O celular da Microsoft e a única pergunta possível — por quê?

Mulher segurando um Surface Duo com uma mão.

Em julho de 2017, a Microsoft jogou a toalha no mercado de celulares. Foi o desfecho melancólico de uma longa história, que precedeu às de iPhone e Android, mas na qual a empresa jamais conseguiu qualquer fatia significativa da popularidade ou da receita que Apple, Google e Samsung ainda extraem da telefonia móvel. Só que aquele fim, sabemos agora, era temporário: nesta quarta-feira (2), a Microsoft voltou ao jogo com o Surface Duo, curioso celular dobrável com duas telas de 5,6 polegadas cada (e fixas; as telas em si não dobram) anunciado em um evento cheio de notebooks e tablets em Nova York.

Mesmo antes de abandonar o mercado de celulares, havia rumores de que a Microsoft trabalhava em um “Surface Phone”, um super celular que emprestaria o prestígio da marca dos computadores da casa, lançada em 2012, e que de alguma forma a colocaria de volta no jogo. Sempre pareceu um devaneio de entusiastas, mas para a incredulidade de muitos ele se materializou. Mas daí a colocar a tornar a Microsoft relevante em celulares são outros quinhentos.

Na realidade, pouco se sabe do Surface Duo. Ele será lançado apenas no final de 2020, junto com o Surface Neo, tablet que é praticamente uma versão maior (duas telas de 9″ cada) do Duo, mas rodando o novo Windows 10X, variante do sistema feita exclusivamente para dispositivos com duas telas. Chama a atenção a aposta tão alta da Microsoft em um formato que, à primeira vista, oferece barreiras consideráveis de usabilidade e virtualmente zero vantagens em relação aos de uma tela só. Convenhamos: um dispositivo que exige as duas mãos para ser aberto em rigorosamente toda e qualquer operação soa como a um retrocesso.


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Em entrevista à revista Wired, Panos Panay, diretor de produtos da Microsoft e maior entusiasta da linha Surface dentro da empresa, enfatizou que o Surface Duo não é um telefone. Não importa que ele faça ligações e essa ação seja o destaque do vídeo promocional do produto, nem que rode Android. A estratégia da Microsoft é posicioná-lo como uma nova categoria de produto que, coincidentemente, também funciona como um celular. (Mas, na real, é só um celular mesmo.)

Ah sim, ele roda Android — demorou, mas a Microsoft lançou um dispositivo com coração Linux, o nêmesis do Windows nos anos 1990 e 2000. E Android do Google, com todos os apps, serviços e vigilância pesada que ele carrega consigo. Apesar da situação inusitada, é o mais lógico a se fazer. Loucura seria lançar um sistema operacional próprio a essa altura do campeonato, ainda mais com um fracasso (Windows Phone) na bagagem de tempos mais propícios para o surgimento de um terceiro ecossistema móvel.

Detalhe das telas do Surface Duo abertas, exibindo o Outlook e a tela inicial do Android.
Surface Duo aberto. Foto: Microsoft/Divulgação.

Satya Nadella, CEO da Microsoft, parece tranquilo com este cenário em que a Microsoft, sinônimo de software, depende do software de outra empresa para um produto seu funcionar. À Wired, ele disse: “O sistema operacional deixou de ser a camada mais importante para nós. O mais importante é o modelo de app e a experiência”. Desde que assumiu o cargo, em 2014, Nadella tem transformado a Microsoft em uma empresa mais colaborativa com terceiros que, nos tempos de Gates e Ballmer, eram/seriam encarados como inimigos mortais. Linux roda na nuvem Azure, apps do Office são sucessos enormes no Android e iOS, o Windows 10 conversa intimamente com o Android e os celulares topos de linha da Samsung saem de fábrica com diversos apps da Microsoft.

O Surface Duo não tem câmera para fora. Panay disse que isso pode mudar até o lançamento da versão final. É provável, desejável até, que outras coisas mudem também porque, no formato atual, o Surface Duo carece de qualquer boa justificativa para existir.

O que mais?

Panos Panay segura o Surface Duo e o Surface Neo no palco do evento da Microsoft, com o logo da empresa grande atrás.
Panos Panay com Surface Duo e Surface Neo. Foto: Microsoft/Divulgação.

O Surface Neo (vídeo), que ainda conta com um teclado físico acoplado magneticamente e, a exemplo do Duo, canetinha stylus, também só chega ao mercado no final de 2020. Alguns especulam que ele e o Surface Duo são “balões de ensaio”, divulgados com tanta antecedência pela Microsoft para observar a reação do mercado. Acho, porém, que Panay realmente acredita que esses aparelhos dobráveis com duas telas farão algum barulho.

A Microsoft anunciou novas versões dos seus computadores. O Surface Pro 7 é quase indistinguível da versão anterior, mas traz uma porta USB-C e novos chips da Intel. Já o Surface Pro X inaugura um novo chassi, com bordas da tela finíssimas e, mais importante, um chip ARM, desenvolvido pela Qualcomm em parceria com a Microsoft.

Some ao Pro X os Surface Laptop 3 com chips AMD, e se teve alguém que ficou com um gosto amargo com os anúncios desta quarta foi a Intel. Horas antes do evento, a Intel revelou uma nova geração de chips de alto desempenho para computadores de mesa com preços ~50% menores que os da geração anterior, reflexo do acirramento da disputa com a AMD.

No momento mais Microsoft clássica do evento, a empresa mostrou os Surface Buds, fones de ouvido sem fios de US$ 249 (+50% mais caros que os AirPods da Apple) que têm como diferencial a integração com apps do Office (?), incluindo a capacidade de passar slides no PowerPoint com leves toques. É um roteiro pronto para um episódio de The Office.

A linha Surface demorou para começar a dar lucro à Microsoft. Mesmo hoje, é praticamente uma gota d’água nos balanços da empresa: no último divulgado, referente ao quarto trimestre fiscal de 2019 (encerrado em 30 de junho), a receita gerada pelos computadores foi de US$ 1,35 bilhão, ou 3,95% do total de US$ 34,1 bilhões.

Como dissemos no último Guia Prático, a Microsoft nunca lançou um produto da linha Surface no Brasil e nenhum sinal de que essa “tradição” mudará foi dado.

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14 comentários

  1. Ia comentar como foi um acerto a Microsoft ter optado pelo Android, mas como todos ja sabem do historico, vou resumir_

    Queria muito, tanto o Surface como o Surface Duo e o alargador, digo, fones de ouvido…

  2. Só uma correção: não dá pra chamar o Android de um sistemas com “coração Linux” porque ele não mantém quase nada do Linux ou da filosofia SL/CA ou das diretrizes da FSF.

    Seria como dizer que o macOS é um Unix (ou MACH ou BSD) ou tem coração Unix porque, lá atrás, o Steve Jobs usou o NextStep (que ele tinha criado pra Next) como base pra reformulação pro OS X.

    De resto, apesar de achar o telefone bem bonito e elegante (melhor do Fold), o timing da MS pra isso é horrível e não deve sequer ser um vírgula na história dos telefones.

  3. Vejo com bons olhos a Microsoft não ter desistido de um celular. Faz tempo que muita gente reclama que a Apple nunca tenta nada realmente diferente nos celulares. Por não ter tanto a perder nesse mercado, a Microsoft pode se dar ao luxo de tentar algo e quem sabe acertar!

    Por mais que o produto não seja um sucesso de vendas, ele pode ter sim um apelo grande no mundo corporativo e ditar algumas tendências para outros fabricantes.

    Eu diria “O celular da Microsoft e a única pergunta possível — por quê não?

    Talvez esse formato escolhido será mais durável que os Galaxy Fold da vida. E eles ainda têm um ano para entender a recepção do público e fazer os ajustes necessários.

  4. Ahh finalmente alguem com bom senso… pra não dizer ceticismo.
    Essas propagandas da Microsoft são uma beleza né…., como o colega falou, são uma vitrine para outros serviços.
    Só que na pratica um usuario comum não usa o aparelho dessa maneira e não vai pagar o preço pra isso.
    Aquele Surface Hub 2s também é algo pra resolver um problema que não existe. Um projetor já é algo amplamente comum para apresentações por uma fração infima do preço.

    Mas se eu falar isso em outros lugares serei taxado de ignorante, hater e talvez até ‘comunista’ já que está na moda….

  5. Pelo histórico, a proposta do Surface é justamente propor novos conceitos, acredito que o único produto que não propôs um form-factor novo foi o Surface Laptop. Acredito que o mais bem sucedidos deles seja o Surface Pro, os demais eu realmente não sei como foi aceitação…mas certamente não viraram tendência de mercado.

    É interessante que nessa proposta, a Microsoft gera grande repercussão e os louros dos geeks por oferecer inovação “de verdade” e produtos excitantes enquanto a Apple vem sendo criticada por apenas incrementar seus aparelhos sem grandes conceitos novos.

    Acho que essa demanda da cobertura tech e dos geeks por “inovações de verdade” sempre foi comum e compreensível, um produto diferente (mesmo que discutível) é muito mais interessante para esse público do que uma câmera/processador melhor. Simbólico o vídeo do MKBHD sobre o iPhone 11, que deve ser um dos telefones mais populares do mundo, em que ele simplesmente comenta que não tem muito o que falar sobre.

    Entretanto, depois do Galaxy Fold, pessoalmente acho que essa perspectiva passou do ponto: era um produto sem o mínimo de testes, lançado para ser “o primeiro”. E depois do fiasco, senti um clima dos YouTubers gringos considerando uma “pena” e que ela errou por estar tentando…e até um to de crítica às pessoas que estavam “torcendo contra” que questionavam o lançamento.

    Na minha cabeça, foi uma falta de respeito tremenda com consumidores em troca de ser precursora. Para efeitos de comparação, os próprios Surfaces não saem com tantos problemas que não duram uma semana na mão de reviewers…porque tudo aquilo era claramente diagnosticável com o mínimo de uso e menos pressa em ser “inovadora”.

    O descolamento entre nós comentando e acompanhando tecnologia e o consumidor médio é esperado, mas acho que cada vez mais estão aplaudindo os produtos que mais jogam para “torcida” do que agregam algo ao usuário porque as coisas estão “chatas” da perspectiva geek.

  6. Usava um MacBook Air com Windows, o melhor dispositivo pro Windows até comprar um um Surface Pro 1 – imbatível .
    O Surface, e suas diversas interações da versão Pro (esquecer o RT) são o benchmark do segmento.
    Quanto à Microsoft e suas investidas em Smartphones, ela foi fortíssima com o windows mobile, sucedendo o PalmOs, graças à multi tarefa e o ambiente semelhante ao desktop.
    O grande problema da MS é abandonar boas ideias, como o Zune, Windows Mobile (e tentar com WinPhone), bem como softwares…

  7. “O celular da Microsoft e a única pergunta possível — por quê?”

    Porque a Microsoft precisa entrar nesse mercado. Ela tentou e continua tentando. Pode ser que dê certo, pode ser que não. Um anúncio assim com tanta antecedência da venda do produto só mostra que a Microsoft está querendo ver se cola…

    1. Concordo que é loucura uma empresa grande ficar de fora do mercado de telefonia móvel, mas discordo que ela precise entrar porque ela já está lá. Alguns apps da Microsoft têm centenas de milhões de usuários, somente para Android são +150 apps e me parece uma posição confortável, lucrativa e condizente com a missão da empresa.

  8. Sou obrigado a discordar do Palestrinha. A Microsoft sempre foi orientada mais a produtividade do que a experiência de usuário, e o Duo casa bem com essa filosofia. É a vitrine perfeita pra lucrar com hardware e os serviços integrados da MS.
    Eu sinceramente fiquei bem animado com ele e compraria um, em vez da aberração do Galaxy Fold.
    O conceito não é novo. A ZTE lançou o Axon M uns anos atrás, mas ele vinha defasado da caixa. Já o Duo vem com hardware de ponta, com qualidade Microsoft e Android de verdade, ao contrário daquele aborto do Nokia X.

    Mas o “One More Thing” da MS sem dúvida foi o Neo. Na hora que o teclado subiu pra tela, fui conferir o limite de todos os meus cartões pra fazer a compra. Espero de coração que esse conceito vingue e que essa seja a tão esperada inovação que o mercado de notebooks precisa.

    (Em tempo: Será que até o final de 2020 a Samsung arruma todas as falhas de projeto do Fold? Hehe)

    1. A Microsoft sempre foi orientada mais a produtividade do que a experiência de usuário

      A RIM (antiga BlackBerry) também era assim. E o próprio Ballmer riu do iPhone quando ele foi anunciado porque não conseguia ver o público corporativo trocando seus Palm com Windows Mobile por ele. Trocaram porque a experiência de usuário do iPhone era superior.

      UX e produtividade são como política e economia: até funcionam com relativa independência, mas o que acontece em um interfere diretamente no outro.

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