Não um puro remake, o novo RoboCop é moderno e humano


4/3/14 às 15h31

O novo RoboCop.
Foto: Sony Pictures/Reprodução.

Daquelas memórias da infância que permanecem vívidas não importa quantos anos se passem, uma das minhas é a do dia em que o vídeo cassete chegou em casa. Ou melhor, do dia em que fomos buscá-lo na loja. Na volta, eu e meu pai passamos em uma locadora para pegar o primeiro filme a ser visto sob demanda, na hora em que quiséssemos, sem intervalos comerciais.

A minha escolha foi RoboCop 2. Em meados da década de 1990 eu estava longe dos 18 anos mínimos de existência recomendados para ver o filme, mas quem se importava, certo? Esse descaso com a classificação etária até combinava, de uma maneira meio torta, com o universo fictício do filme, uma terra de ninguém um tanto ingênua.

Dos filmes em si, restou pouca coisa na minha cabeça. Apenas uns flashes e cenas mais marcantes não se foram com o tempo, como a remoção da máscara de Murphy e o ED-209 do primeiro, a droga que assolava Detroit na sequência e o traje de voo na conclusão da trilogia. As circunstâncias, que incluem o aluguel da fita e o fascínio que tinha pelo policial robótico, essas sim nunca desapareceram. Tinha RoboCop comigo, até pouco tempo atrás, como um filme muito legal.

Quando anunciaram o remake da franquia sob a direção de José Padilha, o interesse pela história de Alex Murphy voltou. Faltando uma semana para a estreia no Brasil do novo RoboCop, voltei no tempo e revi, com seguramente mais de uma década de intervalo desde a última sessão, os dois primeiros filmes da trilogia clássica, de 1987 e 1990. Para que você se situe sobre o que esperar dessa crítica, antecipo: não gosto do RoboCop de Paul Verhoeven e menos ainda de RoboCop 2.

Em 1987, Verhoeven fez um filme com as suas assinaturas: programas de TV sensacionalistas apresentavam o estado caótico de Detroit, propagandas fictícias tiravam sarro do consumismo exacerbado da sociedade americana e a censura de 18 anos dava margem para mutilações e cenas gore que beiravam o caricato. A tecnologia, real e cinematográfica, dataram o filme de maneira ostensiva, ainda que haja muito de técnica ali merecedora de reconhecimento até hoje, como o stop motion, usado nas cenas do ED-209, compensando a falta de computação gráfica. Apesar de pouco ambicioso, pelo que li e ouvi o primeiro RoboCop foi um filme marcante por apresentar um futuro distópico fantasioso e excitante.

Em 2014, RoboCop deixa de ser um sci-fi puro. Como alguém já disse, o emprego da robótica passou, em menos de 30 anos, de um descompromissado “e se…” para algo inevitável a médio ou mesmo curto prazo. Drones já patrulham os céus, câmeras de vigilância registram a vida nas grandes cidades. Neste remake, Padilha atualizou a história, mudou o tom e conseguiu fazer, se não um filmaço, pelo menos um bem diferente (e melhor!) que aquele que o inspirou.

Um mocinho, vários vilões

É fácil falar de um remake contrapondo-o seguidamente ao filme que lhe deu origem. Note que fiz isso um bocado, mas até por respeito ao novo diminuirei as comparações daqui em diante. Não é preciso recorrer a esse subterfúgio para comentá-lo.

O grande acerto do novo filme, aliás, é não se comparar com o clássico de 1987, não tentar replicar o tom escrachado, muito menos manter vivas algumas convenções talvez tidas como sagradas por fãs mais comprometidos. É um filme realmente novo, que apenas se aproveita das linhas gerais daquela história de um policial destruído que renasce como um ciborgue — e de algumas leves e bem encaixadas referências .

A gênese desse RoboCop é fruto de uma mistura de lobby político, pressão da mídia (personificada por um Samuel L. Jackson que mais uma vez interpreta a si mesmo) e capitalismo em estado puro. Um plot mais complexo, bastante atual. Como tudo que é “bastante atual”, um que corre o risco de ficar datado, mas que por ora cumpre bem a função de justificar o retrocesso que é colocar um ser humano, ou o que restou dele, dentro de um robô. Talvez isso salve o filme de ficar preso a 2014.

No futuro de RoboCop, robôs que garantem a paz em locais conturbados são realidade. Eles estão no mundo inteiro e logo de cara são apresentados ao espectador em uma transmissão ao vivo direto de Teerã. Lá, os robôs grandalhões ED-209, os humanóides EM-208 e drones XT-908 fazem uma varredura nas ruas em busca de suspeitos. Eles funcionam bem, são casos de sucesso no exterior. (Para vê-los em detalhes, faça uma visita ao site bacana da OmniCorp.) Por que estão em todo lugar, menos nos EUA? É o que questiona o personagem de Jackson.

Os EUA não permitem a presença de robôs nas ruas e esse impedimento é como entulho entupindo um cano de onde pode jorrar muito dinheiro do governo americano para a OmniCorp, a multinacional que os fabricam. A saída encontrada para forçar sua entrada nesse mercado, reverter a opinião pública e mudar a legislação é dar a um robô a coisa mais humana que existe: uma consciência.

Murphy descobre que virou o RoboCop.
Foto: Sony Pictures/Reprodução.

Alex Murphy (Joel Kinnaman) mais uma vez está no lugar errado e na hora errada. Com o aval da esposa, Clara (Abbie Cornish), após quase morrer em um atentado ele se destaca na busca da OmniCorp pelo candidato perfeito para ser o RoboCop. Não o mais forte, nem o mais esperto, mas o mais equilibrado. Num ritmo tranquilo e compassado, a sua robotização, bem como os entraves que a consciência humana impõem a uma máquina de guerra e a difícil adaptação a essa nova vida dentro de uma armadura se desenvolvem bem.

Os dilemas morais da relação homem-máquina são explorados no relacionamento entre Murphy e sua família e no controle que a OmniCorp exerce sobre a (mais da) metade máquina do policial. Quando o fator humanidade atrapalha o desempenho das suas funções, Dr. Norton (Gary Oldman) e sua equipe fazem uns tweaks no cérebro dele para otimizar esse aspecto. Em último caso, o RoboCop pode ser desligado.

O filme é, antes de tudo, uma queda de braço entre a máquina e o homem, entre Murphy e a OmniCorp, e leva esse duelo ora sutil, ora escancarado até o ápice da história. Em segundo plano, questiona a terceirização da ordem para máquinas, o que poderia ser uma prequência de Matrix ou a base para discussões maiores. Essa subtrama, embora passe como um detalhe nesse filme, tem muito potencial. Sequências no horizonte? Espero que sim.

Um RoboCop moderno

RoboCop ainda com o traje prata.
Foto: Sony Pictures/Reprodução.

O RoboCop de 2014 é ágil: ele corre, pula, é bem flexível. Ele também carrega armas não letais, e embora isso pareça uma saída fácil para manter a classificação etária baixa (no Brasil, 14 anos), é uma abordagem que casa melhor com a ideia moderna de policiamento, de reagir na medida da ameaça apresentada. Não é nada próximo do sádico RoboCop de Verhoeven que atirava nos testículos alheios.

A inteligência artificial embarcada em Murphy atua paralelamente à sua consciência. Ela mapeia ambientes e elabora estratégias tão rápido quanto as executa. Murphy sempre sabe no que está se metendo e é interessante notar que em alguns momentos o seu lado humano se sobrepõe ao perigo e ele se lança em batalhas que reconhece perigosas, até mortais.

A conectividade está em alta, como estaria em uma versão real do RoboCop. Além do controle rigoroso que a OmniCorp exerce sobre a sua propriedade, Murphy tem na cabeça todos os bancos de dados gigantescos da polícia, acessa câmeras de vigilância em tempo real, é capaz de fazer associações e cruzar dados para solucionar crimes e localizar suspeitos.

Diferentemente do engessado RoboCop interpretado por Peter Weller no final da década de 1980, o novo é crível. O que se vê na tela, especialmente na desconfortável cena em que Murphy pós-Robocop é mostrado sem o maquinário que lhe transforma no policial do futuro, pode até ser questionado, mas dentro das premissas lançadas pelo roteiro, que se passa em 2028, as coisas se encaixam de maneira convincente. Sua inserção na sociedade também é mais viva. Se em 1987 ele parece uma entidade meio desconectada da polícia e da OCP, e ignorada pelo público, em 2014 ele é explorado pela propaganda do governo e da OmniCorp e é adorado pelos civis.

Esse RoboCop não é invencível. Logo no começo, Mattox (Jackie Earle Haley) deixa claro que sua carcaça não é páreo para munição calibre .50. Ainda assim, vemos um policial com capacidades sobre humanas, que ninguém consegue parar, munido com um senso de justiça que coloca em xeque o status quo e não faz distinção entre quem anda fora da linha. Ele é incorruptível, admirável. É fácil vibrar com um cara tão legal.

O crime tem um novo inimigo; o cinema, um ótimo filme

Murphy e Clara.
Foto: Sony Pictures/Reprodução.

O elenco de RoboCop é recheado de caras conhecidas e de atuações bacanas, especialmente Michael Keaton como Sellars, uma espécie de Steve Jobs em um universo alternativo, no comando da OmniCorp. A produção é bacana e se o futuro de 2028 tiver aquelas interfaces e dispositivos maneiros, será um ano interessante para se viver. Eles são um show à parte.

O novo RoboCop não compartilha muito com a trilogia original. Até a música-tema, indefectível, é tocada uma ou duas vezes, e se destaca quando o título do longa surge na tela — ou seja, mais como uma homenagem/referência. Não foi preciso recorrer ao passado para se fazer um filme legal.

Com cenas de ação muito bem feitas, e sem deixar de lado questões mais urgentes (e complexas), eu pagaria bem mais que um dólar pelo RoboCop de 2014.

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