Substack e o nazismo

Em novembro de 2023, a revista The Atlantic denunciou a presença de newsletters explicitamente nazistas no Substack, algumas delas ofertando assinaturas pagas.

Isso significa que o Substack hospeda, promove e fatura com publicações nazistas.

Em 21 de dezembro, os três co-fundadores do Substack publicaram uma nota dizendo que não pretendem moderar tais newsletters, exceto quando elas incitarem violência física.

Para Chris Best, Hamish McKenzie e Jairaj Sethi, banir, restringir a geração de receita ou mesmo não promover newsletters nazistas seria o mesmo que censurá-las, o que, na visão deles, só pioraria o problema.

“Submeter ideias à discussão aberta é a melhor maneira de tirar o poder de ideias ruins”, escreveram. Por essa lógica torta, faltou poder de persuasão aos seis milhões de judeus assassinados por nazistas no Holocausto.

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O Substack é contemplado pela Seção 230 do Communications Decency Act (CTA), lei estadunidense de 1996 que isenta plataformas digitais de responsabilidade pelo que seus usuários publicam. No Brasil, temos um dispositivo equivalente, o artigo 19 do Marco Civil da Internet, com algumas exceções.

Por esse entendimento, empresas de tecnologia só ficam obrigadas a limitar ou remover conteúdo ilícito sob ordem judicial. Apologia ao nazismo é crime no Brasil. Nos Estados Unidos, onde o Substack está sediado, não.

Meta, TikTok, o Twitter das antigas e outras plataformas moderam conteúdo ilícito ou questionável por conta própria, antes de ordens judiciais, por dois motivos: percepção pública e dinheiro.

A maioria das pessoas e governos mundo afora não curtem dividir espaço com nazistas declarados, racistas e outros tipos ruins. Do outro lado, empresas não querem ter seus anúncios veiculados ao lado de conteúdos reprováveis, cenário que coloca em risco suas marcas e faturamento.

Pelo seu modelo de negócio, o Substack só precisa se preocupar com o primeiro grupo — ou nem isso, como se nota.

A startup não depende de publicidade, ou seja, de outras empresas, para faturar. Ela só faz dinheiro quando pessoas inscritas nas newsletters que usam o serviço tornam-se assinantes pagantes. Pela intermediação, fica com 10% da receita bruta.

Ainda assim, as diretrizes de conteúdo do Substack proíbem a incitação à violência.

“O comportamento ofensivo [proibido] inclui ameaças críveis à integridade física de pessoas com base em sua raça, etnia, nacionalidade, religião, sexo, identidade de gênero, orientação sexual, idade, deficiência ou condição médica”, diz o texto.

Para os co-fundadores do Substack, porém, violência não é um valor inerente à ideologia nazista, e essa é menos perigosa que a pornografia, outro tipo de conteúdo proibido pelas diretrizes e que, ao contrário do nazismo, é banido sem cerimônia.

No passado, o Substack usou o argumento de que é infraestrutura para não moderar conteúdo. Para usar o exemplo de Casey Newton, jornalista de tecnologia e dono de uma das newsletters mais proeminentes do Substack, a startup seria o que a Microsoft é em relação ao Word: ninguém a culpa ou exige medidas da Microsoft quando alguém escreve um manifesto nazista no Word.

Hoje, esse argumento não se sustenta. No momento em que o Substack passa a promover newsletters e lança um clone do Twitter com feed baseado em um algoritmo de recomendação, o serviço muda de figura. Deixa de ser infraestrutura, passa a ser plataforma. E, com isso, atrai para si a necessidade de moderar conteúdo.

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Não é surpresa que algumas pessoas que apostaram no Substack estejam desconfortáveis com a situação. Que não é nova, vale lembrar. Em abril de 2023, Chris Best, co-fundador e CEO do Substack, disse em um podcast que o serviço aceita publicações racistas.

Mais de 240 pessoas que usam o Substack, muitas delas famosas, assinaram uma carta aberta aos fundadores do Substack pedindo que reconsiderem a posição em relação às newsletters nazistas.

Casey Newton tem se reunido com a direção da startup e já avisou que, se nada mudar, deixará o Substack.

Existem outros serviços de disparo de newsletters, ou seja, não há nada que impeça alguém de sair do Substack. Para quem está estabelecido e tem muitos inscritos, é um caminho válido. Para o resto de nós, é complicado.

Se a sua newsletter hospedada no Substack é gratuita, se não oferece assinaturas pagas, o serviço é, também, gratuito e sem limitações.

Nenhum concorrente consegue oferecer tais condições porque elas são insustentáveis. Só funcionam lá por causa de infusões de capital de risco e um financiamento coletivo em 2023. Até quando, ninguém sabe. Desconfio que, no momento em que só sobrarem eles usando o Substack, os nazistas que os co-fundadores protegem não conseguirão pagar a conta, pois poucos.

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22 comentários

  1. boa reflexão, o texto terminou certo? Ou cortou um pedaço?

  2. O que os americanos entendem como liberdade de expressão me assusta. Às vezes, também é conveniente.

  3. Tudo isso é propaganda para a PL das fakenews (PL da censura)

  4. Eu estou só precisando encontrar tempo para escrever a todas a newsletters que assino no Substack, avisá-los que estarei cancelando devido este posicionamento dos co-fundadores da plataforma. Citarei alternativas como Wordpress, Ghost e buttondown.email. Eu acredito que é o que temos que fazer quando não concordamos com tais plataformas, simplesmente não usar e infromar aqueles que usam que por fazer, podem estar sendo prejudicados. (este caso perdendo um assinante)

    1. É uma boa medida. Já que falta a regulamentação o boicote nesse molde que falou, de instruir o produtor de conteudo é bem válido.

  5. Isso é o capitalismo em essência, basicamente. Sendo mais direto, é o liberalismo/libertarianismo. A ideia de que não se pode, apenas, incitar violência física cabe muito bem no pacto e não-agressão dos libertários austríacos, por exemplo.

    Para Chris Best, Hamish McKenzie e Jairaj Sethi, banir, restringir a geração de receita ou mesmo não promover newsletters nazistas seria o mesmo que censurá-las, o que, na visão deles, só pioraria o problema.

    Essa parte exige uma discussão mais profunda. A ideia de que banir esse pessoal vai ser efetiva já se mostrou pouco efetiva. Eles acham plataformas, chans, fóruns (deep e surface web) para se reunir e disseminar as suas ideias. Banir por banir é apenas modificar o lugar onde eles vão colocar o caixote pra berrar pros seguidores.

    A sociedade está num ponto de tensão. Racismo, nazismo, eugenia, liberalismo, austeridade … quase tudo está nos movendo, rapidamente, para um conflito armado de proporções, senão mundiais, grandes. Esse tipo de ação, de banir e esconder, não vai ser suficiente.

    Agora, eu tenho a solução? Não tenho.

    1. Concordo que banir não resolve o problema, mas não banir é dar palanque pra essa gente, o que é pior ainda

    2. Qual a percepção que as pessoas têm do 4Chan? É boa? Ou ninho da comunidade racista/nazista/misógina/transfóbica? Tem gente boa lá? Não sei.

      Banir é importante, sim. Mostra que a plataforma/empresa/jornal/revista/site não compactua com nada disso. Se não fosse assim, Farid Germano ainda estava imitando macacos na TV a cada vez que falasse de um jogador preto. E não é censura, já que quem escreve tem outros meios de publicar suas sandices em qualquer outro lugar.

      Acho que, na hora de pedir dinheiro e reter clientes, isso conta.

      1. @Julia e @JoaoM

        Qual é a efetividade desse tipo de banimento? Diminui a capilaridade desses movimentos?

        Eu acredito que não. Não quero fazer parte da mesma plataforma que mantém essas pessoas, mas não creio que o banimento sirva para algo mais do que algum tipo de peneira tapando o sol. Algo como “não é mais meu problema”, ainda que o problema está lá desde sempre.

        Acho que estamos discutindo como deter um movimento crescente que se alimenta exatamente desse sentimento de “outsider” e de perseguidos. No final do dia, um banimento, por mais que limpe a plataforma, serve como engajamento para essas pessoas e, extrapolando, dando mais visibilidade para eles para fora das pessoas que já estão do lado dele.

        1. Eu vejo que diminui sim. Por exemplo, limita o uso de ferramentas fáceis de mexer para publicar e receber dinheiro.

          Eles podem procurar outras ferramentas para isso? Sim, mas provavelmente elas não serão tão simples e acessíveis. O nível de dificuldade para disseminar o conteúdo importa. Se chans e associados fossem realmente bons, essa galera não sairia de lá. Eles buscam outras formas justamente para ganhar escala e facilidade de uso.

          1. Uma coisa é você publicar no Facebook conteúdos de ódio, por exemplo; outra, usar sites bem menos conhecidos. Nazistas vão continuar a se reunir? Provavelmente, sim, mas alcançando menos pessoas.

        2. Não é dever do substack erradicar o mundo do nazismo, só estamos pedindo que ele cuide do próprio quintal

        3. Como se para um nazista? Fazendo suástica virar cata-vento.

          Qualquer coisa diferente disso serve para indicar que não se compactua com eles e isso é importante para que essa galera volta ao esgoto que tomou coragem de sair nos últimos anos.

          O problema é essa suposta dicotomia. Ela não existe ou se está de um lado ou de outro e a “cadela do fascismo está sempre no cio”, nosso trabalho é não deixar o cão do liberal chegar perto.

    3. Acho que nao permitir que esse trabalho seja monetizado já é uma medida básica.

  6. Toda vez que eu ouço e revejo a entrevista do Chris Best no Decoder eu fico aterrorizado. E isso aqui parece uma piada de muito mal gosto:

    “Submeter ideias à discussão aberta é a melhor maneira de tirar o poder de ideias ruins”, escreveram.