impressão de que tablets viraram um ótimo brinquedo para crianças — mais barato que um smartphone e mais adequado para os olhinhos curiosos e dedos desengonçados de gente que acabou de sair das fraldas.

Apple e Samsung ainda lucram com tablets e não há indicativos de que elas cessarão a produção. A Apple, em especial, vem experimentando fortemente com o iPad há dois anos, um reflexo na queda das vendas. O que chama a atenção, nesses casos, é a queda no interesse e no papel do tablet na sociedade, algo de que se desconfiava há três anos, quando os primeiros sinais de desaceleração apareceram, e que, agora, parecem estar se consolidando.

Steve Jobs apresenta o iPad ao mundo.

Quando Steve Jobs apresentou o iPad, colocou-o entre o smartphone e o notebook. Era, segundo ele, o elo perdido, algo muito melhor que o netbook, que na época dava seus últimos suspiros e por algum tempo foi tido como esse dispositivo intermediário. A grande ironia é que, passada a euforia inicial, o tablet corre o risco de acabar como o netbook: algo que pareceu uma grande ideia à primeira vista, mas que, no fim, acabou sendo apenas uma rápida escapada do percurso. Talvez não haja espaço algum entre o smartphone e o notebook, afinal.

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